Nas Linhas com Cistina Brandão Lavender

dizem que sou triste

dizem que sou triste (1)
dizem
a tristeza
coluna vertebral humana
estado inicial para qualquer lucidez
é ela
que nos tira desta pequenez
mesmo sem nunca a podermos vencer
guia dos passos para Ítaca
apuro dos ouvidos aos sussurros dos deuses
respostas escondidas a orações perdidas
procuras essas que te empurram
em marchas de inquietude
de seguida
vibras
projetas
encontras
finalmente
ou não
uma alegria
dizem que sou triste
dizem

1 verso de Henrique Levy,Noivos do Mar, Editora Labirinto)

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Vinco da página

Tenho um problema que não sei quem tem. Tenho marcadores de livros, muitos, e geralmente um em cada livro. Uso-os, até me socorro de outros, como tickets de estacionamento, recibos multibanco, folhas já usadas com escritos, listas que já não uso ou de que me sirvo para o dia, e outros, muitos outros, lápis, até ganchos do cabelo. Mas há sempre aquela vez em que tenho que marcar o livro o não tenho nada, o pânico instala-se e lá decoro o número da página em que estou, a juntar ao cuidado de ficar num novo parágrafo, secção ou capítulo, para mais fácil o reencontrar e recomeçar. Tudo, tudo, tudo menos magoar o livro com a dobra na canto superior direito ou esquerdo. Este gesto de marcar com um vinco aquele ser que carrega as palavras que me levam, me transformam, me deliciam é uma dor, uma afronta, uma cicatriz que não quero impor, uma falta de respeito que não quero cometer. E quando finalmente o faço porque tem que ser, não me perguntem por quê, mas acontece, o livro fica magoado e mais meu ainda do que era. Mas que sentimento é este que não me deixa pensar que é só um livro?Tenho um problema que não sei quem tem. Tenho marcadores de livros, muitos, e geralmente um em cada livro. Uso-os, até me socorro de outros, como tickets de estacionamento, recibos multibanco, folhas já usadas com escritos, listas que já não uso ou de que me sirvo para o dia, e outros, muitos outros, lápis, até ganchos do cabelo. Mas há sempre aquela vez em que tenho que... read more

amigo do peito

Dois amigos de infância. Dois. Apenas dois. Agora temos outros, também do peito, também da pele, que ocupam esse lugar especial, um cantinho único no nosso coração e que, estando ligado ao cérebro por centros nervosos intocados, se mantêm ali para que nos possamos deitar, enroscar, um quase ronronar de gato, buscar delícias e carregar a ternura essencial do existir juntos. Naquele tempo não havia Jardim de Infância, havia infâncias e havia jardins, o resto, que era tudo, eram tempos preenchidos e reinventados ao sabor da nossa imaginação. Oh, como era tanto. E é esse tempo, esse espaço, esse cantinho mágico, cheio de luz e silêncio, o local especial onde vamos buscar o amigo que nunca nos... read more

treze milhões de libras

Foi de treze milhões de libras o custo para a entrada no inferno na Torre de Grenfell. Este Dante povoou os nossos piores pesadelos durante dois dias e, por muito que o tentemos, torna-se impossível imaginar o desespero dos que ficaram aprisionados dentro daquele braseiro, ao ponto de atirarem aos céus os seus filhos e a si mesmos para não sentirem o horror de uma morte por queimaduras e ou asfixia. Os que se salvaram devem a sua vida aos Homens (sim com H maiúsculo) que, numa atitude solidária, não se preocuparam apenas em salvar a sua pele, e os avisaram acordando-os do seu sono inocente, sem esquecer os bombeiros que, também em completa agonia, os tentavam resgatar, quando viam que os sistemas de segurança do edifício se revelaram completamente inexistentes e ineficazes. Desconhecemos quantos ficaram aprisionados no horror das chamas, mas sabemos que um acto criminoso da pior espécie estará por detrás da tragédia daquela habitação social, já que no verão passado foram gastos treze milhões de libras, repito, treze milhões de libras, na renovação do edifício e, ao que se pressupõe, para melhorar as condições de habitabilidade do enorme edifício e dos seus habitantes, que se mostrou  um horrível monstro a devorar vidas humanas e, quem sabe, a vida de animais domésticos. Facturar materiais de qualidade e fornecer os de pior espécie é, com toda a certeza, um acto hediondo que esperamos ver punido com toda a severidade. Mesmo depois desta catarse de escrita não consigo segurar a revolta que me consome e, só não escrevo por vergonha e contenção, o que os piores instintos me aconselham... read more

detalhes do paraíso

(…) Somos (plural) povo de África, o “eles” são um “nós”, “um nós humano” que está ainda à espera de um pedido de perdão, público, geral e individual, dirigido a cada um dos países, por parte das nações esclavagistas e dirigido aos povos explorados, pelas sevícias por eles infligidas, pelas grilhetas colocadas, pelas humilhações físicas, psicológicas e culturais impostas, torturas sofridas ao longo de gerações e gerações, pelo assassínio de milhões de irmãos africanos, por um completo desrespeito individual e colectivo ao longo de séculos e de que ainda podemos ver resquícios no tempo presente. (…)

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Viagem de 1877

Peço detalhes do Paraíso E da raça humana que é única, A resposta vem no vento morno Montada na estrela do norte Mostra-nos, Musa de Neptuno, Onde descansar a cabeça.   Chegam luzes e sombras de um povo Paleta de aguarelas do mar, Onde aportaram caravelas Levando novas de Portugal.   No porão vão gentes acorrentadas Expostas como carnes a comprar Grilhetas de ferro, aos pés, Que não prendem os pensamentos Nem nunca os poderão amarrar.   E ouvem-se cantos que nascem Para esquecer os braçados, Ao som de tambores ritmados Fazem coro, os pássaros da ilha, Dançam e expelem diabos A fim de enterrar mais um dia.   E que as trevas se cerrem de vez numa caverna de negro basalto, Porque alma que geme e que chora Desperta e grita bem alto A liberdade de Ser. CRISTINA BRANDÃO... read more

neste tempo que tempos vivemos

Neste tempo que se arrasta connosco há demasiado tempo de gentes cansadas que preenchem os tempos vazios (mas cheios de ódio e de maldade) apenas com suspiros de alívio por escapar: à justiça que não se faz, às bombas que não nos estraçalham, às balsas que se afundam sem nossos corpos, às mulheres que sempre se espezinharam, aos de pele diferente que sempre desprezamos, aos que clamam preces a um Deus que negamos, aos ricos que sempre roubaram, aos pobres que sempre se escravizaram, aos gritos dos que ignoramos, às lágrimas que não limpamos, aos doentes que não tratamos, às crianças que não ensinamos, aos jovens que não compreendemos, às mentiras em que nos escondemos, às verdades que ignoramos. Como esperar por tanto tempo o início da coragem que se vence por dentro e de dentro para fora, e não só aceitar, como também apoiar, trumps, pens, temers, maduros e outros que proliferam neste tempo presente? E, enquanto não chega outra vontade, não quero uma alma que sossegue com crueldade e sem juízo. Há dias em que o que o mais quero é uma alma... read more

não se procura nem se encontra

O amor é tão importante que não tem datas: tem dias. Todos. Porque o amor não se constrói, não se procura nem se encontra, não se cultiva nem se colhe, o amor está, o amor é, o amor tanto aparece como se desvanece, o amor é um estado etéreo permanente e quando raramente se sente, sabemos e ponto final.

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Braga é outra, e a mesma coisa

Braga é outra, e a mesma coisa. Braga é aquela cidade que me acolheu enquanto a outra, onde nasci, me abandonou, por não conseguir mais dar de comer aos seus filhos, arrancando as grilhetas do sofrimento da humilhação. Braga é a cidade onde conheci o Inverno e pensei morrer de tanto frio por tão quente ser o dia-a-dia na ilha verde que é também do meu coração. Braga é a cidade onde as Tílias exalam um perfume tão doce que me faz ir à Avenida Central só para as namorar, mas onde as árvores ainda são decepadas para fazer nascer outras de cimento armado. Braga é uma velha cidade romana a transformar-se numa cidade da Europa, empurrando, de barriga cheia, para o lixo, a história que a encerra, à espera de abrir o livro onde escreva a sua identidade para a deixar ficar num registo vivo. Braga é a cidade onde “bou” e “bento” tem este som espectacular e em que os amigos se encontram nos cafés, pelas esquinas da arcada e da brasileira, pelos bancos dos jardins da cidade e da avenida, só porque sim, ou para falar de futebol e de política. Braga é a cidade que se aninha aos pés do Bom Jesus e da Nossa Senhora do Sameiro em penitência pelos nossos defeitos, que são muitos, enquanto reza o terço pelos pecados ainda a cometer. Braga é a cidade com mais igrejas do país, e ao olharmos para o horizonte distante vemos todas a cruzes que arranham os céus como agulhas de coser. Braga é assim das poucas cidades que ainda tem as portas dos... read more

Bebé Angola

Cerram-lhes portas à ajuda E pariu a mãe, na poeira da rua, No primeiro choro deste bebé Angola Sai um grito de guerra ao roubo de um povo E a luta é nossa, mas primeiro é tua.... read more

liberdade

Atiraram-nos a liberdade à cara No campo, no mar e na cidade Liberdade, liberdade, liberdade Gritaram gargantas Liberdade, liberdade, liberdade Cantaram os lábios Liberdade, liberdade, liberdade Choraram olhos castanhos Em caminhos, praças, jardins Mas a liberdade não é chegada De tanto recuar tropeçou na rua Bateu com os cornos, toda nua e quase que morreu assim Levantaram-na com fractura de crânio Acordou do coma, hospitalizada Oi liberdade tens alta, irmã renegada Liberdade, liberdade, liberdade Mas não mais só na palavra Que nos atiraram à... read more

professor

O professor deve ser um fazedor do pensamento, no sentido de construtor de ideias, de organizar debates de posições e, à partida, todas as ideias terão de ser válidas e inclusivas e as que forem descartadas, muito bem discutidas e fundamentadas. (…)

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praxes

A grande maioria de nós somos contra todo o tipo de abusos não consentidos, e contra as situações degradantes, humilhantes e perversas a que temos assisto, ao longo dos anos, na cerimónias da praxe, em que estudantes “mais velhos” usam de um poder tirânico sobre outros mais “novos” academicamente. Essa soberania pérfida e maquiavélica em que se priva alguém da sua dignidade, através da humilhação pública, tem que objectivo? Mesmo que as situações sejam “consentidas” qual é a mensagem de quem as decreta e de quem as sofre sobre a comunidade que assiste? Por que razão os estudantes se deixam humilhar daquela maneira? É tudo uma brincadeira? E quando deixa de o ser? A aceitação pelos pares terá mesmo de passar pela submissão a situações desumanas, as mesmas que combatemos, que quereremos que desapareçam da nossa sociedade? Que posição irão tomar estes jovens, perante a humilhação durante a sua vida futura? Não, não me convencem a aceitar este tipo de acolhimento aos caloiros. No entanto, isto não tem nada a ver com o ver alunos a banharem-se, a molharem-se, numa fonte da cidade. Isso é mesmo uma brincadeira, na qual, pessoalmente talvez não participasse, mas não é grave, Quem quer vai, quem não quer sai, ou nem entra sequer, o que é preciso é não perder a capacidade de ajuizar e decidir se a situação se coaduna, ou não, com os seus valores e dos que estão à sua... read more

Island of Mykonos in the Cyclades Archipelago

(…) Oh Zeus, king of all the gods, what are you waiting for? Send the news about us from here to the entire world. And you, Athena, give us the wisdom to be just, protect the Arts but take war and bury it, where it cannot be found any more, or better still incinerate it in case human curiosity could disinter it. Hades, take care of the innocents that suffered death, take them to the stars and those with ill will to the underworld, whose shadows still crackle among the embers, which are already burnt, and those yet to be burnt. My Good Hera, protect the women and children, all of them filling up the Aegean Sea with tears of injustices that entangle them and Powerful Poseidon make a calm pathway in this sea that they have crossed, as they need the quietness of these waters of humiliating war, and give them a safe arrival to the firm shores of any continent, so that you, Oh Demeter can enter and protect our harvest of good will, which is all that we can offer. Persephone, do not say good bye now, (…)

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ilha de Miconos, do arquipélago das Cíclades

(…) : Ó Zeus, rei de todos os deuses, de que esperais para dar, daqui, novas ao mundo inteiro, e Tu, Atena, dai-nos a sabedoria de ser justo, protegei as artes, mas levai a guerra, enterrai-a para onde não a possam mais encontrar, ou melhor incinerai-a que a curiosidade humana a poderia desencantar, Tomai, Hades, conta dos que se foram com a morte, para as estrelas ou para os subterrâneos da má vontade, e cujas sombras crepitam ainda neste carvão que já ardeu e no que ainda será, Protegei, Minha Boa Hera, mulheres e crianças, todas elas a encherem este Mar Egeu de lágrimas das injustiças que as enredam, e Poderoso Poseidon, abri uma vaga de calmia neste mar que atravessámos, precisamos da quietação destas águas de guerra dos humilhados, e fazei-os chegar seguros ao firme de qualquer continente, para que tu, Ó Deméter, entres, e protejas as nossas colheitas da boa vontade, que pouco mais (…)

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todos os dias

Todos os dias quero. Quero viver até não poder mais, Que seja por um momento, os tais impossíveis de esquecer, Quero ir a trabalhar, Quero ir a rir, a sorrir, a escrever Quero ouvir o silêncio de cada vácuo, Quero ser e estar num pleno, Quero dar forma ao pensamento, Num pedaço de barro, de granito, de pincel, de clave. Quero dizer que valeu o respiro, Cada segundo, Cada ápice, Cada asa de vento Que a ti, A nós, Deixou feliz. E se uma estátua construir, Que veja com olhos cegos, Que fale com lábios cerrados, Que abrace com braços apertados, Que ande com pernas de liberdade E que grite o poema da vontade. 14 de maio de... read more

quantos são os que

Quantos são os que lavaram as mãos
na grande merda que fizeram?
Luvas brancas, gravatas de risca fina,
fato azul marinho, missa ao domingo
ou sempre que a consciência pede ou o sono se perde,

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um novo abecedário de letras velhas que aqui quer viver

inda os atentados ao património de Braga.

Braga, 4 de Maio de 2012

um novo abecedário de letras velhas que aqui quer viver

As letras não são mais as mesmas, há todo um novo velho alfabeto por aí a reinar, com um acordo ortográfico firmado que já vem do passado e que por aqui se quer escrever. Não creio nele, nem numa letra sequer, por tão baralhadas estarem e, com elas, os conceitos também. Não fio nem um chavo, ao que por aí se vai dizendo, não nado nas letras deste mar calmo, do “não faças ondas”, tudo se vai arranjar, que bonito ficará, e o tanto que se fez, não olhes para o passado que o que lá vai, lá vai, e isto é o que vês. (…)

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o que querem que vejamos

Dizem que o espelho nos grita verdades, mas a maior parte dos tempos pode estar a contar-nos mentiras descaradas, daquelas de todo o tamanho, aquelas que querem que sejamos, aquelas que querem que vejamos. Gosto de escolher as verdades em que acredito, e, no dia seguinte, já não sou o que era ontem, e há dias em que não reconheço de todo quem ali é. Sim, discutir com ele, por muito estranho que pareça, acontece, e por muitas vezes. Grande aldrabão me saíste, cristal, cristalino. A menopausa, as rugas profundas e as sombras descaídas com que dás os bons dias não mostram hoje o que sou, como também não mostravas quem era quando tinha os catorze, os quinze ou, mais tarde, vinte, trinta ou quarenta, dizias tu, quando mais madura. Claro que é bom não perder a realidade de vista e pegar nos cacos, para que tudo comece a encaixar-se, a fazer sentido, mas naturalmente, não como tu queiras, cristal, cristalino, seu... read more

esses ou eles

Não sei se tristeza, se isso misturado com indignação, mas há algo de muito perverso quando se designam, todos os que são diferentes, por “esses”, ou “eles”. Acreditamos, mas também fazemos disso a nossa vida no quotidiano, numa igualdade total no ser humano, de género, raça ou credo. Acreditamos que só assim os conseguimos realmente conhecer e portanto, também, compreender. Não precisamos de comungar as mesmas crenças, nem os mesmos hábitos, nem dar as mesmas passadas, mas há respeito, há diálogo, tudo isto misturado, com alguma ternura. E como é bom. Com “esses” tais, ou com todos os “eles” diferentes, bem presentes em nossas vidas, temos ficado mais ricos com as suas diferentes abordagens. Gostamos quando vemos homens e mulheres, apenas como homens e mulheres. Passamos a ser com eles, a pertencer, a incluir, fazendo “amigos” de ocasião ou para toda a vida. São laços que nunca se perdem. No entanto, aqueles que os vêem como esses ou eles, são sempre os outros, mantêm uma distância que passa a ser tão grande como real, e cuja proximidade assusta, ameaça e incomoda. E quem trata o outro como inimigo passa a ter ali um inimigo. E “esses” ou “eles” não têm problema nenhum em os matar, em se matarem, porque não são da mesma espécie, passam, simplesmente, a inimigos para... read more

uma praceta de Braga

O centro da praceta do Largo de S. Martinho tornara-se o mundo. Sentira-se uno com ela, concentrando-se de dentro para fora, transmitindo um olhar orgulhoso, ora bem fundo em sim, ora em volta, olhos nos olhos, um a um, percorrendo o público que se ia aglomerando, em círculo, inspirando-o. Outras vezes, com a necessidade de sorver algo mais forte, olhava ao alto, onde parecia beber a força do poder de fazer o que tem a fazer, da razão do estar ali e do ser assim. O almoço equilibrava-se no pau retorcido e côncavo e o artista, todo entregue ao momento, segurava-o com firmeza, a dois terços do seu comprimento, palma para cima, músculos bem torneados, equilibrando, num lado, a cesta de vime vazia (imaterialidade da vida que abraçava) e, no outro, uma bola branca (o mundo que queria diferente). Bem ao limite, cabia-lhe evitar que se despenhasse, em cacos, por cima do espelho da mesquinhez, da avidez de quem dele se aproveita. O público já era muito, o poder da bola branca aumentava, o poder de alcançar o equilíbrio mais a adrenalina do momento estava ao rubro. Tinha nas mãos a magia do cajado de madeira, poder de há milénios desde que, segundo reza a história, se abriu, em dois, o mar Vermelho para o êxodo de um povo, com a esperança que acontecesse hoje o mesmo, para a fuga do povo Sírio. Urge evitar a queda do planeta em cada um de nós, mas, entretanto, o centro da praceta transformava-se num grande mundo. 6 de Abril de 2014 foto publicada com autorização de José... read more

42 anos, meu anjo

42 anos, meu anjo. Há 42 anos tirava o curso do magistério primário aqui em Braga, tinha uma motorizada sachs minor modificada branca e uma existência que bulia sem parar, sentia tudo muito muito, já escrevia também muito muito, fumava muito muito e muitos diziam que me drogava. Resmungava sem parar, distribuía panfletos revolucionários nas saídas das fábricas ainda com a tinha preta fresca a cheirar, e sorria sem parar, tinha um namorado, pois claro, de quem gostava muito muito, mas a tua chegada amor fez com que todo o muito muito ficasse com uma luz diferente, tudo muito muito mais claro amarelado e hoje, continua essa luz em nós. Amo-te.

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opinião e ironia

(…) Esta é a minha opinião, não precisa de ser dito, está aqui e é o que será. Camões, não sou alma gentil que partiu, fui, sim, ao mundo, desde que a mãe me pariu, mas alma de gentilezas não sou, e pronto, ponto final. Ao mundo me obrigaram a ir, ao mundo me obrigaram a estar, ao mundo me obrigaram a (des)sentir, e ao mundo me obrigaram a ficar, este mundo que tem agruras em multidões, vasta semeadura de podridões, há milénios de gerações, que se escravizam a uns senhores. Pergunto ao génio preso na ânfora, o que é que afinal ainda nos resta, mas ele não diz o que ao mundo espera, nem ao sítio aonde ele chega, mas segreda que a alma aonde vai, o mais certo é que cai, quando subjuga uma por outra. E, Camões, assim declaro que não poderei cantar os feitos deste mundo, dos desfeitos serei pois um, e então que me fique aqui na rede, rodeada de árvores e pardais, e fique neste silêncio escondida, porque o mundo se sorriu, queria chorar e se chorar, um esboço de sorriso pariu, o da troça e da ironia, o da sobranceria e desamor. (…)

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borboletas também são anjos-da-guarda

Sabes? quando procuro respostas quase impossíveis, quando os suspiros cortam o espaço com lâminas geladas, quando a ausência se transforma em páginas de silêncios demasiado longos, quando pedaços de tristeza se entranham no DNA do genoma humano, tu apareces, quase que chocas contra a minha face, e, numa energia universal única, escreves, varrendo no ar, um símbolo gestual de amor que só tu sabes fazer.

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o que gosto quando chegada da primavera

Gosto de ver as pessoas a trazer a si o tempo mais quente, procurarem o branco para se vestir e calçar, combinando com outras cores claras ou com o clássico azul marinho. Gosto. Para o meu corpo continuo com os pretos e algumas vezes, os cinzentos, não só por viver este tempo pascal de reflexão, mas porque é ele que combina com o ser que tenho, alimentando-o, aqui e ali, com esperanças de um colorido natural. Gosto. Gosto de silêncios prolongados acompanhados por brisas frescas que trazem o aroma do jasmim e da flor de laranjeira do nosso quintal. Gosto de ouvir Schubert, por vezes de olhos fechados, outras enquanto converso com os olhos dos gatos e dos cães que se estendem indolentes, à volta do meu preguiçar. Gosto.Gosto do que preguntam e, de dedo em punho a deslize pelo vidro, escrevo sem muito pensar. Gosto.

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preguiça

É quando deixamos que a preguiça se instale, tranquila, descansada, frágil, e nos envolva num abraço carinhoso, que ficamos mais atentos ao rodopiar dos eixos universais. E neste embalo do alerta que recebemos, por aparente incoerência, fazemos outros sentidos, uns novos, outros tão velhos como o homem.

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gula, ai que língua afiada nos deu o criador

(…) Claro é que estas linhas foram escritas após um desses momentos de saciável desvario no prazer gastronómico, e por isso, sem a intenção de magoar seja quem for, ficando a ressalva de que, de todos os animais, só temos visto o homem como sendo capaz de tal comportamento. Mea culpa, Mea culpa.

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uma Páscoa de livre sentir para todos vós

O sofrimento de Jesus é o sofrimento causado pelo homem ao homem. Jesus, ao sofrer a perseguição dos que se negam a compreender outras verdades que não as suas, diz que está ali, até ao fim, por elas morre, verdades que não nega porque é nelas que acredita. Jesus dá-se a uma entrega submissa e total aos que lhe querem mal, porque não lhe podem roubar convicções profundas. Jesus não aceita o poder daqueles que rejeitam, liminarmente, em julgamentos pré-decididos, uma vida de dádiva pelo amor. Jesus rejeita do poder de um condenar fácil, o poder da tirania dos que chamem a si sentenças de morte ou de vida e rejeita dar ao homem o poder de ter, em suas mãos, a frágil morte e a difícil arte de existir. Jesus zomba, no silêncio (…)

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adivinham-se tempos difíceis para os vendilhões do templo

adivinham-se tempos difíceis para os vendilhões do templo   A igreja entra, às claras e descaradamente, no negócio imobiliário. Até os consigo ver, todos alinhadinhos, sentados nos cadeirões do púlpito da Sé de Braga, de olhos fechados, com cifrões a chover, em cascata, nas pálpebras da sua santa visão, secundados pelos acólitos de Ricardo Rio, em quem “Deus votaria se à terra voltasse”, na primeira fila de honra de tão honrado templo, depois, é claro, de todos os seus pecados já confessados e perdoados, para a sagrada comunhão. Junte-se a isto do S.Geraldo, o arrendar do terreno das Oficinas de S. José, à Sonae, e podemos garantir um ano muito muito proveitoso para os cofres da Santa Madre Igreja, fundada por Jesus Cristo para tudo menos para isto, há cerca de dois mil anos. Mas a imaginação dos homens é mesmo muito fértil e sou dada a visões enquanto escrevo, por isso teletransportei-me para Jerusalém, com o telemóvel onde estou a escrever este texto, para ver claramente estes vendilhões do templo de Bracara Augusta, a serem expulsos pelo Nazareno. Adivinha-se um jejum pascal com muita azia,... read more

medonho

(…) A avaliar pelas horríveis cenas que não nos saem da cabeça, não foram ouvidas as preces que proferi a Neptuno para que poupasse crianças, velhos, mulheres e homens que, em autênticas cascas de noz carregadas de formigas, atravessaram o Mediterrâneo, para chegar aqui a bela Europa. No entanto, o cruzeiro ai está, e vai continuar a fazer as delícias a quem quer, e a quem pode.

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nem tudo o que parece, é

Nem tudo o que parece será, e nem tudo o que é realmente parece, mas o que é certo realmente, é que são sempre os inocentes que pagam. (relativo ao ataque no metro de S. PETERSBURG).

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falsa harmonia

(…) Todos, pertença de uma inquietude permanente, não somos donos do nosso destino, mas somos os senhores dos nossos caminhos, e o desassossego vive mesmo ali, ao cimo dos cumes da existência, no sótão das velharias deste mundo, que sempre procura uma doce e falsa harmonia que nos faça sorrir quando (e se) encontrada.

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como esteve o tempo por aqui, e mais umas entrelinhas

Olá, esteve um lindo dia e vão continuar assim, solarengos lindos e quentes os dias cá por Braga, de acordo com o Google.pt, portanto, desfrutem, cumpram o vosso jejum pascal e não se esqueçam das orações, que, como muito bem sabem, podem ou não ser ouvidas, conforme cheguem ou não ao destinatário. (…)

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inquietude

(…) Todos, pertença de uma inquietude permanente, não somos donos do nosso destino, mas somos os senhores dos nossos caminhos e o desassossego vive mesmo ali, ao cimo dos cumes da existência, no sótão das velharias deste mundo, que sempre procura uma doce e falsa harmonia que nos faça sorrir quando (e se) encontrada.

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irónica, sou hoje

(…) Não consegui disfarçar as rugas que no espelho parecem caminhos de cabras de lá pr’ós lados de Trás-os-Montes, talvez de Cetos, a aldeia mais bonita das nossas Beiras e vi que as banhas saíam pelo cinto fora como tudo o mais que sobra de carne e banha e que cai com a idade, o excesso de peso, e mais a força da gravidade que envolve o nosso planeta. (…)

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Camões, não sou alma gentil que partiu

(…) Camões, não sou alma gentil que partiu, fui, sim, ao mundo, desde que a mãe me pariu, mas alma de gentilezas não sou, e pronto, ponto final. Ao mundo me obrigaram a ir, ao mundo me obrigaram a estar, ao mundo me obrigaram a (des)sentir, e ao mundo me obrigaram a ficar, este mundo que tem agruras em multidões, vasta semeadura de podridões, há milénios de gerações, que se escravizam a uns senhores. (…)

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este mar que nos beija

(…) em lágrimas, vista turva, olhei o horizonte, enquanto a neblina avançava rente ao mar, engolindo-o à medida que se dirigia ao monte da praia Vitória, onde os portugueses chegaram no séc.xv, a ameaçar esconder, também hoje, ainda mais profundamente, as emoções gravadas a ferro e fogo num coração de mulher guerreira, nunca domada, enquanto (…)

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pintei tudo de azul

vem um vento frio cheio de almas de gente que carrega a guerra em sapatos poeirentos
são suspiros últimos de quem se entrega nas asas da morte que já veio

vem um vento frio que traz infernos a arder nos desertos
são a ignorância, são a espada que corta a razão e se alimenta de medo
(…)

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a rispidez do infinitivo

Quando acordo e discordo do que ouço, vejo com clareza que algo mais nos vai importunar, porque tens no olhar um rosto cansado. Nada te escondo. Quero que saibas como o mundo nos está a tramar e que ouço os mortos disputarem lugares e segredarem planos para nos virem buscar.
Iludem tal trupe com uma bondade fingida vestida de caridade que é de se olhar, para o ego agradar. Traduzo o idioma usado na idiotice pegada, publico o dicionário (…)

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pijamei

Hoje pijamei. Não lembro de outro dia em que tenha pijamado sem estar doente. Pijamei a escrever. Pijamei a comer. Pijamei a ver televisão, amei a pijamar e farei uma outra infinidade de coisas neste enganoso conforto.
Sinto-me completamente pijamada, relaxada e pronta para despijamar amanhã.
Tenham um bom dia, amigos.

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Jeroen Dijsselbloem

Jeroen Dijsselbloem, juro que não sei dizer este nome nem tão pouco isso me interessa, pois dizia que o dito cujo não passa de mais um frustrado imbecil, num pretenso cargo de chefia e responsabilidade. Ponham-lhe, então, os patins, e queiras, Ó Deus, que não os saiba usar, para partir os cornos que esta mulher do sul lhe pôs.

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porta

o dia encontra-nos de mansinho pede licença para entrar entra e abre caminho apaga o negro do quadro pinta, de uma nova cor, futuros aparece no arco-íris lembra a dor e o amor do mundo e escreve. faz-se em riscos e rabiscos em linhas e entrelinhas traçando entre agoras e amanhãs um imenso mapa nas linhas das pedras da calçada. e enquanto te ouço leio-te e escrevo-te a alma encontro-me então no sorriso abraçada ao teu eu construo uma nova ala por onde te deixo espraiar para que me encontres com ela com o mundo nas pontes nos elos no norte e o no sul na vida entre o quadro negro de uma infância de giz e o sonho da utopia que ensina mas que nem sempre se aprende um alvo ser... read more

qual de nós fala na barca do inferno

Nunca sabemos se é Deus ou o demónio que por nossa boca fala, já que pode ser Deus ou Lúcifer a dar-nos razão, e para nos convencemos sempre que por nós é Deus que sentencia é somente para justificar actos que a uns mata, a outros esfola, e a poucos salva. O melhor será deixar as divindades de fora, recorrer ao entendimento, e perguntar se é que não somos nós mesmos a trazer ao mundo o Satanás que tem reinado.

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sopro de vida

quando fica o carinho estéril e seco
quando a razão sugada
se esvai solo adentro
vem o desassossego que se instala
num falso momento
de um deleite suave e demorado
para que num último sopro de vida
com as palavras lavradas
se faça como devia de ser
a vida

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muros e pontes

Só construo muros inabaláveis e intransponíveis contra pessoas sem bom carácter, contra todos os crimes de corrupção daqueles que roubam dinheiros públicos ou promovem o enriquecimento pessoal à custa do trabalho e da boa vontade dos outros, e contra, ainda, os que não praticam uma política social igualitária, no entanto prefiro a construção de pontes, pontes essas

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acordar

Olhei para o relógio do telemóvel e vi a hora, o dia, o ano. As verdades gritadas ao espelho mentiram-me. Atei as mãos à cabeça. No desespero, ajoelhei-me na relva ainda molhada, ajoelhei-me à vida, ajoelhei-me a vós e, em súplica, vi-me de face virada ao céu. O nosso ontem, o nosso hoje, o nosso amanhã, o VIVER, pertence-me-te: TODO.

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quando te toco

no gosto de te tocar vem a palavra,
vem a poesia e tudo muda.
é intenso, é pureza,é momento.
é o sentimento mais virgem que conheço.
e é novo, tudo novo para mim, de ti.

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viver

“viver, ai viver
viver só o é se intenso
num intensificar do palatum
num espremer do tempo de um relógio de Salvado Dali
viver é a loucura de ver um segundo eterno, no presente
um momento
mas viver também é parar
enroscar-se a preguiçar no silêncio
perder-se no espaço volátil do suspiro
viajar numa lufada de veneno
tremer com o vento
e com um sorriso”

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líderes

Ao longo dos séculos temos inúmeros exemplos de multidões que seguem, aplaudem e choram os líderes responsáveis por inúmeras desgraças. E a vida continua. A democracia está em cada um de nós. A democracia está no poder de cada cidadão. E a vida continua.

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voo

Torno-me feia por tão descontente ser o momento. Falta-me tudo. Necessito desse entrar nas letras das pessoas que precisam tanto das palavras como eu. Das pessoas que não dormem para as dizer. Das pessoas que não comem para as ler. Das pessoas que não vivem sem as falar. Das que vivem dos silêncios das parir. É isso. Voo. Vou. E indo, levo quem ama comigo. Quem não quer que não venha. Eu voo.

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sobrevivente

sobrevivente,
mostra-me três feridas:
a da vida
a da morte
e a do amor
e ama ainda mais
porque o amor
cobre tudo
sara tudo
seca as lágrimas
e abre um sorriso
enquanto te cobres de chuva

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criança mãe

E a boneca, com o corpo cheio de riscos de marcadores de todas as cores feito pela mão da criança que eu era quando nasceste, parece o mapa desta existência. As manchas, as nódoas que ela encardia na pele, eram os caminhos cartografados pela mão de uma criança.
Uma criança mãe. Sem perda.

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uma criança mãe

E a boneca, com o corpo cheio de riscos de marcadores de todas as cores feito pela mão da criança que eu era quando nasceste, parece o mapa desta existência. As manchas, as nódoas que ela encardia na pele, eram os caminhos cartografados pela mão de uma criança.
Uma criança mãe. Sem perda.

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um amor assim

um amor assim
Mas que raio então significa uma vida tão curta em nós. Em cada dia mais que me vejo em ti sei que o amor de uns dias se transforma num amor de sempre, porque tem já muito tempo, muitos ontens e muitos hojes. A noite que aí vem é a noite que te tem, é a noite dos sonhos que foram dias, e o dia dos sonhos que foram noites. Contigo amor, não distingo a noite do dia, nem em dois dias te vais, nem em duas noites te me tiram. Vá por onde for, ontem, hoje, agora mesmo, o nosso amor é um poço onde se pesca a claridade que está presa, e sei que esta se propaga para o sempre.

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criatividade

– Creio que estás a empurrar os limites da tua criatividade. Deve doer.
– Sim, dói. E, quando dói mais, escreves melhor; quando dói mais, sentes melhor; quando dói mais, vês melhor, e é, à espera do nascer de mais amor, e para que ele faça tudo melhor que te cobres de chuva.

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coragem

O medo prendeu a alma. E acalmou.
Teve um arrepio. Olhou.
Pensou nos contras. Paralisou.
Esvaziou-se de coragem. E fugiu.
Perdeu a viagem. E tolheu-se
Anulou-se à vontade, e caiu.

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ameaça

Acabaram as ameaças externas aos Estados Unidos da América, agora a maior ameaça que enfrentam está na sala oval, da Casa Branca.

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partir

contigo, parto para uma terra nossa
parto contigo em meu peito,
enterra-se este jeito, sem jeito,
mas agarro o momento, no agora
e levanto-me de vez
deste leito

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Sameiro – Braga

Fui ao Sameiro dizer adeus ao Sol, apaixonei-me pelas pinceladas da tela, desfiei um rol de palavras do peito, embrulhei-as no voo da pomba e lancei-as ao encontro da lua.

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por estes tempos

a tirania do medo
fura por estradas do caminho,
fecha atalhos, trilhos e sendas
semeia chãos de poeiras e pedras
abre feridas, em corpos de guerra
ata, em discórdia, linhas de bala
encerra, a pregos, janelas da alma
aprisiona ideias, numa cela quadrada
tudo leva, e corpos traga

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o abismo

Não olho. Mais um pouco. Mais uma partícula de tempo. Que seja. Consigo. Consigo. Não vou acabar aqui. Neste momento, se não aguentar, me vou. Amo-vos. Amo-vos tanto. Estou a ver que sorriem. Sim. Em câmara lenta estou a ver-vos. Agora, aqui, parto em vós. Este é o filme desta vida, por um fio. Um laço nesta existência. Silêncio gigante. Vácuo de paz. Este sentir tão calmo, sem prazo, sem espaço.

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loucos

e os pardais pipitam desde o dia amanhecido
segredam que a humanidade é a mesma
que loucos a irão salvar
mas que loucos também a levarão a enterrar
e quando o ocaso se aproximar
entoarão também outras melodias
porque morrer por morrer
que seja a denunciar estes dias

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anjo

o anjo meteu-me no regaço do manto, afagou com ele o meu pranto.
acalmei-me.

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cisma

cisma
essa dor do peito que apertas
é tua e não veio de repente
encheu-se de cisma
veio quando te assaltou o homem
aquele que gosta de sangue e se pela por uma boa desgraça
turbe que prende o mundo
com elos de egoísmo
numa visão vazia de gente

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carteira de escola

carteira de escola
“Sentei-me numa carteira de escola com tampo inclinado. Molhei a pena no tinteiro de cor azul que se revela ainda nos trabalhos que sobreviveram ao tempo, quando no início da palavra se percebe a tinta mais carregada, ou outras vezes, um borrão apagado com um palito embebido em lixívia, ficava amarelado, escancarando a minha inconfidência pela falta de jeito e trapalhice. Este facto per si era causa para um intervalo de castigo

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ilusão

porque é ilusão esta máscara de amor
porque desta vontade se alimenta este ser
porque na tanta sede de teu corpo
cego fico de tanto te querer

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denúncias

aquilo que nos salta no peito
este tambor compassado
grita ao vento e à razão inteira
melodias e traços manchados
em aguarelas contínuas, esbatidas
deste astro perdido
depois de achado

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minh’alma

Estas palavras livres abrem portas no jardim. só para te ver minh’alma vestiu-se de seda voou, transparente, aquecida, até se acolher num véu preto fixado no teu... read more

não te esqueças de voar

    “É isso que quero fazer todos os dias. Sempre que posso. Voar. Voar paredes fora no meio de outros. Não sou maria-vai-com-as-outras. Tu também não. Escolhes a tua companhia. Escolhemos. E deito-me à lareira, meio sentada, meio deitada, com os pés ao alto pousados na beira do granito. Encosto o livro às coxas unidas para o receber e parto. Se me dá para olhar para a lareira, a luz fica mais intensa, o calor mais aconchegado, o conforto mais amado. A posição é a melhor do mundo. O tempo pára ou avança, os espaços definem-se, a companhia aconchega-se. Tudo isso porque nas mãos tenho um. Quando não voo fico rezinga. Tudo corre mal. Torno-me feia por tão descontente ser o momento. Falta-me tudo. Necessito desse entrar nas letras das pessoas que precisam tanto das palavras como eu. Das pessoas que não dormem para as dizer. Das pessoas que não comem para as ler. Das pessoas que não vivem sem as falar. Das que vivem dos silêncios das parir. É isso. Voo. Vou. E indo, levo quem ama comigo. Quem não quer que não venha. Eu voo. “    CRISTINA BRANDÃO... read more

um prato de sopa e a conta, por favor

Sorveu-a devagar e, quando acabou, sentiu-se mais confortado. Sabia que não o deixariam estar ali muito mais tempo e voltou para o seu poiso. Pelo caminho, os pés eram já blocos de gelo e as mãos, com as meias de lã esburacadas a servir de luvas, já não conseguiam aquecer com o bafo da boca. Acabou com o vinho. Deitou-se com o cartão por baixo, outros quantos por cima, o baltazar enroscou-se junto ao corpo e meteu-se o mais possível, no vão de porta. Adormeceu e, quando acordou, estava a comer uns Rojões à Moda do Minho.

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5 lágrimas por Alepo

Nem cinco, nem quatro, nem três
as lágrimas que consigo brotar
descubro aterrado, mais uma vez vez,
que não sai uma sequer destes olhos
aqueles que embatem em vidros de écrans
e que dizem apenas não com a cabeça,
porque o coração, a vontade e a razão estão mortos
e, por assim empastado de sangue e pó o entendimento,
descobre que cruel e desumano entre os animais
é só homem
e ninguém mais

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sobreviver

O que me faz suportar a indiferença, a violência e o desespero na vida são o sonho, o silêncio, a música e a arte em geral. Um copo de vinho e um cigarro ajudam muito, mas não entendo como podem sobreviver os que não possuem estes tesouros.

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ontem foi assim

(…)
ontem foi assim e quis que no regaço te acolhesses, no sangue que em ti corria sabia que me aquecia, sabia que dele também bebias, sabia que dele crescias. E depois de aprenderes a voar, e das asas não mais quererem voltar do choro que embalei, ficou o mundo mais rico por ti.
(…)

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sentidos

Prá Terra ligam-nos
ouvintes do vento

serão com verdade e tento,
no conteúdo e na substância,
estas mensagens truncadas
de onde cessa a quietude.
revelam-se em sussurro os murmúrios,
o lento êxtase da eclosão.
sentados em ânsias,
apresenta-se uma turbe de fantasmas.
vultos esborratados em escuridão.

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parabolé

Será que é no dia em que nascemos que a poesia nasce, ou será que ela já vivia muito antes dentro de nós. Será que ao soltar-se a língua do peito se largam as palavras da alma. Será? Se é verdade que no dia em que nasceu se abrira nela o livro das “parabolé”, e aí escondera a força e o rumo do ser, é também verdade que acreditara que é no início da vida que se define o querer. Todos os que nascem abraçam um fado, nunca leve, e cada um ou o vende ou o segue.

cristina brandão lavender
15 de março de 2016

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céu vermelho

Hoje apontei o olho ao céu vermelho, que é quando dizem que vai estar bom tempo, mas nunca fiando, já que em questões de moda a humanidade se veste mais de um vermelho sanguíneo, de “pavore” associado à carnagem que por aí avulta. Mas o bom tempo ajuda ao esquecimento, ai isso ajuda.

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frio

Vejo com os olhos da lua que o sol já se foi
mas os homens não se importam.
Vai um frio na alma que se deixou de queixumes
de um inverno na terra
da frialdade humana
e deixa uma friagem no peito que se aquece dos infernos
de uma luz tímida da vergonha dos homens
de um silêncio de pânico nos olhos de criança
que o terror de mãe sente gelado
o útero prenhe
de um planeta que erra.

foto de Isabel Costa Pinto

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e agora?

Agora, estou de bem com o momento. Tudo passa mesmo, mas não permitirei que aconteça a mais ninguém.

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dia internacional da paz

Ao ser humano cola-se, por vezes e ao longo dos tempos, uma irritação tão avassaladora que, ou é sinal de falta de carácter ou o é de loucura, na pior das hipóteses será uma conjugação de ambas, mas apresenta-se como sinal da completa agonia e desespero em que se encontra no espelho Esse estado plasma-se na cara dos homens numa máscara de mágoa, não é realmente tristeza, mas sim um enorme cansaço.

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Vanessa Ferreira

Na verdade não parece de pessoa de bem mostrar tamanha vaidade ou orgulho com o testemunho abonatório da Vanessa, hoje uma mulher feita que pode muito bem já ter filhos na escola, mas obriguei-me a este pequeno texto porque fez com que demorasse alguns dias a responder melhor às suas ternas palavras já que as lágrimas corriam pela cara abaixo, para o ombro amigo do…

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livro de josé antónio saraiva

O livro de José António Saraiva, que o ex primeiro vai apresentar mesmo sem que o tenha lido, tem tudo para ser um sucesso de bancada: é indecente, indecoroso, impróprio, inconveniente, indigno de ser humano com honra e em todos os aspectos desprezível, palavras redundantes por sinonímia, mas que, especialmente neste caso, não há canseira para aplicar, porque quantas mais escrevesse, mais apeteceria empregar e não chegariam, enfim, para classificar o dito cujo (livro e ser humano).

19 de Setembro de 2016

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olhos de sentinela

Manter olhos de sentinela vale o que vale por obras de distracção ou de cansaço, mas não seria a primeira das democracias traída de modo a instituir uma ditadura.

18 de Setembro de 2016

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olhos graduados

Deus deu-me uns olhos graduados para a tristeza, mas é com eles, e se calhar por isso mesmo, que procuro ser capaz de distinguir as estrelas entre as pedras do caminho.
17 de Setembro de 2016

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tempo dos homens

“O tempo do homem é parado. Esta frase não sai do sonho. O tempo desta humanidade é tão destituído de mobilidade, não corrente, estagnado, em dinheiro não investido, no sentido figurado sem animação; sem vivacidade e inexpressivo. Mas com toda a certeza teremos dias mais produtivos.”

10 de Setembro 2016

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alexia

Como seria o tempo e o espaço às costas da terra? Se a cegueira em que vivia incomodava, com a falta de lucidez associada, se a ablepsia humana se afundava nos meandros enredados da ilusão, se teimava a obstinação e o fanatismo ideológico que nos fazem persistir no erro de despersonalizar, de desumanizar, de perder a lembrança do trato de uns e outros, ao serviço da crueldade e da ferocidade que nos conduz a um espaço e a um tempo em estado de ausência de luz, só nos resta mesmo um …

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chaves

Há quem precise de ferrolhos para a alma, tal e qual como as que têm para a casa. O ser livre voa sem asas e usa chaves apenas para afinar instrumentos musicais. Há quem as coloque na parede e a evolução das fechaduras é algo de muito fascinante, Prefiro as claves nas pautas ou até as que canto de ouvido, Chaves para quê, pelo prazer de as usar a abrir.
6 de Maio de 2016

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linhas e sombras

Tenho um fascínio por linhas e sombras, os traços contínuos, de espessura variável, reais ou fictícios fazem-me entrar nos meandros dos percursos intrincados do nosso ser (…)

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Mãe

Mãe disseram-me que esperas por mim amanhã
sei que vais estar sentada no teu lugar favorito
(…)

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linhas da alma

  No banco da avenida sentem-se linhas de almas sentadas, com sorrisos, lágrimas ou simplesmente penduradas no tempo, por partilhas de conversas, carícias e pensamentos, em olhares vagos, nos devaneios, nos que desafiam os destinos, nos que param, nos que descansam, nos que se perdem e nos que se encontram. São bancos, são linhas de almas, na avenida, em Braga.... read more

de costas no monte

Naquela manhã abriu a janela e sorriu, conseguiu diminuir a velocidade com que vivia e com isso encurtou também o grau de ansiedade patente nos seus dias, um dos factores que fez com que se sentisse leve, menos tensa, mais solta, apesar da selva de blocos de cimento que ameaçavam dar outros montes aos montes, na sua cidade. Saiu de casa em direcção ao rio e, lá no alto, de costas ao monte que ainda não tinha ardido, deitada na relva sempre húmida, de braços abertos, com o olhar no céu, pensou (…)

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a gula

Alma tão pobre aquela que sente prazer apenas enquanto come. Referimos aquele ser que prolonga o momento da alimentação para ingerir com tamanha animalesca vontade e que resume todo o existir a esse acto (…)

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superstições

O futuro leio-o nas cartas, nas folhas do chá, na borra de café, nas formas do fumo no ar, nas estrelas, nas sombras da lua, mas as pegadas que deixo na (…)

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Março, mês da poesia

Será que é no dia em que nascemos que a poesia nasce, ou será que ela já vivia dentro de nós. Será que ao soltar-se a língua do peito não se largam as palavras da alma. Será. Se é verdade que no dia em que nasceu se abrira nela o livro das palavras, uma colecção de vocábulos de uma linguagem universal onde escondera a força e o rumo do ser, é também verdade (…)

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pai e mãe

Num coração cheio de laços, ataram-se, com sageza, os dois de meus pais. Não se vão nunca, esticam-se em pontas da saudade para os beijar, fortalecem-se as heranças de ternura em que me aninham, murmuram palavras secretas, ecos de um sempre, em que embarco por este mar imenso. Bem hajas, Pai. Bem hajas, Mãe,  encontramo-nos amanhã, com toda a certeza, já que hoje só nas estrelas vos vejo.... read more

um pensamento sobre o mar

emoções gravadas a ferro e fogo num coração de mulher guerreira, nunca domada, enquanto outras, por gerações e gerações foram espezinhadas, sua lealdade comprada, sem voto na matéria em tudo o que diz respeito ao seu corpo, dominada do umbigo para baixo, vazia do umbigo para cima (…)

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S. Geraldo e afins

Desci à tumba onde S. Geraldo, e outros, já não descansam, e incumbiu-me ele, ou alguém em seu nome, da mensagem que aqui vos entrego. Está S. Geraldo à espera de ver os cidadãos, à frente do edifício com o seu nome, inflexíveis, de alma forte e serena, a gritar à moda do norte, já que muitas vezes só a gritar nos ouvem

“cum carago, daqui é que eu não saio, daqui ninguém me tira.” (…)

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no dia em que renasci

Será que é no dia em que nascemos que a poesia nasce, ou será que ela já vivia dentro de nós? Será que ao soltar-se a língua do peito não se largam as palavras da alma? Será? Se é verdade que no dia em que nasceu se abrira nela o livro das palavras, uma colecção de vocábulos de uma linguagem universal onde escondera a força e o rumo do ser, é também verdade muitos acreditarem que só muito depois do nascer se define o querer. Não é assim para alguns. A todos os que nascem é dado o fado, nunca leve, e cada um ou o vende ou o segue. E é aí que se esconde a diferença (…)

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ai se fosse inverno!

depois de um bom duche, seguro um copo de vinho maduro tinto, um cigarro doce apagado, na boca, o último álbum do António Zambujo a tocar e, mesmo que apenas por uns minutos do dia, vai seguir-se uma noite deste inverno que, quase a acabar no calendário, só agora começou, com a alma a desenhar-se em tons de lareira a arder.

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amigo…

“Amigo vem-nos ao pensamento praticamente todos os dias, está lá, pertence ao nosso corpo mesmo quando ausente, e pode acontecer assim por muitos minutos, dias, anos até que nos encontremos outra vez. Amigo é um acto contínuo de ti.”
Cristina Brandão Lavender

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só tinha uma solução: ir

Quando recebeu o telegrama com as palavras: “mãe muito mal vem depressa” não vacilou sequer. Obedecer? Nunca. Por que razão havia de estar presente? Minutos finais da vida dela. Por ser seu filho,  só pelo facto de o ter parido? Um requiem agora, a que propósito?” “Mais uma violenta discussão que acaba em violência doméstica.” Pousou o jornal irritado. Foi ao frigorífico e abriu a cerveja com os dentes. Bebeu-a de um só trago. Atirou a garrafa para o caixote do lixo. As palavras do telegrama atravessavam-lhe a garganta juntamente com o liquido a escorrer. Engasgavam-no e ecoavam em looping: “Mãe muito mal. Mãe muito mal. Mãe muito mal. Vem depressa. Vem depressa.” Atravessou o corredor,  sentou-se no sofá novamente. “Não vou. Não vou e pronto. Mãe? Que é isso? Mãe de quem? Dela só recebi bofetadas, chicotadas e uma enorme quantidade de horas de trabalho no campo. Sempre. Com os animais, cegando as ervas, trocando a palha, tirando batatas, apanhando as couves. Nem à escola o deixara ir. Pancada e mais pancada. Ainda era pior se a queixa chegava ao pai. Já bêbado chamava-o com aquela voz de trovão: “Ah Gabriel, anda cá, meu malandro, meu filho-da-puta.” Escondia-se no cubículo à qual chamavam de quarto, à espera que ele o fosse buscar. Tão encolhido como as suas mãos cruzadas, vergadas e fechadas em punho, até as unhas lhe marcarem as palmas da mão. Sulcos do medo que o haveriam de perseguir. Recostou a cabeça no sofá carcomido, manchado de nódoas de gordura, de bebidas, queimadelas de cigarro debuxando geometricamente a superfície lunar. Olhou o teto como se visse nele uma pintura de si, do... read more

um décimo de segundo apenas

“Não ultrapassava. Não ultrapassava a ausência do amor. A ausência de sentido. Tudo faria para parar o tempo um décimo de segundo. Um décimo de segundo de tudo seria o suficiente. Um décimo de segundo de tudo era só o que precisava. Um relance. Um piscar de olhos atrás. Um tempo de pensamento. Estava definitivamente perdido. Perdido de si. Perdido do mundo. Morto vivo.” in “Saber Esperar” de Cristina Brandão... read more

uma flor num deserto

“(…) Chegamos todos ao mundo nus e levamos uma vida inteira a vestir os conceitos e preconceitos que nos tentam impingir e do que sei hoje, já velho, cansado e calejado da vida, não servem de nada, ou melhor servem para afrouxar, não só a consciência, mas os sentidos do amor, aquele com que qualquer homem sonha e para o qual Deus lhe deu um membro especial a usar e que ele, desesperadamente também, não consegue esquecer. Há muitos homens assim, em que os assuntos do coração não existem e que tudo se resume ao membro menor que possui. Outros há que da consciência e do cérebro pouco sabem, e se nascem nus, nus vão também em vida, usando roupa selecta no caixão, enquanto outros morrem nus também, porque um féretro vistoso só se soprar fortuna, que também é preciso alguma sorte, no …”

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última carta de um refugiado

podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer hoje nos trilhos das montanhas a andar ou a chorar, a ouvir o gemido de velhos, homens, mulheres e crianças mas não do ódio do meu irmão

podemos morrer hoje, mas não de bombas

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mesmo

Adoro a palavra “mesmo”. É definitiva, não deixa lugar a retaliações ou dúvidas e, sempre cheia de incertezas, a vida é isso mesmo: (…)

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sentido da vida

“O sentido da vida está na morte, porque viver bem é não morrer em vida também.”

Cristina Brandão Lavender

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a queda

“… caem professores, caem pais e caem escolas com os alunos, caem trabalhadores, caem as carreiras e as ligações dos transportes, caem jornais, caem jornalistas, cai o subsídio de apoio à deficiência, à velhice e à subsistência, caem…”

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portal aberto

(…)
entra, Natal,
não peças licença
que o espaço do nosso peito
é como o ventre de Tua Mãe
(…)

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Oecussi – 500 anos

Mandar emails num ambiente DOS e participar em CHATS com pessoas de todo o mundo, passando, diariamente, a mensagem sobre o que se passava em Timor foi algo de que me orgulho de ter participado, conjuntamente com um grupo liderado por João Correia de Freitas da UNL. Foi trabalho de formiguinhas muito necessário, às vezes inglório, mas do qual nunca desistimos. (…)

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ataque e verdades

“Há momentos na vida em que o ataque, apenas no contexto ideológico e verbal, não só é necessário como se faz inevitável. É que há determinadas verdades que se não forem ditas fazem de nós cúmplices das mentiras que apregoam.” Cristina Brandão... read more

árvore é vida

“Quem corta uma árvore faz morrer um pouco de si próprio, porque ela carrega os passos de todos os que por ali passaram.” Cristina Brandão... read more

verdade

“Há momentos na vida em que o ataque, apenas no contexto ideológico e verbal, não só é necessário como se faz inevitável. É que há determinadas verdades que se não forem ditas faz de nós cúmplices das mentiras que apregoam.” CBL

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ainda Paris

(…) Todos os outros discursos perdem significado, perdem-se pela falta de mensagem e quem grita é o silêncio mais o amor que paira no ar.

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sonhar, sempre

E os políticos, neste calor de Novembro, têm pulgas na cadeira ao ver um poder que se esvai e o país, que está na banca rota há muito tempo, espera ansioso pelo que se vai passar, em directo, colado à cadeira do sofá, ou deitado, com uma mantinha aos pés, para o caso de ficar, de repente, mais frio. (…)

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vazio

“quando as mentes estão cheias de matéria, não há espaço para a razão e o vazio desta provoca a desumanidade.”
Cristina Brandão Lavender

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ponto final

“o ontem é um ponto final parágrafo. o texto continua e, nas palavras que se seguem, leva-me a alma.”

Cristina Brandão Lavender

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corrente

“O ser humano consegue uma força quase invencível, quando se une em corrente, e com ela se constrói de pontes ou de muros. Chama-se amor ou ódio a essa corrente. Mas para ser uma força mesmo indestrutível teria de ser construída de carácter.” CBL

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o amor não se diz

“uma mulher que ama tem o coração forrado a palavras que não consegue dizer” Cristina Brandão... read more

t-shirt

“a música serena-me, entretanto a viola é uma t-shirt muito velhinha de puro algoão que se confunde com a minha pele.”

Cristina Brandão Lavender

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a vida dá

“A vida só te pode dar o que estás disposto a receber.”   Cristina Brandão... read more

amigo

“amigo é aquele que ao entrar nas nossas vidas nos faz melhores do (…)”

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sou lua

sou lua
adormeço nesse amado ventre
com o tule do teu olhar (…)

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a pirâmide

“não digo nada, porque se não disser nada pode ser que ainda me calhe um pedacinho e já dizia o ditado: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão; institucionalizados e legalizados os roubos ninguém sai penalizado. E viva a guerra mundial do roubo”

Cristina Brandão Lavender

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humanidade invertida

“Sabem por que dói tanto na alma? É a completa inversão do princípio “humanidade”. A pirâmide inverteu-se e não sei como se segura de pé.” Cristina Brandão Lavender

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olhos da lua

“vejo com os olhos da lua que o sol se vai e os homens não se importam.”

Cristina Brandão Lavender

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quem é morto sem o estar

(recontei hoje o episódio que ontem saiu ao correr das teclas, porque os detalhes nasceram ao recuar até esse dia) Pois é, lembrei-me de vos contar uma história. Diz o povo que se foste dado como morto e não é verdade, vê nisso sinal de longevidade (não sei se é com estas palavras, pois inventei agora esta forma de o dizer. Mataram-me uma vez e até rezaram, em meu nome, uma missa. Disseram-me que (…)

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lados e lados

Todas as histórias têm dois lados, mas por vias das dúvidas fico sempre do lado em que há mais sofrimento. Se sofrem mais é porque não temos (…)

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a secretária

“A Humanidade é a secretária de Deus na Terra e se a secretária não faz, Deus pede contas.”

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se não muda, não me interessa

(…) Por isso, não conseguiria viver com aqueles a quem amo e com aqueles a quem considero realmente “amigos”, se não tivesse o direito e o dever de poder continuar a olhar para a sociedade em que vivo, lançando agulhas e farpas que pousem nas injustiças, na indiferença, nos …

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deslizar o dedo no vidro

O pequeno-almoço é tomado entre goles de café, fatias de pão torrado com manteiga e geleia de laranja, sumo e salada de fruta, mais as frases ansiosas trocadas pelo deslizar do dedo indicador num pedaço de vidro, elos com o outro lado do mundo, usando o “Messenger”. Não sou a única. Um olhar à volta da sala mostra que nem sequer há excepções para confirmar a regra, tirando, claro, aqueles que cuidam de nós para que tudo corra bem, nessa fase do dia. Sinto-me indolente e (…)

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tempo

“Chega de perder tempo que o tempo só o gasto com quem não me faz perder tempo.”

Cristina Brandão Lavender

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relaxa…

Em primeiro lugar a capacidade de pensar que se mantém vacinada e incólume, depois, a capacidade instintiva de sentir que vai directamente para o estômago, e finalmente, a capacidade de viver (essa vai para o resto do corpo) estão , todas três, nos limites (…)

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pensamento com café – crime contra a humanidade

“Havia quem roubasse o merceeiro, o padeiro ou o leiteiro, em tostões. Agora o roubo é de milhões de euros, é institucionalizado e tem um nome, com rostos bem definidos: União Europeia e Troika. Um crime contra a humanidade que não sabemos ainda onde nos levará.”

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a tirania do medo

a tirania do medo
fura por estradas do caminho,
fecha atalhos, trilhos e sendas
semeia chãos de poeiras e pedras
abre feridas, em corpos de guerra
ata, em discórdia, linhas de bala
encerra, a pregos, janelas da alma
aprisiona ideias, numa cela quadrada
tudo leva, e corpos traga (…)

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mala de viagem

Peguei na mala de viagem e fiz-me à vida. Embarquei rio e depois mar afora, sem pressas. Sem impaciências por saber que não chegar a lado nenhum era a minha sina, e porque tinha de ir de um lugar para outro, mais ou menos distante. Demorei-me no olhar e o teu fugiu-me. Tornei a insistir: fugiste-me de novo. Câmaras fotográficas apontadas às faces interrogadas indagavam sentimentos, expressões e segredos. Sem pejo nem pudor o comandante berrou: (…)

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caminho desesperado

Caminho tão desesperado na europa, caminho desesperado deste miúdo de 13 anos, não, não tenho uma imagem dele, mas confio na vossa imaginação e apresento-o a vós. Muito de olhos como os que passam muita fome, braços esquálidos, muito de ossos, muito de barriga e que enfrentou calmamente o jornalista que o confrontava sobre qual a mensagem que teria para a pessoas da europa: (…)

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alma?

“Alma” que acham do tema “Alma”? O artista sente mais porque desespera. Desespera tanto porque tanto sente e, por ele, com ele, pinta a alma nas cores que tem, nas cores que são, nas cores que têm a alma daquele momento seu.”

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guerra ou paz – Hiroshima Day 70 anos depois

(…) Caminhar na mesma areia de há setenta anos mostrou a Anna Mihaiki que os homens estendem, aos seus pés, um destino cruel, sempre que se esquecem que a morte deve dormir serena num leito de amor.”

Cristina Brandão Lavender, 6 de Agosto de 2015, a Velha-Escrita em Okinawa.

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águas santas

Anna Mihaiki sentara-se num banco de pedra sombreado por uma árvore de folha com cinco pontas, um plátano japonês, quando ouviu um pássaro a cantar repetidamente o mesmo trecho. Silenciou então todo o corpo e sintonizou a mente para o poder compreender. Respirou calmamente e (…)

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definição

“Sou definida por esta constante insatisfação. Uma necessidade de respirar o “diferente”, o “novo”. Renascer sempre para algo inesperado e, logo poder seguir em frente, sem olhar sequer para trás.”

Cristina Brandão Lavender

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défice fundido em quê?

Por que será que não acredito numa palavra da declaração do secretário de estado sobre a utilização dos fundos da ADSE, supostamente para pagar o défice e que levou, rapidamente, a uma declaração imediata do sr. primeiro ministro, da qual também não tiro uma palavra com nexo? Depois de parar para pensar apenas por um segundo ocorreram-me logo quatro razões muito simples:

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compromisso de honra

“Declaro, sob compromisso de honra, que não concordo nem participei nos crimes contra a humanidade perpetrados pela união europeia contra o meu povo, contra o povo grego e outros países da europa, obrigando-os a pagar dividas que são insustentáveis em benefício de um sistema financeiro que se autodestruiu. Por essa razão não posso, nem quero, ser responsabilizada como cúmplice de tão hediondo crime. Anuncio ainda solenemente tudo fazer para denunciar todos os actos já praticados e os que ainda possam a vir a ser levados a cabo por essas maquiavélicas cabecinhas. Por ser verdade, mas não me ter sido pedido, assino a presente declaração com o nome que uso habitualmente.”

Cristina Brandão Lavender

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o barulho das cigarras era ensurdecedor naquele verão longínquo de setenta e cinco

“(…) O homem, que sabe muito bem o que é uma guerra de ideias – seja ela por palavras ou não – arma-se destes recursos estilísticos para encobrir verdades muito mais profundas, todas cruéis, umas mais ignóbeis que outras, mas todas sempre muito humanas. O verão quente de setenta e cinco foi quente como tantos outros verões; as cigarras cantaram os seus humores com o ânimo do momento (no sentido de anima=alma), sincronizadas, saíram do chão todas ao mesmo tempo, para cerca de duas semanas de canto, acasalamento e nova postura de ovos; os homens, esses, por sentirem ameaçado o poder que nunca quiseram largar, fizeram em setenta e cinco o que fazem sempre: recorreram às armas e saíram à rua para o reaver. Imaginem se a porra aquecia mesmo? Não seria isso realmente ensurdecedor?”

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direitos e deveres para o sr. primeiro ministro

Sr. primeiro ministro, eu percebi finalmente o que quer dizer sobre direitos e deveres quando o ouvi à hora do almoço. O senhor tinha o dever de negociar as medidas de austeridade de forma a ajudar o povo português, mas escolheu o direito de defender os interesses da banca e dos países mais ricos. O senhor tinha o dever de se colocar na pele dos que querem trabalhar e ter um futuro no seu país, mas escolheu o direito de os fazer emigrar e ir mostrar a sua competência para fora de Portugal. O senhor tinha o dever de não aceitar as políticas económicas que aumentam o défice e conduzem a sacrifícios inúteis, mas (…)

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O algodão não engana, mas estes números: esganam

Os políticos estão convencidos de que uma mentira, já que repetida muitas se vezes, se transforma numa verdade, na cabeça das pessoas. Mas cuidado, o que acontece é que uma verdade dessas só leva a um caminho: dissimulação, negação da realidade, felicidade de perna curta. Mas o algodão não engana. Vamos então saber como vão os números de Portugal: (…)

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pensamento com café – Maria

Hoje despedimo-nos de uma alma de causas. Uma alma que punha as causas humanas à frente do ser por partidos. Prefiro as almas que são “de causas” às almas que lutam “por causas”. Ser “de uma causa” é pertencer-lhe de corpo e de alma. Ser por uma causa é apenas alistar-se por ela, quando termina o contrato: acabou. Quando se é de uma causa não nos dissociamos, respiramos e simplesmente somos: ela.

Cristina Brandão Lavender

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custa muito?

Custa muito? vermos uma classe política gananciosa, arrogante, mentirosa e manipuladora que se mantém refastelada à sombra de uma banca que rouba os cidadãos com a governação de políticos sem escrúpulos. Ai pois não. (…)

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Ana ou Maria

Ana ou Maria tanto se lhe faz. Ela foi colocada, desde que nasceu, no coração da tempestade. Tudo lhe foi difícil e intrincado, fazendo dela uma rebelde, uma lutadora de causas consideradas justas, independente das preferências individuais de sicrano ou beltrano. E que útil é, ser uma alma assim. Sempre atenta ao que se passa para logo analisar as ficções que vêm de permeio em discursos e contextos impregnados de metáforas. Para Ana ou Maria – tradicionalmente nomes portugueses, sós ou acompanhados – já chega destes recursos expressivos, assim como basta de ficção científica.(…)

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – palavras

“Tenho medo. Tenho medo das palavras. Receio que elas apunhalem segredos, abriguem uma realidade escondida e amordaçada, palavras que rasgam a vida, como tiras de papel de jornal, cheia de mentiras. Tenho medo das palavras porque se fazem joguetes, nas lágrimas já secas pela fome de viver. Tenho medo das palavras porque hoje, mais do que nunca, escondem um país nojento.”

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pensamento com café – educação

“Eduquemo-nos. É a única maneira de desenvolver uma consciência crítica, de saciar a sede de justiça, a sede da descoberta, a sede de melhorar a condição humana. Eduquemo-nos para que possamos evoluir.“

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café

“Somos o que fazemos, o que pensamos, o que sonhamos, talvez não seja isso o que vês quando nos olhas lá de cima.”

Cristina Brandão Lavender

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os leitores ligados estão desligados e os desligados ligados?

Os leitores ligados estão desligados e os desligados ligados? Não sei. Duvido até que possamos colocar a questão em termos tão lineares e contraditórios. Nada é só preto. Nada é só branco. Temos uma infinidade de tons de cinzento pelo meio e, por sermos humanos, podemos acrescentar-lhe todas as cores que quisermos. Era meio-dia quando consegui chegar. Peguei no telefone e fiz o download da foto da mulher para o computador central. Entrei na base de dados da Agência de Segurança Nacional e fiz correr o programa de identificação internacional para tentar saber a sua identidade. “Macacos me mordam se não é ela.” Isabel recostou-se na cadeira de olhos fechados enquanto esperava que as fotos com as identidades começassem a surgir através das semelhanças de pontos biométricos do rosto. Há dois anos atrás, a avó Mariana, no leito de morte, fez-lhe prometer que não só a procuraria como a haveria de encontrar. “Atrás do quadro do avô, – com a voz sumida – atrás do quadro do avô.” As lágrimas corriam-lhe e os olhos cinzentos fixaram-me. Apertou-me a mão com uma força que eu desconhecia que tivesse ainda. “É a tua verdadeira mãe. Amava-te, mas foi obrigada a fugir. Prometi-lhe que serias feliz. És feliz, Isabel?” “Muito. Amo-te muito, avó. Deste-me a capacidade de lutar por tudo aquilo em que acredito, a capacidade de sonhar, de ser útil, de rir e de chorar. Sim. Sou feliz. As tuas palavras ao longo da vida fizeram de mim o que sou hoje. As histórias que me contavas estão gravadas no meu ADN. Amo-te, avó. Só isso importa. Só isso vale.” Apertei-a,... read more

pensamento com café – mentiras

“As mentiras que mais magoam não são as que nos pregam, essas são mais fáceis de descobrir e menos importantes do que as que dizemos a nós próprios.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – inquietude

“Sou pertença de uma inquietude permanente. Uma inquietude que desperta, ao mesmo tempo que magoa já que, hoje e desde sempre, o mundo nos desafia a atitudes nem sempre compreendidas, nem sempre aceitas, nem sempre esperadas.

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pensamento com café – pensamento

“Preciso de um tempo para que o pensamento se dê, um tempo especial, um tempo quase parado, um tempo de silêncio em que ele, pensamento, requinte da inteligência, se dê a mim. E esse pensamento, ali nascido, é sempre especial. É isto o pensamento.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café

“Não haverá celas vagas ao lado do recluso 44? Caso não haja parece-me uma boa ideia construir, de raiz, um novo estabelecimento prisional. Dada a urgência construam-na com a nova tecnologia dos blocos de betão prontos a colocar. E nada de mordomias que os façam sentir em casa: já basta as que tiveram cá fora.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café

“Não paro de ser surpreendida por esta campanha eleitoral antecipada: primeiro tínhamos os cofres cheios, agora somos “lixo histórico”. Conclusão: Temos os cofres cheios de lixo histórico.”

Cristina Brandão Lavender

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não dou conselhos

não dou conselhos
dou exemplos de
silêncio
lúcida
à procura da porta dos fundos
para engano da vida
não dou conselhos
dou exemplos
de loucura

Cristina Brandão Lavender

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a voz de Deus

“a voz de Deus
está no sussurro do vento
no rumorejar das águas
na lógica do pensamento
no sentido das palavras
está na órbita da terra
no esquema da visão
na beleza que a flor encerra
no trigo que se transforma em pão
está em pauta na melodia
no ser que agarra a mão
mais a voz que nos guia

está no sol da vida
na chuva que tudo acalma
na noite que precede o dia
na grandeza de cada alma”

Cristina Brandão Lavender
(7 de Abril de 2005 – A Karol Józef Wojtyła – Papa João Paulo II )

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não sei se sou

“não sei se sou o vazio
nem sei se sou um nada
o tempo parou contigo
espaço de vida cessada
por Deus leva-me do sítio
veste-me, alma triste
liberta-me
deste grito rasgado”

Cristina Brandão Lavender

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se escrevo

“Vivo, e só vivo assim, se escrevo. Não sei é se vivo sozinha. A escrita não é só a minha palavra. A palavra é muito mais que isso. Em princípio, e até ao fim, a palavra é a minha escrita e a minha vida.
E perder a vida era perder-me no propósito dela: a escrita:”

Cristina Brandão Lavender

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composição química

“A composição química da lágrima altera-se sempre. Hoje analisei e deu simplesmente: S∞ (Saudade infinita).”

Cristina Brandão Lavender

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desespero é…

“O desespero é o medo a estrebuchar no lamaçal da existência, por falta de amor. Conquista-o. Abraça-o apertado e avança para o trabalho. Quando deres conta estará a dormir, sorrindo.”

Cristina Brandão Lavender

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o amor é…

“O amor não é a soma de bons momentos. O amor é a compreensão consciente da soma das dificuldades num resultado sereno. Nem que se demore no cálculo. Quando lá se chega: sabemos.”

Cristina Brandão Lavender

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amor é a chave

“Amor é a chave; amor em tudo e tudo com amor. Invencíveis. Totalmente indestrutíveis. Assim somos nós. É só querer e, o mais difícil, saber.”
Cristina Brandão Lavender

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muito milho há no campo

“Contava eu tudo isto porque me assaltou uma ideia que se tornou, rapidamente, num facto. Todos, neste início de tarde, tinham em comum o ir alteando as falas, alternando com gargalhadas, insistindo em revelar uma boa disposição contagiante, que eu não via há muito tempo, por certo por estar um dia quente de sol, ser lua cheia e andarem as hormonas aos pulos.
Tenho a certeza de que o primeiro-ministro ficou bem feliz com esta mudança meteorológica. Pensa ele que os humores vão mudar e o povo, as suas dívidas, esquecer. Já há milho no campo. Pardais a procriar. Mas nós? Quem dera que me visse “grega” a fazer este texto.”

A Velha-Escrita no Café “A Brasileira”, 4 de Março de 2015
Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – depressão

“Todas as minhas convicções abanaram, violentos tremores ameaçaram ruir-me, ao mais íntimo dos silêncios fui obrigada a recolher. Usei-me de todos os recursos a que tive acesso, para me superar. Foi a mais dura das experiências que me levou ao mais feliz dos resultados. Saí muito mais forte.”

Cristina Brandão Lavender

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mulher

(…
no peito,
larguei papoilas, em semente.
guardei a chuva de ti
e esperei-me desse encanto.
despediu-se o cinzento pintado
e por estares tu (…)

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pensamento com café – alma minha

“Não entrego a alma a Deus. É que não precisa dela para nada e prefere que eu me preocupe mais com o uso que lhe vou dando. Aliás, não se pode dar, o que já é seu por pertença.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – coragem

“Sabes por que é que tenho as mãos abertas ao momento? Para agarrar nele toda a coragem de enfrentar o agora, com um pedaço de minh’alma.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – lar

“Lar é o centro da nossa bússola, lugar onde queremos regressar sempre, onde nos deitamos lado a lado com a segurança. Lar, agulhas apontadas para todas as oportunidades de existir, espaço que nos veste, embrulhando-nos como manta de agasalho, onde o acto de acendermos o fogão da cozinha nos aquece o equilíbrio, onde objectos mais simples nos olham, nos sorriem, nos sussurram mentiras e verdades, nos cantam melodias ainda sem corpo. Lar és tu e eu a transformar-se num “nós” por caminhos que queremos ainda percorrer. Lar, eixo vertical do carácter, nossa bússola, o centro da nossa humanidade.”

Cristina Brandão Lavender

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Música, um estado de espírito

“O mundo está cheio de palavras que não foram ditas.
Olho-as no ecrã deste tablet, linhas de traço descontínuo, tal fio de linho no tear da velha ama, em gestos ritmados, a balancear os braços, tocando com o pente na madeira. Nas suas costas sabia que ela ia combinando melodicamente os sons que lembram os batuques, ao fim da jorna dos negros dos campos de café.” CBL

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pensamento com café – palavras no mundo

“O mundo está cheio de palavras que não foram ditas. Desfiam diante dos olhos, mas nunca sem antes tocarem o coração. Há o amor que não pode ser dito, mas mostrado. E, como no testamento do Mestre, encontro-o a pairar, no silêncio, até que alguém o consiga ler, nesses mesmos olhos. O mundo está cheio de palavras que não foram ditas.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – sonhei

“Hoje sonhei nítido. Encontrei a razão do aqui estar. O meu mister é ser eu, sem incomodar o outro, sem a crítica mordaz, sem o juízo maledicente, sem o gargalhar cínico ou o desassossego pela opinião contraditória. É ser nascida para viver lá no alto, sem sobranceria, mesquinhez ou preocupação vã de aceitação exterior. Senti-me por dentro. O meu mister é: ter esta luz que me aproxima da razão e trabalhar assim. Hoje sonhei nítido. “

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – tudo passa

“Nunca deixarei de lutar porque nunca sabemos o que nos arriscamos a perder. Quero sentir esse conforto, essa âncora no presente. Mesmo que a dor bata à porta – tenho como certeza que tudo passa – a união com os outros planta um sorriso de vitória em meus lábios.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – conhece-te a ti mesmo

“Ando, já há algum tempo, numa de ruminar. Esta chicotada do “conhece-te a ti mesmo” é tudo menos uma perda de tempo. Sinto que amacia o mau génio, à medida que abre sorrisos, clareia as lágrimas e abre os olhos para um mundo que passava esborratado e insonso. Entretanto há gentes que não passam disso enquanto outras, que se agigantam, vão dando corpo e sentido a uma vida.”

Cristina Brandão Lavender

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a palavra é…

“Quando a alma treme, a palavra estrebucha e consola-se num texto.”

Cristina Brandão Lavender

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sou/somos

“pressinto um arrepio, no teu corpo (gelado), extinto, apagado, por velas velado, no teu sepulcro morto, enterrado. combinámos um sempre, sem mais fingimento; soltar livre o sangue, as peles, os lábios, a qualquer hora, a qualquer momento, por este amor sábio, eterno e obsceno.”

Cristina Brandão Lavender

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(i)mundo

Cada passada expira as lavagens a um cérebro vazio de amor, na procura de se encontrar, de se identificar, mimetizar, com religiões, filosofias, opiniões, varrendo convulsões, nas areias do deserto da sua existência. Estes humanos, montados no sopro da brisa do encanto das cantigas de embalar, falharam o olhar sadio de uma criança, vieram ao mundo-mundo, ao mundo iluminado pelas gentes que circulam na origem do ser feliz para torná-lo, por sua crença, num mundo-assim-imundo.

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conhece-te

Olhei para o relógio do telemóvel, vi a hora, o dia, o ano. As verdades gritadas ao espelho mentiram-me. Atei as mãos à cabeça. No desespero, ajoelhei-me na relva ainda molhada, ajoelhei-me à vida, ajoelhei-me a vós e, em súplica, vi-me de face virada ao céu. O nosso ontem, o nosso hoje, o nosso amanhã, o VIVER, pertence-me-te: TODO.

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cíclico

sempre
se um sorriso
cabe num olhar
sempre por isso
sempre
vejo um mar imenso
com um toque de incenso
que cai no regaço da noite
num traço imperfeito
muda o luar
o ano a girar
para que uma alma
se possa mirar
sempre

Cristina Brandão Lavender

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Se Deus não existisse o mundo seria melhor?

Este mundo em que nos vemos, este mundo em que a energia Divina existe não é mais do que o resultado do complexo existir do ser humano. Eu – tu – ele – não somos mais do que um somatório inconstante da instabilidade pendular entre o muito mau e o muito bom. Nada é preto ou branco, muito menos sempre cinzento, mas nós, que queremos sem dúvida encontrar o ponto de equilíbrio, desejamos sentir o bem o maior número de vezes possível e pela maior quantidade de tempo possível, envolvendo aqueles com quem escolhemos viver.

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Natal 2014

dou-me em união a vós
desmanchando nós prisioneiros
adormeço entre nuvens e sóis
no brilho quente e humilde
do interior de TEU berço.

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quando acredito

“tenho um aro quando acredito
em sentidos, sentimentos, emoções.
aro, mundo,
lanças na roda da dança
o ser e o nascer profundo
na balança ao morrer
o nada e o tudo
o principio e o fim
o não e o sim”

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derme

passa por aqui
derme da vida
cega de onde estou
cega me vou
sem mapa de mim
sem linhas de ti
surda ao som da vida:
Perdi?

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o adulto livre que irei ser

“Gostaria muito de tocar-te o olhar. Estávamos num trabalho de grupo. Trabalhávamos, mas tu, nesse teu olhar fugido, teimosamente fugitivo, balançavas a cadeira, balançavas as pernas, balançavas os braços revirando as mãos que (de lápis em punho) recusavam escrever o que te era proposto.”

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teste de gravidez

“Fevereiro. Mais um ser muito desejado se aninhava no emaranhado celular protector, laço bem atado ao coração de mãe. O resultado lido na caneta de teste era definitivo, peremptório, fechado: positivo.

-Mãe, porque estás tão linda?”

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vi ou sonhei?

vi?
vi ou sonhei?
vi brilho de estrelas
em cabelos longos
soltos em manadas
caídos no peito.
vi?
vi ou sonhei?
no sonho da negritude
vi a lua na almofada
vi minha mãe
de mão dada
de mala cheia
pr’a viagem.
vi?
vi ou sonhei?
levava na bagagem
vontade de chorar
por ti
por mim,
lágrimas lhe sequei.

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solto o pensamento

Não feches a alma:
abre-a
Não feches os olhos:
abre-os
Não feches os braços:
abre-os
Não feches a luz:
AMA.

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vou ao ar

Vou ao ar
deitar-me com o vento
Vou ao ar
e vou a passo
vou ao ar
respirar sem medo
vou ao ar
beijar-te nas ondas
vou ao ar fugir do degredo
e vou ao ar
partilhar-te o segredo.

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Timor

“Gritos estarrecidos ecoam nos céus iluminados de vermelho, chamas galopantes por mãos criminosas ateiam sem pensarem que são seus irmãos, também, os que ali sofrem. Lançam-se numa guerra fratricida, voraz ódio acumulado por várias misérias assentes na mentira de que onde nada há a perder, nem a dignidade se salva.”

Cristina Brandão Lavender

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punhado

“Peguei num punhado de areia fina e injectei-lhe todo o egoísmo da humanidade. Deixei-a escorregar finamente por entre os dedos. Por fim, sacudi-as bem. Apenas a que ficou colada às minhas mãos me é necessária.” CBL

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o candelabro continuava no mesmo sítio

Era ela e ele. Eram dois naquela sala, naquele espaço quase vazio, com um sofá e uma mesa pé-de-galo a servir um chá que ainda fumegava. Ela lia o “Abraço” de José Luís Peixoto e ele, da poltrona em frente, olhava-a fixamente, de perna alçada, braços pendentes ao lado do corpo, mãos pousadas no veludo.

Não se interessou de imediato. Mas, de tanto a perscrutar, a trespassar, de tanto a sondar com o pensamento de olhar mudo a gritar palavras de silêncio, vacilou.

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aula sobre rodas: num tablet.

Presente, pessoal;hoje, sobre rodas.
Carapuça enviada. Não consegui fazer o menino. Pari outros.
A minha net rolante está mais lenta que o carro.
Acabei de dizer à funcionária aqui na estação de serviço: “por favor, dê-me uma água com gás porque estou em aula. Só de tablet na mão, mas em aula.” Isto para responder ao olhar atónito da mulher. “Não, não estou louca. Estou em aula.” E sorri-lhe.

CBL

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página em branco, página de vida

” corre (página em branco) à procura de si e de tanto ela correr para ti, decidida a ser tempo de se dar tempo, estender-se de papo para o ar, na praia branca, molhada por um mar azul, em trato íntimo, e assim dar-se-lhe, em doses recomendadas. É que enquanto corres, página de vida, descobriu não ser nada sem ti. Por isso, enquanto está em paragem, faz o que sabes melhor: corre.”

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a alma do medo

“Neste tempo que se arrasta contigo, este momento vazio de ódio e de maldade, há um suspiro de alívio. Espero que seja esse o início da coragem que se vence por dentro e de dentro para fora. Se for peço uma alma que sossegue, que abrace o que amo, mas que viva na dignidade de uma humanidade que ainda sinto plena de crueldade e sem juízo. Há dias em que o que o mais quero é uma alma nova.”

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a palavra e a alma

“Perdi-me de ti palavra ao não sentir alívio por te dizer estas coisas, apesar do esforço imenso de que a dor humana seja trabalhada para se suportar. Será que está neste, tanto sentir, a cura do sofrer? Chegou o momento em que ao perder-me de ti, palavra, escrevo, para convencimento de todos, que a maior das injustiças é a de ser nascido para morrer. Foi perante este paradoxo que me agarrei à existência da alma, que com a morte se vê num espírito e continua a viver. Perdi-me de ti palavra quando me perdi de ti, alma, e perdi o tempo: a chorar-te.”

Cristina Brandão Lavender

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nudez – texto autobiográfico

“Tomei então uma decisão para todo o sempre ou para o que resta dele: despir todos os falsos eus que construí involuntariamente, que não interessam, que atraíram uma busca imbecil de aceitação e de aplausos, até compreender porque assim agia. Sabemos, e bem, como isso sufoca e as opiniões são como as cerejas: toda a gente tem mais do que uma, mesmo que uma já fosse demais. Foi então que começaram as descobertas: …” CBL

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sangue verde

tenho um mundo verde
canto-lhe versos de amor
enquanto troco flores
por sonhos desesperados
momentos desencantados
para, poder respirar, enfim

Cristina Brandão Lavender

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deixa

a neblina abrir-te-á os olhos
e o teu coração de garras verá
como te enxerga a rapina
que te segue os voos em prumo

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foste pintada para isso

“Manel da Bica ajeitou a trouxa para todo o dia, encostou-se à parede e colocou-se a jeito. O coto da perna perdida na guerra do ultramar, bem à vista. Aquilo que mais queria esquecer, bem exposto à caridade alheia, num velho cobertor, tal bilhete de identidade esfraldado à compaixão. O casaco e as calças ficavam-lhe grandes e, de tão coçados, rematavam bem o trabalho de mostrar a dor e o mal a estranhos – um quadro perfeito para causar comiseração, dó, pesar, piedade.”

Cristina Brandão Lavender

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um ângulo diferente

vi pelos olhos de ti
vi o que soube ver
logo vejo mais
logo sinto mais
logo penetro mais
num ângulo diferente
num sentir diferente
num ouvir diferente
não importa o tempo
não importa o tempo

Cristina Brandão Lavender

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de braços vazios

“Mas o gelo ficou ali. Lembra-se que o peito sangrou, que se mirrou, encarquilhou e nesse desespero adormeceu, hipnotizada por um sono que não era dela, por uma calma que não era dela, por um mundo que a queria receber, mas de braços vazios.”

Cristina Brandão Lavender

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requiem

” Acreditava que só o facto de pensar nela a pudesse fazer acontecer. Agora foste tão longe. Mudaste-te para outro espaço e continuo a não perceber como tenho de a tratar por tu. E para quem me vê parece que não sinto esta dor suprema de ti, de não-tu. Dizem-nos que Deus nos dá o peso da dor que aguentamos. Mas não acredito. A dor de uma perda como a nossa não tem embalagem em que a meta.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – universo

“Só uma certeza tenho. O amor do universo mantém acesa a chama do viver nesta família humanidade. O corpo clama, a ternura enlaça, o sorriso abre-se. É preciso estar aqui.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – saudade

“Saudade é o tempo a passar devagar quando o amor deixa um lugar vazio. Saudade deixa um coração apertado já que a ausência se faz pesada.”

Cristina Brandão Lavender

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só de amor se vive assim

Onde foste que não és mais? Onde foste que não és mais?
Como desapareceste noite deixando-me sem te achar? Ficaste no vazio de um qualquer lugar. No vazio que não existia quando permanecias. Quando ficavas e não tinhas, ainda, sombras na alma.
Mas ficou menos de nada amor, e sem amor a vida é assim: um adormecer sem saber da noite, um não ter o suave sabor do luar nos lençóis de seda, agora vazios, um amanhecer que se perdeu da magia, uma vida cheia de lugares comuns, um vácuo despejado.
Onde foste que não és mais?

Só de amor se vive assim.

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o médico nem pestanejou

“(…) Quando não sabes onde estás nem para onde vais só há mesmo uma solução: ir. Se não o fizeres arriscas-te a cristalizar, a virares estátua: nem morta, nem viva. (…)”

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o ódio é.

“Tudo o que vivemos é amor. O ódio não é mais do que um grande buraco no amor.”

Cristina Brandão Lavender

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pensamento com café – abraço

“Dias há em que chegas ao fim do dia com o peito demasiado apertado para falar, demasiado apertado para respirar, demasiado apertado para que faças algo que não seja chorar. Não é por nada, são apenas dias. Nasceste para mudar o mundo. Queres e podes, mas nesses dias até tu precisas de algo diferente: um abraço seria o suficiente.”

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tudo o que perdi foi o que ganhei

Neste sonho ia em queda livre, em suspenso, quando descobri que “se não dá prazer então está mal feito”. Foi com esta frase à frente dos olhos que percebi que a história da minha vida estava mal contada e que era tempo de fugir. Saí então do personagem e puf: acordei. Quanto te vi contei-te que sonhei que tudo o que perdi foi o que ganhei.

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pensamento com café – ir

Quando não sabes onde estás, nem para onde vais, só há mesmo uma solução: ir. Caso não o faças arriscas-te a cristalizar, a virares estátua: nem morta, nem viva.

Cristina Brandão Lavender

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se não te dá prazer: está mal feito

a vida é o que acontece quando acordamos

se não te dá prazer então está mal feito
acorda e olha pra dentro do teu peito
abre uma página em branco e nela sai: voando

não deixes tristezas sujarem-te o futuro
obriga-te a mostrar a beleza que encerras
sai com esse desejo de construir mais pontes
une margens de dor, derruba caprichos e muros

entretanto carrega-te de palavras e comida no saco
são elas que não deixam que te afoguem inteiro

Cristina Brandão Lavender

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Zé ia esquecendo

(…) Mataram vivo o Zé. Encafuaram-no naquele túmulo de pequena janela rectangular por onde apenas se via, se noite, se dia. Mas Zé sabia o que queria. E ali, trancado, sem óculos, impotente, molhado, coberto de matéria fecal, viajava de olhos fechados mundo afora, passageiro solitário, partindo em passeio, livre, parindo um planeta novo, numa mega obra: só dele e para ele.

Puta que os pariu: digo-te eu. Esta humanidade não é mesmo grande coisa.

Cristina Brandão Lavender

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pensamento do dia – inquietação

Impossível ir buscar fora o que tenho cá dentro. Esta excitação, este entusiasmo, este descontentamento, esta impulsão pelo fazer. Esta inquietante procura é um acto de criar, de libertar, de ser. É a energia dos afectos que permanece assim, enquanto não a solto: definho.

Cristina Brandão Lavender

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pensamento do dia – mentiras de nós

Grandes derrotas, grandes perdas, grandes sofrimentos construíram, durante muito tempo, uma manta espessa de enredo, prisão e cegueira. Mas não quero que seja essa a história. Essa mentira só pode ser a verdade que não quero escolher, uma teia que quero romper.

Cristina Brandão Lavender

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Pele de escritor

“Lembro-me dele com saudade. Não escrevia por obrigação. Ele escrevia com aquela febre de quem o faz porque tem mesmo de o fazer. Fazia-o com pele de galinha, vestindo a pele dos lobos e de todos os fantasmas que o cobriam, atazanando-lhe o silêncio, a tranquilidade que nunca sentia, tirando-lhe o juízo do momento. Escrevia, escrevendo, assim como vivia: vivendo. Ele queria ser lobo e vestia-lhe a pele: a pele do silêncio, a pele do grito, a pele da palavra escrita. ”

Cristina Brandão Lavender

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Não se acredita no amor: ama-se.

Manuela sai do vestiário, bata ainda por apertar, e já se avia com uma fila de cinco pessoas para marcarem ou fazerem exames. Sorrira mal chegara ao guichet, juntara um bom dia, para logo de seguida atender o telefone – mais um utente a marcar – nenhum dia ou hora lhe era a jeito. Os olhos inchados denunciavam muito e o sorriso logo pela manhã uma verdade ainda maior: valentia. Mais um enxerto de pancada, desta vez porque o bife estava frio. Apenas isso: frio. Fechou os olhos e olhou a fila.

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dei-te

o natal, uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma   Dei-te mãos cheias de tudo. E tu. Dei-te mãos cheias de linhas de pensamento, linhas da vida, linhas dos marcos que pisei, linhas cartografadas de mapas sofrimento dos passos de meu povo, linhas mais fundas, são hoje. Dei-te mãos de vida. E tu. Que me deste.   31 de maio de 2014 CRISTINA BRANDÃO... read more

surpresa do engasgo

cheguei
sentei-me na surpresa do engasgo
do embaraço
sentei-me de mãos dadas com o espanto

apanhaste-me amizade
sem saber o que fazer do sentir
como abrir os portões da (…)

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amo-te, Homem.

– tu não existes, Homem. olhei-te toda a noite por entre vidros. toquei-te toda a noite de olhos fechados. ao de leve tacteei-te em suspiros muito sussurrados e enchi meu peito de ti.
Homem, tu pões-me louca; viras-me do avesso ao mundo; sinto-me húmida. desejo-te. fecho os olhos: beijo-te.

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casei com uma feiticeira

Há condições de mulher que são muito desconfortáveis. Não que prefiras sentir-te como um homem. Não. Acentas num eixo de verticalidade essa tua feminilidade física e psicológica. Sentes-te, nalguns casos, e após tantos anos, como uma “mulher menos mulher”. Aquela tipologia que vinha nos manuais de zoologia dos teus antepassados e que ainda passou para ti na corrente genética e educacional, criou em ti incompatibilidades profundas. (…)

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in “respirar”

“Escrever é o meu respirar, acto de vida, acto de luz e de sombra, do ser ou não ser, de nascer e de morrer. Rodeados de anjos na terra só me finarei feliz quando não houver um único ser humano que não saiba ler e escrever.”

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no vermelho

no vermelho raiado do fim do dia
no vermelho corro para teus braços
no vermelho da nossa magia
no vermelho que me roça
o abraço
no vermelho da cavalgada
na praia
no vermelho em que me deito
alongada
no vermelho tocado
chispado por
asas de desejo
no vermelho que me roubou
um beijo
no vermelho te vejo
e no vermelho
me deixo

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como pudeste?

Como pudeste deixar-me a falar com os cardos?
Como pudeste mergulhar no silêncio?
Como pudeste vestir-me o cinzento?
Como pudeste esquecer o amar?
Nos versos e linhas que atravesso no texto, (…)

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como qualquer pessoa.

eu amo como ama qualquer pessoa
eu amo com alma sonhadora
eu amo com o balde cheio
com o livro inteiro
com a mão em riste
com o coração triste
com o desejo presente
(…)

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temos luta

(…)“Muito nos abraçámos nesse período.- contara-me. Sabíamos que mais-dia-menos-dia iríamos estar um sem o outro. Inspirei o cheiro, memorizei os traços da pele, tudo a guardar num chip de memória para usar à distância.”
Raquel continuou sob a ameaça de um despedimento que (…)

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um pulitzer

Quando a olhei fechei os olhos. Retirei delicadamente da vitrina a antiga câmara fotográfica do avô. Segurei-a com cerimónia. Uma preciosidade ZEISS IKON oferecida por Henri Cartier-Bresson, Janeiro de 1938, Bruxelas. Li a frase escrita a tinta permanente e assinada por ele: “De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-las voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória.” (…)

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europa? qual?

Estou com esses dois terços. Vou na sua jangada e atraco em qualquer outro continente porque qualquer um é melhor que este. Não acredito nesta europa, não acredito nas classes políticas, não acredito nas suas políticas, acredito que existe uma manipulação desenfreada e perigosa à direita e à esquerda, enoja-me a maioria dos comentários que foram feitos e foi isso mesmo que fui lá dizer com o meu voto.

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pensamento do dia

onde é o norte?

onde está a luz?

nada mais tenho a dizer, fico à sombra das paredes que me seguram, deitado na cama que me ampara a queda.

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tinha a certeza

“(…) Não havia dúvidas. Tudo porque te vira. As dores deixaram de ser doridas. Existias. O tempo deixou de se arrastar. Vivias. A espera valeu o momento certo. Existias. Finalmente tu eras. E sentias.
Tinha a certeza que Deus a ouvira.”

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na corda

“Escrevo-te estas palavras cheia de saudades. Muitas saudades tuas. Volta. Volta depressa e não vás nunca mais. Tenho saudades de quando adormecia enlaçada por ramos fortes com o teu perfume nas folhas, do murmúrio do vento que me sussurravas e da segurança de estar em ti. Trémula e ardente a tua doce fragrância misturava-se num odor só nosso. (…)”

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olhar não chega

“(…) Corremos para o meio do jardim e, num coreto só nosso, fizemos amor. O som da chuva forte mais um vento ainda mais cálido impunham o ritmo ao nosso amor. Enquanto fosse e durasse, o tudo era um nós: só nosso.(…)”

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peles

Não hesito por tanto te querer, e nesta força ciclónica do espírito, em comunhão do sentir de peles, entra a comunhão orbital lavada em ondas universais.

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amor proibido

se este amor proibido
entrar de manso no ventre
fica a minh’alma mais triste
por não te poder tocar na fronte
porque tua fonte não existe (…)

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contigo III

“E parto para uma terra nossa. Parto contigo em meu peito, enterro o meu jeito, sem jeito, agarro o momento: no agora.”

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contigo I

“Por aqui, as nuvens a roçarem o vale do mistério abraçam-te. Almas de coração amplo encantam-se com a ternura da luz repousada no quieto, no silêncio, no nosso leito. No tempo e no espaço pões-me em suspenso. Em ti agarro os ponteiros parados e adormeço num manto morno, sentado.”

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pensamento do dia

“Viver? O viver só é intenso se vem do palatum; se é um espremer do relógio de um quadro de Dali. Viver é a loucura do segundo transformada em realidades ofuscantes do momento.”

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contigo II

Fui noite dentro, em ti.
Fui e não pude esperar.
Fui e não voltei,
fui ali e fiquei.

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lindo

lindo
se a alma
fala,
na mudez de lábios cerrados .
lindo
quando a pele
estremece,
no deitar de gentes amadas.

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small one #6

Na pasta que aconcheguei nas conchas das mãos, moldei o meu sonho ali mesmo, de gatas. Tive que engolir, sôfrego, a ânsia salpicada de desejo, num suspiro para que secasse depressa.

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Small one #5

Acordaste-me com um “amo” sussurrado ao ouvido. Nele trazias o teu aroma misturado com o do café com natas com que me beijaste. Adoro-te (não me esqueci de te dizer). Sorriste e o dia começou perfeito.

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Deixo o diabo com Deus

– Amor, tens noção de que as verdades que nos gritam nas televisões e nos jornais sufocam? Naquele semáforo vermelho, o tempo parou, sabes? Estava escrito nele que chegava de inacção, de melancolia e de irritação. Isso não era coisa minha. Por que me esqueci de ti, da vida, do jardim?, de falar com as plantas?, de lhes retirar os pedaços mortos?, – ai como são bafejadas pela sorte – corta-se-lhes pontas secas e revivem, assim sem mais nem menos. Mas nós, nós quando morremos, morremos inteiros, na escuridão, no gelo do subsolo para os bichinhos comerem com sofreguidão.

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Só se cansa de liberdade quem nunca esteve privado dela.

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small one #4

Apanhaste-me uma cesta de flores do campo. Eram brancas, eram espuma do mar em que me perdi, do mar que me levou de ti. Apanhaste-me uma cesta de flores do campo, foram bandeira de paz no momento em que morri.

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falei contigo

De olhos fechados implorava que passasse, que sossegasse, que descansasse. O rezar por amparo era o que fazia sempre que aquilo acontecia. Quando a tremura aumentassem para um ritmo alucinante sabia que iria sair do seu quarto para se ver, logo a seguir, num outro espaço, num outro tempo.

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small one #3

la. Agarraram no que ela já tinha e transformaram-no em ouro. Esses são os verdadeiros professores.

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small one #2

Queria, quer e pode. Mas até ela precisava de algo. Perguntei-lhe o quê. Os olhos disseram-me que um abraço seria o suficiente.

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small one #1

“Vivia a correr. Perdeu-se de momentos, desfocou a realidade com tropeços dos bocados. Não vivia. Cansada, desacelerou, deixou-se tomar parte e pertencer ao espaço do tempo para se lambuzar com ele. Voltou a sorrir e por vezes ainda chorava.” Cristina Brandão... read more

na sombra dos tempos

Ponham-se finos, espertos e ladinos, com cuidado com as sombras, porque quando o sol vai deixando de brilhar, o que fica é um pedaço sombrio de país com as desigualdades e pronunciarem-se, com um sistema de saúde para quem tem dinheiro, com as leis a não se aplicarem, com um ensino de faz de conta, onde não se pense, e muito menos se critique porque esses, os que o fazem são uns chatos que não deixam o país avançar.

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este vazio

Com o coração por um fio foste sem me dizer; deixaste este vazio; encolhi-me sem peito; fixou este chão desocupado com o coração por um fio.
E a saudade rompeu a última esperança que vivia em mim, cai nesta ilusão de perder o mundo, uma gota do teu cheiro anda solta, dizendo que um dia você voltará para mostrar a razão de um amor desiludido.

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por um fio

agarrei-te por um fio
dei-te um nome
dei te um beijo
toquei-te de raspão
perguntei-te aonde vão
disseste-me que já ali.

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amo-te, homem

– cá vamos nós outra vez.
que fazemos?
paramos?
– paramos, querida.
– pois. tu mandas, Homem.
– enquanto conseguir mandar, mantenho-te segura. quando não conseguir, tens que ser tu a segurar.

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Braga, vale a pena.

Braga, vale a pena. não acredito numa letra. não credito numa letra sequer de qualquer palavra que saia da boca do que diz: a merkel, o barroso, o gaspar, o coelho, o seguro, o portas, o menezes, o joão, o antónio, o mário, o aníbal … não acredito numa letra sequer daqueles que têm andado por aí aos ssss, que têm medo da palavra bondade, problema, sinceridade, crítica, evolução, criatividade, associativismo, cidadania, direito, justiça… não acredito numa letra sequer, por tão baralhadas estarem as letras e, como elas, os conceitos também. as letras não são mais as mesmas. há todo um novo alfabeto que me recuso a aprender. não acredito numa letra sequer do “politicamente correcto”. não quero. não consigo querer nadar nas letras de um mar calmo do “não faças ondas”. todo o abecedário me cheira mal, a estagnado, a fins lucrativos, a ONG’s, a fins que justificam os meios, a adulação, a promessa com números à frente, do lado, ou por trás do cheque, o agora tem de ser, e o que ganho eu?, uma bola, um balão, um fogão ou um chouriço? não acredito numa letra sequer. não consigo deixar de estar alerta para com a letra. Em estado de guerra figurativa. Com o DNA aos pulos. Com as partículas de “Bosão de Higgs” a entrar em caos. Salto como uma mola ante qualquer letra da simpatia velada, da palavra fétida e falsa que pinga logo no lixo, na tecla delete, no vai para o raio que te parta que não estou para te aturar. E lembro-me então do português. Rezo para que não perca a... read more

“acabou de adormecer”

Tu, pele de ébano, deslizas pelo tapete de verde musgo sobre o granito, de saia rodada, chegas ao altar da natureza, ajoelhas-te e miras-te nas águas, e, teus olhos de carvão, sem queixume, dizem ao mundo num suspiro:
“No negrume de vossos corações nasci e parti. De branco me vesti.

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in “corpo desnudo”

e banho-me de vestes compridas
que se colam em corpo desnudo.

marcam-se as formas secretas
que a cegueira da paixão revela
e o mundo inteiro condena.

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mão na mão

Tabi era um dos seus melhores alunos. Estava a pensar levá-lo para estudar na europa. Era um rapaz genial. E como escrevia !Contava tão bem a vida. Via muito mais que eu. Via e escrevia.

Os olhos habituaram-se. Perscrutou ao fundo. Sim era ele. Ajoelhou-se a medo. O corpo estava imóvel. Não podia ser. Mais vale matá-lo já. Esta história não vai mesmo a lado nenhum.

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in “pesadelo”

“Abri a porta de trás e dei um passo. Segurei-me a tempo. Estava no ar. A casa estava no ar. A gravidade descera a zero. Tudo flutuava em torno de um eixo invisível, a estátua do cónego Melo. Acontecera imediatamente a seguir à Inauguração. Fizéramos uma conferência de imprensa, um apelo à sociedade civil Bracarense para evitar que aquele assassino vestido de padre cruzasse connosco todos os dias. Mas nada. A estátua ficara, uns dias borrada de tinta, noutros cagada pelas pombas e pardais. Hoje, tudo girava à sua volta. Ela era o eixo da cidade de Braga. Gravidade:... read more

lua cheia

cedi-lhe luz dos meus sonhos
vaga-lumes da alma
na candura que nos enche
encontrei-te em meu regaço
lua cheia de nós

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numa praceta de Braga

O meu almoço equilibrava-se no pau retorcido e côncavo que segurava, com firmeza, a dois terços do seu comprimento, palma para cima, músculos bem torneados, equilibrando, num lado, a cesta de vime vazia (imaterialidade da vida que abraçava) e no outro uma bola branca (materialização de um mundo que queria diferente). Bem ao limite, cabia-me evitar que se despenhasse, em cacos, por cima do espelho da estupidez, mesquinhez, avidez, de quem dele se aproveita.

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in “e avança”

uma força enorme se contrai parece que vou parir nova vida. puxo, respiro, dilata-se o ventre, o colo do útero e a alma. dou à luz num grito imenso um ser totalmente despido nascido bem por dentro da lama. que faz ele? que diz? que decide? sorriso nos olhos declara-se:  liberdade  escolha, razão, vontade serpenteia, esperneia beija: e avança.... read more

in “diário de uma freira”

A noite disse-me adeus. Eu, a Deus, me entrego. Quando acordo, vês-me, amor, a caminhar sobre rosas e hibiscos. Vestida de seda que me beija a pele, hoje mais sensual do que ontem, leio nos teus olhos o quanto me desejas sobre rosas e hibiscos a caminhar. Finjo ignorar-te. Este é o código do desejo do sexo cobiçado.

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“a humanidade não é grande coisa”

(…) Para a humanidade a vingança serve-se (sempre) fria. Muito fria. Gelada mesmo. E magoa. E humilha. E dói. Mas o que não dói, não magoa e não humilha é o nosso coração ver a verdade. A “nossa” verdade. E ela está lá. E ela amorna os nossos pés gelados….”

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in pensamento do dia “vem”

“Quando não vou a África, a África vem até mim. Mesmo se minha pele em tua pele se deita, mesmo se minha pele em tua pele respira, a tua, branquinha, europeia, lá do norte e do frio, não me entorpece os sentidos, nem me rouba da memória essa terra: África. Eu sou ela por ser dela. Não a nego, não a dou, só a empresto. Nasci em latitude e longitude 0o. Ali minha mãe me pariu e, se dali parti, ali terei que chegar. Um círculo mais-que-perfeito se desenha; do zero se sai, ao zero se chega. Ande por onde ande, chegue aonde chegue, desde que estique o elástico – deste raio de circunferência – nunca me perderei.... read more

burrinha

E lembrei-me. Lembrei-me e dos que vão presos por 70 cêntimos enquanto soltam os que roubam aos milhões. E mostram-nos a burrinha. Burra-de-carga de quem sofre, porque quem sofre será consolado. Pois. Mas preferia que o consolo acontecesse também agora. Resignação para uns. Fartote para outros.

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o circo da vida, na vida

Bola, corda, tesoura, água, girafa, rebuçados, cores, notas, preparava-se a mesa, com a ajuda de todos. Montaram o circo, no circo da vida. Como na vida penteavam-se, alinhavam-se e, aos berros, para se fazerem (…)

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pensamento do dia

Eu sei. O automático exaspera quando os humanos falham.
Ai o automático. Como é linear, concreto, expectável.
Sabes?
Sei. E fico bem. Muito bem até. Mas repito: o automático exaspera quando os humanos falham.
E o amor? O amor que te tenho, que sinto, com que me lambuzo: não falha. Mas tu, automático, no amor: falhas.

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despertador

acorda-me sonante o pesadelo que não dorme insónia que desperta sem ter cerrado pálpebras lanço mão do momento adormecido estico o braço firme – arredondo o tempo: em mais cinco minutos de ternura. eis que te tenho em braços e os laços em abraços me sonham a ti – parou-nos o tempo. ninguém nos rouba estes linhos e sedas este toque, este amor de manhã. vais e despertas logo que começa vou e traço, em tua alma, o desejo de te ter em segundos imensos. adormece-me, por fim, o pesadelo embalado em peles tingidas de abraço de sonhos nossos. no     es   pa    ço    de tempo passado uniram-se nossas peles na aurora por ponteiros que saltam o regaço. Cidália Pinto e Cristina Brandão... read more

mirar o círculo

“Agora tenho que sonhar em ti. Um olho fechado, outro olho aberto, e miro, pelo círculo do vidro, este teu céu. Fujo da cidade, das janelas de onde não estás, porque sei que estás ali. No foco. No centro do mundo. Por ali. Um já ali tão longe. É por ali que te encontro. Não é sonhar contigo, é mesmo sonhar e assinar em ti todo o meu corpo. Uma assinatura que só tu conheces e reconheces. Sabes? tal como os pescadores da minha terra conhecem o mar e o cheiro dos vendavais que pressentem ao minuto, Sabes? como uma mãe pressente o acordar do seu nascituro antes dele acontecer, Sabes? como reconhecia tão subitamente como abruptamente que ia haver um grande terramoto em qualquer parte do planeta, e to dizia. Sabes? Pois é.”

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diário de uma freira

A noite disse-me adeus. Eu, a Deus, me entrego. Quando acordo, vês-me, amor, a caminhar sobre rosas e hibiscos. Vestida de seda que me beija a pele, hoje mais sensual do que ontem, leio nos teus olhos o quanto me desejas sobre rosas e hibiscos a caminhar.

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poder nas palavras

no momento de te encontrar após tamanha ausência deitei-me no sentir do prado palmas das mãos para cima recebendo raios de vida. procuro sinais de ti. no momento inesperado a brisa ao ouvido me disse: onde estejas onde vás onde me queiras ouve no vento a dança das palavras beijas-as. é o reencontro... read more

amigo

“não fiques triste por perderes um amigo. tu não o perdeste. ele é que não te ganhou.”

Cristina Brandão Lavender

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gosto ou tenho de correr riscos?

“Sou contra tudo o que atente contra a dignidade humana. Pensei que poderia viver sem correr riscos, mas estava enganada. A humilhação a que o ser humano é submetido, neste país, faz com que as praxes académicas sejam consideradas brincadeiras de miúdos a beber sumo de laranja, numa tarde de verão. Senão vejamos. Vivo em Braga, cidade que amo e considero como minha segunda terra natal. No entanto, viver em Portugal, é correr riscos elevadíssimos. Por isso todos os dias digo à minha filha: – amo-te muito. Tem cuidado que anda por aí gentinha de muito má qualidade. Ligo a TV sem saber qual o canal em que vai estar e vejo um senhor que foi já primeiro-ministro de Portugal, fugiu para Paris, mas entretanto a poeira assentou, o povo pelos vistos perdoou e a justiça limpou. Consta que tirou o curso ao fim de semana, mentiu e ensacou dinheiro que era do povo, ganha agora mais uns milhares numa estação paga por nós, a dar opiniões sobre o estado do país. Eu não corro riscos: viva a corrupção! – filha, muda de canal, isto não é programa para crianças. Ao mudar fico mais descansada. É o Presidente da República que fala, por isso não podia estar em melhor companhia. Enquanto ouvia tudo, a boca não se fechou. Tenho que deixar que me praxem forte e feio, continuar a apoiar a corrupção, ficar bem calada, para bem da nação. – filha desliga a televisão, se te sentires humilhada podes sempre dizer que não. Eu não corro riscos por isso fico contente quando ligo para outro canal e ouço dizer... read more

ensaio falhado de poésis

A poesia, em mim, é sempre um ensaio falhado. O “ensaio falhado de póesis” é o nome da minha próxima obra. “falhado” no sentido humano sempre incompleto, por tão forte, presente, sempre quase lá, amanhã mais perto, hoje mais vazio, amanhã mutante, mantendo a beleza das palavras, dos silêncios, do ser, mas, de certeza diferente. Algo que será sempre mais perfeito, no depois. Ela é como a vida. Sempre a encher-se de nós, de eus que são eus de um, mas também de muitos, e de ti, de muitos “tus” próximos de nós que são nossos. Sem ela, “a poésis falhada”, fendida, lascada, em evolução e mutação, tal mitose celular, não seria como eu a sinto, como eu a quero. É o abraço que dou às palavras que grito, mostrando a nossa alma. É o poder que as palavras têm em mim, o poder que eu sonho que as palavras possam ter nos outros. Sem esta poésis, ficaria tudo mais incómodo. Que seria da nossa alma atafulhada de emoções prontas a saltar para o burburinho em que vivemos? Palavras, sons e silêncios, espaços, arte de esculpir ou simplesmente: sentir. Esperei por este Dia Mundial da Poesia para vos dar esta notícia, no silêncio, há mais de um... read more

Professor

o dia encontra-te de mansinho pede-te licença para entrar. entra abre-me caminho, abre-nos apagamos o negro do quadro e pinta-se de uma nova cor o futuro aparece no arco-íris e lembra-te a dor e o amor escreve, escreve-te e “escrevemo-nos”. façamos riscos e rabiscos linhas e entrelinhas: o traço entre o agora e o futuro e digo-te, e leio-te, e escrevo-te a alma encontro-me no sorriso do teu eu construo uma nova ala por onde te deixo espraiar para que te encontres com ele, ela e o mundo a ponte o elo o norte e o sul. a vida entre o quadro negro de uma infância de giz e o sonho da utopia que se aprende e ensina em um objectivo: feliz. Cidália Pinto e Cristina Brandão Lavender Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, 7 de Março de 2014 Aqui fica Poema escrito, em directo, na apresentação do livro “Saber Esperar” de Cristina Brandão Lavender, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, com sugestão de tema e imagem pelo público presente: “Professor” Para todos aqui fica um abraço e viva a alegria de estar vivo e partilhar a escrita e a música.... read more

mentira

Não tenho medo de nada, nem medo de ter medo. Esta a maior mentira que alguma vez disse.... read more

criança mãe

Sonhava com uma boneca. Uma boneca igual àquela com que adormecia todos os dias. O pensamento projectava-se pelo cabelo todo emaranhado e impossível de pentear. Desgrenhado. Eriçado. O cabelo da boneca era o labirinto e as imagens com que adormecia a percorrê-lo comiam-na viva. Perdia-se no labirinto com que sonhava. – Mãe por que te pareces tanto comigo? És como a irmã que nunca tive mas não és como a desejo nos meus sonhos. O pai é como um irmão. Porque somos todos da mesma idade? – Porque tu nasceste. Eu tinha treze e o pai quinze. – Mas eu queria uma mãe e um pai como os outros. Vocês não sabem o que eu preciso. O mundo é-vos absolutamente desconhecido. Agimos todos de forma parecida. – Perdi-me no tempo. Perdi o rio das oportunidades. Perdi as ocasiões da vida. Podia ter abortado e ter-te perdido. Mas não quis. Não suportaria a perda. Sinto que te ganhei. Ganhámos-te. Agora és tudo em nós. Sei que por ficarmos privados de tantos momentos da existência ficámos coxos. Mas conseguimos ultrapassar algumas lacunas, esses vazios, esses desertos. A vida nunca mais foi a mesma. Como não a vivemos também não sabemos ensinar-te a história. És como um carro com peças feitas de pedaços de outros carros. Fomos rolando juntos. Precisamos de substituir mais vezes as peças. Andamos mais devagar, mas penso que conseguimos ir. Mais longe. Vais. Mais devagar. Aos poucos. Vais ver que vamos. Todos. Houve perdas. Mas não houve “a perda”. A perda de ti nunca a poderia suportar. Por isso és. Por isso somos. Por tentativa erro fomos continuando.... read more

todos os dias

todos os dias quero. quero viver até não poder mais quero ser e estar em pleno nem que seja em momentos os tais impossíveis de esquecer quero ir a trabalhar quero ir a rir, a sorrir e a falar quero ouvir o silêncio do meu silêncio quero dar forma ao pensamento quero dizer: valeu cada segundo que a ti e a mim: deixei. o silêncio do equilíbrio conquista do silêncio ao desequilibro quero zangar-me (e muito) com o que não posso gostar apresentar soluções para a razão desenhar no lugar e quando for, e se assim for ir com a bondade plantada em vez do campo vazio de uma existência do mais-ou-menos, do assim-assim, do “nim ” ladrar por ladrar? nem ao cão e o burro? o burro só tem nome o resto do jumento é prova deste... read more

Avistamento

Em 1980 tivemos uma experiência de avistamento, encontro imediato, com um OVNI “objecto voador não identificado.” Não tinha, até aquele momento, qualquer interesse por esta matéria. A seguir, devorei tudo o que se relaciona com isso, apenas por algum tempo, até que se tornou repetitivo e desinteressante. Sou louca, mas uma loucura que revejo nalguma humanidade. Não mais louca ou menos louca e gosto da minha loucura: muito. É minha. Sou eu. Vimos (éramos dois adultos e duas crianças na parte de trás do carro a dormir) um objecto circular, a menos de 50 metros de nós: enorme. Foi na Serra do Montemuro, estávamos completamente isolados, sem aldeias na proximidade, de noite. Essa “nave” paralisou-nos o carro, e pairou do nosso lado direito. Ficamos assim sem possibilidade de continuar a viagem, sem motor. O rádio deixou completamente de dar. O vento que se gerou era circular e abanava-nos a viatura. O zumbido era inadjectivável, mas atrever-me-ia a usar “um sibilar diferente de tudo o que ouvira antes”. As luzes geradas pelas suas janelas encadeavam-nos, iluminavam toda a vegetação circundante e a estrada, giravam sobre ela e alternavam entre o verde e o amarelo extremamente brilhante: cego. Os seres que vi nalgumas das janelas estavam apenas interessados em nós – poderia quase afirmar: em mim. Fui eu que o vi no espaço como um ponto verde brilhante e disse: “Uma estrela verde!” Poucos segundos depois – contado pelo nosso tempo – estava do meu lado direito. O que se passou até chegarmos a Cinfães – único lugar habitável depois do avistamento – porque eles permitiram e desapareceram com a mesma... read more

Amo-te, Homem.

“Despir-me e despedir-me.” Sim, é uma sessão de striptease, esta que faço sempre que preciso dela. É excitante. Dá-me um prazer do caraças; acalma-me a inquietude da alma; umas vezes dói imenso, noutras faz-me rir ou sorrir de prazer, e, noutras ainda, chorar de dor aguda. Não as dispenso. São a minha humanidade. São as roupas da minha nudez.

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morri?

“Não, não estou morto. Não morri. Morremos ao viver como mortos. Sim, porque viver sem esperança, é morrer em vida, é o pesadelo de estarmos vivos e sermos mortos.”

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dei-te

Dei-te as minhas mãos vazias. E tu? Dei-te as minhas mãos vazias cheias de linhas de pensamento, linhas da vida, linhas dos marcos que pisei, linhas cartografadas do mapa dos passos do meu povo, linhas mais fundas: hoje. Dei-te minhas mãos vazias. E tu? Que me... read more

confio

“E eu confio, não perco a esperança, vou por aí, por uma razão muito simples: não tenho medo de ser... read more

café da manhã

do cheiro a canela e café
desenhei amor mesmo ao pé
com o grão de chocolate e rapé
colhido, ceifado, torrado
por gentes da terra quente.

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quem sou?

Já senti a dor de perder uma terra, mas ganhei a alegria de ser do Universo.

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a escrita é…

“Na verdade a escrita é um quarto sem janelas com elas escancaradas para dentro da alma.”... read more

teste à gravidez

“Corria o mês de Fevereiro. Mais um ser muito desejado se aninhava no emaranhado celular protector, laço bem atado ao coração de mãe. O resultado lido na caneta de teste era definitivo, peremptório, fechado.”

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acordo

“o frio da noite gelada na cama de estrelas para partilhar, os filhos de mãos estendidas por um naco para mastigar, sem um lugar para o sonho se sentar”

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Pé mu ê

Óla ê cá bi e cá bé cu bô. Tembé té óla n’guê cu cá sêbê di non cá bé té; óla dóno di vivê non té cá bé; óla cu inem cá tchilá non mon d’inem vé queté queté cu na cá bilá pê ni liba non fá; óla gá despigi de bô e gá flá Deçu cu bô bé; óla gá ficá sê xintido, gá fica sê sêbê, na cá quêlê fá, gá fica pagimado, cu auá uê ni uê. Tudo cuá cu cá ficá, óla bô na sá cu non fá, sá pudá, Pé mu ê, Sun na bé fá. Sun sá naí mé ni cabeça mu, ni zunto mu, axem mé, tembé té: Sun na sá naí fá. (Cristina Brandão Lavender)Tardução de Ana Mota... read more

bolon xinja

Ozé un nancê bolon xinjaNê modo pá pensáUn pegá ni li bôUn zunté ni plato di iô côlôUn conhê vlemê bá bá báCu outlô, outlô côlô, maxi glaviUn tendê vedé di supêUn pincela bô, un pinta bôZá ó, un ama bôNi bô: Un voá (Cristina Brandão Lavender)tradução de Ana Mota... read more

cu vlegonha

cu vlegonha mundo
gá tonoé, gá dança cu ê,
zó gá amé
a mim tan só sêbê…

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envergonhada

envergonhada do mundo
vou tocá-lo, dançá-lo, amá-lo
se sei, o quanto sei
tirar-lhe o preto-e-branco

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cinco gravatas

Colocou o colete por cima da camisa que ia por fora das calças de ganga. Estava formal e causal. Ficou feliz. Precisava de ir e mostrar que estava bem. Não interessava se não sabia o que fazer com a vida, se queria estar ali para logo a seguir não querer estar, se não sabia para onde se virar, se o seu casamento estava de frio a gelado, se os filhos não se sentiam bem e não se realizavam, se podiam muito bem desaparecer a qualquer momento com ou sem ela, se queria deixar-se de pantufas por casa.

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A ti, Pai – 15 de Março de 2014

Quando ela vem e te leva. Também quando vai quem nos susteve; quando vai o dono do nosso viver; quando nos tiram as mãos rugosas e crestadas pelo tempo e já não nos tocam mais; quando adeus te digo e “a Deus” te foste; quando fica este vazio a encher o meu poço de ternura, este sentir que ainda não sabe, este sentir que não acredita, este sentir que está pasmado, só em lágrimas e tempo se lavarão. Tudo o resto, desta ausência colossal, fica, porque tu, Pai, não partes mesmo. Ficas em tudo o que tenho em mente, em tudo presente, mesmo que também: ausente.

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único interesse

Não há nada mais destrutivo do que o sentimento nacionalista, patrimonial, patriótico. Quero lá saber que país me governa, que religião me inspira ou que bandeira me veste.
O único interesse que realmente me leva ao delírio é o de sentir que a justiça humana se pratica e que a humanidade sorri, chora e segue em frente.

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Gosto de dias de cão.

Gosto de: dias de cão.
Imaginemos uma linha do tempo e coloquemos nela o cão que além de ser considerado o fiel e amigo companheiro do homem está presente na simbologia e mitologia das culturas antigas, muitas vezes acompanhando ou simbolizando deusas. São guias dos humanos até aos portais do paraíso ou guardiões das portas do inferno. Por este motivo sei que tu e eu estamos agora muito mais felizes e sossegados.

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pensas nisso?

Tu sabes? Sabes? Tu, por um acaso, pensas nisso?
Tremo quando te vejo. Porque será que esse estremecer é tão bom e vem tão de dentro? Nem sabemos determinar o ponto do onde.
Mas confesso aqui, AOS BERROS, para quem quiser ouvir, que foi o medo que me fez fugir de ti. Uma cobardia.

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avistamento e confissão

O que se passou até chegarmos a Cinfães – único lugar habitável depois do avistamento – porque eles permitiram e desapareceram com a mesma velocidade com que apareceram, deixou-nos um espaço temporal em branco: inexplicável. Explico-me: o tempo contado pelo nosso relógio não correspondia ao tempo que realmente pudera ocorrer. O resto ficou com eles.

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Como estamos nós? # 8 rotina

Nas li _____________________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “rotina.” Saía do metro. Acelerava embrulhada numa multidão impaciente. Não estava atrasada, nem adiantada: um minuto sequer. Conhecia os passageiros que com ela viajavam nos últimos dez anos. Adivinhava o seu humor à passada com que enfrentavam a carruagem. A sua companheira de viagem era, invariavelmente, uma mulher de mini-saia, collants remendados, loiro oxigenado, batom escarlate, pestanas coladas com rímel.Um encontrão projectou-a para um casal; voou desamparada de costas; longos segundos até cair. Alguém colocou os braços à sua volta. Soltou-se, virou-se para se afastar. Olhos verdes intensos fixaram-se nela. Abraçou-a: – Shuuuu, não te mexas.– Todos ao chão. Vem comigo: TU AÍ. – apontava a loira.De olhos fechados, abraçada: gelava. Ninguém se mexia, ninguém ousava. No Marquês as portas abriram-se. Passageiros a magotes entravam e saíam. Levou a loira de rastos. Do nada, polícias apareceram – disparos.Vi a loira esvair-se em sangue no chão; ele perdeu-se na hora de... read more

sentado no branco

Nas li _____________________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin”Sentado no branco.” Boa noite pessoal, hoje em branco. Muitas vezes assim. Acontece cada vez mais. Este estar em branco, um vácuo no olhar, um mar de nadas, uma catrefada de coisa nenhuma. É o vazio a existir. É assim. É isto.Branco.Um sentimento tão vago que pode ser do tamanho do que quisermos. Não. Não é uma contradição. Este sentimento de estar em branco não tem nada a ver com o sentir desconhecimento do assunto, nem com uma noite mal dormida. É mais uma certeza de que estando em branco não pertences ali; que tens uma página do tamanho do mundo a preencher; que poderás não ter tempo suficiente para o fazer; que nem sabes por onde começar e o melhor é mesmo uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.Branco.Com este vazio transparente só vi uma decisão a tomar e que vos pode parecer inusitada. Fazer uma última travessia física e psicológica no tempo que me resta. Muito ou pouco?Branco.Na mala vazia levo a satisfação imediata de dar sentido ao eu mais profundo, deixo para trás todas as camadas e camadas de momentos vividos, (horas, semanas, meses e anos), para começar tudo. De novo. Fica para trás o bater na mesma tecla, o tentar fazer o que estaria certo para agradar aos outros, o ram-ram do não consigo. Para pior já basta assim, para a frente é o conquistar de uma sucessão de espaços com mais significado, um existir mais verdadeiro, um encontro do ser e do estar. Não preciso de ter sempre razão. Nem preciso sequer de ter razão.... read more

o distraído

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “o distraído” Rodou a chave, entrou no apartamento. Foi directamente para o quarto. Sentou-se na cama e agachou-se para descalçar os sapatos. Enquanto tirava mecanicamente o do pé direito e metia a meia dentro, seguindo do esquerdo, ia pensando: “Que dia! Estou exausto.” Passara doze horas a operar. Ao passar pela UCI ainda pegou na folha da ficha da doente a quem acabara de extrair um tumor no cérebro. No mapa de serviço escreveu: “tumor maligno completamente erradicado.“Levantou-se da cama para desapertar as calças. Ouviu um ruído de água a correr no quarto de banho. Deu três passos, tentou abrir a porta, mas não conseguiu. De repente percebeu que a maçaneta não era a da sua porta. Parou. Estendeu a mão para o interruptor da luz. Não o encontrou. Olhou à sua volta. Na quase sombra do quarto viu uma mulher deitada por cima das roupas da cama. Nervoso dirigiu-se para a porta onde seria natural haver outro interruptor. Encontrou-o. Ligou-o. Viu-a com as mãos juntas presas à cabeceira da cama e um lenço vermelho a tapar-lhe a boca. Ela esbugalhou-lhe os olhos e acenou que não como a pedir-lhe que não fizesse barulho. Luís fechou a luz, apressou-se para ela e segredou-lhe:– Entrei na casa errada. Moro aqui ao lado.Acenou e Luís desapertou-lhe as mãos que logo o envolveram num abraço suplicante. Pediu-lhe:_ Não grite. Está mais alguém aqui? – e retirou-lhe a mordaça.Ciciou:_ Está no quarto de banho. Deve estar a tomar banho. Leve-me daqui, por favor. Leve-me depressa.Saíram os dois daquele quarto, daquele apartamento e já na rua, ao frio,... read more

corpo desnudo

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “corpo desnudo” e banho-me de vestes compridasque se colam em meu corpo desnudo.marcam-se as formas secretasque a cegueira da paixão revelae o mundo inteiro... read more

amor proibido

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “amor proibido” se este amor proibidoentrar de manso em meu ventre,fica minh’alma mais tristepor não te poder tocar na fronte,porque tua fonte: não... read more

carteira de escola

Nas li_____________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “carteira de escola” “Sentei-me numa. Molhava a pena no tinteiro de cor azul.Revela-se ainda nos trabalhos que sobreviveram ao tempo quando no início da palavra se percebe a tinta mais carregada. Outras vezes – se com um borrão apagado com um palito embebido em lixívia – ficava amarelado, escancarando a minha inconfidência pela falta de jeito e trapalhice. Este facto per si era causa para um intervalo sancionado.”... read more

porquê?

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “porquê” porque a ilusão se mascara de amor,porque a vontade alimenta o meu ser,porque na tanta sede de teu corpo,porque cega fico de nada... read more

me agarro

“e apalpando o vazio que deixas
encontro um véu de ternura
não sei se teu, não sei de onde,
mas a ele me agarro como à vida.”

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no abismo

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDER – Nãaaaaao. Isto não vai acabar assim. E agarrava-se desesperadamente ao penhasco, lutando pela vida. Tentando desesperadamente um lugar para os pés. Rápido tacteva todos os milímetros de reentrância no penhasco. Combatia. As pedras desprendiam-se das rochas e ela, porque ainda tinha forças, esburacava com a biqueira as reentrâncias para se apoiar melhor. Com todas as suas forças puxou o corpo para cima. Mais um milímetro. Mais um segundo. As mãos estranhamente robustas. Não doíam. Aquela rocha a que se segurava tinha o tamanho e a forma da concha da mão. Conseguia prender-se. Não podia suar.– Meu anjo da guarda! Tu, dentro de mim, ampara-me. Transporta-me ao azul dos justos. Leva-me no arco-íris. Envolve-me no cone de luz que te rodeia. Na queda, abraça-me.As mãos mais frias e dormentes. Toda a força dividida por elas e pelas ponteiras das botas. Em suspenso – no topo do mundo. -Não olho. Mais um pouco. Mais uma partícula de tempo. Que seja. Consigo. Consigo. Não vou acabar aqui. Neste momento, se não aguentar, vou-me. Amo-vos. Amo-vos tanto. Estou a ver que sorriem. Sim. Em câmara lenta estou a ver-vos. Agora aqui parto em vós. Este é o filme da minha vida. Um laço nesta existência. Silêncio gigante. Vácuo de paz. Este sentir tão calmo, sem prazo, sem espaço. Não quero olhar esta parede escarpada para sempre. Se as forças faltarem entro no agora. Estou dentro de uma gigante bola de sabão. Mais um pouco. Ainda consigo. Só eu, este penhasco e o mundo. Sem dores. Compreendo. O horizonte deste lugar onde estou. Estas são as últimas palavras... read more

seguir em frente

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDER nas mãos abertas ao agorate levo pedaços de minh’almaporque bebo nestes corpos tão frágeisa coragem de me ir... read more

num sempre

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “num sempre” “Amei cada carícia que te fiz.amei e amei-teporque naquele momento,naquele momento só,parimos na brisauma jura de amor. E quando me despertastedesejei que nunca te fossessabia que se ficassesseríamos dois, num... read more

por que minto?

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “por que minto” “E se vaisfinjo que não sinto.Minto a mim,minto a ti.Mantenho os olhos cerradose no sorrir por dentro:estás aqui,mesmo... read more

palavra

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDER “No gosto de te tocar vem a palavra,vem a poesia e tudo muda.É intenso, é purezaé o sentimento mais virgem que conheço.E é novo, tudo novo para mim, de... read more

Minh’alma

“No gosto de te tocar vem a palavra, vem a poesia e tudo muda. É intenso, é pureza,é momento. é o sentimento mais virgem que conheço. E é novo, tudo novo para mim, de... read more

Deus deixou-me uma carta

Tudo isto em nome do povo, da pátria e das bandeiras, usurpando-vos a capacidade de ser, pensar e agir à vida. O lema da democracia “liberdade, igualdade e fraternidade” ficará, mais uma vez, afogado na ganância desmesurada de uma sociedade de swaps, cartões de crédito, empresas nacionais ou multinacionais sob regimes políticos de A a Z, onde a tecnologia binária os propaga e empanturra, ajudados por satélites em órbita do planeta, de olhos atentos, penetrando cirurgicamente em cada bite da vossa acção, em clara invasão do direito à privacidade.

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dói

Foto de hoje aos 56 anos Nas li_____________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “dói”“- Creio que estás a empurrar os limites da tua criatividade. Deve doer…– Dói. E, quando dói mais, escreves melhor; quando dói mais: sentes melhor.; quando dói mais: vês melhor, porque nasce mais amor e o amor faz tudo melhor. Até acaba com a dor. Transforma-a num lindo... read more

Sobrevivente

Nas li_____________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDER – Sobrevivente!mostra-me três feridas:a da vidaa da mortee a do amor.E ama ainda mais,porque o amorcobre tudo,sara tudo,seca as lágrimase abre um sorriso.                                                                    CRISTINA BRANDÃO LAVENDERFoto... read more

“Gostaria de responder-te com o meu silêncio, mas NÃO POSSO.” CBL

  Nas li_________________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDER “Gostaria de responder-te com o meu silêncio, mas NÃO POSSO.” CBL “Nem em democracia posso aceitar este texto a não ser como: “obscenidade”. http://thecomedians.blogs.sapo.pt/837491.html Vergonhoso. Não há dúvida que “pimenta no cú dos outros é refresco.” Vejam quão obsceno. E mesmo assim continuamos a ser roubados à grande e à francesa nas reformas. As regras estavam estipuladas. Descontamos o suficiente para viver uma vida inteira sem trabalhar por invalidez. Não tivemos descontos em horários semanais, nem horários de trabalho. Criámos filhos com sacrifícios para os lançarmos no desemprego e temos agora o dever de os ajudar. Mas pessoas há (serão pessoas?) que nos ridicularizam como os coitaditos e como sendo obsessão despropositada por nos tentarem salvar de mais um assalto às nossas reformas. Ou seja: andaram todos estes anos a roubarem-nos o dinheiro que descontamos e, sem escrúpulos, sem um piscar de olhos, sem um rebate de consciência, desbarataram-no em negócios escusos, lavando dinheiros públicos, muitos deles desviados para paraísos fiscais, fugindo aos impostos, financiando empresas e uma banca para enriquecer o filho do tio do sobrinho.  Vergonhoso.  Estou farta de mestres, doutorados honoris causa em trafulhice, “salve-se quem puder, que se lixe, também me roubaram a mim; ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão; e que culpa tenho eu?…”  Se ser português fosse o mesmo que ser firme, convicto, generoso, honesto, credível, empenhado, lúcido, num sentido de serviço à humanidade não apareceriam textos e declarações como estas. Não há dúvida que “pimenta no cú dos outros é refresco.” Este Mr. Brown http://thecomedians.blogs.sapo.pt/837491.html nem coragem tem para assinar o... read more

recado optmista

não tenhas rancores, nem ódiose grita a todos: estou aqui.perde o medo de ti própriae abre as portas de ti. não tenhas rancores, nem ódios,olha bem para mim.veste-me de ti na viageme grita a todos assim:estou aqui e sou daqui. leva-me em tua bagageme arruma o teu amanhã,porque o tempo não existe,quando ele veiojá se já foi;esfumou-se numa aragem,na alma que já não sente,o minuto não vem mais,quando já não está presente. não tenhas ódios,  nem rancores,vê o planeta que te nasceu.ao beberes desse calor,no minuto que te deugrita bem alto para o céu: estou aqui e sou daqui. CRISTINA BRANDÃO... read more

25 de Dezembro de 2013

Meu Amor.Pediram-me que te escrevesse a carta de amor mais ridícula do mundo e é isso que vou fazer. Não deve ser difícil. Ser-se ridículo no amor é mais que comum. Chega a ser caricato o escárnio a que devotamos essa palavra. Amar não é só possuir sexualmente. Amar é estar com alguém, desejá-la, preferi-la mesmo não estando presente. Não. Amar não é apenas isto. Amar é muito mais. Amar é tudo.Cristo hoje fazes 2013 anos. Sei que pode ser difícil entenderes. O amor é-me dado por estas mãos que são tuas. Pertencem-te. São elas as responsáveis pelo amor ou pela falta dele na minha vida. Com elas me dou a tudo e a todos. Ofereço-tas nesta mensagem: As mãos que tenho, Senhor,se dão sentido aos corações amputadoscarregam em si doses de amoràs angústias dos silenciados. Pertencem com certeza a Deus,num  afago misericordioso de bondade,enlaça de carinho os filhos seustal mãe, em excesso de cuidados. As mãos que tenho, Senhor,nas extremidades dos braços colocadas,quem as ditou? a quem devo tanto amor? Se presentes no trabalho que faço,ao serviço da vontade, nos caminhos meus,não pronunciam queixume, só ternura, no abraço. Mão activa no trabalho.Mão macia na carícia.Mão rugosa na colheita.Mão decidida na firmeza.Mão que dá.Mão que tira.Mão que reza.Mão que afaga. As mãos que assim agem, Senhor,são o fruto do teu amor. CRISTINA BRANDÃO... read more

2014

Não me consigo aproximar de grandes superfícies comerciais. Nunca tive muito jeito, nunca gostei e nunca irei gostar. De fazer compras, muito menos. Muito menos ainda, nesses locais. Perco-me para comprar o que preciso – estão assim estruturados para que vejamos muito mais do que precisamos. Ir, só em última necessidade. É o que faço. Arrependo-me logo de lá ter entrado. É desumanizado. É desconfortável. Muita gente que não se sente. E, apesar de me apetecer sentar naqueles sofás estrategicamente colocados à espera que os meus acompanhantes se despachem, o que quero é desandar a sete pés. Encontro, isso sim, muito mais prazer num chazinho, numa livraria, numa biblioteca, num museu, num espaço mais familiar, num café onde costumo encontrar amigos, conhecidos e caras habituais de há umas boas dezenas de anos. Ainda melhor do que isto é, nestes espaços bem mais pequenos, fazer amigos. Novos. Que com o tempo veremos se amigos são. Mas aqueles que nos acolhem no seu cantinho, e se sentimos também aquele companheirismo especial, então sim enchemos a nossa vida. Fiz grandes amigos neste último ano; revi os que não via há muito tempo; outros estiveram desde sempre e outros virão com certeza. Mas o espaço mais aconchegante de todos é a nossa casa. Aí estamos em nós. Somos os nossos. Amores, desamores. Dias bons, dias maus. Rir e Chorar. E os meios-termos. Mas estamos. Somos. Aprendemos a ser. Somos privilegiados. Há uma humanidade de que não me esqueço e que vive, sobrevive, nas traseiras das grandes e pequenas superfícies, na porta de trás de todos nós, em subterrâneos de uma vida sem dignidade.... read more

O SALTO PER SI.

A coragem, determinação e vontade firmes que eu tive e mantive degrau a degrau, enquanto subia ufano ao topo do mundo, apagou-se de rompante. Fui mingando conforme a distância aumentava.Olhei para baixo. Vi o fundo da piscina e imaginei que me despenharia ao tocar na água. Senti a embater-me contra um muro de cimento. Fechei os olhos. “Cobarde. Agora que cheguei até aqui não tenho mais volta a dar. Tenho que saltar.” Sinto o estômago em fibrilação. Recuo dois passos. Inspiro e expiro várias vezes até que decido voltar à posição de assalto. Ando meio tonto dois passos lentos para trás e para a frente. A medir a arena. Um pé à frente, o pé da decisão, o arrojado. O outro pé, atrás, é o da prevenção, do tino, do medo – ambos me ligam no viver. Bambaleio ligeiramente; sinto que a tábua da prancha mingua tanto em comprimento como em largura, como a qualidade da minha vida – sem espaço de estar. Arrependo-me de ter ido à piscina naquele dia. Arrependo-me de me ter gabado que conseguia saltar de cabeça da prancha mais alta. Arrependo-me sempre de qualquer coisa. Eternamente a tentar provar aos outros que era bom – para ser adulado. Queria conquistar a aprovação dos amigos, o respeito. De repente, sento-me na borda da prancha para fazer o em-pranchado de cabeça naquela posição. Nádegas na borda, pernas para baixo. Quando abro os olhos tudo piora. Torno a inspirar e expirar. Verifico a segurança da posição da prancha debaixo não vá ela tirar-me a vida. Sempre o medo de morrer. Sempre o não arriscar. Nunca fora bom... read more

O livro

“Somos felizes. Quantos podem dizer isso? Temos o que amamos. A Magia do Natal veio dar notícia disto. Aqueçam-se nesse fogo. Esse calor leva, em cinzas, as letras das palavras montadas no fumo que voa à nossa frente. Jesus não nasceu para templos, nem para reuniões magistrais e ainda menos para cultos exteriores. Jesus nasceu para animar a inteligência dos homens com AMOR. E esse estamos a aprender. É esse que estamos a descobrir. Temos os apontamentos necessários no livro a abrir: SENTIR.”  in “Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDER https://www.facebook.com/cristinabrandaolavenderhttps://www.facebook.com/cristinabrandaolavender/posts/1020051131694051911:46 am, 26 de Dezembro de... read more

Peço desculpa, mas a culpa é toda dos professores.

Peço desculpa, mas a culpa é toda dos professores. Ainda hoje se viu isso. Sujeitaram-se, anularam-se e fizeram um exame para mentecaptos. Isto depois de terem sido avaliados nos seus cursos, nos seus recursos, nas suas universidades. Os professores, neste momento, até se desunham e “matam” uns aos outros para conseguir o melhor prestígio dentro das escolas; terem os melhores portefólios, as melhores ideias, as melhores notas. São uns lambe-botas sem vergonha, sem carácter, sem o mínimo de noção de ética profissional. Se eles ao menos tentassem ser melhores pessoas não se perderia tudo. Neste momento ser professor – que Deus me livre de me ver entre mais essa escumalha – é o mesmo que ser atirado aos leões no Coliseu de Roma. Juntam-se a si e ao resto. Bestas. Às feras presidentes, ministros, cobradores de impostos, administradores, gerentes, exportadores, importadores, chefes de secção, todos os que já estão acima ou em cima de alguém ou que ainda querem estar. Àqueles que nos roubam sem escrúpulos, sem um piscar de olhos, sem um rebate de consciência, um clip, dois agrafes, uma refeição, uma casa, sem “posso, depois devolvo, levo só emprestado.” Aprenderam assim. Tiveram mestres, doutorados honoris causa, na trafulhice, salve-se quem puder, que se lixe, também me roubaram a mim, ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão.É, não é? Sabe muito bem que há excepções para confirmar isto que lhe digo. Mas esses, esses ainda estão mais lixados ou como se diz aqui no norte: fodidos. E sabe por quê? Porque a competência cria anticorpos, dores de cotovelo, invejas, esconjuros nos bastidores dos que só... read more

irritação

Uma irritação sem ser disfarçada segue-me e alcança-me por estas ruas de Braga, na fraude que se vive nesta época.O homem foi transformando, ano após ano, o sentimento mais lindo do mundo numa embalagem brilhante de laço bem atado com beleza, perfeição e intrujice.Aqui e ali sinto-o presente, quase asfixiado, mas trocando as voltas a tudo o resto.Aquele a quem devemos esta época tão fascinante, mágica, milagrosa; aquele que trouxe uma disposição natural para o bem, fica esquecido, ensombrado por luzes, fitas, caixas e sacos do consumo desmesurado. Às vezes sou atingida por grande melancolia e tristeza que se desata num choro compulsivo e intenso a deixar-me sem ar. Eu acredito na magia do Natal. Hei-de sempre prostrar-me a seus pés, se necessário for. O festejar o Nascimento de Jesus, para mim, é o mais importante dia do ano.Sou cristã. É sem dúvida um milagre para mim. Acontecem sempre factos inexplicáveis pela lei da natureza neste período do ano.O resto só me faz abanar a cabeça: por favor, mais não. CRISTINA BRANDÃO... read more

nunca te esqueço

“Na arca de cânfora está todo o legado. Com um rosto.”De camisa de noite até aos pés, branca, entrava confusa, a correr, de quarto em quarto. Percorria a casa toda. Com um grito. Vários gritos aterrorizados. “A minha filha? Minha filha. Minha filha.” – buscava estarrecida. “Estou aqui, mãe. Estou aqui. Mãaee, aqui.” – gritava-lhe para evitar que acordasse toda a gente. Difícil despertá-la. Olhos de pânico. Atónitos. Desiludidos. Por vezes sorria levemente. “Desculpa. Era um pesadelo.” – Sempre aquele pretexto. Voltava para a cama. E mais nada. Desgostosa. Sempre.O pai levantara-se algumas vezes de início durante este sonambulismo. “Maria anda prá cama. Maria, acoooorda. Já passou. Anda prá cama.” Ao fim de algum tempo desistiu e soltava apenas um rumorejo para logo se virar para o outro lado. “Outra vez. Outra vez. Cada vez mais louca. Sempre esta merda. Nunca mais há sossego.”Assim viveu no tempo, abraçada com a morte de uma outra filha, sem rosto escondida numa arca de cânfora. Sem querer, mas sem poder escolher. Habituou-se com essa convivência. Aquela procura contínua da mãe pela filha já morta, aquele clamar por ela, cheirar as suas últimas roupas até às entranhas se desfazerem de podres, fizeram com que tratasse a morte por tu. Tomamos o hábito de tudo, até ao que não devemos. E o tudo fica agarrado à pele como o surro nas paredes da banheira. E sabia que nascera daí a dificuldade em se sentir completamente livre. Com o tempo sentiu alguma autonomia e conforto com os pensamentos a formarem círculos redondos, tão perfeitos, que pareciam ter sido desenhos de Deus. Ali. Sempre olhando o mar.... read more

Discursos

Hoje ao ouvir partes da cobertura do “Mandela’s Memorial” ouvi um jornalista (não sei qual a cadeia de televisão, mas a cobertura era em Inglês) fazer a seguinte declaração: “Não sei o que corre na água ou no solo dos Estados Unidos da América para que haja oradores tão brilhantes e geniais. (Referindo-se a Obama, Luther King e outros.) Se fosse dona daquela estação chamá-lo-ia para lhe dizer:  “Decora as frases que mais gostaste do discurso e vem aqui amanhã dizê-las.” Fosse qual fosse o resultado sei que   “Como vês não corre na água e não está nos solos. Está na alma. Está na lucidez, no sentido de serviço que essas tèm para com a humanidade. Está no carácter dos homens. Esses agem em favor dos que realmente precisam deles: firmes, convictos, generosos. E isso consegue-se porque também se aprende a amar. Como vês encontrarás a água que corre nos solos que essas pessoas pisam, mas só quando compreenderes isto, e principalmente quando quando sentires assim poderás fazer discursos como, Mandela, Luther King, Ghandi e outros.”                                                                                CRISTINA BRANDÃO... read more

Colecção de Cromos

Cromo nº1 Sr. João era homem de poucas falas, atento, tristonho, mas prestável. A última pista para encontrar um resquício, uma faúlha incendiária, agulha em palheiro, um pedaço de presença. Novas de um filho que não lhe saía da cabeça e de quem nada ouvia há dezassete anos.– O desamor deixou-te prenha de uma não-vida. A tua barriga ainda é maior do que quando estavas de esperanças. Sozinha, andas a farejar uma louca e interminável linha de caminho-de-ferro. És só ar. Um balão de ar seco.– A palavra de um homem é a palavra de um homem. Vale tudo. Vale a vida se for preciso, João.– Vale o que vale, Andreia, mediante o que as circunstâncias impuserem.– E a promessa também.– Que raio de colecção para colocar no mercado: “As notícias mais tristes do mundo.”Continuou. Traz impresso em cada cromo, no verso da gravura, um testemunho real explicando o como das cinco fases da dor por que passamos: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.Andreia sofria de claustrofobia só comparável à dos mineiros soterrados por derrocada, com gentes de estetoscópio gigante, sondando o útero da terra grávido por homens desesperados de uma vida. Luz de espírito: precisa-se.– Vês aqui o rectângulo 666 vazio? Colecção inigualável. Viciante. Total dependência. Sei o segredo. Toda a humanidade está enfeitiçada por ela. Um único motivo. Medo. Saber e estar preparados para quando qualquer das tristezas lhes bater à porta. Sede de adrenalina. Falta de serotonina.– Sr. João, uma carteirinha com caderneta, por favor.– Esgotado, D. Andreia. Só por encomenda. Quantas?– Uma, homem. Acha que quero coleccionar uma coisa sem experimentar primeiro como é. Tem... read more

toque 5 vezes

“O mal que me fazem não me faz mal.Imaginem porém todo o mal que me vemdo mal que faço e do bem que não faço a outrem.” Num toque afinado na viola, melodia viva de uma parte,um pequeno refrão musicado. A estreia de uma  verdade,num toque de Midas,revestiu-se de simplicidade.Pedras diamantes,toque de silêncio, de seda brando,tules de afecto branco,pele percorrida por tantos abraços,corpo inteiro ávido por desejo. Aquele,o homem do toque em ti,lábio mordiscado,fluidos partilhados,cobiçados, unhados,num extremo de anseio. Dispenso a toque de caixaquem não gostar deste existir .Sigosem magoar, invejar, gritar,ultrapassar, cilindrar ou ignorarquem de bem e por bem,em nós continuar. CRISTINA BRANDÃO... read more

ABRAÇOS

Pestanejei repetidamente, deixando muito menos do que cinco segundos entre cada uma das vezes em que os cerrava. Naquele dia iria atingir mais do que a média estimada para cada ser humano: 11520 vezes/dia. Embaraço naquele abraçamento todo. Aquele ritual conduzido por desconhecidos. Incomodava-me. Há alturas em que o contacto físico me desagrada, enfada, irrita. Esquivo-me dele. Noutras, essa propinquidade, esse estado pele-pele, alimenta-me. Sem ele fico subnutrida – tal criança da guerra do Biafra no final da década de sessenta. Nunca mais as esqueço, barrigas enormes, prenhes de privação. Umbigo espetado para fora. Boca pintalgada de farinha que bebiam gota-a-gota por esquecerem por que a haveriam de abrir. Se não fora cuidadosa morrer-me-iam nos braços, mas por comerem.Sou subnutrida de tacto. Minha mãe não me sentia a trama da pele. Não me cheirava. Não me ouvia o coração. Só o fazia quando queria testar a febre. Mal me via cabisbaixo olhava-me como uma leoa que protege sua cria, ”tens olhos brilhantes, anda cá para ver essa febre”. Encostava-me os lábios na testa e voltava a fazê-lo de seguida, desta vez uma das mãos na minha, e outra na sua. De seguida, o contar das pulsações. Só assim havia toque, comunhão, relação maternal-filial. Isso fez-me gostar da relação febre-doença. Ganhava interesse redobrado. Se fragilizado havia mais mãe, mais um toque, mais cheiro, macieza.Pestanejei, braços pendidos ao chão durante o abraço.Tantos abraços lembraram quando vestia lã. Picava-me. Senti naqueles abraçamentos voltas e voltas enormes de cachecóis de pura lã. Quando via, falava ou sentia lã percebia que as ovelhas eram a minha desgraça e eu a delas. Impossível tê-la no... read more

“Tears in Heaven”

ESTADO: Braga, 21 de Novembro de 2013 Há momentos em que as palavras não servem. Não saem. Não queremos ter de as dizer. Não queremos vê-las voar e elas fogem-nos. Não sabemos como podemos dizê-las, nem imaginamos como elas são; que corpo tomam; que força possuem; que caminho querem; que espessura, que textura, que medida, que linha, que ponto – tudo zonzo. E acontecem lágrimas. Com elas procuramos ir ao infinito seja lá onde for esse lado nenhum. Até que uma luz nos inunde e elas saiam e se encham de água, oceanos e rios carregados de loucura para limpar a seco o nosso real. Aqui ficam elas – poucas, quase nenhumas – porque estes amigos são muito especiais. Cristina Brandão Lavender (Nicha) e Tony Lavender... read more

E agora?

Ausência de ti lê-se. Não sente igual, não énem mal nem bem,é desgraça ou graçade renascer, enquanto durar ou porcicatrizar, enquanto não for ou deixaro ser, o pensar em ti é mesmotodo: artificial. Passa a riso forçado,sorriso de olhos molhados,passo de pés pesados,voz e pensamento irritado. Verdade ausente encandeada da luz, a verdade escondida nas linhas de cruz, verdades a perderem-se no chão do quarto, verdades do outro lado do abraço, verdades no existir na prisão do cimento, verdades mortas por não sermos nós, uma mentira na escuridão das mãos, no jogo da cabra-cega, do tempo. Acordo, suspiro e fujo com as pernas que tenho, para um respiro livre, enfim no despenho da ausência de ti. CRISTINA BRANDÃO... read more

desfez-se em pó

Quero a vida de volta, aqui e agora o perjuro, no olhar o fim do mundo nesta escarpa, enquanto respiro a espuma deste mar que inunda  de sal todo o sonho de um planeta desnudo. E ao tomar conta da essência que queria  encontro este mesmo dia a surfar na espuma  das ondas, a pique, no vazio, montado na prancha  da mentira de uma só palavra: amor. Acordei e vi o que afinal não eras, vesti-te de histórias despidas da verdade. Na memória, essa seda de que te inventei, desfez-se em pó no colo, desfez-se em nada, num acordar sonolento de quem ouviu há muito tempo que amas, que desejas; e sem mentiras: o quero. CRISTINA BRANDÃO... read more

Nas li_______nhas com Cristina Brandão Lavender “Nunca”

“Nunca digo que nunca, nem quero convencer ninguém. Só quero ser eu em ti. Este ser “tu” representa a humanidade, refutando chicos espertos, reis em terra de cegos, aduladores, hipócritas, todos os que vão na mania que são – especialmente porque não são – certinhos, direitinhos.” in SABER... read more

ACORDA

Olhas-me sem ver, tocas-me sem sentir, falas sem me ouvir, gostas-me sem provar, Espremes-me sem procurar, Abafas-me sem tocar, puxo mãos de ti: para te amar. Pego no diagnóstico de cegueira, seguro na cabeça os óculos escuros, tacteio, braços em riste, um passinho de pé, neste corpo, o hirto, sem prumo, em preia, na procura de um rumo, bruma adentro, mar à espera de maré, tal galé de encalho na areia. Instalo um GPS, busco no mapa: ponto de partida mais ponto de chegada; encontro o vazio, sem eco, o nada e as coordenadas: de um olhar que não está, de um andar que é o peso sem voo, de um espaço que não se preenche, de uma existência que se desmente, num relógio no pulso de um fantasma, na espera que a ablepsia desvele o carma, no caudal de leite desse homem que não era, não é, nem será, sem um eu, nem povo, nem gente: apenas carne, e dente. CRISTINA BRANDÃO... read more

“Ah, se eu pudesse” não se coloca.

“Ah, se eu pudesse” não se coloca. Se eu posso, então eu quero. Não vou, não estou com ele. Pode dar-se o caso, e aconteceu muitas vezes, de me sair essa interjeição “Ah, se eu pudesse”, mas logo venho a mim e pergunto: que ou quem to impede? É. Pertenço aos humanos mais difíceis de controlar. Pertenço aquela raça de pessoas que o controlo não existe no dicionário, não pisamos, nem passamos por cima de ninguém, mas pensamos, sonhamos e realizamos. Não nos dispomos ao “Ah, se eu pudesse”. Tudo o que achamos minimamente interessante, importante ou fundamental que se faça: faça-se. Mais. Não nos sai da cabeça enquanto não o fizermos. Fazemos logo daquilo o nosso cavalo de batalha. Não das batalhas a cavalo, de baioneta, ou atómicas. Podiam ser. Mas não são. São as bandeiras universais da vida. Não descansamos enquanto não formos arranjando soluções aqui e ali mesmo para as mais difíceis. São batalhas em forma de palavras, no papel, nas redes sociais, nas salas de espectáculo, nas escolas, por trás de uma imagem, numa avenida, num aeroporto, em qualquer lugar. Chamo-lhe as minhas batalhas de comunicação acção. São as procuras, as pesquisas, as experiências. Quando vejo, vivo ou sinto que algo me debulha as tripas, numa tentativa real de fritura dos neurónios, ou que apenas me impele a toda a força para uma questão de fazer, acontece que ouço uma voz forte, grave e muito serena dentro de mim: podes e deves. Sim, porque só se diz “Ah, se eu pudesse” quando se tornaria marcante que acontecesse. Então quando se coloca a questão o Ah,... read more

último dia do pessimista

esqueço o quanto jurei casar a morte com a vidaaquela que teimava ser a minha sorteesqueço dar um passo em falso, de perder o nortedeixo a doença, o percalço deste ser rumado ao cadafalso. deixo o medo da descoberta da angústia do viveresqueço e deixo em testamento assinado por minha mãoo total desprezo por esta vida de cãodeixo e esqueço a inacção, a minha eterna crença na desilusão. esqueço, deixo e vou enfim fazer qualquer coisa por mimdeixo portanto eternamente o lado negativo de pessoas, coisas e animais,esqueço e deixo a má históriadeixo e esqueço a espera contínua de sabor a chicóriaaquele mais que se arrastava e nunca saía do cais. esqueço o pensamento fixado no último suspirodeixo e esqueço este cansaço e mato o desespero de trocar o mal pelo malnesta existência sem um pingo de sal que ia de mal a piorna persistência, insistência e na demência do sintoma fataldeixo e esqueço o prejuízo, a calamidade e a desgraça maiora ofensa, aflição, o desleixo, a inacção, a falsa falta de juízo. deixo o medo de receber sempre um nãoesqueço e troco-o por um sim, esqueço e deixo tudo, entãocomo quando me sentia coxo, enjeitado, inconvenienteesqueço e deixo este flagelo, enfermidade pessimista que não é mais minha. deixo a estupidez de ser o que querem que eu seja, deixo porque a esqueço de vezagradeço porque esqueço o quanto jurei casar a morte na vida. CRISTINA BRANDÃO... read more

neura menopáusica

Estou com dores de cabeça. Foda-se, não peço desculpa nem que me peçam de joelhos. É neurose. Neura da pior. Aquela neura que só se forma porque deixamos de respirar, esquecemo-nos que a vida pode entrar e sair sem bater, sem sequer receber notificação oficiosa. É. É a puta da neurastenia que se apanha com a menopausa. Essa mesma menopausa que trouxe também, à maioria das mulheres, um calor que vem de dentro, seja Verão ou Inverno. Também um gelo, uma temperatura negativa de muitos graus abaixo de zero, igualmente parido do núcleo de um útero que já não consegue criar. Uma neurose com as hormonas aos pinotes como as partículas de Bosão de Higgs que provou ser, até este momento, a menor manifestação de matéria ínfima e infinita.  Até ao actual momento, a neura continua e o respirar que tanto ajuda continua esquecido. Essa neurastenia da neurasténica mulher menopáusica piora substancialmente porque ela pensa sempre que ninguém a compreende. Para esse grupo etário a vida tem agora um sentido muito maior. A sua capacidade de ver é muito maior. A sua capacidade de amar é muito maior. Mas ninguém dá por isso. A sua capacidade de irritar os outros é também proporcional aos saltos hormonais que o seu corpo frenético, poético, neurálgico abraça. E a neurastenia continua. E o facto de pensarem que conseguimos controlar o pensamento, ou seja, que conseguimos deixar de pensar quando querem, é patética, e continua. Pensamos como respiramos. Todos. Neurasténicos ou não. Nem nos damos conta. Não nos apercebemos. Caso contrário também correríamos o risco auto suicida de parar voluntariamente o acto de... read more

verdades

“Quem me vai gritar as verdades reflectidas nos espelhos” dizia o espelho que decidi roubar dela – a minha amiga Fabíola. São delas estas palavras. Nas “Vozes em Mim”, entre muitos outros versos que se fundiram nos eus que vivo, estas caíram aos meus pés. Foram para elas os meus olhos com água. E, com estas escritas do espelho, vieram mais umas farpas pontiagudas das que me acertaram hoje, na ausência do abraço forte do alguém que me adormece, que me toca, que me deseja.“Quem me vai gritar as verdades reflectidas nos espelhos” serei eu. Eu sou e serei sempre a mais cruel das censuras. Sou eu que me abro portas que cerro sem jeito, em estrondo, sem deixar dar ouvidos às vozes e aos silêncios que elas encelam. Sou eu, nessas alturas, viajante sem corpo, noutras sem alma e sempre no desejo a realizar-se na procura das verdades que desconheço e que não deixo que me escapem. Mas escapam. E vivo em câmara lenta, muito lenta, numa conquista das portas que se fecham por janelas que se abrem. Porque sim. Porque olho as verdades nos espelhos, na ignorância, na simplicidade, no limiar do ser humano. Sem os gritos dessas verdades simples, essenciais e claras, a linguagem perder-se-ia nas areias da vida. A força centrífuga das verdades que quero ouvir, nesta noite, noutra e sempre, atirar-me-ia para o interior do cone – olho de um ciclone potencia cinco – devastador.Por vezes fico surda ao som de algumas verdades e ao perdê-las desvivo no gosto de ti, no quero-me em ti, no sou eu porque te vi. Perco-me no abraço... read more

CIRCO

Preparavam-se com a ajuda de todos. Montaram o circo, no circo da vida. Como na vida penteavam-se, alinhavam-se e, aos berros para se fazerem ouvir, chamavam. “Ó Joeeeeel, tens uma p’ra mim e uma p’ra Sónia.”Cada um açambarcou o mais que pode porque a vida é parca no distribuir por estas bandas. Nas caras de uns lia-se o que pensavam: “Mas que estou aqui a fazer? Evito passar por este espaço todo o ano.”“Estou aqui, quero ouvir e ver a magia.”Das bolas aos fios, às cordas, e aos nós cegos que a vida também lhes dá, certamente as fitas “sou, sou eu, eu, eu”, “dá-me, dá-me, dá-me”, com as palmas soarem fortemente, com o ruído necessário à ocasião, umas mais com as duas mãos, outras com mão a bater na perna do filho ao colo como se sempre o tivessem segurado nessa posição. O circo ia ocupando o seu espaço à volta da assistência. No entanto, as verdades chovem por todos os lados. “SÓ SE LEMBRAM DOS CIGANOS QUANDO HÁ VOTOS. “Bola, corda, tesoura, água, girafa, rebuçados, cores, notas (que o bom cigano vê melhor a contra luz não se vá dar o caso de a mesma ser falsa). É mesmo mentira. O mágico esqueceu-se que as mentiras têm perna curta e que aqueles que estão a ver o espectáculo de lado só querem descobrir a farsa – não de frente como é suposto – de lado apanham muito mais do que a verdade encoberta de magia, como na falsa magia feita à vida. Todos se apressam a chegar mais perto do mágico. É ele que agora lhes conduz... read more

disfarce

Do que gosto mais no mundo do disfarce é, sem dúvida, do “cair da máscara”. Aquele fim do engodo, do engano, do fim da personalidade fictícia que tanto tinha a esconder, do que ficou só, com o rabo de fora, e também todo estatelado no chão da praça mais pública da capital do país. Sim. O cair da máscara é muito melhor que o fechar do pano no teatro. É o chegar ao fim do artefacto, do adereço, do fictício. É acabar com o que não queríamos mais. Nunca mais. É o baixar do pano mais esperado. Mesmo que o cair da máscara seja um esperar paciente, não interventivo, por parte do público que o cerca, é sempre mais doloroso para o que esconde em si, a sete chaves, a sua identidade. Não nos cabe dizer quando cai. Cai quando menos espera aquele que a colocou, moldou e escolheu. Não pode mais com o peso. Máscara sobre máscara, sobre máscara, sobre máscara. O chumbo venceu a gravidade e zás. Abriu a cratera no chão da sala de estar, na esplanada do café, no acto sexual, no comer da sopa, no programa de televisão, no contrato celebrado, em qualquer lugar-comum. Não vai estar sozinho para a apanhar. Fica nu. Completamente nu. Desfolhado. Sem imunidade. Entregue a si. Sem as defesas que criou para se proteger de si mesmo. Sim porque a anteface era mais para ele do que para qualquer outro. No esperadoiro, à sua volta, todos sabiam. Menos ele.Caiu-lhe a máscara. A Velha-Escrita, 4 de Setembro de 2013 CRISTINA BRANDÃO... read more

Isaac César Andifoi (cartas que já não se escrevem)

Quando ainda ias a meio da vida, quando nos íamos continuar a unir, a construir e a dar corpo sensato a pequenos planos de uma grande importância; quando lutámos e quero acreditar continuaremos a lutar por uma África ainda mais linda; quando respiravas o nosso ar, vias as nossas estrelas, sentias as nossas tempestades, as nossas brisas, as nossas águas e o sol quente e mais brilhante na nossa África; quando ias começar mais uma importante peça do puzzle da tua vida: partiste. E eu fiquei. E nós ficamos.

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tráfico humano

Entrei decidido no escritório do meu redactor-chefe do Semanário EXPRESSO.“Preciso de ir a Deli. Fazer uma reportagem incrível. Apareceu uma rapariga russa de 17 anos morta, melhor, assassinada, na margem do rio Rio Yamuna. Dois tiros na nuca. Execução sumária.”E qual é o interesse dessa história? Queres ganhar umas férias, é?“Espionagem e tráfico de carne humana. Recebi uma carta de uma colega que não se identifica. Atirou com a carta para cima da secretária do chefe.”Achas que tenho tempo para ler isto? Achas que não tenho mais nada que fazer? “Se não leres, se não pegares neste assunto, mando imediatamente uma cópia PDF para a RTP e perdes a oportunidade de ganhar o prémio Pulitzer 2013.”Tás muito engraçadinho, hoje. Tás mesmo. Agora desanda; vai trabalhar Yuri. “É a tua última palavra?”É.Peguei na carta sem lhe dar oportunidade de a começar a ler e saí. Precisava de apanhar ar. Decidir o que fazer. Esperei uns segundos apenas.“Entro de férias neste momento. Deves-mas há três anos. Se me quiseres despedir ainda melhor. Fui. “ – bati a porta com estrondo. “Grandessíssimo anormal.”“Tenho de ir urgentemente para encontrar esta rapariga. Isso é indiscutível. Andei de carro às voltas pela baixa de Lisboa, como um louco, a matutar no que fazer. Devo estar maluco. E se não passa de um embuste?Vou seguir ou não o que ela me sugere?Virei para o aeroporto.Nem vou a casa avisar os armários. Entretanto a caminho do aeroporto, encostei em Monsanto, peguei no meu portátil e no meu Tablet. Google: Voos low cost para Deli. Voos Lisboa-Delhi 278€ – Voos-Lisboa-Delhi.eDreams.pt‎ Entrei em booking. hoje não. ok -. amanhã sim um... read more

sempre

Sempre só existe no pequeno, minúsculo, quase imensurável, momento do agora. O sempre não é sempre. É quase sempre uma mentira. É, a maior parte das vezes, a maior mentira de sempre. “Quem disser que se pode amar alguém a vida inteira, (para sempre), é porque mente”. Ou nem sempre.  Quem disser que sempre acorda amanhã, logo, ou depois, que beija ternamente e eternamente os que adora, ou está certo, ou mente – sempre. Quem disser que é sempre dono do tempo, aquele que é, que corre ou que se arrasta e se mede de igual modo, para todos, que se usa, abusa, perde, desperdiça, amarra ou agarra: mente sempre. Ninguém é dono do tempo: sempre. Ele é não eterno, finito, infinitamente e infelizmente sempre limitado: sempre. Sempre que acordo e caminho, num mergulho, para a rotina, os gatos sempre a roçarem-me nas pernas, os cães sempre a saltarem-me ao pescoço e eu sempre cambaleante de sono à procura de um café para começar o dia da família, a olhar-te com inveja, ainda a dormir, sempre a prolongar o momento de acordar: sempre.  E, quando somos mães, somo-lo para sempre. Para toda a eternidade da vida que parimos, e doutros para além dela. Sempre mães. Mães dos nossos filhos, dos filhos dos outros, dos amigos, desconhecidos, de ti mãe, de ti pai, de ti tia, de ti amor, de todos os que existem e precisam de um carinho de mãe que não lhes durou: sempre. Sempre. Ninguém tem o direito de me roubar, da mente, o sempre de todos os primeiros e contínuos pedaços que quero colocar aqui, para... read more

nunca digas nunca

nuncanunca digas nunca.aceitas o tempo cruel deitado nas rugas a marcarem o teu corpo. nunca?o efeito da gravidade planetária a levar em direcção ao chão todas as carnes do teu feminino, numa viagem ao mundo afamado como torto. nunca?mais tudo o que te impinge o espelho, como fora do lugar, na crueldade da idade que avança num duplo queixo e joelho, tão inevitável como a morte a chegar, sem dizer nada também. nunca?e persegues o taxado como belo nos ecrãs da televisão, nas revistas do prelo, nas passadeiras, na convenção de roupas e tamanhos de ninguém. nunca?e vais no vício da intervenção cirúrgica, no retalho da carne por um sábio da estética, na fixação simétrica das partes do teu eu, depois de riscadas, desenhadas na pele a rigor, com lápis de cor, textura especial por um doutor da beleza fatal.  nunca?reduzes a fracções o físico, onde velhas peças fora do lugar se transformam em repartes cozidas, repuxadas, alisadas, com competência arquitecta. nunca?esqueces o que vivia dentro de ti, qual a idade que terias, a sabedoria que viria, o que é do tempo, da tua felicidade, de te teres, de te seres e de te tornares o que é verdade. nunca?desejas o medo de estar na cama a dormir, de acordares com uma das peças fora do lugar, a apalpar os pedaços retalhados com medo de te desunir. nunca?queres subir as escadas com as articulações a doer, a ranger e a arfar, numa cara sem idade, numa alma insatisfeita que não é tua, nem por dentro nem por fora e mui longe de ser perfeita. nunca?queres sentir-te como nada, sem... read more

Texto vozeiro? Nunca.

Nunca mais me quero afogar na vozearia. Nem na minha nem na dos outros. Os anos passam e a minha verborreia tem vindo a diminuir em substancia. Especialmente quando agarro o corpo e a consciência dela. Peço fervorosamente, imploro a quem amo, porque quem confia ama, que me dêem um pontapé certeiro por debaixo da mesa, um apertão na mão, um beliscão no braço, uma palavra senha, conforme o tamanho da minha excitação verbal, quando me estou a perder e a exceder num palavrório sem sentido, maçador, mesmo indigesto. É verdade. Cada vez dou mais valor a um silêncio de ânimo e de anima, responsável pelo equilíbrio físico e mental. Um silêncio que não é constrangedor, adicionado a gestos desenhados pelo incómodo, indecisão, logro, desconforto e mentira. Os gestos são palavras incríveis de sinceridade. Gestos de mãos que se apertam ou se tocam sobrepostas quando precisam de ganhar tempo; da mão em maus lençóis, sem sinceridade, quando vai atrás coçar o pescoço, a ponta da orelha ou a testa; a mão do pensar a afagar o nariz de cima para baixo; o pousar na testa fazendo um tripé com três dedos – três pontos, um equilíbrio perfeito no plano – como quem se concentra para trazer uma ideia de jeito, para o papel, para o ecrã. Sem vozearia comecei a ler nos olhos das gentes. O que dizem e principalmente o que não dizem. E trago-os. Sem dó, mas com piedade, bondade e comoção conseguidas, para o meu teclado, para te levar. Sem palavrório leio num olhar fugidio quem esconde algo verdadeiro ou falso que não quer revelar o... read more

não quero um sonho

eu não quero um sonho, quero verdadeexercer o poder de querer, tanto por eles como pelos outros que os vão elegerquero poder confiar em homens que me vejam em total humanidadeque usem o olhar do ser, o olhar do viver, o olhar do estar e do pertencer eu não quero um sonho, quero realidadequero que calcem sandálias, as minhas, cambadas pelo uso do que a vida me pode oferecersorrir da alegria de merecernão pelo que vou ter, comprar ou vendercom meus filhos paridos, num acto de pura bondade e prazera rever-se na realidade do sonho que cada um deles quer terdivorciados, em pleno, do amor louco ao poder eu não quero um sonho, quero sersem ser adereçodeixar a minha pele respirar livrementesem o pavor de calcular o montante que mereçoporque sou livre de alma e pensamentome entrego com força ao labor do que faço eu não quero um sonho, quero um pedaçonão quero depender de grupos de favoresdos sobrinhos dos tios de um conhecido imponentena empresa de um bem colocado, a quem sorrir desalmadopor vantagem, na voragem, sem lutar por ideiasa vender-me o sorriso abertohipotecando a vida por completo eu não quero um sonho, quero verdade. CRISTINA BRANDÃO... read more

continuo enjoada

Continuo enjoada e não estou grávida. Como é que eu explico, exemplifico e pratico com os meus filhos, alunos e amigos o horror que tenho da mentira. É que a minha filha dir-me-a: “Mãe, foi uma mentira substancial.” E eu, como a Mafalda do Quino, desatarei a rir à gargalhadas. Ou então pego no mundo redondo, globo eléctrico iluminado,  e digo-lhe a maior mentira de uma só substância:  “A Política em Portugal, neste momento, é um serviço nobre e público.”  Logo se seguida envio-lhes por SMS o link  do dicionário para saberem qual a definição de mentira.  Como é certo que não sabem ler gravo em ficheiro .mp3 e clico: “enviar”: MENTIRA 1. ato ou efeito de mentir 2. engano propositado; afirmação contrária à verdade, com a intenção de enganar; peta; falsidade 3. embuste; erro 4. ilusão 5. vaidade mentira In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-07-29]. Disponível na www: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/mentira CRISTINA BRANDÃO... read more

pescador de palavras

pescador de palavras pleno de contradiçõeso poeta transforma-se num poema. preenche-se de hesitações, imprime à poesiasentimentos tão fortesde sentir e de melancolia. ávido de soluçõeso poeta transforma-se num poema. as batidas mui rápidas do sangueestádio da emoção gigantemuitas vezes inventada numa formula matemáticaelevada ao quadrado em medições moraiscegas que se desencontram de uma solução prática. possuído pela doro poeta transforma-se num poema. nos anais do transe, do êxtase, da paixãoda mulher, da traição, do amor e da sorte o poetamais o tema da mortee porque deveras sentetransforma em poesia o ferro em brasa quente. do corriqueiro e do vulgarnasce um sentir perversode tanto pensar numa verdade que o cegaarranca-se, fere-see pr’a não morrerna palavra pega. CRISTINA BRANDÃO... read more

Instinto e Educação

Micos e Quicos a conversarem Sempre sonhei ter um exemplo prático, palpável, irrefutável sobre a diferença entre conceito de instinto e de educação. Encontrei-a nesta foto do Quico (o cão) e do Mimos (o papagaio).Estes dois lindos animais a brincarem alegremente, na sala de estar da casa da minha irmã Quicas, deram-me a resposta que há muito tempo perseguia. Mimos deita a comida para o cao comer  e ele gosta Apresento-vos o Quico e o Mimos. Um cão e um papagaio educados em família, habituados um ao outro, a aceitarem-se como seres diferentes, com linguagens diferentes, com atitudes diferentes, de meios muito diferentes. Brincam e convivem. Consentem-se na sua diversidade. Não tentam imitar-se um ao outro. Estão educados. Não fora isso e o Quico e o Mimos, encontrando-se em ambiente natural, usariam do seu instinto também natural e perseguir-se-iam até à morte. Eles suplantaram o seu instinto no DNA através da educação no seio da família. Eles são educados.Não menosprezem o poder da educação. Não a asfixiem nem a manipulem. Não dividam para reinar. Um país que não investe em educação é um país com um futuro delinquente. Um país que não investe em saúde é um país com um futuro doente.Que queremos para o nosso país?Que queremos para o mundo? CRISTINA BRANDÃO... read more

um tempo e um espaço ∞?

18 de Julho de 2013 Somos uma família normal. Vivemos numa família normal. Como uma família normal. Vivo com eles, num tempo normal. Vivo, neles, num espaço normal. Toda esta normalidade reveste-se ainda de um superespaço (absolutamente comum), aquele que tenho a capacidade ou descapacidade de afrentar, examinar, suportar, pegar pelos cornos, sem ser do touro, da vida.Ninguém pode privar-se de concordar que esta história é feita de “tristezas e saudades”. No meu superespaço (absolutamente comum) entram também, sem baterem, sem convite, “tristezas e saudades”, com um enorme despudor que não me desagrada nem me surpreende, com a verdade do seu existir, da mesma forma como eu tomo o café da manhã, organizo o jantar de família todas as semanas, durmo, como, e como tenho enxaqueca irritantes duas a três vezes por mês. Estou sempre à sua espera, sem esperar, com alegria e coração aberto, com uma bondade que quero ter, mas que tarda sempre mais um bocadinho em aparecer. O que não entra, pelo menos quando eu estou de guarda com o meu canil, é o infinito mal que essa verdade pode causar ou a perda de tempo que é fazê-las ainda mais intensa do que realmente já é. Uma total capacidade de perder tempo é a única realidade que espero nunca alcançar. Arrepio-me só de pensar no dano que pode provocar como se me desligassem ao suporte de vida nas urgências onde eu me poderia ainda recuperar. Já lá estive muitas vezes, só ou com todos os meus amores mais próximos, com outros, e declaro que é donde quero sair sempre, com mais saúde do que lá... read more

e cheguei

e cheguei.cheguei com os olhos a rirem escancaradamente para o verde, os verdes, milhares de verdes que me abraçavam. cheguei. cheguei abraçada ternamente pelas montanhas, com veludo nos dedos, a acariciarem os cabelos pintados da mesma cor de quando criança.cheguei e não disse nada. cheguei e senti que sorria e espiava, num olhar encravado no útero da mãe amada, atenta aos gestos de  criança alegre, e cuidava do rolar do arco de ferro na vareta de ponta recurva a testar o engenho da manobra, rua abaixo, seguida por uma matilha de cães escanzelados em procura da caricia da mão suave e pequena e de um naco de pão esquecido pelo caminho.cheguei. cheguei e sorri sem saber que sorria. cheguei e sorri com os lábios, com os olhos, com o corpo, deitada no colo da mãe querida, enlaçada de verde, protegida de ternura.cheguei e senti.e cheguei. Cristina Brandão... read more

nunca

nunca nunca digas nunca. aceitas o tempo cruel deitado nas rugas a marcarem o teu corpo. nunca? o efeito da gravidade planetária a levar em direcção ao chão todas as carnes do teu feminino, numa viagem ao mundo afamado como torto. nunca? mais tudo o que te impinge o espelho, como fora do lugar, na crueldade da idade que avança num duplo queixo e joelho, tão inevitável como a morte a chegar, sem dizer nada também. nunca? e persegues o taxado como belo nos ecrãs da televisão, nas revistas do prelo, nas passadeiras, na convenção de roupas e tamanhos de ninguém. nunca? e vais no vício da intervenção cirúrgica, no retalho da carne por um sábio da estética, na fixação simétrica das partes do teu eu, depois de riscadas, desenhadas na pele a rigor, com lápis de cor, textura especial por um doutor da beleza fatal.  nunca? reduzes a fracções o físico, onde velhas peças fora do lugar se transformam em repartes cozidas, repuxadas, alisadas, com competência arquitecta. nunca? esqueces o que vivia dentro de ti, qual a idade que terias, a sabedoria que viria, o que é do tempo, da tua felicidade, de te teres, de te seres e de te tornares o que é verdade. nunca? desejas o medo de estar na cama a dormir, de acordares com uma das peças fora do lugar, a apalpar os pedaços retalhados com medo de te desunir. nunca? queres subir as escadas com as articulações a doer, a ranger e a arfar, numa cara sem idade, numa alma insatisfeita que não é tua, nem por dentro nem por fora e... read more

um diálogo informal, infernal

Que dia infernal. Sou conhecido como o anticristo, anti isto, anti aquilo, anti-tudo. Mas afinal o eu, quem sou? Eu? Estou confortavelmente sentado na sala de estar da D. Margarida que foge de mim como quem foge do diabo ou como eu, diabo, fujo da cruz. Da cruz do Cristo, claro está, que nunca me quis dar ouvidos e que por si só me deixou ao abandono, a falar sozinho no monte escarpado onde o tentei as vezes que me apeteceu e nas quais ele nunca caiu. Eu? Reencarnei sucessivamente nestes últimos dois mil anos, neste dilema de vir ao mundo atazanar a vida às pessoas como a D. Margarida, uma normal dona de casa, que leva uma vida infernal, segundo as suas próprias palavras e que, com estas e outras verborreias, me atraiu à sua presença.  Encarecidamente, pedi-lhe desculpas pela minha nefasta influência na formação da sua individualidade. Bati-lhe à porta três vezes e os três cães ladraram desalmadamente. Nada de anormal até aqui. Ladraram aos meus ouvidos, chegaram a ensurdecer toda a vizinhança que, por terem também cães e por pressentirem a minha presença satânica, ficaram deveras perturbados, com o pelo eriçado, salivando como lobos apesar de não o serem e estarem completamente domesticados. Eu?  Insisto que não há novidades neste tipo de comportamento por ser comum a toda a raça humana que se serve de mim para explicar o que não lembra ao demónio, mas que todos eles praticam com uma fé inabalável. A senhora Margarida disse para os seus botões que aquilo não lhe podia estar a acontecer, mas suspeito que essa frase era uma... read more

GOSTO

“GOSTO” por CRISTINA BRANDÃO LAVENDER “Só clico gosto nas coisas que gosto verdadeiramente,Só o gosto quando realmente vejo.Só o gosto nas coisas que realmente leio.Só o gosto nas coisas que oiço até ao fim.Só o gosto nas coisas que realmente fazem sentido para mim.Qualquer outro gosto é um grande... read more

SOU EM TI

os meus olhos pousaram-te indiferentesaté que os caminhos da casa nos conheceram os passos descalçosaté que te quis mais lentamente, avidamente, sem esvaziar de surpresa nossos abraçosmuito mais do que um beijo nos lábios vivo-te num beijo longo que é o prolongo das mãos do meu corpo em teus pedaçosporque te vejo e revejo como estrelas a abrirem-se em janelas de sorrisos e palavrasem que a rotina não entra vazia como um mortoem cada momento, no café da manhãnos gestos automáticos de mais um dia. vivo-te. vivo-me num beijo longo que é o prolongo das mãos do meu corponas letras trocadas a formarem palavras incríveis de gestosonde sem persianas no olhar dou gritos surdos por tivivo-me em tinão me digas adeus para me deixares aquinão esvazies de beleza nossos enlacesvem comigovens em mim desde o primeiro momentovens em mim no desejo cheio,vens em mim num silêncio sincerovens em mim pois sou de ti por inteiro sou. sou o viver se te vejo ficar comigo na mesa ao jantarsou. sou o querer oferecer-te qualquer lugarsou. sou de lado nenhum sem tisou. sou sem magia. sou uma cama vaziasou falta da parte do teu todo em mim vou. vou onde não saiba que te perdivou esta noitevouvou inteirovou em ti Cristina Brandão... read more

Demito-me

“Demito-me.”“Fico. Não aceito a demissão irrevogável …Não abandono o meu país.”Mãe, que vai acontecer agora ao governo? (eu continuo a lavar a louça, trombuda, temendo maior investida de perguntas)Pai que vai acontecer agora? …Pode haver um governo presidencial!…Mesmo … eleições … credível … respeito …. consiga ganhar eleições…… eleições quem garante que o PS ganha? E se ganhar quem garante que o … quer uma coligação com o …? Pode preferir uma coligação de esquerda PS+BE+PCP+CDU+…“Vou arranjar as unhas. Mãos e pés.”Nunca arranjas as unhas. Agora…“Agora arraaannnjo. Posso? Ou só o governo é que pode ter atitudes fúteis, irresponsáveis e sem pés nem cabeça?”Poça. Nunca mais falo em política…“Boa. Iiiiisso meeeesmo.” Saí de casa. Mesquinha, irresponsável, perturbada. Telefonei. Caty, preciso de gelinho prás mãos e pés… Tenho a certeza. OK. Sim, vou a pé. Estou aí antes do fecho. De manhã espicacei Leonor. Rápido. O pequeno-almoço está na mesa. Despacha-te. Tenho que te levar à escola. Com Carlos, o silêncio do costume. Nem um vocábulo. Um morto vivo para mim. Saí do quarto. Espreitei à porta.Estás acordado? Não adormeças.Há muito não durmo. Há muito não vivo. Pensei nele. De olhos escondidos à espera que saísse do quarto para não me mirar. Para onde foste Carlos agora que preciso de ti? Apressei passo. Começou o aperto na garganta, o coração descompassado, o estômago a doer, a sensação de não respirar. Adivinhava o que se iria seguir. Primeiro o tremer de frio, os dentes a baterem, castanholas, os vómitos, a diarreia. O braço esquerdo paralisará. A perna e a boca ficarão ao lado. Cairei sem sentidos. Com sorte uma ambulância; acordar no hospital. Medo.... read more

um carro velho é só um carro velho?

“Um carro velho é só um carro? – pensei“Hei, tu”. – ouvi eu. Olhei para trás. “Donde vinha aquela voz arrastada quase a ir-se abaixo?A alguns metros um velhinho Xantia azul.”  “Sim, tu.” – aumentou ele as rotações.  “Hoje tu vais tomar o meu lugar. Hoje. Vou para abate. Vais tu rolar e rodar o meu mestre. Nosso mestre. Fazer numa nova viagem. Romper o asfalto. Muito menos ruído, muito menos fumo, muito mais conforto. Uma beleza!” Aproximei-me acanhado e desconfortável mediante o seu aspecto. “Ainda agora aqui cheguei e já me falas do que nada sei.” “Atenta. Vem. Trava. Deixa-me tocar-te. Passo-te, nesta transfusão de fluídos oleosos e eléctricos, toda a experiência acumulada. O mestre tomou a decisão acertada. Preciso de to dizer enquanto ainda tenho esta réstia de vigor. Não te guardo qualquer raiva. Essa, aprendi eu, corrói tanto ou mais que a ferrugem e o tempo juntos. Vê-los no meu chassi?, são evidentes. Pelo contrário, quero preparar-te. Estás pronto?, estás em condições de me substituir?, sabes o que é pensamento, sentimento, emoção?“ “Apenas o que penso agora. Tudo o que dizes é estranho. Por isso quero conhecer-te melhor. Abalas-me. Estranha-me essa tua perturbação.“ “Melancolia.” “Isso. Que seja. Assalta-me desde a primeira vez que ouvi essa voz roufenha e arrastada. Inconfundível,” “Deixa-me desabafar contigo. Não sou profeta da desgraça nem dos que desdenham de horizontes novos. Tenho pouco tempo. Hoje cortei a meta final. O meu mestre não to quer mostrar, mas está desfeito. Consumido pelas memórias que o acompanham. O tempo dele continua. Uma vida aqui sentado. Muito do que comigo partilhou dentro e fora desta... read more

não somos sem ti, professor

não somos nós numa sala vazia, não morremos de esperança e alegria.não vemos nada nesta neblina cerrada,não abrimos os olhos se não nos dizes nada. não é ilusão a imperfeição malfadada deste mundo,não são enganos dos sentidos duma alma sem fundo.não são anos contados em décadas ou séculos,não são perdidos nem achados estes pensamentos belos. não abrimos mão do sonho da ilusão, do amor, do olhar, do sentir e do pensar. não sei se sei, se existo, ou se é ilusão.não sou eu, ou tu, ou ele, sem o sentimento.não acredito em nada sem a gratidão e o momento.não somos números, nem gráficos, nem estatísticas do conhecimento. não somos gente de uma só geração.não vemos, nem recordamos,não sonhamos, nem quantificamos a reacção,não fazemos a mínima ideia como sentir o coração. não sabemos o que vemos no espelho.não nos dás o choro, o riso e o desejo.não julgamos nada sem essa tua figura,não aceitamos nadar nessa mesma amargura. não abraçamos a ignorância,não somos mentes sem teus projectos.não desejamos mortos vivos, nem objectos de dor,não morremos de esperança e alegria:não somos só nós numa aula vazia. não somos sem ti, professor. Cristina Brandão... read more

Pousada em cima da mesa

A carta estava pousada em cima da mesa e estava, estranhamente, assinada por ela. Escrita há uma semana. Na escuridão da gaveta, a treva da vida. No comprido corredor do Hospital de Braga esperava uma consulta. Era rotina. Era mais uma tentativa de encontrar uma droga para as dores, na consulta da dor crónica.  A dor do corpo falava pela dor d’alma. Desde que perdera o útero perdera-se com ele. Gritava por alguém que a quisesse. Não era mais mulher. Tinha medo que ao tomar banho lhe saísse água pela boca. Era um tubo vazio. No lugar de onde lhe saíram os filhos não havia nada. Por onde entrara o louco prazer do esperma que os concebera: nada. Saída de casa, saía do mundo. Sabia que não podia dizer ao médico por que dói tanto a existência e a falta dela. Mais uma saca cheia de medicamentos para a moléstia. Levantei muito cedo. Ele escrevera uma carta e guardara-a, apressadamente, na gaveta da secretária quando chegou do escritório. Vi sem querer. Ele, muito ansioso, entrara e enfiara-a rapidamente. Foi um acaso. Seria a única vez de o vasculhar. Rasgava-se por dentro enquanto rasgava a carta. Silêncio, e a mentira, tomara conta de tudo.  Das refeições. Da casa. Do sexo. Dividiam as divisões como quem corta as metades do pão a torrar por doses. Por onde um andava o outro ausentava-se. Tudo de costas voltadas.  Estavam numa relação cheia de espaços, cheia de silêncios, cheia de ausências. Cheia de nadas. Lembraste como não conseguíamos viver um sem o outro? Agora a minha beleza não se perdeu, mas ganhou novas formas.... read more

Pensamento do desassossego

Foto de Jorge Santos o pensamento do desassossego mergulha em ti por mantos de trevas azuis tais fantasmas a rondarem o dia despertando um frenesim imprudente pondo fim a qualquer ousadia  o pensamento do desassossegotingido de névoa pela noite navega o mar da ideia surpreendida sem vergonha nem piedade de ti,por ti perdida quando pleno de maldade te esgana pela vontade vem o pensamento do desassossego assalta-te a nau vergastada ao vento faz-te dormir de olhos abertos trémulo a algum sinal uma sombra em forma de punhal que passa, espeta, atravessa se aloja na ferida e diz: “infelizmente, és ser mortal” este pensamento do desassossego vai de seguida em espiral prolongada ao vértex vertebral desfere estrago feroz, brutal, vigoroso deixa-te sem tento nem apego nervoso à míngua, à sorte, ao frio atroz tenso invisual vetado de razão e pensamento: animal em alvoroço esmaga-te o ser em forte desespero vida sem meta nem final golpe sólido e letal este ser de enorme pavor obrigado a enfrentar a morte é o pensamento do desassossego Cristina Brandão... read more

Carta de Demissão

resolvi não calar mais o peso da irritação que tenho suportadoos sintomas do mal-estar completamente instaladoa ausência de sentimento, ânsia e emoção no que faço e desfaçonesta escola sem cultura, nesta cultura sem ensino,nesta ausência de olhar o outro sem pensar na sua condição, raça, cor, ou religião,no duvidar constantemente da sua humanidade, de início e até ao fim, eles são aquilo que eu escolhi como arte da educaçãoe a falsa sinceridade que assenta na falácia de não saber se é ou não a sinceridade que fala, o egoísmo que reina e a vergonha que ganhaou se sou eu a causa de tanto dano, ou quem sou eu nos muitos eus que amanhonão desisto, e ninguém levo ao engano por só ter de acreditar que me levanto, tomo o pequeno-almoço e logo vou em grande alvoroço, que por espanto é no carro, onde passo o muito do tempo e do espaço, com a qualidade de pai e de mãeum de manhã e outro ao finalizar do dia, com a rádio por companhia, sem nenhum já ter cabeça, fingimento ou alegria, paciência, também de interesse para ouvir sem distração, saudade e coração que só mãe e pai sabem ter quando a condição humana daqueles por quem me responsabilizo, se transforma até ao limite em cifras de percentagem, metas, produtos, força bruta, gráficos de sucesso, de insucesso, no saber o que percebem,uma abordagem mais em quantidade do que qualidade, numa acostagem em tropel, falso, no papel, sem tempo para pensar o ser e o existir dos filhos deste país; na confusão da competência e da competição,na rivalidade e luta constantes de... read more

ele sonhou e deus perdeu as estribeiras

isto é para ti. sim, para ti que entras nos templos p’ra me procurar que negoceias com o pároco uma absolvição e nem te dás ao trabalho de ouvir a razão tu, parvo labrego, estupor duma figa tu que comes a mulher e a vizinha e logo a seguir te vais confessar ao estupor que violentou o rapazola, a irmã e a galinhola vê lá se te entendes de uma vez que não és melhor do que ninguém e que nada vês nem para te conhecer olhas mais além finges uma esperteza que não tens és um nome e pouco mais vales muito menos do que o pobre a dormir no cais e tu, supra-sumo da barbatana, sempre com inveja na algibeira no carro e na sobrancelha não és mais do que ninguém nem do que Eu. quem és tu? quem és tu, para entrares a matar com o machado de culpar? invejas os outros pelo que são ou deixam de ser quem és tu afinal, meu anormal? vives debaixo de esterco, ao montão palras sem saber, meu papagaio de maldizer que que tens? que vieste aqui fazer? tu és deus,  tu e todos os teus tu pára aí para pensar, algo que nunca te atreveste a criar todas as cosias que detestas, em ti moram são aquelas que em ti estão, as que mais são quem és tu? se te desses ao trabalho de olhar ao espelho, reparar e pensar verias que de tudo és capaz, que és deus como Eu agora, dá-te um abraço, faz um imenso silêncio acorda-te desse embaraço. Cristina Brandão... read more

Mini-conto “Não há médico para o medo.”

“Não há médico para o medo.” provérbio escocês No que diz respeito a ser uma pessoa  não tenho receio, nem medo, nem miúfa, nem pavor, nem nada. Embora seja o que pretendem: meter medo às pessoas. Comigo não funciona. Já não funcionava antes do 25 de Abril, não é agora que o vão fazer. Nem ontem. Mas tentam, ai isso tentam. E como tentam. Domínio pelo medo. Pelo caciquismo dos partidos, dos directores de escolas, das administrações privadas em escolas, hospitais, empresas de águas e electricidade, nos caminhos-de-ferro, nos correios, nas estradas e nos passeios; de gentes transformadas em números, em produtos, em massas, nova caça às bruxas, troca de influências e favores, e o prémio da incompetência.  Agora, a educação em portugal, transformou os nossos  filhos em produtos, força bruta, gráficos de sucesso, de insucesso e outros “qualificativos” absolutamente inumanos. Isso sim, preocupa-nos.  O que nos preocupa, realmente acredito, à maioria do povo Português, é a impunidade, a corrupção, a desvalorização de conceitos como o do exercício da cidadania livre e responsável.  Colocar aqui os nomes de alguns corruptos não interessa. Uma auditoria independente, externa, rigorosa poderá resolver e fazer isso por nós.  O que é irritante – e eu já tenho idade para me irritar com um determinado número de situações – é o estrabismo do olhar. Ao fim e ao cabo o estrábico vê a dobrar. Eu não. Eu quero ter o discernimento de olhar com olhos de ver, de pensar com modos de pensar, julgar as pessoas pelas suas acções, pelas suas capacidades e incapacidades, pela sua humanidade, pelo seu saber ser gente, pela sua generosidade. E eu confio. Não perdi a... read more

Afinidade Espiritual

Espíritos afins tu já tu já existias quando gritei e nasci pertencias aos dedos da procura nos olhos do amanhã pelos sulcos da palma que incendeia mãos em mil eras de espera onde foste tu? onde foste tu se eu sem ti, tolo, morri? tu já eras a pele de ti ainda sem mim à distância  dos anos em dolo, perdido do espaço e dos lugares da ânsia do mergulho em gotas de água por oceanos afogado, em esgares sem consolo, por um toque mais seguro a sorte já eras tu o conforto desejado porque tu já foras em mim águas do meu útero, um ser sem fim em passados inconscientes por um laço forte, amado e puro tu já eras tu já existias quando gritei e nasci quase me afogaste em sangue morto nesta busca que empreendi nos olhos da alma cegaste também o desejo de pegar num sorriso perdido no tempo dos tempos que vêm do meu ensejo de pleno penetrar fundo em ti e onde foste tu? onde estás uno de mim em ti? em nenhures daí: algures aqui. Cristina Brandão... read more

Alquimia do Corpo

“A alquimia corporal é o amor a viver na alma.”                                             Cristina Brandão Lavender                                                          13 – 06 –... read more

Quero-te dizer, Deus.

A ti, Deus.  eu, ínfima partícula de Deus, testo a minha credulidade e começo a falar contigo e com os meus. descubro que é o mesmo que falar comigo em voz alta sem medo de me pensarem em falta, louca, endoidecida, a gritar com o meu umbigo, estarrecida, mouca a respostas complicadas de perguntas simples que faço em mim. que fazemos aqui? por que me trouxeste a este abrigo? por que me fizeste assim? tu, alicerce da minha credulidade, perversa, corrupta e egoísta, testas a minha lucidez na pequenez embriagada da nossa humanidade. à claridade de ver o que quero e não queroolho-te no espelho sem olhos.quão cega sou de bondade, encadeada por tamanha luz.fico sem saber toda a verdade, na confiança que em mim pus, se estás em tudo o que sei, e no que ainda não seisei que não és quemés o quê.és imensa energia bem dentro de minh’almaescorres em livre arbítrio por entre meus dedosao encontrar mais calma, lucidez, alegrianuma partícula apenas: eu sou deus, sentido de vida. Cristina  Brandão... read more

Política

A política ficou amoral. Em vez de irmos escolher pessoas que na sua vida demonstraram mérito na sua área profissional, como cidadãos, com provas dadas, somos confrontados com carreiras políticas cheias de meandros, vícios de estratégia e de promoção pessoal, social e económica. A política não é mais servir. A política é servir-se.

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Prisão ou Europa

A política é doente. Repito: É doente. Se só estivesse doente poderíamos pensar que deixaria de estar. Mas ser doente: é mais grave. Ser doente é um estado permanente.

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em mãe

no teu regaço me encolhi, no sangue que corria por tuas veias me aqueci, sabia que dele bebi, sabia que dele nasci. e depois do aprender a voar, e das asas não mais quererem voltar do choro que empurrei para o mundo ficou no fundo escondido o clique do corte ao cordão a que agora chamo de intuição. e sempre que sofrias e rias dava eu conta por mais longe que estivesse. sempre que eu sofria e ria o teu eu também tremia e sabia.  por isso, mãe, de onde estás e me sentes percebes e compreendes o que aqui te digo o que aqui te lembro: eu sou tu, mãe, e tu és eu. mesmo.                                                                                     Cristina Brandão Lavender – 5 de Maio de... read more

Espiral

“Quando elevas o pensamento ao “Agora” uma espiral de energia se aproxima. Se seguires essa ascensão encontras a luz da verdade que ilumina o teu caminho.” ® Cristina Brandão Lavender... read more

A alma e a música

“… Deixar o tempo esfumar-se, e as criaturas que o rodeiam a regatear, num mundo de descontos. Aí, prendeu o momento, fez-se compreender, emoções e sentimentos não se cansam de pedir mais e mais acção. Insaciáveis, recorrem à infância, quando os cheiros e sabores inesquecíveis lhe fazem ver um mundo vivo que está dentro de si. …” em “Estilhaços de Amor” ® Cristina Brandão Lavender... read more

Deus – Crença da descrença

Não me deixavas em paz
nem à noite, nem de dia.
Reza reza reza.
Esquecia.
Orações obrigadas, decoradas.
Temia.
Dentro de mim um mundo de vidro
escaqueirou-se.
Evaporou-se.

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Passagem – 31 de Dezembro de 2012

Escrevo-vos. Não só por escrever, mas escrever para comunicar algo importante. Quero entrar em 2013. Entrar convosco porque vos adoro; porque quero que ele seja um bom ano. Isso provavelmente os meus amigos já sabiam. O que também não é novidade para os que amo e para os que me amam, para aqueles que realmente me conhecem, é a minha necessidade de entrar com o corpo todo, todo. Todinho. Com o cérebro. Não porque o meu seja nada de especial. Não. É tão especial como o vosso. Aos que consideram o cérebro o órgão da razão e o coração como o da emoção declaro que pretendo entrar com os dois. Não com o pé direito ou com o pé esquerdo, nem mesmo com os dois pés. É mesmo com tudo. Preciso de entrar com tudo. Precisamos uns dos outros e precisamos especialmente de reconhecer que os outros também somos nós. Não são menos nem mais. E pronto. Se eu fizer copiar e colar aqui esta pequena intenção talvez a lessem duas vezes. Talvez não. Mas não preciso. É a minha intenção clara. Faz sentido. Para mim faz sentido. Espero fazer sentido para vocês.  Venha o 2013. Nicha, Lagoa Azul, 31 de Dezembro 2012 ®nicha e cbl... read more

O mundo ausente… presente! Doença de Alzheimer – Diário do Minho 4-Junho-2011

O mundo ausente… presente! Doença de Alzheimer Três beijos deste depois de há tanto tempo tos pedirem… O teu silêncio, que muitas vezes não sabemos se significa recusa ou alheamento, sufoca silenciosamente o peito dos que te amam. Esse teu silêncio! Mãos encrespadas a fecharem em concha todo o teu mundo, onde ninguém pode entrar, por ser só teu. Decidir. Ingressar ou, por outro lado, fechar os olhos, ao teu lado, comungando do teu silêncio. Adivinhar o caminho que tomaste. Conversar? Um monólogo a contar as novidades que outrora te enchiam o peito. Incluir belas mensagens de amor, daqueles que muito te querem e não sabem onde te procurar, mas não desistem. Histórias, mais histórias e o entoar de canções que embalam esse universo onde te refugiaste. Esperar! Esperar que uma nave te traga de volta. À velocidade da luz chegou ela contigo, um passageiro… e três beijos deste. Voltaste por tanto teimar? Voltaste por tanto pedir? Três mensagens trouxeste nos três beijos que deste: carinho, amor e uma última atenção. Um último abraço. Depois, de novo, voltar, na nave, à velocidade da luz. Partir. Esta é a realidade dos que sofrem de Doença de Alzheimer. Esta é uma realidade que o País deverá saber agarrar, proteger e mais uma vez, com coragem, apoiar na dignidade dos que se refugiam na mente. Eles e tantos outros que sozinhos já não podem caminhar. Às instituições com profissionais carinhosos, com competência em cuidados geriátricos que a estes se dedicam; a todos os que em trabalho voluntário os procuram e aos familiares que com eles caminham fica o reconhecimento de um caminho... read more

Braga é.

Braga, é outra coisa. Braga é aquela cidade que me acolheu enquanto a outra, onde nasci, me abandonou, tal mãe que não lhe consegue dar de comer. Braga é a cidade onde eu conheci o Inverno e julguei que morria por tão quente ser o dia-a-dia na ilha verde do meu coração. Braga é a cidade onde as Tílias exalam das suas flores um perfume que me faz lá ir só para as namorar. Braga é a cidade onde “bou” e “bento” tem este som espectacular! Braga entra no peito de cada um de nós com a certeza de que seremos gentis com aqueles que vêm por bem. Braga é a cidade que aqui partilho. CRISTINA BRANDÃO LAVENDER... read more

Próximo Jogo da Nintendo 3D para PS 3

“Para onde vai Portugal?” Publicado no Diário do Minho, 5ª feira, dia 28 de Abril de 2011 O Congresso do Partido Socialista, pela televisão transportou-me para um novo jogo feito em Portugal, como um País da Nintendo 3D, uma realidade paralela e virtual. Vai ser o mais vendido na Europa, China, Timor e Brasil. O jogo é super-interessante. Logo no primeiro nível, ecrã número dois, o retrato compôs-se e culminou com a entrada triunfal do ex-primeiro-ministro José Sócrates, acompanhado de uma música solene que tão bem conhecemos. Por ter conseguido abocanhá-lo ganhei logo mil pontos neste primeiro nível. Mostrou-se ele, como o salvador da pátria, vítima de uma traição vil e maquiavélica da oposição. Ele, o único possuidor da razão e verdade absolutas, com um perfil erecto e sorridente. Para piorar o meu transe veio o seu discurso eloquente. Foi sem dúvida nessa parte que morri várias vezes e tive que recomeçar para me habituar a este jogo. Jogo perigoso, este. Remeteu-me logo, a minha fértil imaginação, para as semelhanças com o III Reich da Alemanha Social Democrata “Nazi”. Este senhor foi retratado como personagem forte, capaz de nos salvar a todos e de nos colocar numa posição confortável dentro da Comunidade Europeia. Pior ainda, com a sua verborreia estudada ao ínfimo pormenor, veio calmamente, confiante, na certeza de convencer o povo português. Estava com melhor aspecto. Saíram-lhe as olheiras e o olhar cansado de quem há muito não dorme, por tão pesada ter a sua consciência. Aparece com sangue novo. Por trás dele, uma máquina de lavagem ao cérebro muito bem montada e acima de tudo o resto,... read more

TEU NASCIMENTO

   26 de Março de 2011 Cumprimentar tão bela vida, Para todo o sempre Celebrar! Fundir teu trilho e belo sorriso, Mais o espelho do vitral. Olhar negro, bem vivo! Num amparo bem recebido. Tão bela face gravada, Num rosto especial, É o teu, nossa querida, Um anjo mui amado. E a mim, tua mãe, Espelho em meus olhos, Mais um brilho De te ter sempre, Também!   26 de Março de 2011... read more

Pedras no Caminho Publicado no Jornal Diário do Minho em 13 de Abril 2011

 “Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo…”Fernando Pessoa Temos que seguir o conselho de Fernando Pessoa e fortalecer-nos com as pedras que nos apareceram e ainda aparecem, constantemente, no caminho! Por que não vermos estas dificuldades como um despertador? Como um toca a acordar… Um toque a rebate… Para agir e reagir e apercebermo-nos do que pensamos e fazemos. Do que atraímos com os nossos pensamentos e acções. Olhemos à nossa volta e não só para o nosso umbigo! Será que nos está a pedir que sejamos valentes, optimistas, rectos no carácter e acima de tudo que tenhamos mais persistência para não nos conduzir ao desânimo, à tristeza? Será que devemos encontrar pessoas em quem podemos mesmo confiar e com eles sermos mais fortes e tranquilos no nosso dia-a-dia? Será que essas pedrinhas, pedras e pedregulhos não nos farão raciocinar, aprender sobre o que o Mundo nos mostra? Será que nos leva a questionar as mensagens da mãe Terra pelas atitudes para com ela? Os consumos excessivos e desnecessários que a ela impomos? E a forma como marcamos negativamente a nossa passagem, através das escolhas que fazemos? Será que as pedras que Fernando Pessoa encontra no caminho não são as oportunidades que desperdiçamos quando não nos ajudamos e não ajudamos os que precisam? Ou quando nos deixamos abater e somos egoístas? Ou quando por comodismo fechamos os olhos e não nos queremos incomodar? Porque é mais fácil ignorar os obstáculos do que enfrentá-los? É mais fácil culpar os outros do que encontrar soluções? É bem mais fácil saltar as pedras do que pegar nelas e... read more

AMAR

  Amar é conhecer-se,No silêncio,Sorrir,Chorar, Sem medo.…AmarÉ o caminhante em si,No íntimo ouvir-se,Enfim aceitar.Tu és os outros,Assim que a ti Te... read more

“O Cão que toma Prozac” in Diário do Minho 18 Fev 2011

  O CÃO QUE TOMA PROZAC para contradizer a expressão “que vida de cão! LEP é um cão muito jovem, muito pequeno no seu tamanho, muito especial e com muitíssima sorte. Por muitas razões, como a maioria dos cães, a sua melhor qualidade é ser tão fiel à minha pessoa, em particular, como aos outros seres humanos em geral. Essa é a fidelidade que os animais ditos “irracionais” têm para com os humanos, na maioria das vezes sem motivos para tal ditos – racionais. Quanto aos humanos estão a perder a razão  entre si, em geral, e com os animais ditos irracionais, em particular. Continuando. LEP que quer dizer “Limpar Em Portugal”, homenageia o projecto que culminou no dia 20 de Março do ano passado, e é o terceiro cão abandonado que vive na nossa grande e numerosa família de humanos mais os seis “irracionais”, três deles são gatos o que, como devem calcular, não facilita nada, mas prova que é possível, com educação e tempo, eliminar instintos. É necessário dizer que o LEP tem raça indefinida ou seja não faz jus aos seus ancestrais, assim como é indefinida, inqualificável e inaceitável a razão pela qual um ser humano é capaz de atar um cão a uma árvore, abandonando-o sem comida e sem água, portanto sem a mínima hipótese sequer de procurar sobrevivência. Felizmente foi encontrado por uma equipa do projecto Limpar Portugal e eu adoptei-o. Ainda não é ponto final porque a história só vai a meio. Pois é. LEP tem a particularidade de tomar Prozac em suspensão, até eu descobrir que é a mesma coisa que fluoxetina medicamento genérico,... read more

1 de Janeiro de 2011

(…)
“Não podias ao menos ser um pouco mais específico? É que eu quero e luto por tanta coisa. O tempo foge-me entre os dedos sem que consiga fazer tudo aquilo que realmente penso e que preciso de concretizar.”
“Não tenho pressa, que a pressa que tenho me lembra (…)

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Natal 2010

De tudo o que fazemos na vida o que mais nos toca são as situações em que nos entregamos na acção conjunta com os outros. Só a máxima “colhereis o que semeardes” explica tão fielmente esta situação. Tal facto torna-se verdade para o bem e para o mal no dia-a-dia que enfrentamos.Natal querido, tão modesto, começou sentido, perdeu-se no gesto: do ter, consumido, nas verdades queridas que se esfumam e não permitem ser acorrentadas a ninguém, mas que se mantêm: no vento gelado, na árvore que se dobra, na nuvem desenhada, na flor que sorri, no sol que a abraça, na chuva que a saceia, no mar que a engolia, na guerra que lavra, no homem que a gera e no mundo que a comanda. Resultado:Temos o que somoseSomos o que... read more

O Segredo do Natal

O segredo do porquê Do mistério guardado, Profundezas do oceano A sete chaves cerrado. Desvendar o legado No cume da montanha, Nas águas da cascata, No ventre materno, Feto que esgravata O espaço infinito Nos corpos tão ternos, Em abraços e sorrisos. A homens serenos Desvendar o sigilo, Encontrar tal herança, Festejar o porquê, Do sucesso desse Alguém, É sem mais nada O gesto acertado De se encontrar e saber Que o Legado É o que é Quando está só Para ser achado e poder SER com os OUTROS.... read more

A Arcada em Braga

“A Arcada em Braga” – pastel sobre tela 80×60 – Nicha, Ago 2005A Arcada de Braga remonta ao séc. XVIII. Este ex-líbris da cidade foi mandada construir encostada à velha muralha medieval e, nos finais do século XIX passou a ter dois pisos.Hoje é um local central, apelativo, animado por múltiplos cafés e uma nova praça fechada ao trânsito e repleta de fontes e jardins.Em 1757 o padre Ângelo de Siqueira, missionário natural do Brasil (então fazendo parte do reino de Portugal), esteve em Braga a fazer pregações. Escolheu como local a Arcada, tendo aí colocado uma estampa da Nossa Senhora da Lapa. Lá pregava, rezava o terço e cantava. Era tal a fé do povo que o arcebispo de Braga D. Gaspar de Bragança autorizou que a capela se construísse.As obras iniciaram-se em 9 de Setembro de 1761. A capela foi benzida em 7 de Setembro de 1764. A torre sineira só foi erigida em 1761.A autoria do projecto é atribuída a André Soares Origem:... read more

O Arco da Porta Nova

  “Arco da Porta Nova” – Pastel sobre tela – 80×60 – Nicha Set 2005 Arco da Porta Nova Arco da Porta Nova – BragaO Arco da Porta Nova é a porta de entrada na cidade de Braga, Portugal.Esta “nova” porta da cidade foi aberta em 1512, no tempo de Arcebispo D. Diogo de Sousa.A actual construção data de 1772, foi projectada por André Soares e mandada edificar pelo arcebispo D. Gaspar de Bragança.A construção desta porta marca o momento em que a cidade saiu das suas muralhas e começou a crescer para o seu exterior.Foi classificada como Monumento Nacional em 1910. Origem: Wikipédia, a enciclopédia... read more

carvão, grafite, aguarela e pastel sobre papel

“Coliseu” – Itália “Ponte de Rialto” – Veneza (Itália) “Barco em Poole Harbour” – Inglaterra “Michaela Brandão Lavender” “Tony Lavender” “auto-retrato” “Nunska cerkev, Nun’s church” Liubliana –... read more

“quadros a pastel e óleo – sobre tela”

“pintar ou escrever” 100×70 – pastel sobre tela “prenha” 50×50 – pastel sobre tela “de costas para a vida” 50×50 – pastel sobre tela “barragem” 50×50 – pastel sobre tela “toucador” 50×50 – pastel sobre tela “a virgem negra” – 60×60 – carvão sobre tela    “no séc. XXI” 40×30 – carvão sobre tela “terra alerta” 100×70 – pastel sobre tela “o tempo e o espaço” 50×40 – pastel sobre tela “o homem do piano” 50×40 – +astel sobre tela “música 1” 50×40 – pastel sobre tela “música 2” 50×40 – pastel sobre tela “a máscara” 60×60 – pastel sobre tela “fluído vital” 90×60 – pastel sobre tela “desperdício”80×60 – óleo sobre tela “mimetismo” 120×80 “inspiração” 80×120 – pastel sobre tela “orquidea no arco-íris” 80×120 – pastel sobre... read more

ser

Importa em cada indivíduo o ser que ele contém. Único! Tudo o mais: nada é.

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Carta ao Menino Jesus

Ora aqui vai Querido Menino Jesus, Como sempre chego a correr e a arfar de cansaço a entregar-te a minha carta: “Arf.. Arf… Arf”. Repito o que te disse logo pela manhã “adoro-te” e já escrevi a minha tradicional mensagem de Natal que podes encontrar no meu Blog. Ela reflecte o meu sentimento neste Natal. É tudo à distância de um clique:http://cristinabrandaolavender.blogspot.com/2009/12/pois-e-natal.html. Já não me vou repetir a pedir-Te a Paz, a Saúde, a Responsabilidade Social, Solidariedade, Alegria… o Amor e…… porque estes são ingredientes para todo o Ano. Só por isso peço-Te que graves, nos corações de todos nós, a Tua brilhante mensagem do Monte, o tão conhecido Sermão da Montanha, que é o mais belo texto alguma vez lido por mim, mesmo sem o acordo de José Saramago.Realmente eu não preciso de nada. Tenho tudo. MINTO. Tenho muito mais do que é preciso e por isso peço-te que me ajudes a aprender a viver com menos, mas nunca sem Ti.O consumismo também tomou conta de mim. Imagina só que todas as minhas roupas, calçado e respectivos acessórios davam para montar uma loja em 2ª mão para os nºs 34, 36 e 37… isto tende a continuar a crescer. Como tenho muita coisa para vestir, peço-te um espelho em tamanho “corpo inteiro” para não ir para a rua a fazer figuras tristes. O meu cabelo também precisa de um jeitinho e um alisador eléctrico (pouco amigo do ambiente) fazia-me jeito. Também me doem os pés. Que tal uma sapatilhas bonitas que fiquem bem com tudo – práticas e eficazes no combate ao colesterol? E um chapéu cinzento? Também... read more

Pois é Natal – Para TODOS!

Pois é Natal Que queremos? Que esperar? Por onde começar? De nada se arrepende Desde que compreende Por que existe, De onde vem e para o que vai. Afinal o que sou? E se agora também amar De Ti me vou aproximar. Afinalentendio tão pequeno me tornei,a alma alcancei,de Ti mais gostei,Afinalconquistei.Entendi.Jesus,o Teu, é o meu Natal. Cristina Brandão... read more

TEIP 2 – Inquietações

Falar sobre este “Território Educativo de Intervenção Prioritária” tornou-se ainda mais importante pois levou-nos, mais uma vez, a uma reflexão sobre a realidade da nossa escola que, permitam-me a audácia, é a realidade nacional com mais ou menos investimento físico e material. Por este motivo repito que “todo o território nacional deveria, neste momento, estar sob a medida de intervenção prioritária”. Isto quer então dizer que concordo que o nosso agrupamento se candidate a esses “benefícios” sejam eles quais forem. O que realmente me apraz registar, e estou de acordo com as declarações feitas pelos colegas nesta discussão, é esta necessidade de, finalmente, nos debruçarmos “a sério” sobre os problemas que nos constrangem e que nos poderão colocar dentro dos objectivos desta “medida”. Gostei dos vossos textos e partilho das vossas opiniões. Permitam agora o meu desabafo. 1º – Não há educação de qualidade sem autoridade. Há muito que proponho que nos dispamos de complexos adquiridos com o 25 de Abril e deixemos de confundir autoridade com autoritarismo e liberdade com libertinagem. A nossa “escola”, a educação em Portugal em particular e a sociedade em termos gerais não têm autoridade. Os pais não têm sequer tempo para a exercer e alguns dos que têm tempo não fazem a mínima ideia de como o fazer e estão tão perdidos como os filhos. A grande maioria dos alunos não sabem com que regras aceitáveis podem contar, quais as fronteiras lógicas que lhes são estabelecidas. Como a escola é a sociedade em miniatura é urgente definir explicitamente quais os limites em que a comunidade educativa se pode mover. Deparamo-nos, dia a dia,... read more

Alerta

A vida não é um carrossel mágico que gira à volta, sempre à mesma distância, com o mesmo ponto de partida e de chegada. Pelo contrário, as acções que se planeiam hoje e se têm oportunidade de fazer amanhã são mesmo para executar sob pena de se perderem as oportunidades e se desperdiçarem valiosos momentos que poderão não vir a acontecer jamais. Atenção ao ditado popular que diz “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” ao que acrescentamos: “se possível, bem feito”.Não deixemos que as nossas vidas se encham de intenções por... read more

PODER OU AUTORIDADE

Caros Leitores e Amigos Após leitura do artigo publicado no Diário do Minho, na passada quarta feira, dia cinco de Novembro, com o título “Processo da escola bracarense de S. Victor Presidente do Agrupamento culpa professores e auxiliares” e após contactar hoje o Presidente da Comissão Executiva Instaladora que afirma “não ter dito nada do que está lá escrito e nem sequer tencionar responder” achei-me no direito de resposta à opinião pública, na qualidade de professora desta instituição que passarei a exercer, com a vossa autorização. A Comissão Executiva Instaladora (CEI) tem o poder de atirar as culpas das suas acções para cima dos professores e das auxiliares mas, resta saber se terá autoridade para o fazer.O poder impõe-se, a autoridade conquista-se pelas acções que se validam na conduta.É também no trabalho, como em casa ou na rua, com familiares, com amigos ou desconhecidos, minuto a minuto, dia a dia, ano após ano que vamos revelando o nosso verdadeiro eu e fazemos com que os nossos irmãos nos respeitem, compreendam e se for caso disso, nos sigam, pelo amor e/ou competência que reconhecem nas nossas acções. Aqueles que agem com coragem mas com doçura no coração, que apontam o caminho sem se engrandecer, que oferecem sem humilhar, que distribuem sem cobrar têm todas as condições reunidas para serem respeitados e para que se lhes reconheça autoridade, porque, antes de tudo, eles fazem, eles dão o exemplo, eles mostram o caminho, fazendo o caminho. Não precisam de apregoar as leis de justiça só no papel, nem culpar constantemente os outros das injustiças porque as escrevem na cena da vida. Não... read more

Corações Fraternos

Corações fraternos são aqueles que deixam as trevas em procura de renovação espiritual, escolhendo servir no seio da humanidade com gestos simples e gentis que não esperam o agradecimento e a lisonja.Corações fraternos alimentam de sorrisos os corações frios endurecidos pelo desamor e levam, no regaço de suas vestes, o consolo do entendimento, ao amargurado perdido na sua ambição desmedida.Corações fraternos caminham no tempo, aproveitando o presente com a certeza de que a Luz Divina ilumina os seus passos e o seu conhecimento com as respostas a orações ávidas de harmonia.Corações fraternos banham de gentileza as almas que se lhes deparam nas vibrações da harmonia e da paciência, sabendo que aquilo que hoje se dispõem a partilhar nunca lhes foi negado no passado.Corações fraternos vivem no caminho dos ensinamentos do Cristo que da acção fazem a Lei da sua vida e assim semeando, se prendem a altos patrocínios. Um coração fraterno possui a luz que do Mestre acendeu.... read more
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