De quando em vez

De quando em vez

Há mais de três meses que não chovia. O calor tórrido entorpecia os movimentos que, durante o dia, se reduziam ao mínimo, com temperaturas acima dos quarenta graus a crestar o monte de Maria Mendes e a quinta da Ervamoira. Que Deus os livrasse de um incêndio por aqueles dias, iria tudo a eito tal a sequidão que assolava o país. No chão, as gretas desenhavam mapas de viagens que nunca fizera e, à sombra das árvores da praceta da aldeia, os cães estendiam-se dormentes, indolentes, apáticos, mesmo indiferentes às moscas que lhes atazanavam o descanso e a froixeza que os tomara.

Bibas, como lhe chamavam em Costôias, era conhecida na terra, não só pela simpatia e pelo sorriso fácil e prazenteiro que dirigia aos habitantes, mas também por ser uma mulher alta e bonita com quem era muito agradável conversar. Naquele dia, com um livro de poesia de Fernando Pessoa debaixo do braço, entrou no café quase deserto, sentou-se mesmo por baixo da ventoinha e pediu ao Zé da Taberna, um chá de menta gelado, Seu Zé, que as pataniscas de bacalhau fizeram-me cá uma sede! Ponha-lhe duas ou três pedrinhas de gelo, por favor, que este azul-turquesa com que o céu se pintou nos deixa saudades imensas do cinzento das nuvens carregadinhas de água. Lembra-se da Avó Quinas? Em alturas como esta dizia sempre, se a água te faltar, falta-te também o juízo, minha filha, que não há vinho que a substitua. Um fio de melancolia apareceu-lhe no rosto ao lembrar-se da avó, a pessoa que seria, para todo o sempre, uma referência e uma reverência na sua vida. A falta que lhe fazia, sim, ficam as memórias que essas ninguém as apaga, as suas gargalhadas, os momentos partilhados, o exemplo que deixou, as rugas a mapear uma idade que não se conta, mas aquilo a que me agarro, avó, para que não partas nunca, é que imagino que me afagas os cabelos quando adormecida e que não te esquecerá nunca o meu nome, Fabíola, avó, sempre a tua Fabíola.

Então não lembro, menina Bibas, então não lembro. Uma santa, a sua avó Quina, uma santa mulher que Deus a tenha. Ela é que nos podia ajudar e mandar uma chuvada daquelas boas para nos volver um pouco da nossa paz. Nem durmo, menina, não preguei olho a noite toda, com medo de que o fogo nos coma a todos. Ainda estava a acabar a última frase e um estrondo abalou toda a aldeia. Logo de seguida, grossas pingas de chuva começaram a cair, enquanto Bibas e o Seu Zé, abrindo as ripas de plástico coloridas penduradas na porta, viam a chuva a cair copiosamente.

Que cheirinho a terra molhada.

Acho que a sua Avó Quina nos ouviu. Acredita em Milagres, menina Bibas?

De quando em vez, seu Zé, de quando em vez.

Escreve com uma de ponta e mola, sim?

Quando se trata de escrevinhar ou rabiscar umas linhas não há nada melhor do que um lápis 2 HB, sendo o H a primeira letra da palavra Hard, dureza, e B a de Black, preto ou negro, em Português. Já o 2 identifica o nível de dureza que a grafite possui, sendo este “dois” indicativo de pouco duro, perfeito para uma escrita manuscrita legível e cuidada. Em cima destes argumentos pesa o de que o lápis sempre nos deixa a opção de apagar sem rasurar, deixando a folha mais limpa para as ideias que queremos expor e para a boa apresentação do resultado. Mas isto de escrever tem pouco a ver com o material que usamos para o fazer, mas tudo com o conteúdo que queremos lá deixar. Com este tema e com a falta de inspiração com que me encontro só me resta uma opção: Escreve com uma de ponta e mola, sim?

Sessão da Velha-Escrita, 6 de Fevereiro de 2019, na Junta de Freguesia de S. Victor

branco

branco

Escrever sobre a expressão “em branco” foi o que ditou o rectângulo que trouxe este tema “branco”, alternando, ou como nome masculino que refere a cor semelhante à do leite, da cal, da neve, do pedacinho de papel “em branco” sorteado no saco preto da sessão da Velha Escrita, ou como adjectivo nas ideias que expomos.

Quase que me deu uma branca no que respeita ao que poderia escrever até que me lembrei, entretanto, que nestas últimas manhãs frias, em que o sol não aqueceu, foi de um branco maravilhoso que se vestiu Mirandela atingida pelo sincelo, pedaços de gelo suspensos das árvores e dos beirais das casas, fenómeno meteorológico esse que não é neve, mas sim gelo, resultante do nevoeiro e das temperaturas negativas. De facto, de manhã, olhei directamente para o sol persistente, (teimoso é o homem que teima em negar as alterações climáticas) que há várias semanas nos visita devido ao anticiclone que se fixou, preguiçoso, sobre a Península Ibérica. Branca, cega de alvura por estrelas cintilantes, ficou a visão humana atingida pela luz solar, embora saibamos que não é branca de todo, já que, sendo ela decomposta, tem o espectro das sete cores que vemos no arco-íris. Essa cegueira durou apenas uns momentos em oposição ao que acontece quando ficamos cegos de raiva, sentimento esse que provoca muito mais estragos no nosso íntimo sobressaltado, com o assolo, repentino e ascendente, do alvoroço em tons do vermelho sangue ou de preto morte que nos percorre a pele arrepiada, num frio pela espinha acima, até à cabeça. Urge então controlar o sobressalto, atingir a paz suficiente, voltar ao estado racional necessário para agir, sem perder o rumo e a sanidade mental que a serenidade do espírito necessita, para não estarmos sempre no fio da navalha, que no sentido literal é uma arma branca mortal e assassina que teima em não deixar as páginas do jornal.

Diz o povo que “branco é, galinha o põe” quando é algo fácil de adivinhar mas, nesta vida, pouco é o que parece ser, pelo que, melhor mais cedo do que tarde, urge aprender a ler nas entrelinhas e compreender as verdadeiras intenções do que, em branco, ficou por escrever ou dizer. Impõe-se pôr tudo preto no branco, o que não é mais do que fazer nascer a luz da razão através de uma saudável troca de ideias, debatendo os assuntos que nos dizem respeito. É o que procuro, na medida do que é possível, nem sempre consigo, confesso, porque não ficar em branco, não conhecer o assunto, não entender nada, é muito difícil. Excepto quando lemos algumas explicações que vêm a público, elas com a intenção à nascença de dizer rigorosamente nada, o que ainda, confesso também, me deixa lívida de raiva e de susto. Mas os cabelos encanecidos chegaram com a idade e, com eles, alguma da calma que nunca pensei alcançar, dando aos dias uma maior serenidade que posso rever nos versos brancos e nos textos que escrevo desde o tempo em que recordo ter um lápis na mão de pele branca, embora branca não seja, apenas com reduzida pigmentação que lhe possa dar alguma cor.

Lembrei ainda a propósito os produtos brancos, aqueles sem marca específica, os que mais entram no nosso lar empenhado “no poupar é que está o ganho”, mas tal não se aplica ao vinho, pois preferimos um bom maduro tinto de uma boa marca, embora, a acompanhar o peixinho, seja o vinho verde branco fresquinho aquele que se impõe, que não é branco, mas sim produzido com uvas verdes claras, ou por aquelas a quem se retira a casca escura antes da fermentação.

Já todos perdemos noites em branco, à cabeceira dos nossos queridos, velando atentos e preocupados, na doença, ou atingidos por fantasmas insistentes, sempre à espreita, em que situações de pobreza ou de injustiça social nos incomodam e chocam. O branco e o preto, numa antítese retórica, continuam símbolos de pureza e trevas e, para além das emoções, retratam-se nas vestes, um pouco por todas as culturas, em casamentos, baptizados e funerais.

Em branco, não ficou esta folha de papel e, mais uma vez, na Velha Escrita, se levantaram as palavras que teimam em desenhar-se, num alegre convívio, à volta de uma mesa, na Junta de Freguesia de São Victor.

existência

Enquanto uma existência, na vida ou na morte, estiver abaixo da sua condição humana, não me calarei.

página em branco

Esta página abriu-se, alva, fria, insensível, mas nunca ameaçadora, estava pronta para começar a preenchê-la de caracteres minúsculos, negros, perfilados militarmente, sem que fossem dadas tréguas ao teclado, ele, também, aprumado, à espera que os dedos vorazes o tocassem. As palavras, essas que refere, nascem primeiro no coração e ali ficam a aquecer-se em ternura ou revolta, em desespero ou alegria, em confiança ou suspeição, filosófica ou intuitivamente. Quando chegam à cabeça são já imagens que rolam como diapositivos à frente dos olhos, da esquerda para a direita, sem parar, a maior parte das vezes como chicotadas estridentes em costas de escravos que anseiam pelo terminar do castigo, sem gritar, impondo o seu orgulho e valentia ao senhor, déspota e cruel, enquanto o escravo, sim, não tem outra palavra melhor que lhe chamar, teima em não se dobrar perante o assalto à sua dignidade, num silêncio altivo, para desespero do tirano, ao não lhe permitir possuir a sua alma que a ninguém pertence, nem mesmo à morte, propriedade apenas dele e, neste momento, também desta página em branco.
Lembra o tempo em que as palavras eram silenciadas, proferidas livres apenas entre quatro paredes, mas se estas também têm ouvidos, mais valia que fossem do agrado daqueles que impunham um pensamento único de sujeição e concordância, deixando a propaganda lavar as mentes com explicações morais, humanistas, civilizacionais, e que tudo se desenrolasse sem ondas, a preceito da regra imposta, dando o poder a uns, à custa do sofrimento de muitos.
Lembra as palavras gritadas quando Zola fora apanhado a dormir debaixo de um cacaueiro, castigo marcado para o meio-dia, no centro do terreiro para que todos assistissem, na hora de mais calor em S. Tomé, onde a humidade quase chega aos cem por cento. A sineta tocara forte a chamar os trabalhadores e também as mulheres e crianças obrigadas a reunir-se à volta do tronco. Exemplar pretendera-se que fosse. Naquela semana não fora à escola por estar com paludismo e estava sentada à escrivaninha a estudar, com o livro de Matemática aberto na página com problemas de medidas de peso. Correu para a varanda e percorreu-a a toda a volta. O terreiro não se via dali, pois ficava no centro das casas onde os serviçais moravam, a uns quinhentos metros da casa mãe. Nana não a deixara sair, mas a teimosia e a velocidade de uma criança de dez anos são armas difíceis de parar quando o coração já salta pela boca mediante o terrível espectáculo que iria acontecer.
Quando ali chegou já o chicote assobiava cobarde, no ar, pelas mãos do capataz, e caía nas costas de Zola, impiedoso, seco, soltando as primeiras gotas de sangue. As crianças escondiam as caras nas saias das mães enquanto estas, com lágrimas nos olhos, encobriam os rostos dos bebés de encontro aos seus ombros, impedindo que vissem a desonra, a vergonha, o opróbrio imposto a um dos seus, cujo único crime teria sido dar ao corpo o descanso que este lhe pedia. Nãaaaao, gritou, o mais alto que pode, enquanto corria em direcção àquele homem de faces gordas, luzidias, vermelhas, sempre a pingar de suor, que viera de Viseu por crimes que nunca soubera, não podes fazer isso, nem tu, nem ninguém, para continuares terás de o fazer em mim. Ouviste? Em miiim.
E as palavras que ouviu, à noitinha, da boca do avô, do pai e da mãe nunca as esqueceria, enquanto as medidas de peso davam voltas à cabeça, imaginando que cada chibatada deveria levar muito mais do que cem quilos de humilhação: nunca mais, ouviste, nunca mais te metas em assuntos que não são de crianças.
Mas as palavras têm o poder de fazer pensar, organizam-se militarmente em fileiras, caractere a caractere, dando sonhos à vida, laços aos povos, vontades a quem as diz, e a página em branco, nunca ameaçadora, tornou-se catarse de um pesadelo de criança.

Nunca te vi, sempre te amei

Ontem saíram assim as palavras, na tertúlia de Janeiro da Velha Escrita, sobre o tema “Nunca te vi, sempre te amei”
 
Ah! se não fossem as palavras que ditam a sorte de um tema e que escorregam, se escrevinham, lentamente ou decididas, pelo vidro do telemóvel, caprichosas, mas dominadas, que saem pela vontade de te dizer que, na realidade, nunca antes te vira, mas que sempre te amara.
Ah! se não fossem as palavras como te diria que, ao entrares naquela sala, me deixaste com os olhos preenchidos de uma noite calma, tal negritude azul escura, o tom a combinar com o vestido que trazias, a favorecer a pele branca, a realçar as formas em que tão bem se assentava.
Ah! se não fossem as palavras como poderia explicar que nunca te vira, mas que sempre te amara, e que não são os acasos que te trazem ao balcão deste bar, te levam a escolher o assento de couro velho de castanho desgastado por centenas de encontros e desencontros deste mesmo lugar, mesmo aqui ao lado do meu?
Ah! se não fossem as palavras que rompem silêncios que nos embaraçam, não teria a certeza das quais escolheria, enquanto dançam em remoinhos e bailados dentro do peito e do cérebro, ao som do Opus n. 49 de Chopin.
Ah! Se não fossem as palavras e a força de que se vestem, nunca teria a coragem de te olhar fixamente e sussurrar: “Nunca te vi, sempre te amei.”

recados de um astro

Este sol que vos sorri, hoje, não vos devia encantar, esconde mágoas, esconde uma luz de lágrimas que não consegue brotar, um calor febril que, em desespero, beija os filhos nas fontes secas, uma maleita que o homem ciência quer tratar, enquanto o vil, o egoísta, o ávido de poder abandona a uma morte lenta que vos irá esmagar. É o sol que vos sorri em lágrimas de luz que não vos pode gritar.

gente e pessoa

Uma pessoa deixa de ser gente quando deixa de ver o sol no sol, a lua na lua. Em vez disso depois de ver passa a sentir, depois a sonhar, e a alma abre-se, e o sorriso alarga-se e os pés voam, tocando apenas ao de leve no caminho. E é assim que gente se torna mais pessoa porque ao sentir melhor, também chora.

rugas

Quando sinto as rugas da alma vejo claramente as rugas da cara.

Parabolé

Será que é no dia em que nascemos que a poesia nasce, ou será que ela já vivia muito antes dentro de nós. Será que ao soltar-se a língua do peito se largam as palavras da alma. Será? Se for verdade que é no dia em que se nasce que  se desenrola o livro das “parabolé”,  é também com ele que se define e fortifica o carácter. Todos os que nascem abraçam um fado, nunca leve, e cada um ou o vende ou o segue.

Também tu

Também tu

Também tu me esperavas nos bancos da avenida. Lá, onde se vêem linhas de almas sentadas, ripas de madeira de tinta vermelha estalada, ao sol e à chuva, acumulando sorrisos, lágrimas ou simplesmente a pendurar memórias no tempo, as partilhas de conversas, carícias e pensamentos, olhares vagos, nos devaneios, nos que desafiam os destinos, nos que param, nos que se sentam, nos que se perdem e nos que se encontram, como tu, sentados à espera, de cigarro preso nos dedos amarelados pela nicotina, à espera, tu, à espera de mim. Observei-te de longe, da porta dos Congregados e, nesse dia não fui. Deixei-te naquela ânsia e não fui, arrepiei caminho e voltei para casa. No dia seguinte, à mesma hora, lá estavas, beijei-te na face e num sussurro comuniquei o que não querias ouvir. Vou-me embora de Braga, amanhã. Ainda vi lágrimas nos teus olhos. Nunca sentira o banco tão frio e sei que a ausência nos gelou. Hoje já não estás connosco e os bancos da avenida têm todos o teu nome.
São bancos, são linhas de almas, na avenida Central, em Braga.

Ah, se eu pudesse

“Ah! se eu pudesse” não se coloca. Se posso, então quero, se quero, então posso. Se não vou, não estou, não sou. Pode dar-se o caso, e aconteceu muitas vezes, de me sair essa interjeição “Ah, se eu pudesse”, mas logo que venho a mim pergunto: o quê ou quem to impede?
É. Pertenço aos humanos mais difíceis de controlar. Pertenço aquela raça de pessoas para quem a palavra “controlo” não existe no dicionário, não pisamos, não passamos por cima de ninguém, mas pensamos, sonhamos e realizamos. Não nos dispomos ao “Ah, se eu pudesse”. Tudo o que achamos minimamente interessante, importante ou fundamental que se faça: faça-se. Mais. Não nos sai da cabeça enquanto não o fizermos. Passa logo a ser o nosso cavalo de batalha. Não das batalhas a cavalo, de baioneta, ou atómicas. Podiam ser, mas não são porque não usamos a força que aniquila os seres. Essa é a bandeira universal da vida. Não descansamos enquanto não formos arranjando soluções aqui e ali mesmo que difíceis. São batalhas em forma de palavras, no papel, nas redes sociais, nas salas de espectáculo, nas escolas, por trás de uma imagem, numa avenida, num aeroporto, em qualquer lugar, pelo exemplo. Chamo-lhe batalhas de comunicação-acção. São as procuras, as pesquisas, as experiências. Quando as vejo, vivo ou sinto, algo me debulha e embrulha as tripas numa real fritura dos neurónios que impele, a toda a força, para a questão de agir. Acontece que ouço uma voz forte, grave e muito serena dentro de mim: podes e deves. Sim, porque só se diz “Ah, se eu pudesse” quando esta antecede o nada fazer. Ah, se eu pudesse, quando se coloca, é já uma falsa questão. Caso não se possa, não existe. Caso exista e não se possa, não se coloca. Para quê dizer então “Ah, se eu pudesse”? Que te impede? Quem te impede? Não estás errado, existe, então força, podes.
O gato mia. Mia muito. Mia muito mesmo. Eu quero ir calá-lo. Mas não posso. Por agora.

Animais

A grande diferença entre o homem e os outros animais ditos irracionais é que o homem planeia e executa ideias monstruosas entre as quais se encontram humilhar, explorar e matar, enquanto que os outros animais se limitam a saber sobreviver, de preferência com a maior harmonia possível.

Chove? Choveu.

Chove? Choveu. A terra continua árida, poeira fina que aguarda sedenta o alimento de árvores, arbustos e homens. A cor das folhas, nunca a mesma, este ano não se vestiu de tons e brilhos de outrora. Chove? Choveu. Parcamente. A calmaria desta hora será o prenúncio da borrasca dos deuses? Que venha mansa para que não fustigue os ramos com uma violência capaz de arrancar os frutos que nos saciam. Chove? Ainda não, que até os céus, de tanta sede nos lábios, a sorvem primeiro.

Por aqui é assim

É do que mais gosto aqui no Reino Unido, tanto verde, tanta água, tantos pássaros, tantos cães, esquilos, crianças e adultos que não se importam com a chuva e com o vento, limitando-se falar do tempo como se da sua pele se tratasse. Hoje está menos frio, mas mesmo assim sabe bem uma camisola, um cachecol, e um gorro para a cabeça. E se pensam que a praia está vazia, enganam-se, tudo se passeia, as crianças entram pelo mar dentro, fazem piruetas nos ares com os irmãos, os amigos ou apenas sós, numa dança de liberdade. Depois? Depois somos apenas humanos e há muita coisa que está mal, mas respirar esta brisa do Atlântico Norte que nos traz mensagens do mundo, faz com que as coza em banho Maria e as deixe a repousar até saber o que fazer com elas.

dá-me um beijo, onde

Há dias em que a minha unidade interior não existe. Anda em cacos de porcelana de travessa que ia para a mesa e se estatelou em pedaços. Consigo, mesmo assim, aguentar o ritmo acelerado imposto pelas obrigações, anseio pelo chegar do fim do dia e, enquanto a lua já for bem alta, pegar nos pedaços incertos, deitar-me na rede do jardim, colá-los no silêncio, fumar um cigarro, esperar, esperar que chegue a unidade, o todo por ali espalhado.
Dá-me um beijo. Qual parte queres? A boca.
Essa não sei onde pára, mas tenho a alma de fora.

Velha Escrita, 13 de Setembro de 2017

Guerras invencíveis

As guerras que se travam na alma, ninguém as consegue vencer, ninguém nos cerra essa janela, porque as janelas da alma desenham-se por todo o lado, desenham-se em paredes de granito, desenham-se em grilhetas de ferro, desenham-se em escuros porões, desenham-se na clausura da cela, e desenhar janelas em paredes cerradas é viver sem cerros nem ameias, é mergulhar num mar e desafiar quem vem. Ser livre é assim e nunca, nem que me mates, me irás prender. Se quero dançar, não calas os passos que desejo em qualquer espaço, se quero escrever, não calas as palavras que me saem dos olhos e dos dedos, se quero pintar, não apagas os traços que se desenham por todo o espaço que vejo, se quero amar não apanhas o sentir que se esvai pelos poros da derme. As guerras que se travam na alma, ninguém as consegue vencer.

Mala de viagem

MALA DE VIAGEM

Peguei na mala de viagem e fiz-me à vida. Embarquei rio e mar afora sem pressas. Sem impaciências por saber não chegar a lado nenhum, apenas porque tinha de ir de um lugar para outro, mais ou menos distante, nesta jornada. Demorei-me no olhar e o teu fugiu-me. Tornei a insistir: fugiste-me de novo. Câmaras fotográficas apontadas às faces interrogadas indagavam sentimentos, expressões e segredos. Sem pejo nem pudor o comandante berrou.
Quando os prédios são feitos aos quatro ventos, à pressa, quem os fez não se lembrou que eles não ficam sempre em pé. Nem o mágico com a sua varinha de condão lhes valerá em caso de tremor de terra moderado assolando origens, destinos, cansaços.
Tudo se ouve, mesmo o zumbido das moscas, numa atenção presa a ferros, ancorada às estórias da mala em viagem, em busca de um poiso para a felicidade do existir.
O barco continua sem rumo levado pelas velas brancas de uma inocência roubada por casas sem o poder moral de fazer, possuir ou exigir alguma coisa, viajantes sem direito a existência. Uma mala de viagem, em viagem, que leva uma casa que é tudo; uma casa que é feita de sonhos em meus olhos, com persianas de pálpebras que protegem um olhar entristecido, uma casa sem direitos de ninho, de gentes.
E carregando malas como a minha, na viagem com amores e amantes, idealizo como construir os alicerces da minha existência.

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER

Vai-se uma, chega outra

Estou preparada para a mudança de tempo. Vai-se uma, chega outra. Caem três ou quatro folhas amarelas e há um grande estardalhaço mesmo no centro da árvore. Os pardais pegaram-se à porrada e o som que saía das suas cordas vocais eram insultos em fiada, cada um a gritar mais alto, sai-me da frente senão parto-te todo, nem penses, nem tentes que não cedo. E ouvia-se as asas a baterem forte de encontro às folhas, de encontro aos ramos, de encontro ao corpo, de encontro à cara uns dos outros, às bicadas e aos Faleiros saltitos. Estou preparada para a mudança do tempo, vai-se uma, chega outra, mas não estava preparada para luta engalfinhada dos pardais por um pedaço de comida, um pedaço de ninho, um pedaço de espaço e de tempo. Acreditava que os pássaros só cantavam árias de hinos de paz, harmonia e alegria. Estava enganada. Quatro gatos encaminharam-se para baixo da árvore e apanharam com mais algumas folhas no lombo. Sorriam, juro que sorriam, com irónica esperança, ainda vai sobrar para mim, ainda vai sobrar para mim, dois gatos amarelos ficaram debaixo e outros dois foram à volta para cima do muro para aplaudir o combate. Há sempre alguém que beneficia com o estardalhaço da guerra dos outros, ficam a assistir, apertam o cerco e esperam pelas migalhas, como abutres, sem fazer nada, só a olhar e a falar uns com os outros, a dar opiniões, declarações, intenções. Vai-se uma estação, chega outra e o pardalis não vai chegar ao outono. Sabemos todos quando nascemos, mas não sabemos nunca quando morremos. Estou preparada para a mudança de tempo, vai-se uma, apresenta-se outra.

por terras da serra

Estar lá por cima das terras da serra, com um punhado de gente, é diferente, com o nevoeiro que nos cerra, que vem e que vai em menos de uns minutos, para quê contá-los se ali estamos sem o tempo e o espaço costumeiros.
É diferente estar lá em cima em de terras da serra, agarrar as nuvens com uma mão e abrir a palma das linhas da vida, do sentido e do destino desenhados, para as deixar seguir livres ao ar, sentindo as gotas minúsculas que estão mas não caem, e depois vão.
É diferente, tão diferente estar lá em cima nas terras da serra, lá no alto tão perto foste céu, nem recordas  o plin da mensagem que cai, ou do tempo que marcaste para a cozedura das batatas a ficar no ponto que o garfo te diz, pois que o dlim dlão é apenas o rebanho que vagueia sob o olhar esperto do pastor que sabe de cor as pedras da calçada mesmo que todas diferentes, assim como nomeia as urzes que encontra na passagem pelos carreiros, tais linhas a tinha da china, a jorna no seu mapa mundi.
Estar lá por cima de terras da serra é diferente quando gravas na mente o que vês ao girar em redor dos calcanhares, aquela sequência de altos e baixos, curvos e aguçados, escarpados cinzentos ou atapetados verdes, amarelos e roxos, para te deixares cair na amnésia involuntária dos mísseis nucleares que sobrevoam outros céus, sem os cínicos comentários dos que se fingem que se importam com armas, gentes e vidas, sempre colecionando mortes.
Deixo-me ficar nesta preguiça do ser que é dar à alma este prazer diferente de estar lá por cima de terras da serra.

Semente da vida

Um costume que me acompanha desde que me conheço é o de trazer para casa sementes de frutos que comi por onde passei, para depois, com carinho, colocar na terra. Faço-o a conversar com ela e uma força que está nela, e que passa de uma forma estranhamente intensa para viver comigo, faz-me dizer-lhe enquanto a deito no lugar escolhido, aqui está o princípio que contraria e vence a morte ao nosso lado, aqui está a verdade que ninguém nos rouba, em ti permanece o que nunca acaba, depois de ti irão nascer muitas outras num perpetuar sem fim. Umas nascem outras não, mas as que morrem para viver lembram-me os Homens que nunca morrem porque vivem nas suas obras, e as que morrem para sempre lembram-me os homens que morreram sem viver.

perdi-me de ti palavra

Perdi-me de ti, palavra, quando não encontrei resposta para a crueldade do poder da nações, neste cruel facto quase que me afoguei por ser esta “injustiça” a lei do mundo. Perdi-me de ti, palavra, quando me deixei prostrar no tédio, quando conversei com o pensamento e quase vi destruídos o raciocínio e a vontade de lutar, para desmascarar essas relações do poder com humanidade. E embora saibamos da nossa pequenez do “ser criado para morrer” acreditemos que, enquanto respirarmos, não nos deixamos perder de inacção e que cada um faz o que tem a fazer.”

in “palavra e alma” de Cristina Brandão Lavender

os transparentes

À margem, os transparentes que sentem e são gente

livres como ninguém,
dormindo sob estrelas, numa fome apertada,
duro chão, cabeça encostada
consciência livre de um sonho embalado.
Vem, lua de prata, tesouro uno neste alforje da vida
deserto de areia clara como manto e coberta
durmo enquanto o chapéu vazio aguarda um plim
Só sofri, só vivi, só estou, estou aqui.
Aguardo-te, amor meu, naquele beijo último
recordo-te, e te chamo ainda, para sempre, rainha.

dizem que sou triste

DIZEM QUE SOU TRISTE
(verso de Henrique Levy, Noivos do Mar, Editora Labirinto)

dizem que sou triste
dizem

fechem os olhos
fechem-nos, por favor
agora
imaginem a dor
sintam esse calor, húmido, escuro
brota de um buraco no interior da terra
vejam nele o início de tudo
o suporte
o esteio
o alicerce
o ponto de origem
o primitivo
é nele que colocam a semente
e só depois
bem mais tarde
a seu tempo
do lado de fora
uma flor exuberante

dizem que sou triste
dizem

a tristeza
coluna vertebral humana
estado inicial para qualquer lucidez
é ela
que nos tira desta pequenez
mesmo sem nunca a podermos vencer
guia dos passos para Ítaca
apuro dos ouvidos aos sussurros dos deuses
respostas escondidas a orações perdidas
procuras essas que te empurram
em marchas de inquietude

de seguida
vibras
projetas
encontras
finalmente
ou não
uma alegria

dizem que sou triste

dizem

sempre
um poço, por baixo
o céu, por cima
a terra aqui, origem da vida
o mar além, alimento a ela
do útero ao berço
e deste ao túmulo
sai uma lágrima
entra um sorriso
para uma nova lágrima brotar

dizem que sou triste
dizem

e quem procura
sempre encontra
e quem encontra
sorri
porque há um poço, por baixo
o céu, em cima
a cura, aí
solução da loucura

dizem que sou triste
dizem

nessa marcha para Ítaca de onde partiste
terás as ossadas sepultadas
encontras o Hades
completas o teu ciclo
da tristeza à alegria
do ventre ao mundo
da vida à morte
sentido encontrado
ou talvez não

dizem que sou triste
dizem

abram os olhos
abram, por favor

boa noite

Cristina Brandão Lavender, no SETRA, 30 de Junho de 2017

Vinco da página

Tenho um problema que não sei quem tem. Tenho marcadores de livros, muitos, e geralmente um em cada livro. Uso-os, até me socorro de outros, como tickets de estacionamento, recibos multibanco, folhas já usadas com escritos, listas que já não uso ou de que me sirvo para o dia, e outros, muitos outros, lápis, até ganchos do cabelo. Mas há sempre aquela vez em que tenho que marcar o livro o não tenho nada, o pânico instala-se e lá decoro o número da página em que estou, a juntar ao cuidado de ficar num novo parágrafo, secção ou capítulo, para mais fácil o reencontrar e recomeçar. Tudo, tudo, tudo menos magoar o livro com a dobra na canto superior direito ou esquerdo. Este gesto de marcar com um vinco aquele ser que carrega as palavras que me levam, me transformam, me deliciam é uma dor, uma afronta, uma cicatriz que não quero impor, uma falta de respeito que não quero cometer. E quando finalmente o faço porque tem que ser, não me perguntem por quê, mas acontece, o livro fica magoado e mais meu ainda do que era. Mas que sentimento é este que não me deixa pensar que é só um livro?Tenho um problema que não sei quem tem. Tenho marcadores de livros, muitos, e geralmente um em cada livro. Uso-os, até me socorro de outros, como tickets de estacionamento, recibos multibanco, folhas já usadas com escritos, listas que já não uso ou de que me sirvo para o dia, e outros, muitos outros, lápis, até ganchos do cabelo. Mas há sempre aquela vez em que tenho que marcar o livro o não tenho nada, o pânico instala-se e lá decoro o número da página em que estou, a juntar ao cuidado de ficar num novo parágrafo, secção ou capítulo, para mais fácil o reencontrar e recomeçar. Tudo, tudo, tudo menos magoar o livro com a dobra na canto superior direito ou esquerdo. Este gesto de marcar com um vinco aquele ser que carrega as palavras que me levam, me transformam, me deliciam é uma dor, uma afronta, uma cicatriz que não quero impor, uma falta de respeito que não quero cometer. E quando finalmente o faço porque tem que ser, não me perguntem por quê, mas acontece, o livro fica magoado e mais meu ainda do que era. Mas que sentimento é este que não me deixa pensar que é só um livro?

amigo do peito

Dois amigos de infância. Dois. Apenas dois. Agora temos outros, também do peito, também da pele, que ocupam esse lugar especial, um cantinho único no nosso coração e que, estando ligado ao cérebro por centros nervosos intocados, se mantêm ali para que nos possamos deitar, enroscar, um quase ronronar de gato, buscar delícias e carregar a ternura essencial do existir juntos.

Naquele tempo não havia Jardim de Infância, havia infâncias e havia jardins, o resto, que era tudo, eram tempos preenchidos e reinventados ao sabor da nossa imaginação. Oh, como era tanto.

E é esse tempo, esse espaço, esse cantinho mágico, cheio de luz e silêncio, o local especial onde vamos buscar o amigo que nunca nos deixou.

treze milhões de libras

Foi de treze milhões de libras o custo para a entrada no inferno na Torre de Grenfell. Este Dante povoou os nossos piores pesadelos durante dois dias e, por muito que o tentemos, torna-se impossível imaginar o desespero dos que ficaram aprisionados dentro daquele braseiro, ao ponto de atirarem aos céus os seus filhos e a si mesmos para não sentirem o horror de uma morte por queimaduras e ou asfixia. Os que se salvaram devem a sua vida aos Homens (sim com H maiúsculo) que, numa atitude solidária, não se preocuparam apenas em salvar a sua pele, e os avisaram acordando-os do seu sono inocente, sem esquecer os bombeiros que, também em completa agonia, os tentavam resgatar, quando viam que os sistemas de segurança do edifício se revelaram completamente inexistentes e ineficazes. Desconhecemos quantos ficaram aprisionados no horror das chamas, mas sabemos que um acto criminoso da pior espécie estará por detrás da tragédia daquela habitação social, já que no verão passado foram gastos treze milhões de libras, repito, treze milhões de libras, na renovação do edifício e, ao que se pressupõe, para melhorar as condições de habitabilidade do enorme edifício e dos seus habitantes, que se mostrou  um horrível monstro a devorar vidas humanas e, quem sabe, a vida de animais domésticos. Facturar materiais de qualidade e fornecer os de pior espécie é, com toda a certeza, um acto hediondo que esperamos ver punido com toda a severidade. Mesmo depois desta catarse de escrita não consigo segurar a revolta que me consome e, só não escrevo por vergonha e contenção, o que os piores instintos me aconselham para esses indivíduos. São treze milhões de libras de castigo para vítimas inocentes cujo único crime é serem de baixa condição social.

detalhes do paraíso

À Minha alma Africana,

Estas letras desenham-se e para ti as escrevo, S. Tomé e Príncipe, não só ao povo num todo, mas principalmente às memórias que partilhamos.

Tu, terra desta alma Africana, ali levantada bem no meio do Atlântico, és aquela que me arranca sorrisos e lágrimas das entranhas, dum lugar que não sei ao certo donde vêm, talvez de um núcleo celular, talvez escorram por uma veia que se liga ao coração, talvez se propaguem por um centro nervoso do cérebro que é responsável pelo pensamento e pela linguagem, talvez se aloje nos dedos que pintam uma tela gigante onde desenho o dia a dia de homens e mulheres, talvez se condensem nas páginas onde escrevo histórias que herdámos dos nossos antepassados, talvez pelo combate que travo para que não reste nenhum vestígio que marque que a cor da pele interessa, que esta é apenas mais uma cor que respira, que se exprime numa língua que todos falamos, para que nos compreendamos, para que possamos trocar ideias, sentir e traçar os caminhos numa acção individual e colectiva, com um passado estampado no ADN, com as revoltas e as culpas do passado a fazerem o nosso presente.

Somos (plural) povo de África, o “eles” são um “nós”, “um nós humano” que está ainda à espera de um pedido de perdão, público, geral e individual, dirigido a cada um dos países, por parte das nações esclavagistas e dirigido aos povos explorados, pelas sevícias por eles infligidas, pelas grilhetas colocadas, pelas humilhações físicas, psicológicas e culturais impostas, torturas sofridas ao longo de gerações e gerações, pelo assassínio de milhões de irmãos africanos, por um completo desrespeito individual e colectivo ao longo de séculos e de que ainda podemos ver resquícios no tempo presente.

Este ser no feminino, dividido por dois continentes, transforma-se quando te toca, ilha verde, quando te respira, quando te dá e te pede uma carícia, quando te implora ajuda para isto poder compreender.

Pertenço-te, Ilha Africana, aqui e em toda a parte, porque nasço de ti.

“já amei um só país

agora sou cidadã do mundo.

já senti a dor de perder uma terra,

mas ganhei a alegria de ser do universo

e quando não vou a África, a África vem até mim.”

Se a minha pele em tua pele se deita, mesmo se minha pele em tua pele respira, a tua, escura, da cor do café e do chocolate, a minha branca, europeia, mais para o leite e açúcar, lá no norte, e do frio, não me entorpece nem enreda estes sentidos, nem me rouba da memória esta terra Africana. Sou ela por ser dela, não a nego, não a dou, só a empresto. Nasci em latitude 0o. Ali, minha mãe me pariu e, se dali parti, ali terei que chegar. Um círculo mais-que-perfeito se desenha, do zero se sai e ao zero se chega. Ande por onde ande, chegue aonde chegue, desde que estique o elástico deste raio de circunferência, nunca me perderei de ti, S.Tomé e Príncipe.

Pertenço-te ilha verde, aqui e em toda a parte, e, porque nasci de ti, levo-te por onde passe,  sou do universo, sou de onde estou e de onde sou precisa.

Sempre tua

eu

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER

Viagem de 1877

Peço detalhes do Paraíso

E da raça humana que é única,

A resposta vem no vento morno

Montada na estrela do norte

Mostra-nos, Musa de Neptuno,

Onde descansar a cabeça.

 

Chegam luzes e sombras de um povo

Paleta de aguarelas do mar,

Onde aportaram caravelas

Levando novas de Portugal.

 

No porão vão gentes acorrentadas

Expostas como carnes a comprar

Grilhetas de ferro, aos pés,

Que não prendem os pensamentos

Nem nunca os poderão amarrar.

 

E ouvem-se cantos que nascem

Para esquecer os braçados,

Ao som de tambores ritmados

Fazem coro, os pássaros da ilha,

Dançam e expelem diabos

A fim de enterrar mais um dia.

 

E que as trevas se cerrem de vez

numa caverna de negro basalto,

Porque alma que geme e que chora

Desperta e grita bem alto

A liberdade de Ser.

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER

neste tempo que tempos vivemos

Neste tempo que se arrasta connosco há demasiado tempo de gentes cansadas que preenchem os tempos vazios (mas cheios de ódio e de maldade) apenas com suspiros de alívio por escapar: à justiça que não se faz, às bombas que não nos estraçalham, às balsas que se afundam sem nossos corpos, às mulheres que sempre se espezinharam, aos de pele diferente que sempre desprezamos, aos que clamam preces a um Deus que negamos, aos ricos que sempre roubaram, aos pobres que sempre se escravizaram, aos gritos dos que ignoramos, às lágrimas que não limpamos, aos doentes que não tratamos, às crianças que não ensinamos, aos jovens que não compreendemos, às mentiras em que nos escondemos, às verdades que ignoramos.
Como esperar por tanto tempo o início da coragem que se vence por dentro e de dentro para fora, e não só aceitar, como também apoiar, trumps, pens, temers, maduros e outros que proliferam neste tempo presente? E, enquanto não chega outra vontade, não quero uma alma que sossegue com crueldade e sem juízo. Há dias em que o que o mais quero é uma alma nova.

não se procura nem se encontra

O amor é tão importante que não tem datas: tem dias. Todos. Porque o amor não se constrói, não se procura nem se encontra, não se cultiva nem se colhe, o amor está, o amor é, o amor tanto aparece como se desvanece, porque quando temos fome, comemos, quando temos sede, bebemos, quando temos sono, dormimos, por isso o amor é um estado etéreo permanente, pertence ao ser, e quando raramente se sente, sabemos e ponto final.

Braga é outra, e a mesma coisa

Braga é outra, e a mesma coisa.
Braga é aquela cidade que me acolheu enquanto a outra, onde nasci, me abandonou, por não conseguir mais dar de comer aos seus filhos, arrancando as grilhetas do sofrimento da humilhação.
Braga é a cidade onde conheci o Inverno e pensei morrer de tanto frio por tão quente ser o dia-a-dia na ilha verde que é também do meu coração.
Braga é a cidade onde as Tílias exalam um perfume tão doce que me faz ir à Avenida Central só para as namorar, mas onde as árvores ainda são decepadas para fazer nascer outras de cimento armado.
Braga é uma velha cidade romana a transformar-se numa cidade da Europa, empurrando, de barriga cheia, para o lixo, a história que a encerra, à espera de abrir o livro onde escreva a sua identidade para a deixar ficar num registo vivo.
Braga é a cidade onde “bou” e “bento” tem este som espectacular e em que os amigos se encontram nos cafés, pelas esquinas da arcada e da brasileira, pelos bancos dos jardins da cidade e da avenida, só porque sim, ou para falar de futebol e de política.
Braga é a cidade que se aninha aos pés do Bom Jesus e da Nossa Senhora do Sameiro em penitência pelos nossos defeitos, que são muitos, enquanto reza o terço pelos pecados ainda a cometer.
Braga é a cidade com mais igrejas do país, e ao olharmos para o horizonte distante vemos todas a cruzes que arranham os céus como agulhas de coser. Braga é assim das poucas cidades que ainda tem as portas dos templos abertas para um momento de solidão.
Braga tem um rio, o nosso rio Este, que não se quer encontrar, enquanto não entrar nele a vida que no passado se ficou e até ao presente se afundou.
Braga é uma cidade onde velhos casarões em ruínas parecem fantasmas que nos visitam sonos de pesadelo, onde tememos que algumas estátuas desçam dos seus pedestais para continuar os feitos dos tempos vivos.
Braga é uma cidade cheia de artistas velhos e novos para resgatar e lançar às arenas do espaço público para um reconhecido abraço.
Braga entra no peito de cada um de nós com a certeza de que seremos gentis com aqueles que vêm por bem, mas que precisa de encontrar o norte e o sul do seu entendimento.
Braga é a cidade que aqui partilho.

Bebé Angola

Cerram-lhes portas à ajuda
E pariu a mãe, na poeira da rua,
No primeiro choro deste bebé Angola
Sai um grito de guerra ao roubo de um povo

E a luta é nossa, mas primeiro é tua.

 

liberdade

Atiraram-nos a liberdade à cara

No campo, no mar e na cidade

Liberdade, liberdade, liberdade

Gritaram gargantas

Liberdade, liberdade, liberdade

Cantaram os lábios

Liberdade, liberdade, liberdade

Choraram olhos castanhos

Em caminhos, praças, jardins

Mas a liberdade não é chegada

De tanto recuar tropeçou na rua

Bateu com os cornos, toda nua

e quase que morreu assim

Levantaram-na com fractura de crânio

Acordou do coma, hospitalizada

Oi liberdade tens alta, irmã renegada

Liberdade, liberdade, liberdade

Mas não mais só na palavra

Que nos atiraram à cara.

professor

Será que isto é verdade?

O professor deve ser um fazedor do pensamento, no sentido de construtor de ideias, de organizar debates de posições e, à partida, todas as ideias terão de ser válidas e inclusivas e as que forem descartadas, muito bem discutidas e fundamentadas.
Teremos de ser sempre controladores pensantes dos instrumentos que nos dão a usar, e dos que construímos para utilização em contexto educativo. As tecnologias existem para habilitar, facilitar, e haverá nelas, sempre, dois ou mais gumes, entre eles a perigosa utilização das mesmas e o professor, como construtor/orientador de pensamentos, terá sempre um papel privilegiado na descoberta e na desconstrução da manipulação política e social na educação dos instrumentos que usam e muitas vezes escolher o menos mau, aquele que irá causar menos danos. Sempre foi assim, sempre houve tecnologias ao longo dos séculos, sempre houve tomada de posições sobre elas, sempre foram debatidas e discutidas quase à exaustão nos prós e contras da sua utilização. Os consensos são, muitas das vezes, falsos, ou indicadores de que não estão a ser devidamente discutidos.
O professor será sempre um privilegiado no participar da construção do pensamento, do seu e dos alunos. Este é, se pensarmos nisso, um “poder” maravilhoso a exercer com sentido democrático que se insere no exercício da cidadania, e aquilo que se defende hoje, poderá não ser o que se defende amanhã. A isso chama-se conhecimento e evolução. Esta foi a preocupação presente ao longo de 37 anos que estive no ensino. Se consegui? O futuro o dirá, pode ser que sim, pode ser que não.

praxes

A grande maioria de nós somos contra todo o tipo de abusos não consentidos, e contra as situações degradantes, humilhantes e perversas a que temos assisto, ao longo dos anos, na cerimónias da praxe, em que estudantes “mais velhos” usam de um poder tirânico sobre outros mais “novos” academicamente. Essa soberania pérfida e maquiavélica em que se priva alguém da sua dignidade, através da humilhação pública, tem que objectivo? Mesmo que as situações sejam “consentidas” qual é a mensagem de quem as decreta e de quem as sofre sobre a comunidade que assiste? Por que razão os estudantes se deixam humilhar daquela maneira? É tudo uma brincadeira? E quando deixa de o ser? A aceitação pelos pares terá mesmo de passar pela submissão a situações desumanas, as mesmas que combatemos, que quereremos que desapareçam da nossa sociedade? Que posição irão tomar estes jovens, perante a humilhação durante a sua vida futura? Não, não me convencem a aceitar este tipo de acolhimento aos caloiros. No entanto, isto não tem nada a ver com o ver alunos a banharem-se, a molharem-se, numa fonte da cidade. Isso é mesmo uma brincadeira, na qual, pessoalmente talvez não participasse, mas não é grave, Quem quer vai, quem não quer sai, ou nem entra sequer, o que é preciso é não perder a capacidade de ajuizar e decidir se a situação se coaduna, ou não, com os seus valores e dos que estão à sua volta.

Island of Mykonos in the Cyclades Archipelago

Today I woke up on the Island of Mykonos in the Cyclades Archipelago in the Aegean Sea after having put on my hiking boots, boarding a train, an airplane, then a ship and going. Simply to go and go, concentrating on the steps of going with a will of being a human, who always needs to renew him/herself, eager to walk, even if it would be once again, over the granite stones of Mykonos and to feel them all different. I saw myself seated cross-legged with others around the fire singing folk music from my African land, accepted by this group of refugees living there, already resigned to life in this place, perhaps having a child asleep on my lap – no matter if it is a boy or a girl – warmed by the fire that burns in the centre of a ring of the stones, trying to forget the waves that were left behind, warming up their bodies and souls that are still so cold from the shock and the rollers that drenched them and, solemnly, invoking the piety of the Greek gods. Oh Zeus, king of all the gods, what are you waiting for? Send the news about us from here to the entire world. And you, Athena, give us the wisdom to be just, protect the Arts but take war and bury it, where it cannot be found any more, or better still incinerate it in case human curiosity could disinter it. Hades, take care of the innocents that suffered death, take them to the stars and those with ill will to the underworld, whose shadows still crackle among the embers, which are already burnt, and those yet to be burnt. My Good Hera, protect the women and children, all of them filling up the Aegean Sea with tears of injustices that entangle them and Powerful Poseidon make a calm pathway in this sea that they have crossed, as they need the quietness of these waters of humiliating war, and give them a safe arrival to the firm shores of any continent, so that you, Oh Demeter can enter and protect our harvest of good will, which is all that we can offer. Persephone, do not say good bye now, do not go when Spring is over, because your flowers and fruits are still here, dozing while it is night, waiting while it is day, human souls, people protected by you. And Chronos, advance time more quickly, because for them it seemed like the minutes they suffered appeared like centuries. To you, God of the Christians, that brought Jesus among us, instill in each one of us that believe in him, empower us with the strength of simple things and the courage of the strong, as without them we will have the cowardice of the oppressors, that subjugate those who are different, fragile and innocent. Listen to us Gods of all the Worlds from A to Z, because each one strongly believes that you are the only one, so that from now onwards the doors of the heart never will be closed anymore to the voices of each other.

ilha de Miconos, do arquipélago das Cíclades

Acordei, hoje, na Ilha de Miconos do arquipélago das Cíclades, no Mar Egeu, depois de ter calçado as botas de montanha, de me meter num comboio, num avião, depois num barco, e ir. Simplesmente ir com ir, concentrada nos passos do ir, com esta vontade de ser que sempre precisa de se renovar, ávida por repisar, nem que seja por mais uma vez, nas pedras graníticas de Miconos, e senti-las, todas diferentes. Vi-me sentada de pernas cruzadas, à volta da fogueira, a cantar mornas da minha terra Africana, aceite num grupo de refugiados, ali, já resignados com a vida do sítio, talvez tivesse uma criança adormecida no colo, tanto se me faz se menino ou se menina, aquecida pela fogueira que arde no meio de pedras, tentando queimar as vagas que ficaram para trás, aquecendo as almas e os corpos ainda tão frios do choque e da vagas que os ensopava e, solenemente, invocar piedade aos deuses gregos: Ó Zeus, rei de todos os deuses, de que esperais para dar, daqui, novas ao mundo inteiro, e Tu, Atena, dai-nos a sabedoria de ser justo, protegei as artes, mas levai a guerra, enterrai-a para onde não a possam mais encontrar, ou melhor incinerai-a que a curiosidade humana a poderia desencantar, Tomai, Hades, conta dos que se foram com a morte, para as estrelas ou para os subterrâneos da má vontade, e cujas sombras crepitam ainda neste carvão que já ardeu e no que ainda será, Protegei, Minha Boa Hera, mulheres e crianças, todas elas a encherem este Mar Egeu de lágrimas das injustiças que as enredam, e Poderoso Poseidon, abri uma vaga de calmia neste mar que atravessámos, precisamos da quietação destas águas de guerra dos humilhados, e fazei-os chegar seguros ao firme de qualquer continente, para que tu, Ó Deméter, entres, e protejas as nossas colheitas da boa vontade, que pouco mais lhes poderemos oferecer, para que tu, Perséfone, prestes a despedir-te, não partas, acabando a Primavera, pois tuas flores e teus frutos são aqui, dormitando enquanto noite, esperando enquanto dia, almas humanas, gentes por ti protegidas, E avançai, Crono, este tempo, de forma mais acelerada, que nos parecem séculos os minutos em que sofremos, e a ti, Deus dos Cristãos, que trouxeste Jesus, ao nosso meio, põe-no em cada um de nós que nele acreditamos, para que nos possamos vestir da força das coisas simples e da coragem dos firmes, pois sem eles temos a cobardia dos que oprimem, dos que subjugam os diferentes, frágeis e inocentes. Ouvi-nos Deuses dos Mundos todos, de A até Z, porque cada um carrega em si aquele que nele habita, de pedra e cal, e que não se fechem nunca mais, às vozes de uns e de outros, as portas do coração.

http://www.suapesquisa.com/musicacultura/deuses_gregos.htm

Cada entidade divina representava forças da natureza ou sentimentos humanos. Poseidon, por exemplo, era o representante dos mares e Afrodite a deusa da beleza corporal e do amor. A mitologia grega era passada de forma oral de pai para filho e, muitas vezes, servia para explicar fenômenos da natureza ou passar conselhos de vida. Ao invadir e dominar a Grécia, os romanos absorveram o panteão grego, modificando apenas os nomes dos deuses.

Conheça abaixo uma relação das principais divindades da Grécia Antiga e suas características, alguns dos quais foram usados neste texto.
Zeus – rei de todos os deuses

Atena – sabedoria, guerra, justiça e artes.

Afrodite – amor

Ares – guerra

Hades – mundo dos mortos e do subterrâneo

Hera – protetora das mulheres, do casamento e do nascimento

Poseidon – mares e oceanos

Eros – amor, paixão

Héstia – lar

Apolo – luz do Sol, poesia, música, artes, beleza masculina

Ártemis – caça, castidade, animais selvagens e luz

Deméter – colheita, agricultura

Dionísio – festas, vinho e prazer

Hermes – mensageiro dos deuses, protetor dos comerciantes, dos viajantes e dos diplomatas.

Hefesto – metais, metalurgia, fogo e trabalho.

Crono – tempo

Gaia – planeta Terra

Hebe – deusa da juventude

Perséfone – deusa da primavera, das flores e dos frutos.

Éris – deusa da discórdia.

todos os dias

Todos os dias quero.
Quero viver até não poder mais,
Que seja por um momento,
os tais impossíveis de esquecer,
Quero ir a trabalhar,
Quero ir a rir, a sorrir, a escrever
Quero ouvir o silêncio de cada vácuo,
Quero ser e estar num pleno,
Quero dar forma ao pensamento,
Num pedaço de barro, de granito, de pincel, de clave.
Quero dizer que valeu o respiro,
Cada segundo,
Cada ápice,
Cada asa de vento
Que a ti,
A nós,
Deixou feliz.
E se uma estátua construir,
Que veja com olhos cegos,
Que fale com lábios cerrados,
Que abrace com braços apertados,
Que ande com pernas de liberdade
E que grite o poema da vontade.

14 de maio de 2014

quantos são os que

Quantos são os que lavaram as mãos
na grande merda que fizeram?
Luvas brancas, gravatas de risca fina,
fato azul marinho, missa ao domingo
sempre que a consciência pede
ou se o sono se perde,
Quantos são os que lavaram as mãos
na grande merda que fizeram?
Escavam memórias,
enterram vidas,
cantam vitórias,
cegam homens,
usam mulheres e crianças,
afundam botes de plástico,
nem os pássaros de Maio se salvam,
murcham as flores se os olham de frente,
e se uma brisa de tempestade nascesse
cresceria como o Vesúvio
e pediria ao sol da bonança que os assasse
eles e mais as suas misérias
para repasto num banquete nupcial
e sentados àquela mesa
apenas
os que fogem
os com fome
os sem mão
de um tecto,
de uma escola,
de um hospital ,
de um pensamento,
de um pincel numa tela,
dos acordes de uma viola,
de uma folha cheia de palavras,
porque ninguém nos diz
Quantos são afinal os que lavaram as mãos
na grande merda que fizeram?

um novo abecedário de letras velhas que aqui quer viver

ainda os atentados ao património de Braga.

Braga, 4 de Maio de 2012

um novo abecedário de letras velhas que aqui quer viver

As letras não são mais as mesmas, há todo um novo velho alfabeto por aí a reinar, com um acordo ortográfico firmado que já vem do passado e que por aqui se quer escrever. Não creio nele, nem numa letra sequer, por tão baralhadas estarem e, com elas, os conceitos também. Não fio nem um chavo, ao que por aí se vai dizendo, não nado nas letras deste mar calmo, do “não faças ondas”, tudo se vai arranjar, que bonito ficará, e o tanto que se fez, não olhes para o passado que o que lá vai, lá vai, e isto é o que vês.
São letras de um abecedário de cheiro fétido, estagnado, escritas em páginas douradas, com fins muito lucrativos, de grandes empresas, de tantos outros amigos, pois tudo o que se faz justifica os meios para se lá chegar, em letras de dourar a pílula para as dores de cabeça, que não queremos que a tenhas, o melhor é que nem a uses, com tais letras da simpatia velada, centrada na adulação, na palavra melíflua que pinga logo no lixo, na tecla delete, no vai para o raio que te parta que não estou para te aturar. Pois todos sabemos o que são letras de promessas escrita a números, em licenças, contratos ou promessas, à frente, ao lado, ou mesmo atrás de um cheque, nunca em branco, pois o passado não importa, o agora é que tem de ser, mais o que ganho eu, uma bola, um balão, um fogão ou um chouriço, e, um futuro como realmente deve de ser, não passa disso.
Mas como Braga vale a pena, aceitamos o abecedário que nos deixa fora deste legado, daquele que garanta o passado, pondo ordem no ADN, nas memórias que queremos ter, com as partículas de “Bosão Higgs” num caos bem ordenado, pois Braga, para um bom futuro ter, conta connosco, e isso vai-se ver.

o que querem que vejamos

Dizem que o espelho nos grita verdades, mas a maior parte dos tempos pode estar a contar-nos mentiras descaradas, daquelas de todo o tamanho, aquelas que querem que sejamos, aquelas que querem que vejamos. Gosto de escolher as verdades em que acredito, e, no dia seguinte, já não sou o que era ontem, e há dias em que não reconheço de todo quem ali é. Sim, discutir com ele, por muito estranho que pareça, acontece, e por muitas vezes. Grande aldrabão me saíste, cristal, cristalino. A menopausa, as rugas profundas e as sombras descaídas com que dás os bons dias não mostram hoje o que sou, como também não mostravas quem era quando tinha os catorze, os quinze ou, mais tarde, vinte, trinta ou quarenta, dizias tu, quando mais madura. Claro que é bom não perder a realidade de vista e pegar nos cacos, para que tudo comece a encaixar-se, a fazer sentido, mas naturalmente, não como tu queiras, cristal, cristalino, seu bardamerdas.

esses ou eles

Não sei se tristeza, se isso misturado com indignação, mas há algo de muito perverso quando se designam, todos os que são diferentes, por “esses”, ou “eles”. Acreditamos, mas também fazemos disso a nossa vida no quotidiano, numa igualdade total no ser humano, de género, raça ou credo. Acreditamos que só assim os conseguimos realmente conhecer e portanto, também, compreender. Não precisamos de comungar as mesmas crenças, nem os mesmos hábitos, nem dar as mesmas passadas, mas há respeito, há diálogo, tudo isto misturado, com alguma ternura. E como é bom. Com “esses” tais, ou com todos os “eles” diferentes, bem presentes em nossas vidas, temos ficado mais ricos com as suas diferentes abordagens. Gostamos quando vemos homens e mulheres, apenas como homens e mulheres. Passamos a ser com eles, a pertencer, a incluir, fazendo “amigos” de ocasião ou para toda a vida. São laços que nunca se perdem. No entanto, aqueles que os vêem como esses ou eles, são sempre os outros, mantêm uma distância que passa a ser tão grande como real, e cuja proximidade assusta, ameaça e incomoda. E quem trata o outro como inimigo passa a ter ali um inimigo. E “esses” ou “eles” não têm problema nenhum em os matar, em se matarem, porque não são da mesma espécie, passam, simplesmente, a inimigos para eliminar.

uma praceta de Braga

uma praceta de Braga

O centro da praceta do Largo de S. Martinho tornara-se o mundo. Sentira-se uno com ela, concentrando-se de dentro para fora, transmitindo um olhar orgulhoso, ora bem fundo em sim, ora em volta, olhos nos olhos, um a um, percorrendo o público que se ia aglomerando, em círculo, inspirando-o. Outras vezes, com a necessidade de sorver algo mais forte, olhava ao alto, onde parecia beber a força do poder de fazer o que tem a fazer, da razão do estar ali e do ser assim. O almoço equilibrava-se no pau retorcido e côncavo e o artista, todo entregue ao momento, segurava-o com firmeza, a dois terços do seu comprimento, palma para cima, músculos bem torneados, equilibrando, num lado, a cesta de vime vazia (imaterialidade da vida que abraçava) e, no outro, uma bola branca (o mundo que queria diferente). Bem ao limite, cabia-lhe evitar que se despenhasse, em cacos, por cima do espelho da mesquinhez, da avidez de quem dele se aproveita.
O público já era muito, o poder da bola branca aumentava, o poder de alcançar o equilíbrio mais a adrenalina do momento estava ao rubro. Tinha nas mãos a magia do cajado de madeira, poder de há milénios desde que, segundo reza a história, se abriu, em dois, o mar Vermelho para o êxodo de um povo, com a esperança que acontecesse hoje o mesmo, para a fuga do povo Sírio. Urge evitar a queda do planeta em cada um de nós, mas, entretanto, o centro da praceta transformava-se num grande mundo.
6 de Abril de 2014

foto publicada com autorização de José Delgado

42 anos, meu anjo

42 anos, meu anjo. Há 42 anos tirava o curso do magistério primário aqui em Braga, tinha uma motorizada sachs minor modificada branca e uma existência que bulia sem parar, sentia tudo muito muito, já escrevia também muito muito, fumava muito muito e muitos diziam que me drogava. Resmungava sem parar, distribuía panfletos revolucionários nas saídas das fábricas ainda com a tinha preta fresca a cheirar, e sorria sem parar, tinha um namorado, pois claro, de quem gostava muito muito, mas a tua chegada amor fez com que todo o muito muito ficasse com uma luz diferente, tudo muito muito mais claro amarelado e hoje, continua essa luz em nós. Amo-te.

opinião e ironia

(…) Esta é a minha opinião, não precisa de ser dito, está aqui e é o que será. Camões, não sou alma gentil que partiu, fui, sim, ao mundo, desde que a mãe me pariu, mas alma de gentilezas não sou, e pronto, ponto final. Ao mundo me obrigaram a ir, ao mundo me obrigaram a estar, ao mundo me obrigaram a (des)sentir, e ao mundo me obrigaram a ficar, este mundo que tem agruras em multidões, vasta semeadura de podridões, há milénios de gerações, que se escravizam a uns senhores. Pergunto ao génio preso na ânfora, o que é que afinal ainda nos resta, mas ele não diz o que ao mundo espera, nem ao sítio aonde ele chega, mas segreda que a alma aonde vai, o mais certo é que cai, quando subjuga uma por outra. E, Camões, assim declaro que não poderei cantar os feitos deste mundo, dos desfeitos serei pois um, e então que me fique aqui na rede, rodeada de árvores e pardais, e fique neste silêncio escondida, porque o mundo se sorriu, queria chorar e se chorar, um esboço de sorriso pariu, o da troça e da ironia, o da sobranceria e desamor. (…)

felicidade e o tempo presente

A felicidade é amiga íntima da consciência presente, não fora assim e o homem afogar-se-ia na existência.

borboletas também são anjos-da-guarda

Sabes? quando procuro respostas quase impossíveis, quando os suspiros cortam o espaço com lâminas geladas, quando a ausência se transforma em páginas de silêncios demasiado longos, quando pedaços de tristeza se entranham no DNA do genoma humano, tu apareces, quase que chocas contra a minha face, e, numa energia universal única, escreves, varrendo no ar, um símbolo gestual de amor que só tu sabes fazer.

o que gosto quando chegada da primavera

Gosto de ver as pessoas a trazer a si o tempo mais quente, procurarem o branco para se vestir e calçar, combinando com outras cores claras ou com o clássico azul marinho. Gosto. Para o meu corpo continuo com os pretos e algumas vezes, os cinzentos, não só por viver este tempo pascal de reflexão, mas porque é ele que combina com o ser que tenho, alimentando-o, aqui e ali, com esperanças de um colorido natural. Gosto. Gosto de silêncios prolongados acompanhados por brisas frescas que trazem o aroma do jasmim e da flor de laranjeira do nosso quintal. Gosto de ouvir Schubert, por vezes de olhos fechados, outras enquanto converso com os olhos dos gatos e dos cães que se estendem indolentes, à volta do meu preguiçar. Gosto.Gosto do que perguntam e, de dedo em punho a deslize pelo vidro, escrevo sem muito pensar. Gosto.

preguiça

É quando deixamos que a preguiça se instale, tranquila, descansada, frágil, e nos envolva num abraço carinhoso, que ficamos mais atentos ao rodopiar dos eixos universais. E neste embalo do alerta que recebemos, por aparente incoerência, fazemos outros sentidos, uns novos, outros tão velhos como o homem.

gula, ai que língua afiada nos deu o criador

Alma tão pobre aquela que apenas sente prazer enquanto come, dizemos daquele ser que prolonga ao ínfimo minuto o momento da refeição, para a ingerir com “animalesca” vontade, e que resume todo o seu existir a esses sagrados momentos do dia, gravando na sua pobreta existência a lei do viver para comer, em vez do comer para viver. É vê-lo, dando às gananciosas células motivo para se atropelarem umas às outras, ao mesmo tempo que enviam sinais, entre elas, de apetites soberbos, estimulados pelos sensores colocados estrategicamente nos terminais das células nervosas do seu mal-aproveitado cérebro, transformando, em células adiposas, mais de noventa por cento do corpo. Claro é que estas linhas foram escritas após um desses momentos de saciável desvario no prazer gastronómico, e por isso, sem a intenção de magoar seja quem for, ficando a ressalva de que, de todos os animais, só temos visto o homem como sendo capaz de tal comportamento. Mea culpa, Mea culpa.

uma Páscoa de livre sentir para todos vós

Vivemos neste tempo um prolongamento de todo o questionar da existência. O sofrimento de Jesus é o sofrimento causado pelo homem ao homem. Jesus, ao sofrer a perseguição dos que se negam a compreender outras verdades que não as suas, diz que está ali, até ao fim, por elas morre, verdades que não nega porque é nelas que acredita. Jesus dá-se a uma entrega submissa e total aos que lhe querem mal, porque não lhe podem roubar convicções profundas. Jesus não aceita o poder daqueles que rejeitam, liminarmente, em julgamentos pré-decididos, uma vida de dádiva pelo amor. Jesus rejeita do poder de um condenar fácil, o poder da tirania dos que chamem a si sentenças de morte ou de vida e rejeita dar ao homem o poder de ter, em suas mãos, a frágil morte e a difícil arte de existir. Jesus zomba, no silêncio daquele que já percebeu que vai enfrentar o último momento, dos poderes das multidões exaltadas que se comprazem em subjugar os mais fracos só pelo prazer de jorrar sangue alheio. Jesus recusa negar dar a mão àquele que a estende porque afinal o que permanece inquebrável é o poder de Deus, aquele que ninguém nos pode roubar no peito onde o encerramos. Jesus é um revolucionário que nos permite uma passagem de liberdade.
Uma Páscoa Feliz, porque este livre sentir ninguém nos consegue roubar.

adivinham-se tempos difíceis para os vendilhões do templo

adivinham-se tempos difíceis para os vendilhões do templo
 
A igreja entra, às claras e descaradamente, no negócio imobiliário. Até os consigo ver, todos alinhadinhos, sentados nos cadeirões do púlpito da Sé de Braga, de olhos fechados, com cifrões a chover, em cascata, nas pálpebras da sua santa visão, secundados pelos acólitos de Ricardo Rio, em quem “Deus votaria se à terra voltasse”, na primeira fila de honra de tão honrado templo, depois, é claro, de todos os seus pecados já confessados e perdoados, para a sagrada comunhão. Junte-se a isto do S.Geraldo, o arrendar do terreno das Oficinas de S. José, à Sonae, e podemos garantir um ano muito muito proveitoso para os cofres da Santa Madre Igreja, fundada por Jesus Cristo para tudo menos para isto, há cerca de dois mil anos. Mas a imaginação dos homens é mesmo muito fértil e sou dada a visões enquanto escrevo, por isso teletransportei-me para Jerusalém, com o telemóvel onde estou a escrever este texto, para ver claramente estes vendilhões do templo de Bracara Augusta, a serem expulsos pelo Nazareno.
Adivinha-se um jejum pascal com muita azia, mesmo.
medonho

medonho

Lisboa, 2 de Abril de 2017

Quantos de nós não abririam os espantos a jorros e não soltariam um sonoro “UAUUUU” ao ver este enorme monstro, ontem, atracado no porto da capital Lisboeta, que navega nos oceanos que todos conhecemos e que, por princípio de justiça, nos deveriam pertencer por direito natural. Pois é verdade, andamos nós e os deuses sempre tão distraídos, até o Deus único, a quem tudo seria possível, e que ordenou a construção de uma nau gigante para salvar a sua criação, agora se compraz por nos ver egoístas e desprovidos de iniciativas solidárias, já que o mundo é grande demais para ser enfrentado por uma alma só. Dizia então que a admiração teve tanto de grande como de genuína, como grande e perfeito é o dito cujo que fotografei, de carro e em rodagem. Mas todos sabemos como a língua humana é sempre afiada pelo que bradei sem reserva, e esta barcaça gigante, que por ironia penso ter vindo lá dos lados das ilhas Gregas até Lisboa, não poderia ter servido ao trabalho humanitário e salvar milhares e milhares de refugiados que atravessaram o mediterrâneo em condições sub-humanas, numa tentativa desesperada de escapar da morte, da destruição e da guerra, para encontrar outras espécies de morte, a do encontro titânico com outras espécies pseudo-humanistas que os tratam pior do que ao cão, ao gato e ao periquito. A avaliar pelas horríveis cenas que não nos saem da cabeça, não foram ouvidas as preces que proferi a Neptuno para que poupasse crianças, velhos, mulheres e homens que, em autênticas cascas de noz carregadas de formigas, atravessaram o Mediterrâneo, para chegar aqui a bela Europa. No entanto, o cruzeiro ai está, e vai continuar a fazer as delícias a quem quer, e a quem pode.

nem tudo o que parece, é

Nem tudo o que parece será, e nem tudo o que é realmente parece, mas o que é certo realmente, é que são sempre os inocentes que pagam. (relativo ao ataque no metro de S. PETERSBURG).

falsa harmonia

Todos, pertença de uma inquietude permanente, uma aflição que desperta ao mesmo tempo que magoa, já que, hoje e desde sempre, o mundo desafia a atitudes que nem sempre compreendidas, que nem sempre aceitas, que nem sempre esperadas.
Todos, pertença de uma inquietude permanente, gritemos aos quatro ventos as farpas espetadas debaixo do nosso olhar atento, com uma fome desalmada por entender, numa procura, primeiro individual e depois colectiva, de soluções.
Todos, pertença de uma inquietude permanente, não somos donos do nosso destino, mas somos os senhores dos nossos caminhos, e o desassossego vive mesmo ali, ao cimo dos cumes da existência, no sótão das velharias deste mundo, que sempre procura uma doce e falsa harmonia que nos faça sorrir quando (e se) encontrada.

como esteve o tempo por aqui, e mais umas entrelinhas

como esteve o tempo, por aqui, e mais umas entrelinhas que não saem da cabeça
Olá, esteve um lindo dia e vão continuar assim, solarengos lindos e quentes, os dias cá por Braga, de acordo com o Google.pt, portanto, desfrutem, cumpram o vosso jejum pascal e não se esqueçam das orações, que, como muito bem sabem, podem ou não ser ouvidas, conforme cheguem ou não ao destinatário.
Agora fechem os olhos, imaginem que estão na Síria, a ser bombardeados com armas químicas. Um, dois, três, agora.
Já podem abrir os olhos. Aconteceu hoje, mais uma vez, foi horrível de se ver na CNN e na Al Jazeera, crianças de todas as idades a não conseguirem respirar e a morrerem com falta de ar e mais outras complicações, mas a maior parte delas sem um beliscão, ou seja, o ataque não feria por fora, era sim para matar com um gás venenoso toda a população civil daquele lugar. Entretanto via-se, imaginem mais uma vez, um dois três, agora, pais, mães e outros profissionais que faziam tudo de tudo, com os nadas que possuem naquelas precárias condições, tentando reanimar aqueles corpos inocentes.
Não, não consigo imaginar como terá sido lá no lugar, mas tudo o que vi e ouvi, ecoa neste cérebro, em rodopio, incluindo as palavras do médico responsável ao afirmar que o que viveu hoje, naquele lugar, foi a mais horrenda experiência de sempre. Temos mais um holocausto aqui por este planeta terra e não se não me parece que vá ficar por aqui.

inquietude

Todos, pertença de uma inquietude permanente, uma aflição que desperta ao mesmo tempo que magoa, já que, hoje e desde sempre, o mundo desafia a atitudes que nem sempre compreendidas, que nem sempre aceitas, que nem sempre esperadas.
Todos, pertença de uma inquietude permanente, gritemos aos quatro ventos as farpas espetadas debaixo do nosso olhar atento, com uma fome desalmada por entender, numa procura, primeiro individual e depois colectiva, de soluções.
Todos, pertença de uma inquietude permanente, não somos donos do nosso destino, mas somos os senhores dos nossos caminhos e o desassossego vive mesmo ali, ao cimo dos cumes da existência, no sótão das velharias deste mundo, que sempre procura uma doce e falsa harmonia que nos faça sorrir quando (e se) encontrada.

irónica, sou hoje

tão útil que fui hoje, a sentir-me irónica, e não há um “smile” para isto.

Acordei à mesma hora, ainda pouco desperta, apressei-me a abrir a caixa de comprimidos e a emborcar o comprimido da tiróide, o que me dá vinte minutos até ao mata-bicho e é o primeiro de mais quatro que terei de tomar. Não sorri para o espelho não fosse ele perguntar por que estava tão alegre, ajeitei-me, alindei-me dentro do que é possível e pus uns brincos, mais uns berliques e berloques. Não consegui disfarçar as rugas que no espelho parecem caminhos de cabras de lá pr’ós lados de Trás-os-Montes, talvez de Cetos, a aldeia mais bonita das nossas Beiras e vi que as banhas saíam pelo cinto fora como tudo o mais que sobra de carne e banha e que cai com a idade, o excesso de peso, e mais a força da gravidade que envolve o nosso planeta. Desci para o tão desejado pequeno-almoço com ideias de contenção que duraram pouco tempo. Como está um dia tão lindo, dei por mim a sorrir sem motivo especial, corri ao quarto, tirei os brincos, os berliques e o berloques, calcei umas botas confortáveis da Decatlon e amei-me com​ a Canon 60 D. Fomos para a beira do rio Tejo e juntamo-nos aos milhares e milhares de turistas que por ali estavam também armados de sorriso escancarado e máquina fotográfica. Cliquei, cliquei cliquei e, de repente, fiquei sombria. Sabem o que fiz, procurei um lugar mais isolado que encontrei, sentei na relva calada e dei milho aos muitos pombos que se aproximaram Será que o melhor de mim ainda está para chegar?

Camões, não sou alma gentil que partiu

(…) Esta é a minha opinião, não precisa de ser dito, está aqui e é o que será. Camões, não sou alma gentil que partiu, fui, sim, ao mundo, desde que a mãe me pariu, mas alma de gentilezas não sou, e pronto, ponto final. Ao mundo me obrigaram a ir, ao mundo me obrigaram a estar, ao mundo me obrigaram a (des)sentir, e ao mundo me obrigaram a ficar, este mundo que tem agruras em multidões, vasta semeadura de podridões, há milénios de gerações, que se escravizam a uns senhores. Pergunto ao génio preso na ânfora, o que é que afinal ainda nos resta, mas ele não diz o que ao mundo espera, nem ao sítio aonde ele chega, mas segreda que a alma aonde vai, o mais certo é que cai, quando subjuga uma por outra. E, Camões, assim declaro que não poderei cantar os feitos deste mundo, dos desfeitos serei pois um, e então que me fique aqui na rede, rodeada de árvores e pardais, e fique neste silêncio escondida, porque o mundo se sorriu, queria chorar e se chorar, um esboço de sorriso pariu, o da troça e da ironia, o da sobranceria e desamor. (…)

este mar que nos beija

Muito chorou a humanidade para formar este oceano. Lágrimas, umas vindas da tristeza e da raiva, outras nascidas do medo, contudo todas elas nascidas da ignorância, essa incapacidade de olhar, de encontrar e reconhecer a intensidade de ódio que o homem acolhe em si. Essas lágrimas, hoje, a mostrarem-se furiosas, embatem contra as arribas rugosas, engolindo as mágoas feitas destas emoções desencontradas;
em lágrimas, vista turva, olhei o horizonte, enquanto a neblina avançava rente ao mar, engolindo-o à medida que se dirigia ao monte da praia Vitória, onde os portugueses chegaram no séc.xv, a ameaçar esconder, também hoje, ainda mais profundamente, as emoções gravadas a ferro e fogo num coração de mulher guerreira, nunca domada, enquanto outras, por gerações e gerações foram espezinhadas, sua lealdade comprada, sem voto na matéria em tudo o que diz respeito ao seu corpo, dominada do umbigo para baixo, vazia do umbigo para cima. São mais das mulheres, estas águas oceânicas, tenho disso, a certeza absoluta.

pintei tudo de azul

pintei tudo de azul

vem um vento frio cheio de almas de gente que carrega a guerra em sapatos poeirentos
são suspiros últimos de quem se entrega nas asas da morte que já veio

vem um vento frio que traz infernos a arder nos desertos
são a ignorância, são a espada que corta a razão e se alimenta de medo

vem um vento frio que traz lágrimas tuas
são rios de silêncio da desilusão que tens de ti

vem um vento frio que se entranha na pele de gentes sensíveis
são daquela raça que olha para o lado, esconde a miséria do mundo nas pregas da veste e mesmo assim, sorri

vem um vento frio que atiça ódios perenes que se alimentam por ali
são os abutres que rodeiam no ar, em voos planados, até que que o rigor mortis se instale, para em voo picado disputar o pedaço de asno a roubar

vem um vento frio que pinta tudo de azul,
são céus cá por baixo, porque só há voos ao alto, em liberdade

vem um vento frio de inverno, porque na primavera ou não
somos nós, assim

 

a rispidez do infinitivo

Quando acordo e discordo do que ouço, vejo com clareza que algo mais nos vai importunar, porque tens no olhar um rosto cansado. Nada te escondo. Quero que saibas como o mundo nos está a tramar e que ouço os mortos disputarem lugares e segredarem planos para nos virem buscar.
Iludem tal trupe com uma bondade fingida vestida de caridade que é de se olhar, para o ego agradar. Traduzo o idioma usado na idiotice pegada, publico o dicionário que desterra a mentira, mas ninguém quer acreditar.
Quando sentem na pele a comida a escassear, o frio da noite gelada na cama de estrelas para partilhar, os filhos de mãos estendidas por um naco para mastigar, sem um lugar para o sonho sentar. Falo mais alto no coreto da praça e um colete de forças me quer abraçar por tão grande incómodo, à volta, causar.
Estão mais uma vez avisados, nestes momentos frágeis alguém de grande lata e fingimento nos vai triturar e eu, sem fugir, aqui estou para contigo lutar.

pijamei

Hoje pijamei. Não lembro de outro dia em que tenha pijamado sem estar doente. Pijamei a escrever. Pijamei a comer. Pijamei a ver televisão, amei a pijamar e farei uma outra infinidade de coisas neste enganoso conforto.
Sinto-me completamente pijamada, relaxada e pronta para despijamar amanhã.
Tenham um bom dia, amigos.

Jeroen Dijsselbloem

Jeroen Dijsselbloem, juro que não sei dizer este nome nem tão pouco isso me interessa, pois dizia que o dito cujo não passa de mais um frustrado imbecil, num pretenso cargo de chefia e responsabilidade. Ponham-lhe, então, os patins, e queiras, Ó Deus, que não os saiba usar, para partir os cornos que esta mulher do sul lhe pôs.

porta

o dia encontra-nos de mansinho
pede licença para entrar
entra e abre caminho
apaga o negro do quadro
pinta, de uma nova cor, futuros
aparece no arco-íris
lembra a dor e o amor do mundo
e escreve.
faz-se em riscos e rabiscos
em linhas e entrelinhas
traçando entre agoras e amanhãs
um imenso mapa
nas linhas das pedras da calçada.
e enquanto te ouço
leio-te e escrevo-te a alma
encontro-me então no sorriso
abraçada ao teu eu
construo uma nova ala
por onde te deixo espraiar
para que me encontres com ela
com o mundo
nas pontes
nos elos
no norte e o no sul
na vida
entre o quadro negro
de uma infância de giz
e o sonho da utopia
que ensina
mas que nem sempre se aprende
um alvo
ser feliz

qual de nós fala na barca do inferno

Nunca sabemos se é Deus ou o demónio que por nossa boca fala, já que pode ser Deus ou Lúcifer a dar-nos razão, e para nos convencemos sempre que por nós é Deus que sentencia é somente para justificar actos que a uns mata, a outros esfola, e a poucos salva. O melhor será deixar as divindades de fora, recorrer ao entendimento, e perguntar se é que não somos nós mesmos a trazer ao mundo o Satanás que tem reinado.

sopro de vida

Quando o acordar toca
quando a história chega tão de repente
quando os sinos dobram
logo uma página de palavras se desdobra
para que então se encha de possíveis não acontecidos
de dias que não dormiram
de fantasmas que por ai andejam
porque é essa a vontade
fazer nascer um recado impresso
um estilete gravado
a ferir de morte vampiros
que se engasgam no escárnio do seu sangue
de fluidos roubados
quando a noite chega
quando aquele pedaço de branco não está mais vazio
e prenhe se preenche de respostas
aos gritos que clamam
e que esbarram no entendimento

quando fica o carinho estéril e seco
quando a razão sugada
se esvai solo adentro
vem o desassossego que se instala
num falso momento
de um deleite suave e demorado
para que num último sopro de vida
com as palavras lavradas
se faça como devia de ser
a vida

 

muros e pontes

Só construo muros inabaláveis e intransponíveis contra pessoas sem bom carácter, contra todos os crimes de corrupção daqueles que roubam dinheiros públicos ou promovem o enriquecimento pessoal à custa do trabalho e da boa vontade dos outros, e contra, ainda, os que não praticam uma política social igualitária, no entanto prefiro a construção de pontes, pontes essas que conduzam ao apoio das melhores políticas de inclusão, que dêem prioridade à educação e à cultura, que garantam o livre acesso aos cuidados e serviços de saúde, que unam e adoptem as directivas que promovam a segurança dos cidadãos, que suportem igualdade de género, de raça, de credo, e de orientação sexual, que tomem por prioridade as políticas sociais e que acreditem, e pratiquem, na totalidade, políticas ambientais para preservação do planeta. Tenho por convicção que seríamos todos muito mais felizes.

acordar

Olhei para o relógio do telemóvel e vi a hora, o dia, o ano. As verdades gritadas ao espelho mentiram-me. Atei as mãos à cabeça. No desespero, ajoelhei-me na relva ainda molhada, ajoelhei-me à vida, ajoelhei-me a vós e, em súplica, vi-me de face virada ao céu. O nosso ontem, o nosso hoje, o nosso amanhã, o VIVER, pertence-me-te: TODO.

quando te toco

no gosto de te tocar vem a palavra,
vem a poesia e tudo muda.
é intenso, é pureza,é momento.
é o sentimento mais virgem que conheço.
e é novo, tudo novo para mim, de ti.

viver

“viver, ai viver
viver só o é se intenso
num intensificar do palatum
num espremer do tempo de um relógio de Salvado Dali
viver é a loucura de ver um segundo eterno, no presente
um momento
mas viver também é parar
enroscar-se a preguiçar no silêncio
perder-se no espaço volátil do suspiro
viajar numa lufada de veneno
tremer com o vento
e com um sorriso”

líderes

Ao longo dos séculos temos inúmeros exemplos de multidões que seguem, aplaudem e choram os líderes responsáveis por inúmeras desgraças. E a vida continua. A democracia está em cada um de nós. A democracia está no poder de cada cidadão. E a vida continua.

voo

É isso que quero fazer todos os dias. Sempre que posso. Voar. Voar paredes fora no meio dos outros. Não sou maria-vai-com-as-outras. Tu também não. Escolhes a tua companhia. Escolhemos. E deito-me à lareira, meio sentada, meio deitada, com os pés ao alto pousados na beira do granito. Encosto o livro às coxas unidas para o receber e parto. Se me dá para olhar para a lareira, a luz fica mais intensa, o calor mais aconchegado, o conforto mais amado. A posição é a melhor do mundo. O tempo pára ou avança, os espaços definem-se, a companhia aconchega-se. Tudo isso porque nas mãos tenho um. Quando não voo fico rezinga. Tudo corre mal. Torno-me feia por tão descontente ser o momento. Falta-me tudo. Necessito desse entrar nas letras das pessoas que precisam tanto das palavras como eu. Das pessoas que não dormem para as dizer. Das pessoas que não comem para as ler. Das pessoas que não vivem sem as falar. Das que vivem dos silêncios das parir. É isso. Voo. Vou. E indo, levo quem ama comigo. Quem não quer que não venha. Eu voo.

sobrevivente

sobrevivente,
mostra-me três feridas:
a da vida
a da morte
e a do amor
e ama ainda mais
porque o amor
cobre tudo
sara tudo
seca as lágrimas
e abre um sorriso
enquanto te cobres de chuva

criança mãe

E a boneca, com o corpo cheio de riscos de marcadores de todas as cores feito pela mão da criança que eu era quando nasceste, parece o mapa desta existência. As manchas, as nódoas que ela encardia na pele, eram os caminhos cartografados pela mão de uma criança.
Uma criança mãe. Sem perda.

uma criança mãe

E a boneca, com o corpo cheio de riscos de marcadores de todas as cores feito pela mão da criança que eu era quando nasceste, parece o mapa desta existência. As manchas, as nódoas que ela encardia na pele, eram os caminhos cartografados pela mão de uma criança.
Uma criança mãe. Sem perda.

um amor assim

Mas que raio então significa uma vida tão curta em nós. Em cada dia mais que me vejo em ti sei que o amor de uns dias se transforma num amor de sempre, porque tem já muito tempo, muitos ontens e muitos hojes. A noite que aí vem é a noite que te tem, é a noite dos sonhos que foram dias, e o dia dos sonhos que foram noites. Contigo amor, não distingo a noite do dia, nem em dois dias te vais, nem em duas noites te me tiram. Vá por onde for, ontem, hoje, agora mesmo, o nosso amor é um poço onde se pesca a claridade que está presa, e sei que esta se propaga para o sempre.

criatividade

– Creio que estás a empurrar os limites da tua criatividade. Deve doer.
– Sim, dói. E, quando dói mais, escreves melhor; quando dói mais, sentes melhor; quando dói mais, vês melhor, e é, à espera do nascer de mais amor, e para que ele faça tudo melhor que te cobres de chuva.

coragem

O medo prendeu a alma. E acalmou.
Teve um arrepio. Olhou.
Pensou nos contras. Paralisou.
Esvaziou-se de coragem. E fugiu.
Perdeu a viagem. E tolheu-se
Anulou-se à vontade, e caiu.

ameaça

Acabaram as ameaças externas aos Estados Unidos da América, agora a maior ameaça que enfrentam está na sala oval, da Casa Branca.

partir

contigo, parto para uma terra nossa
parto contigo em meu peito,
enterra-se este jeito, sem jeito,
mas agarro o momento, no agora
e levanto-me de vez
deste leito

Como a água que corre nas pedras graníticas do Bom Jesus, assim serás recordado por mim, livre, puro e a mais poderosa das almas com que trabalhei. Que continues a brilhar, e com toda a certeza, ainda mais, por esse universo fora.

Sameiro – Braga

Sameiro – Braga

Fui ao Sameiro dizer adeus ao Sol, apaixonei-me pelas pinceladas da tela, desfiei um rol de palavras do peito, embrulhei-as no voo da pomba e lancei-as ao encontro da lua.

por estes tempos

por estes tempos

a tirania do medo
fura por estradas do caminho,
fecha atalhos, trilhos e sendas
semeia chãos de poeiras e pedras
abre feridas, em corpos de guerra
ata, em discórdia, linhas de bala
encerra, a pregos, janelas da alma
aprisiona ideias, numa cela quadrada
tudo leva, e corpos traga

porque o medo mata
cerrem ouvidos a vozes tiranas
lutem, em afinco, por melodias serenas
para que amanhã as vitórias desfilem
em pó de estrelas, montadas

e pés leves de sorriso rasgado
cerram fileiras, escancaram portas de ferro
varrem nuvens de temor
porque o medo do opressor
aprisiona vontades
mas, nunca, almas.

o abismo

Não olho. Mais um pouco. Mais uma partícula de tempo. Que seja. Consigo. Consigo. Não vou acabar aqui. Neste momento, se não aguentar, me vou. Amo-vos. Amo-vos tanto. Estou a ver que sorriem. Sim. Em câmara lenta estou a ver-vos. Agora, aqui, parto em vós. Este é o filme desta vida, por um fio. Um laço nesta existência. Silêncio gigante. Vácuo de paz. Este sentir tão calmo, sem prazo, sem espaço.

loucos

e os pardais pipitam desde o dia amanhecido
segredam que a humanidade é a mesma
que loucos a irão salvar
mas que loucos também a levarão a enterrar
e quando o ocaso se aproximar
entoarão também outras melodias
porque morrer por morrer
que seja a denunciar estes dias

anjo

o anjo meteu-me no regaço do manto, afagou com ele o meu pranto.
acalmei-me.

cisma

essa dor do peito que apertas
é tua e não veio de repente
encheu-se de cisma
veio quando te assaltou o homem
aquele que gosta de sangue e se pela por uma boa desgraça
turbe que prende o mundo
com elos de egoísmo
numa visão vazia de gente

carteira de escola

Sentei-me numa carteira de escola com tampo inclinado. Molhei a pena no tinteiro de cor azul que se revela ainda nos trabalhos que sobreviveram ao tempo, quando no início da palavra se percebe a tinta mais carregada, ou outras vezes, um borrão apagado com um palito embebido em lixívia, ficava amarelado, escancarando a minha inconfidência pela falta de jeito e trapalhice. Este facto per si era causa para um intervalo de castigo

ilusão

porque é ilusão esta máscara de amor
porque desta vontade se alimenta este ser
porque na tanta sede de teu corpo
cego fico de tanto te querer

denúncias

aquilo que nos salta no peito
este tambor compassado
grita ao vento e à razão inteira
melodias e traços manchados
em aguarelas contínuas, esbatidas
deste astro perdido
depois de achado

e os pardais pipitam desde o dia amanhecido,

segredam que a humanidade é a mesma

que loucos a irão salvar

mas que loucos também a levarão a enterrar,

e, quando o ocaso se aproximar

entoarão também outras melodias,

porque morrer por morrer

que seja a denunciar estes dias.

 

 

minh’alma

minh’alma

foto de Cristina Brandão Lavender

Estas palavras livres
abrem portas no jardim.
só para te ver
minh’alma vestiu-se de seda
voou,
transparente,
aquecida,
até se acolher
num véu preto
fixado no teu sorriso.

não te esqueças de voar

não te esqueças de voar

 

 

“É isso que quero fazer todos os dias. Sempre que posso. Voar. Voar paredes fora no meio de outros. Não sou maria-vai-com-as-outras. Tu também não. Escolhes a tua companhia. Escolhemos. E deito-me à lareira, meio sentada, meio deitada, com os pés ao alto pousados na beira do granito. Encosto o livro às coxas unidas para o receber e parto. Se me dá para olhar para a lareira, a luz fica mais intensa, o calor mais aconchegado, o conforto mais amado. A posição é a melhor do mundo. O tempo pára ou avança, os espaços definem-se, a companhia aconchega-se. Tudo isso porque nas mãos tenho um. Quando não voo fico rezinga. Tudo corre mal. Torno-me feia por tão descontente ser o momento. Falta-me tudo. Necessito desse entrar nas letras das pessoas que precisam tanto das palavras como eu. Das pessoas que não dormem para as dizer. Das pessoas que não comem para as ler. Das pessoas que não vivem sem as falar. Das que vivem dos silêncios das parir. É isso. Voo. Vou. E indo, levo quem ama comigo. Quem não quer que não venha. Eu voo. “
   CRISTINA BRANDÃO LAVENDER

um prato de sopa e a conta, por favor

A rua do Souto estava, naquele dia, mais gélida que nunca. Era a terceira vaga de frio que varria a Europa. O telemóvel com a net de Braga dizia-lhe que Trump dava a primeira conferência de imprensa depois de eleito presidente e, ao ligar ao site ouviu-o proferir, no tom insultuoso do costume, que os meios de comunicação social, incluindo a CNN, se tinham atrevido a publicar que a Rússia o tinha na mão e o chantageava com escândalos financeiros e de cariz sexual. Eram uns mentirosos e não lhes seria permitido colocar ali nenhuma questão. Antes de acabar com a garrafa de vinho carrascão, foi ao café da esquina da rua de São Marcos e pediu:
uma sopa bem quentinha e a conta, por favor.
Sorveu-a devagar e, quando acabou, sentiu-se mais confortado. Sabia que não o deixariam estar ali muito mais tempo e voltou para o seu poiso. Pelo caminho, os pés eram já blocos de gelo e as mãos, com as meias de lã esburacadas a servir de luvas, já não conseguiam aquecer com o bafo da boca. Acabou com o vinho. Deitou-se com o cartão por baixo, outros quantos por cima, o baltazar enroscou-se junto ao corpo e meteu-se o mais possível, no vão de porta. Adormeceu e, quando acordou, estava a comer uns Rojões à Moda do Minho.

Cristina Brandão Lavender na Casa do Professor

5 lágrimas por Alepo

Nem cinco, nem quatro, nem três
as lágrimas que consigo brotar
descubro aterrado, mais uma vez vez,
que não sai uma sequer destes olhos
aqueles que embatem em vidros de écrans
e que dizem apenas não com a cabeça,
porque o coração, a vontade e a razão estão mortos
e, por assim empastado de sangue e pó o entendimento,
descobre que cruel e desumano entre os animais
é só homem
e ninguém mais

sobreviver

O que me faz suportar a indiferença, a violência e o desespero na vida são o sonho, o silêncio, a música e a arte em geral. Um copo de vinho e um cigarro ajudam muito, mas não entendo como podem sobreviver os que não possuem estes tesouros.

ontem foi assim

Ontem foi assim e por vezes de tanto olhar para as estrelas esqueci o caminho da vida, mas do existir ficou do que não pude, nem quis, fugir: ser mãe
e ontem foi assim com cada um dos filhos que recebi
ontem foi assim quando chegaste aos meus braços ou quando ouvi o clique do corte ao cordão, em ambos os casos fechei os olhos, pedi: abençoa Deus o ser que aqui está e a quem vamos dar a liberdade de dar passos, e escolher.
ontem foi assim e quis que no regaço te acolhesses, no sangue que em ti corria sabia que me aquecia, sabia que dele também bebias, sabia que dele crescias. E depois de aprenderes a voar, e das asas não mais quererem voltar do choro que embalei, ficou o mundo mais rico por ti.
ontem foi assim e ser mãe foi o que escolhi para te deixar a ti, como uma estrela do amanhã, no caminho da vida.

sentidos

Prá Terra ligam-nos
ouvintes do vento

serão com verdade e tento,
no conteúdo e na substância,
estas mensagens truncadas
de onde cessa a quietude.
revelam-se em sussurro os murmúrios,
o lento êxtase da eclosão.
sentados em ânsias,
apresenta-se uma turbe de fantasmas.
vultos esborratados em escuridão

pra não morrer
cavam-se fundo os negros túneis, até ao longe, de esticada.
e sorvi e de uma só vez,
o negrume de um longo grito.
embrulhei-me no som áspero, em rajadas
gritei ao vento palavras consternadas:
os sentidos convulsos, excitados
renasceram num banco de jardim
iluminados por lua prenhe de morcegos

 

parabolé

Será que é no dia em que nascemos que a poesia nasce, ou será que ela já vivia muito antes dentro de nós. Será que ao soltar-se a língua do peito se largam as palavras da alma. Será? Se é verdade que no dia em que nasceu se abrira nela o livro das “parabolé”, e aí escondera a força e o rumo do ser, é também verdade que acreditara que é no início da vida que se define o querer. Todos os que nascem abraçam um fado, nunca leve, e cada um ou o vende ou o segue.
 
cristina brandão lavender
15 de março de 2016
céu vermelho

céu vermelho

ceu-vermeho

Hoje apontei o olho ao céu vermelho, que é quando dizem que vai estar bom tempo, mas nunca fiando, já que em questões de moda a humanidade se veste mais de um vermelho sanguíneo, de “pavore” associado à carnagem que por aí avulta. Mas o bom tempo ajuda ao esquecimento, ai isso ajuda.

frio

frio

frio-icp

Vejo com os olhos da lua que o sol já se foi
mas os homens não se importam.
Vai um frio na alma que se deixou de queixumes
de um inverno na terra
da frialdade humana
e deixa uma friagem no peito que se aquece de infernos
de uma luz tímida da vergonha dos homens
de um silêncio de pânico nos olhos de criança
que o terror de mãe sente gelado
o útero prenhe
de um planeta que erra muito mais do que acerta.

foto de Isabel Costa Pinto

e agora?

E agora?

Aqui moram fantasmas

 A cena começa com um vídeo projectado no fundo do palco, com uma paisagem dos Alpes, nevoeiro, a formar-se.

Todo o espectáculo tem 4 vozes off.

Narrador, Ana, Pai, Criado preto.

 Voz off – Ana continua descontinuada, descompensada, desordenada, deitada em cima da cama ainda por fazer, com um livro na mão.

Umas vezes com lápis. Agora num papel branco de um livro branco que sempre a acompanha na mesinha de cabeceira aponta o sonho que acabou de ter.

Ana – Não adormeci e aquele pesadelo voltou. Volta, vezes sem conta. Pensei que estava livre dele quando, sozinha e com dez quilos às costas, nos Pirenéus Franceses, ia a caminho de Roncesvalles, a primeira e difícil etapa dos quase oitocentos quilómetros do caminho francês de santiago.

Voz off – Sozinha, entre as brumas matinais dos pirinéus, a chorar, escolheu um dos pedregulhos na berma do carreiro, pegou nele e atirou-o pela encosta abaixo, com todo o impulso, como se o peso e a força com que o arremessou fossem suficientes para carregarem e levarem o desespero e a angústia que carregava. Tinha-lhe perdoado. Perdoado, mas não esquecido.

Ana – Fecho os olhos. Preciso de dormir.

A cena passa-se agora na enorme sala de jantar, uma grande mesa de castanho, maciça, rodeada de doze cadeiras com o grande balcão de apoio às refeições, uma cristaleira e um escaparate de pratas a dar-lhe um ar mais solene e imponente. Os castiçais, outrora acesos pelos serviçais negros, imprimem uma atmosfera lúgubre. Ele um homem corpulento, sempre vestido a rigor, com ar austero, olhos castanhos-escuros fundos que disfarçavam a insegurança e a infelicidade em que vivia.

Ana dialoga com o Pai que já morreu há quinze anos de ataque cardíaco. Ana tinha então vinte e oito. Uma rapariga bonita. Ele aparece-lhe vestido exactamente da mesma maneira como estava no dia em que fora obrigada a despedir-se dele, no caixão. O pai dirige-se a ela como fazia quando era vivo. Ela tenta afastar-se do local apressadamente, assim que o vê.

Pai – Anda cá, Ana. JÁ. Sou o teu pai. Deves-me obediência. Que foste tu fazer? Tens bem consciência do que fizeste?

Ana – Sempre a controlar, heim? Sem me explicares o que querias e por que razão o querias.

Querias e pronto. Ponto. Querias tudo. Tudo à tua medida. Os trabalhos de casa já feitos e certos. As minhas escolhas eram as tuas escolhas. Não havia lugar para a imperfeição. Não havia lugar para o erro.

Pai – Tens obrigações para com a vida. Para com o futuro. Para comigo e para com a so-ci-e-da-de. Pensas que é só fazer os que te dá na real gana?

Ana – Porra, pai. O erro é lindo. Só agora descobri que o erro é uma obra de arte. Declaro solenemente que o erro é essencial à vida. O teu problema é esse. Foi esse. Nunca fizeste nada do que realmente te apetece, também tu fizeste o que queriam de ti. És escravo da vida. Não erras. Olha que Deus castiga. Olha, Deus castiga. O trovão é Deus zangado contigo que te portaste mal. Caíste? Bem feito. Foi castigo. Não mintas. Vai à porta. Diz ao estupor do Sr. João que não estou em casa. Que passe mais tarde. Agora não me apetece atendê-lo.

Todos os dias tinha que te apresentar os deveres da escola. Sem erros. Sim. Sem erros. Eu que nunca percebi nada de matemática.

Pai – Sim. Errei e estou agora aqui. Parece que a pagar por isso.

Ana – Sabias que pedia sempre ao criado que os fizesse? Ele desenhava os números, bem desenhados, porque eu não conseguia perceber quando ele os fazia à pressa. Copiava tudo para o caderno. Nem assim te contentavas. Quem te ajudou, perguntavas incrédulo. Depois, a medo, fazia sempre uma conta errada, para que não desconfiasses. Compreendes agora?

Pai – Por quê? Porque não os fazias sozinha? Porque não me pedias ajuda?

Ana – Não gostavas. Nem dos deveres, nem de mim. Mas o empregado desejou-me. Ao fim de algum tempo exigiu que lhe pagasse.

Ana encaminha-se para o quarto do pai. O criado entra no quarto e dirige-se a Ana. O pai não o consegue ver. Ana é agora uma criança em idade escolar.

 

Criado – Chegou a hora, Ninha. Qual a paga por todas as vezes em que te ajudei?

Ana – Acedi. Pensei que lhe bastaria um gelado ou outra guloseima qualquer. Ia a sair para ir buscar um chupa-chupa, mas não deixou. Com o caderno numa mão prendeu-me com o outro braço, o ombro, com firmeza, cravando os dedos fortes a toda a volta do pulso. Empurrou-me com força para cima da cama. Ali mesmo me penetrou. Na tua cama. Depois de ter arrumado o teu quarto desfez a cama com brutalidade. Eu puxada para trás, deitada na berma e ele, em pé. Tanto gritei que, por fim, a cozinheira veio lá dos fundos, e o correu à paulada. Tarde demais. Encheu-o de nomes. Que o matarias se o visses. Ele, porém, matar-nos-ia se falasse.

Ana dirige-se para a sala novamente, enquanto diz:

Ana – Ninguém mais soube. Até a comichão com que fiquei na vulva ficou, em silêncio. Não passou. Nem com muita água e sabão. A mãe deu-me um creme que a aliviou, mas não aliviou a culpa. O nojo do corpo. O asco do mundo por aquilo em que me tornei sem ninguém o saber. Sozinha com a náusea nas entranhas. Só eu e a culpa deixada. Algo que tudo corrói, semeando desconforto, lentamente, como um corpo em decomposição.

Era apenas uma criança, Pai.

E agora?

Sabes que roía a unhas dos pés? Contorcia-me toda nessa aventura de roer as unhas dos pés. Tal como a culpa, fizemos uma digestão incompleta que não chegou a defecar. Apodreceu no interior. Afastou a concepção do real. Agora sei que esta culpazinha é invenção de alguém. Tua e de todos como tu. Desejo de domínio.

 Pai– Só te fiz o que os meus pais me fizeram. Os filhos não vêm com livro de instruções.

Ana – Sabes Pai, eu não quero pensar. Não paro de o fazer. Não durmo. Penso. Não tenho descanso. Penso. Entendes? O processo da culpa nasce tão fundo, das normas e conflitos não resolvidos. É mais um chorrilho de acusações a juntar a quem se sente culpado. De quem está mesmo perdido de si. Compreendes? No início, a culpa foi inimiga da criatividade, da expressão e da ligação com o mundo. Depois foi a minha melhor amiga. Não me matou. Enlouqueceu-me. Sou mais uma tarada neste mundo de pseudo-artistas. Percebes? E agora?

Pai – Olha o teu futuro. Tens que preparar o teu futuro. E agora? Conta-me coisas novas. Sim, diz lá como foi ontem?

Ana – Foi uma merda. O que faço, para ti, é sempre uma merda, portanto, o que fiz ontem, foi mais uma grande merda. Nunca houve respeito entre nós. Houve medo. Não tive a liberdade de ser eu. Tive que ser TU. Sempre. Não consigo respirar. E tu? Estás morto. Desaparece. Todos dizem que te matei de desgosto. Desaparece. Ouviste?

Pai – Ana, vem cá imediatamente.

Ana – E o agora? O que é o agora? Não há amanhã sem um agora. Não te contentas. Eu não quero as mesmas coisas que tu queres. Eu não sou aquela que tu querias que fosse. Eu sou com certeza o melhor que soube fazer. Mas mesmo assim não te serve. Nunca te serviu.

 O filho entra a correr e abraça a mãe.

Ana – Sabias que tens um neto negro?

É lindo este teu neto preto. É a minha a vida este teu neto.

Pai – Não é meu neto. Não o aceito.

Ana – Ai é teu neto, é. representa tudo aquilo de que gosto. Sim. Agora falo só do que compreendo. Compreendes?

Pai – Porquê, Ana. Porquê?

Ana – Queres uma justificação. Sempre um pedido de explicação.

Amo o meu filho. Amo-o por tudo. Por ser meu filho. Por não ser como tu. É tudo o que desprezaste. Filho duma raça que desdenhaste, anulaste e escravizaste. Filho de uma violação cometida pelo ódio. Vingança contra vós. Fui a mão da vingança desse povo que exploraste. Entendes?

Pai – Sou o teu pai. Perdoa-me. Vives ainda em mim, nos dias, nas rotinas. Estás lá tu, com estas correntes. Elos bem fundidos que atam e matam a alma, num grito empurraram tudo para baixo, onde não há sol, lugar lamacento, sem pingo de resistência que poderia adocicar um sorriso. Desprezo-me.

Achas que sabia o que te fazia?

Pois não. Mas hoje quero ter a certeza que não fui eu que te matei. Fiquei também com a culpa de morreres mesmo em frente a mim. Fulminante. A culpa do teu coração ter parado à minha frente, também mata. Morreste ali. Ficou mais silêncio. Sem os teus gritos. Sem a colisão das nossas palavras. Sem a agressão física com que me presenteavas. Morreste? Pois gritasses menos comigo. Tivesses menos raiva de mim. De ti. Essa cólera que te fazia inchar as veias do pescoço. Nunca to disse, mas pareciam cobras gordas a subir em direcção às orelhas.

Pai – Cala-te. Não sabes o que dizes. Tu estás louca.

Ana – Puta que pariu a culpa. Deixaste-ma, em testamento, essa puta. Estrume das entranhas do mundo. Lava incandescente, borbulhando até explodir. Apenas morreste.

Ana dá gargalhadas, muito alto a provar a sua loucura e responde ao mesmo tempo que gargalha.

E tu? Estás morto, merda para ti, e já to disse. A culpa afaga enquanto afoga o ser. Andei anos e anos a viver sem saber viver. A amar sem saber amar. A passar o tempo, sem o ver passar. A olhar, sem saber ver. Um vegetal. A tua filha é uma couve lombarda. Que tal? Gostas de couve lombarda?

Pai – Caaala-te. Couve lombarda. A minha filha? Uma couve lombarda?

Ana – Pronto, Pronto. Sou então uma beringela. Sempre é um nome mais bonito. Mais sonante. Mais brasonado. Está bem assim? Agora podem cortar-me às fatias finas e grelhar-me.

Ana já não se sentia obrigada a chorar junto ao caixão. As lágrimas secaram-se-lhe no coração. Não mais lágrimas de raiva, lágrimas do desespero, filhas da culpa. Seria livre.

 Pegou na mão do filho que entra na sala e sai. Pela primeira vez sentia o mundo. Vivia. Iria aprender a fazer o que ainda não sabia. Sentam-se os dois na beira do palco, virados para o público, Ana com o tablet na mão. O filho deitado no seu colo a ler um livro

Ana – Foi um acordar de boca seca, abri o ficheiro na memória virtual a que acedo em qualquer lugar no planeta e deixei as palavras soltarem-se mais livres do que nunca.

E agora sei que afinal te amava, Pai. Amo-te. Amar-te-ei sempre. Perdoo-te porque aprendemos. Aprendemos apenas se e quando nos dispomos a fazê-lo. Sempre.

A net está lenta. Não gosto deste tablet. Não acompanha a velocidade da minha ânsia. Atrasa-me irritantemente o digitar. As letras, não as sinto. Demoro a ver as palavras que quero. Devora-me, na espera lenta, esta procura.

Peguei no lápis e no caderno branco e escrevi tudo isto até à dor da mão. Logo passo para o computador, mas primeiro gravo. Ditado, sem reconhecer a voz, para ser mais fácil. E vou passando, teclando e corrigindo.

Vou dar ao Lucas para ler. Amo-o.

E agora?

Agora, estou de bem com o momento. Tudo passa mesmo, mas não permitirei que aconteça a mais ninguém.

dia internacional da paz

Ao ser humano cola-se, por vezes e ao longo dos tempos, uma irritação tão avassaladora que, ou é sinal de falta de carácter ou o é de loucura, na pior das hipóteses será uma conjugação de ambas, mas apresenta-se como sinal da completa agonia e desespero em que se encontra no espelho Esse estado plasma-se na cara dos homens numa máscara de mágoa, não é realmente tristeza, mas sim um enorme cansaço.

21 de Setembro de 2016 a propósito do dia internacional da paz

Vanessa Ferreira

Vanessa Ferreira

image18-470x260Nunca precisei de muitas dicas para quebrar o gelo com os alunos, no primeiro dia de aulas ou nos seguintes, porque com o ouvir do coração, o deles e o meu, sempre obtivemos bons resultados, ao longo de trinta e sete anos de serviço, e também porque, quando escolhi esta vida, decidi que a escola, de onde no meu tempo não queria estar e que nunca me ensinou nada de bom, teria de ser algo de muito diferente. No entanto, no início do ano lectivo 2016-2017, adorei ler este artigo por ter algumas ideias que usei com tecnologias e sem elas, e que poderá ainda encontrar no seguinte link:

http://aprendercomosdedos.com/2015/09/08/10-ideias-para-quebrar-o-gelo-e-conquistar-os-alunos-no-primeiro-dia-de-aulas/.

Muitas vezes o ser humano não foge do destino que traçou, especialmente quando aquilo que fez foi com a certeza de que era isso que teria de ser feito, de tal maneira que nunca se fizeram assolar quaisquer dúvidas. Contudo, quando se depara com uma aluna (felizmente não foi a primeira), de que já não ouvia falar há mais de 25 anos, a tecer um comentário, no facebook, teria esta de merecer de imediato uma resposta da minha parte, para que não mostrasse indelicadeza ou desrespeito. Foi o caso da Vanessa Ferreira, a quem respondi acreditar ser “sempre o Amor, o melhor remédio que a humanidade dispõe” comentário esse associado  a um piscar de olhos num boneco das “emotion”collection” (decido que estas coisas se dizem em inglês, porque, à partida, bonequinhos de emoção não me soa nada bem) e mais não disse na altura por ter de digerir esta forte comoção.

Na verdade não parece de pessoa de bem mostrar tamanha vaidade ou orgulho com o testemunho abonatório da Vanessa, hoje uma mulher feita que pode muito bem já ter filhos na escola, mas obriguei-me a este pequeno texto porque fez com que demorasse alguns dias a responder melhor às suas ternas palavras já que as lágrimas corriam pela cara abaixo, para o ombro amigo do companheiro onde as deitei. Fica aqui a sentença e o sentir de que valeu realmente a pena ter seguido o coração para ser professora. Obrigada, Vanessa Ferreira, por te lembrares, com tanto carinho, do teu longínquo primeiro dia de escola.

19 de Setembro de 2016

Vanessa Ferreira “No meu primeiro dia de aulas (1º ano) a forma que a professora arranjou para quebrar o gelo comigo foi mesmo dando-me colo! 🙂 Eu chorei um bocadinho, mas depois passou! A partir daí, ir para a escola era motivo de alegria! Obrigada pelo carinho e dedicação que sempre teve connosco!”

livro de josé antónio saraiva

O livro de José António Saraiva, que o ex primeiro vai apresentar mesmo sem que o tenha lido, tem tudo para ser um sucesso de bancada: é indecente, indecoroso, impróprio, inconveniente, indigno de ser humano com honra e em todos os aspectos desprezível, palavras redundantes por sinonímia, mas que, especialmente neste caso, não há canseira para aplicar, porque quantas mais escrevesse, mais apeteceria empregar e não chegariam, enfim, para classificar o dito cujo (livro e ser humano).

19 de Setembro de 2016

olhos de sentinela

Manter olhos de sentinela vale o que vale por obras de distracção ou de cansaço, mas não seria a primeira das democracias traída de modo a instituir uma ditadura.

18 de Setembro de 2016

olhos graduados

Deus deu-me uns olhos graduados para a tristeza, mas é com eles, e se calhar por isso mesmo, que procuro ser capaz de distinguir as estrelas entre as pedras do caminho.

17 de Setembro de 2016

tempo dos homens

“O tempo do homem é parado. Esta frase não sai do sonho. O tempo desta humanidade é tão destituído de mobilidade, não corrente, estagnado, em dinheiro não investido, no sentido figurado sem animação; sem vivacidade e inexpressivo. Mas com toda a certeza teremos dias mais produtivos.”

10 de Setembro 2016

alexia

Habituado desde pequenino a ouvir contar histórias antes do adormecer, certo foi que um dia João se deixou levar num pensamento novo, o de idealizar um novo mundo. Como seria o tempo e o espaço às costas da terra? Se a cegueira em que vivia incomodava, com a falta de lucidez associada, se a ablepsia humana se afundava nos meandros enredados da ilusão, se teimava a obstinação e o fanatismo ideológico que nos fazem persistir no erro de despersonalizar, de desumanizar, de perder a lembrança do trato de uns e outros, ao serviço da crueldade e da ferocidade que nos conduz a um espaço e a um tempo em estado de ausência de luz, só nos resta mesmo um mergulho nas raízes da terra, a abertura de uma fissura para a viagem do lá, para lá das costas do planeta terra, onde o tempo e o espaço são tão diferentes que permitem que seja o pensamento, a razão e a lucidez a fazer-nos saltar para a realidade que nos atrai, pela vontade e pelo desejo, e nos faz percorrer mundos paralelos assim como ir emendando os erros que na aprendizagem se forem cometendo. Não vejo nada aqui. Não vejo. Não vejo nada no céu, na lua. Nada. Resta então a fuga desta cegueira cromática, desta cegueira moral e da agnosia humana. Resta persistir, lutar e achar contigo o que faz sentido. Vem. Traz a esse mundo o contraste das cores e as diferenças com que pinto, na tela, o quadro de uma cidade justa, e onde, se não souber o que dizer ou fazer, possamos encontrar a solução em tua companhia, com empatia, resiliência, acolhimento, para defender as características de qualquer ser que respira. João ousou pintar uma nova tela, um novo livro, um novo mural, colocou-se em pé, firme, sereno, quase a sorrir, enfrentou. no meio da estrada, a polícia de intervenção, bem armados e super protegidos, eles, tranquilo e à civil, ele. Nas costas da Terra tudo é possível. Juntos. Só se estivermos juntos.

A Velha Escrita, 16 de Julho de 2016

chaves

chaves

DSCF7836

Há quem precise de ferrolhos para a alma, tal e qual como as que têm para a casa. O ser livre voa sem asas e usa chaves apenas para afinar instrumentos musicais. Há quem as coloque na parede, e a evolução das fechaduras é algo de fascinante, no entanto, prefiro as claves nas pautas e as que canto de ouvido.

Chaves para quê, apenas pelo prazer de as usar para abrir a consciência. E as outras? Perco-as frequentemente e, só por isso, são uma maldição. 😉

6 de Maio de 2016

linhas e sombras

linhas e sombras

DSCF7690foto CBL

Tenho um fascínio por linhas e sombras, traços contínuos ou finitos, de espessura variável, reais ou fictícios  a entrar nos meandros dos percursos e recursos intrincados do ser. O que é a vida senão este contínuo vai-vem, umas vezes organizado, outras vezes caótico, mas sempre interessante, por vezes excitante, e que nos faz fugir a sete pés da monótona e limitada humanidade. Estes traços, que até nas linhas de um texto nos matam o enfado, são o meu refúgio, o remédio e a forma de organizar o íntimo, evitando o perigo da insensibilidade, apatia, desinteresse e indiferença perante o que somos, com quem estamos, quando estamos.

Linhas e sombras, espaço e fiadas horizontais, verticais ou onduladas são uma das realidades em que deixo mergulhar a fotografia.

5 de Maio de 2016

Mãe

Mãe

DSCF8250 foto de CBL

Mãe disseram-me que esperas por mim amanhã
sei que vais estar sentada no teu lugar favorito
num quintal florido
mais o verde que te acalmou
mas só amanhã
como anseio esses olhos gastos de que me lembro
mas só amanhã
esses cabelos de que me lembro tocarei
mas só amanhã
essas mãos de que me lembro sentirei novamente
mas só amanhã
esse cheiro de que me lembro e que é só teu entrará em mim
mas só amanhã
Mãe, disseram-me, os deuses, que esperarás por mim
será que já é amanhã

1 de Maio de 2016

linhas da alma

linhas da alma

 

DSCF7589

No banco da avenida sentem-se linhas de almas sentadas, com sorrisos, lágrimas ou simplesmente penduradas no tempo, por partilhas de conversas, carícias e pensamentos, em olhares vagos, nos devaneios, nos que desafiam os destinos, nos que param, nos que descansam, nos que se perdem e nos que se encontram. São bancos, são linhas de almas, na avenida, em Braga.
13/04/2016

de costas no monte

de costas no monte

DSCF7578

Abriu a janela e sorriu. Sentia-se particularmente feliz desde que descobriu que não precisava de se esforçar sempre para agradar aos outros, passou a ter mais cuidado consigo, a dar tempo aos silêncios, a respeitar o espaço, a encontrar o seu e, ainda mais importante, a não controlar tudo e todos.

Abriu a janela e sorriu para deixar que a vida se espreguiçasse de prazer. Reconstruir o futuro deixou de ser essencial, viver no passado uma autentica perda de tempo, mas respeitá-lo era essencial para a compreensão do futuro. Viver no presente seria a sua prioridade, afinal olhar mais é ver melhor e, qualquer acontecimento, por maior significado que arrastasse, era o que tinha de ser, nem mais nem menos. Senti-lo era isso mesmo, um presente ofertado para agarrar com força e determinação e assim lhe conseguir dar algum propósito.

Naquela manhã abriu a janela e sorriu, conseguiu diminuir a velocidade com que vivia e com isso encurtou também o grau de ansiedade patente nos seus dias, um dos factores que fez com que se sentisse leve, menos tensa, mais solta, apesar da selva de blocos de cimento que ameaçavam dar outros montes aos montes, na sua cidade. Saiu de casa em direcção ao rio e, lá no alto, de costas no monte que ainda não tinha ardido, deitada na relva sempre húmida, de braços abertos, com o olhar no céu, pensou

pela primeira vez estou feliz com as minhas limitações, idiossincrasias e imperfeições. Aceito-as. Aceito-me. Não sei se é por aí que o gato vai às filhoses, mas é muito bom estar apaixonado pelas pessoas certas

Abriu a janela e sorriu. Para o dia ser ainda mais perfeito, o famigerado S. Geraldo, onde se tinha sentado para ver muitos filmes na adolescência, alguns deles sem ter a idade que o regime impunha, de saltos altos emprestados, e com um baton nos lábios que não sabia aplicar, iria ser definitivamente inaugurado no dia em que fizesse cem anos, porque afinal os habitantes da cidade de Braga passaram a poder decidir sobre aquilo que é de todos, pondo os interesses culturais acima dos interesses comerciais e imobiliários.

Abriu a janela e sorriu. Afinal perfeito perfeito seria poder voltar a ver uma estreia, naquela sala de espectáculos.

a gula

Alma tão pobre aquela que apenas sente prazer enquanto come. Referimos aquele ser que prolonga o momento da alimentação para ingerir com tamanha animalesca vontade e que resume todo o existir a esse acto, o de viver para comer, em vez de comer para viver. É vê-lo dando às gananciosas células motivo para se atropelarem ao mesmo tempo que enviam sinais, entre elas, de apetites soberbos estimulados pelos sensores colocados estrategicamente nos terminais das células nervosas do seu mal-aproveitado cérebro. Claro que estas linhas foram escritas num momento de total consolo gastronómico e, por isso, sem a intenção de magoar seja quem for, com a ressalva de que, de todos os animais, só o homem é capaz de tal comportamento.

superstições

O futuro leio-o nas cartas, nas folhas do chá, na borra de café, nas formas do fumo no ar, nas estrelas, nas sombras da lua, mas as pegadas que deixo na areia molhada são a única prova de que afinal  existe o presente.

Março, mês da poesia

Será que é no dia em que nascemos que a poesia nasce, ou será que ela já vivia dentro de nós. Será que ao soltar-se a língua do peito não se largam as palavras da alma. Será. Se é verdade que no dia em que nasceu se abrira nela o livro das palavras, uma colecção de vocábulos de uma linguagem universal onde escondera a força e o rumo do ser, é também verdade muitos acreditarem que só muito depois do nascer se define o que queremos. Não é assim para alguns. A todos os que nascem é dado o fado, nunca leve, e cada um ou o vende ou o segue. E é aí que se esconde a diferença. É muito difícil definir melhor esse conceito. Quem carrega, dentro de si, essa janela, aberta ao mundo, carrega talvez uma ode, uma alegoria do espírito sobre a matéria, uma frenética vontade de viver a humanidade, elegê-la por princípio, de princípio e até ao fim, até ao último suspiro, num elogio permanente ao belo e à loucura, a par e passo com a ética e a estética. E viver assim é perseguir uma consciência individual e social para a pôr sempre acima daquilo que move e remove outras montanhas, a do capital, a do dinheiro.

pai e mãe

Num coração cheio de laços, ataram-se, com sageza, os dois de meus pais. Não se vão nunca, esticam-se em pontas da saudade para os beijar, fortalecem-se as heranças de ternura em que me aninham, murmuram palavras secretas, ecos de um sempre, em que embarco por este mar imenso. Bem hajas, Pai. Bem hajas, Mãe,  encontramo-nos amanhã, com toda a certeza, já que hoje só nas estrelas vos vejo.

 

um pensamento sobre o mar

um pensamento sobre o mar

vento forte

imagem inserida de: https://www.google.com/search?q=mar+dos+açores&biw

Muito chorou a humanidade para formar este oceano. Lágrimas, umas vindas da tristeza e da raiva, outras nascidas do medo, contudo todas elas nascidas da ignorância, essa incapacidade de olhar, de encontrar e reconhecer a intensidade de ódio que o homem acolhe em si. Essas lágrimas, hoje, a mostrarem-se furiosas, embatem contra as arribas rugosas, engolindo as mágoas feitas destas emoções desencontradas, mas o mar é, com certeza, mulher.

Em lágrimas, de vista turva, olhei o horizonte, enquanto a neblina avançava rente às águas, engolindo-as à medida que se dirigia ao monte da praia Vitória onde os portugueses chegaram no séc.xv. Estava ameaçado esconder-se, também hoje, ainda mais profundamente, as emoções gravadas a ferro e fogo num coração de mulher guerreira, nunca domada, enquanto outras, por gerações e gerações foram espezinhadas, com sua lealdade comprada, sem voto na matéria em tudo o que diz respeito ao seu corpo, dominada, do umbigo para baixo, vazia, do umbigo para cima. São, tenho a certeza absoluta, mais das mulheres, as águas oceânicas.

S. Geraldo e afins

Da língua se nos saltam as palavras, e elas, com todo o poder que têm, e muito maior é ele do que é suposto, encerram a mestria de desmascarar uma mentira, mas são também capazes, quando lampeiras, e com muito maior perigo, de transformar uma mentira numa verdade, à força de tantas vezes a melíflua verborreia nos atingir. Mas, para que nunca nos engasguemos em tão poderoso órgão, aqui vimos agradecer a quem, com um fantástico trabalho, em escolas e associações, leva às ruas e às salas de espectáculos o trabalho com os jovens. Afinal somos todos responsáveis pelo futuro, e nunca é demais provar a necessidade de ginasticar o pensar, interpretando, com as nossas próprias cabeças, as grandes obras de outros, a exemplo do que aconteceu ontem, com o espectáculo “A Tempestade” do majestoso dramaturgo Shakespeare, e de outros trabalhos artísticos e culturais que os jovens alunos levam, anualmente, à sala principal do majestoso Theatro Circo. Mas é mesmo de salas de espectáculos que venho aqui gritar porque, estranho e vil é o que pretendem fazer do S. Geraldo, local que albergou actividades culturais por tantos anos, e a quem, quase um século depois, pretendem apagar das nossas memórias, quando tamanha utilidade se lhe pode ainda destinar. Bem sabemos que o “condenado” fica no coração da cidade de Braga, que ali o preço por metro quadrado não se compadece com estas “manias de preservar o passado e a cultura”, mas é bem certo que quem não se orgulha do que tem, pouco poderá oferecer à sua gente. Também muito certo será morrerem com a consciência pesada, presumindo que a têm, aqueles que tão bárbaros actos cometem, ocupando os lugares públicos que o povo lhes concedeu, e que outros exemplos, como este, já seguiram. Quantos de nós não sentimos a nossa cidade tão vazia de cultura e de gente para que se possa dar ao luxo de fazer desaparecer o S. Geraldo. Por estes dias, e como se não bastassem os fantasmas que nos assaltam, em belíssimos edifícios em ruínas, numa cidade de onde deveria brotar muito mais actividade artística do que a que a que realmente acontece, está prestes a ser substituído por algo que não seja a função para que nasceu. Desci à tumba onde S. Geraldo, e outros, já não descansam, e incumbiu-me ele, ou alguém em seu nome, da mensagem que aqui vos entrego. Está S. Geraldo à espera de ver os cidadãos, à frente do edifício com o seu nome, inflexíveis, de alma forte e serena, a gritar à moda do norte, já que muitas vezes só a gritar nos ouvem

“cum carago, daqui é que eu não saio, daqui ninguém me tira.”

publicações

Colaboradora do Jornal Diário do Minho (1973 – 1974)

Publicação de um artigo sobre “Trabalho de Projecto” no Diário de Lisboa, Setembro de 1990

Publicação de um artigo “Do Gerês a Lisboa, Vivendo e Aprendendo”, revista NOESIS, Dezembro de 1990 (mais…)

no dia em que renasci

As personagens saem da imaginação exaltada, para o texto, numa forja que se quer bem definida, que se molda por arrasto, no memorando do telemóvel, onde esses outros nunca estão, ao primeiro toque, completamente revestidos na sua psique. Regista que uma delas se parece demasiadamente consigo e, segue com outras, desenhando-as à medida dos meandros difíceis do intrincado ser humano. Não quer perder um minuto sequer na vida, e vai saboreando o pequeno-almoço, lentamente, já que vozes da cabeça se misturam com todas as que ouve, mais as da TV, sem que isso se revele como um impedimento para se concentrar. No dia em que renasci, assim se chamam as linhas traçadas com o intuito de satisfazer quem gosta de dar rótulos ao sentido que a vida tem, já que o título mais certo seria que o primeiro dia de uma morte certa começa a partir do dia em que nascemos. No entanto, se por um lado isso é exacto, é também inquestionável que o sentido que damos à existência, muito para além do comer, procriar e dormir, está no que a tornará suportável, algo que irá ser o verdadeiro conteúdo e significado que lhe queremos dar, e descobrir isso é, em si, um verdadeiro renascer.

É nas manhãs, dizem os que acreditam em que tudo existe para ser muito certinho, tal e qual como está escrito em linhas consideradas inquestionáveis, que encontramos um ponto de partida, um “preparar-go-e dispara” por essa vida fora. Nem com todos, porém, isso acontece e para esses outros, para aqueles que gostam de questionar, que não se conseguem ver em tarefas repetitivas, que inventam e reinventam cada minuto do seu tempo como se disso dependesse a sua existência, para esses, a vida acontece, sim, ao acordar, seja a que horas for, enquanto que, para outros ainda, esse despertar esteja condenado ao nunca, quando o dia em que se nasce não acontece sequer até ao dia em que se morre, tirando a oportunidade de renascer a quem nunca primeiro nasceu.

Será que é no dia em que nascemos que a poesia nasce, ou será que ela já vivia dentro de nós. Será que ao soltar-se a língua do peito se largam as palavras da alma. Será? Se é verdade que no dia em que nasceu se abrira nela o livro das palavras, uma colecção da grega “parabolé” onde escondera a força e o rumo do ser, é também verdade que acredita que logo ao nascer se define o querer. Todos os que nascem abraçam o fado, nunca leve, e cada um ou o vende ou o segue. E é aí que se esconde a diferença. É muito difícil definir melhor esse conceito. Quem carrega, dentro de si, essa janela, aberta ao mundo, carrega talvez uma ode, uma alegoria do espírito sobre a matéria, uma frenética vontade de viver a humanidade, elegê-la por princípio, de princípio e até ao fim, até ao último suspiro, num elogio permanente ao belo e à loucura, a par e passo com a ética e a estética. E viver assim é perseguir uma consciência individual e social para a pôr sempre acima daquilo que move e remove outras montanhas, a do capital, a do dinheiro.

No dia em que nasci abriu-se uma janela na alma e nunca mais a fechei. No dia em que nasci, renasci todos os dias para nunca mais morrer.

ai se fosse inverno!

é inverno mesmo, caramba.

A lareira foi acesa, o borralho crepita e ponho os olhos nele, adoro senti-lo bem quente na cara, aceito o seu convite, descaradamente, não ponho a grelha de protecção, nem preservo o chão que é de tijoleira, assim sabe-me a um aconchego mais natural, mais real, mais puro. No sofá ponho uma manta bem quentinha nas pernas, e delicio-me a mirá-lo, para ali ir buscar o que o mundo dá de nada: amparo, ideia, intuito.

“é mesmo inverno, caramba”

Depois que acordei, tomo o pequeno almoço. Café, sumo de laranja e torradas. Ligo a televisão e ouço notícias, exactamente ao mesmo tempo que passo os olhos pelo jornal. Atraso ao máximo o sacrífico, embora saiba o quanto é inútil. Quando já não dá mais, saio rapidamente. “Vamos a despachar isto”

O bafo quente eleva-se, muito húmido, a competir com o nevoeiro que se abate, em mais uma fria manhã, sobre a cidade de Braga. Com passo rápido atravesso a avenida central, hoje ainda mais cinzenta do que o costume, ao som dos “quarenta minutos de música seguida com a Rita Rogeroni da rádio comercial”. O exercício físico, mais uma obrigação do que um prazer, leva-me também a vontade de o adiar o mais possível, aquilo que é uma imolação que se impõe. Pernada cadenciada, rápida, quer faça chuva, ou faça sol, de inverno ou de verão, gira que gira a rotina do faz-te bem, é para o que está, para o que serve .

Tenho que acabar com esta merda. “Para os braços da minha mãe”, canta-me o Pedro Abrunhosa, a transpiração condensa-se dentro do impermeável e as mãos frias suam também. Já toda transpirada, repito

“já tenho idade de acabar com esta merda”

Na cabeça, as páginas do jornal transformam-se em desenhos recortados, articulados por attaches, com pessoas em atividades bem mais divertidas, todas elas a empurrarem-me para o duche a fim de retomar, rapidamente, o que seria, se tudo estivesse bem, mais um dia normal.

Mas não é. Hoje, mais do que nunca, não é. A mãe matou as filhas num ato de amor, o pai costumava bater-lhe, num acto de amor, a vida esqueceu-se dela, num acto de amor, e todos os actos de amor são tão frios como esta manhã que é de inverno, e que, caramba!, por hoje não consegue mesmo fazer sentido. O tempo arrasta-se, o espaço comprime-se e prolonga-se, e as linhas do movimento são, por demais, certinhas, a contrastar com a revolta que se instala no espírito

Depois de um bom duche, seguro um copo de vinho maduro tinto, um cigarro doce apagado, na boca, o último álbum do António Zambujo a tocar e, mesmo que apenas por uns minutos do dia, vai seguir-se uma noite deste inverno que, quase a acabar no calendário, só agora começou, com a alma a desenhar-se em tons de lareira a arder.

amigo…

“Amigo vem-nos ao pensamento praticamente todos os dias, está lá, pertence ao nosso corpo mesmo quando ausente, e pode acontecer assim por muitos minutos, dias, anos até que nos encontremos outra vez. Amigo é um acto contínuo de ti.”
Cristina Brandão Lavender

só tinha uma solução: ir

Quando recebeu o telegrama com as palavras: “mãe muito mal vem depressa” não vacilou sequer. Obedecer? Nunca. Por que razão havia de estar presente? Minutos finais da vida dela. Por ser seu filho,  só pelo facto de o ter parido? Um requiem agora, a que propósito?”

“Mais uma violenta discussão que acaba em violência doméstica.” Pousou o jornal irritado. Foi ao frigorífico e abriu a cerveja com os dentes. Bebeu-a de um só trago. Atirou a garrafa para o caixote do lixo. As palavras do telegrama atravessavam-lhe a garganta juntamente com o liquido a escorrer. Engasgavam-no e ecoavam em looping: “Mãe muito mal. Mãe muito mal. Mãe muito mal. Vem depressa. Vem depressa.”
Atravessou o corredor,  sentou-se no sofá novamente. “Não vou. Não vou e pronto. Mãe? Que é isso? Mãe de quem? Dela só recebi bofetadas, chicotadas e uma enorme quantidade de horas de trabalho no campo. Sempre. Com os animais, cegando as ervas, trocando a palha, tirando batatas, apanhando as couves. Nem à escola o deixara ir. Pancada e mais pancada. Ainda era pior se a queixa chegava ao pai. Já bêbado chamava-o com aquela voz de trovão: “Ah Gabriel, anda cá, meu malandro, meu filho-da-puta.” Escondia-se no cubículo à qual chamavam de quarto, à espera que ele o fosse buscar. Tão encolhido como as suas mãos cruzadas, vergadas e fechadas em punho, até as unhas lhe marcarem as palmas da mão. Sulcos do medo que o haveriam de perseguir.
Recostou a cabeça no sofá carcomido, manchado de nódoas de gordura, de bebidas, queimadelas de cigarro debuxando geometricamente a superfície lunar. Olhou o teto como se visse nele uma pintura de si, do que estava a sentir ali, do que a vida lhe dera, as manchas que desenhavam a indigestão, a congestão que apanhara da vida.
Fora para o internato e lá não sofrera mais do que com mãe. O alívio inicial deixou-o mais leve, mais alegre. Só o matava a solidão de não ter ninguém que o amasse, a quem chamasse de amigo. Fez companheiros de ocasião. Travou conhecimentos que durara pouco. Acumulou inimigos. Travou guerras reais, fantasias de piratas, polícias e bombeiros. Era herói de si mesmo e de mais ninguém.
“Não. Não era sua mãe. Pariu-o, mas  não era a sua mãe. Ser mãe não é um posto que conquista com o nascimento do filho. Ser mãe é tudo o que ela não havia sido.”
Gabriel nunca quisera mulher que lhe desse um filho. Nunca quisera ser pai. Nunca quisera que um filho tivesse a vida de que sempre fugira.
“Está decidido. Iria ter com ela. Iria dizer o que pensava a todos os que a fossem chorar junto à terra que a  iria tragar. Ao padre e ao pais diria que se encarregaria de fazer a laje para o cemitério.”
“Aqui não jaz a minha mãe. Aqui jaz a puta-que-me-pariu.
Só tinha uma solução: ir.

um décimo de segundo apenas

“Não ultrapassava. Não ultrapassava a ausência do amor. A ausência de sentido. Tudo faria para parar o tempo um décimo de segundo. Um décimo de segundo de tudo seria o suficiente. Um décimo de segundo de tudo era só o que precisava. Um relance. Um piscar de olhos atrás. Um tempo de pensamento. Estava definitivamente perdido. Perdido de si. Perdido do mundo. Morto vivo.”

in “Saber Esperar” de Cristina Brandão Lavender

uma flor num deserto

Alguém disse que a chuva incessante entorpecia as consciências, mas para isso seria preciso, primeiro, que a tivesse e, da chuva, lembro-me de que alagava os campos da minha aldeia, chegando muitas vezes até aos telhados, e era ver-nos então a rezar a todos os santinhos, quando não directamente à Virgem Maria, para que nos salvasse de tal situação, enquanto víamos a água misturada com lama e outras miudezas da mesma cor, a entrar-nos, primeiro pelas ruas, depois pelas casas e pelos cafés, lojas e restaurantes. Como tudo se limpava e tudo limpinho aparecia, ainda hoje me admiro, e é a prova provada dos milagres de que o homem é mestre, assim como mestre de cerimónia é, também da vida, que o que fica para trás não paga as dívidas aos que trabalham. Foram duas, ou talvez três, as vezes que senti a consciência entorpecida, ao ponto de deixar de pensar que havia amanhã, isto porque sou de pensar muito e desespero-me por haver corações assim, em homens assim.
Chegamos todos ao mundo nus e levamos uma vida inteira a vestir os conceitos e preconceitos que nos tentam impingir e do que sei hoje, já velho, cansado e calejado da vida, não servem de nada, ou melhor servem para afrouxar, não só a consciência, mas os sentidos do amor, aquele com que qualquer homem sonha e para o qual Deus lhe deu um membro especial a usar e que ele, desesperadamente também, não consegue esquecer. Há muitos homens assim, em que os assuntos do coração não existem e que tudo se resume ao membro menor que possui. Outros há que da consciência e do cérebro pouco sabem, e se nascem nus, nus vão também em vida, usando roupa selecta no caixão, enquanto outros morrem nus também, porque um féretro vistoso só se soprar fortuna, que também é preciso alguma sorte, no morrer.

Não é de hoje que os homens têm pedras no lugar de corações, fazendo multiplicar a merda do dinheiro, em dinheiro de merda. Veja-se em como se aproveitam da desgraça dos outros homens que eles consideram como bichos, mesmo que nem os bichos se achem assim, pois os que andam lá por casa se mostram sempre leais connosco e entre eles. Mas contava eu que esses homens se distinguem bem, pois têm um brilho nos olhos com a forma de “€” dos euros, a juntar a uma calma traiçoeira, a um sorriso não muito rasgado e contido que lhes vem da seriedade e da segurança que lhes sobra dos roubos garantidos, assim são eles como umas falas treinadas, de frases bem construídas num discurso enganador e circular, e, quem neles cai, anda ali toda uma vida, como que apanhado num redemoinho nas águas do Rio Cávado, e com apenas um final garantido, um lugar no lodoso fundo do leito, à espera dos mergulhadores sapadores, bombeiros especializados nestas buscas, que muitos já lá foram buscar, ou caídos por si, ou empurrados, ou ainda por segredo de não suportarem mais as desventuras que lhes preparam os governos da consciência.

Como tu, momentos há em que sou menor que a sombra que conheço de mim e, o coração, quem o tem, não abarca tamanha verdade sem a ver, sem a apalpar, sem um olho a espreitar a liberdade através de um losango de rede inultrapassável. Não sei a humanidade, porque não a reconheço mais, vejo-a, mas não a entendo, leio-a e não a compreendo, choro-a e não sinto o mesmo que ela. Veja-se os milhões de refugiados a quem expropriam os bens nos seus países, com a desculpa de que precisam de pagar pelo seu realojamento isto, claro, se os tiverem e se conseguirem chegar, depois de um caminho farto de violações a mulheres e crianças, roubos, chicotadas para que não parem ou descansem, ou ainda para que não atrasem o contrabando, com doenças, quando se vêem forçados a verem-se livres dos velhos e dos doentes, mais lentos, mas não antes de lhes terem recebido tudo mais a dignidade, e, quando digo verem-se livres, quero mesmo dizer que os matam, e abandonam no fundo de uma ravina, para onde foram empurrados, ainda em vida. Outros são impedidos de chegar a terra firme, num tiro ao alvo aos frágeis barcos que a natureza deixou passar, não sem que antes os passageiros já tenham perdido a esperança de ver o solo, e tenham entregue a alma a Deus, porque entre o que deixam e o que vão encontrar, o diabo se revela um santo. Pois digo-te que os homens que assim agem, são da mesma espécie dos que conheces, e são de todas as diferentes raças e de todas as cores, que isto de fazer dinheiro ataca a todos.

Mas outros há, mais finos, que não conhecem a cor do dinheiro, mas que sabem bem contar as casas que tem um número, e que de fatinho sem rugas, cortam nos medicamentos, no material hospitalar, reduzem nos funcionários e nos salários, fecham hospitais, maternidades, escolas e linhas de comboio enquanto, sem deixar rasto, se dedicam a negócios de milhões de euros, atirando os bancos, para a casa da insolvência, com as economias do Zé que fica sem cheta, e sem o reconhecimento da humidade que sai do suor que gastou a ganhá-lo, para o poupar. Claro que alguns Zés puderam amealhar, com muito sacrifício, mas isso é coisa que agora quase ninguém consegue e, muito francamente, se um banco for à falência, pouco me importa, porque devo-lhes mais eu, Português, do que os bancos me devem a mim.

Mas já chega de filosofia e de amor, porque, do segundo, sei demais, e, da primeira, chega-me a da vida, que me deixa um gosto amargo na boca e a língua seca, por tantas misérias se apressarem neste deserto, onde a única flor que renasce é a de dar à luz alguém que serenamente chame de amigo, e se sente num sofá ou no chão, converse, consiga sorrir, rir, chorar, odiar e amar, e dirija a vida que nasce contra tudo e contra todos.

Faltam cinco para as sete e o despertador toca. Relembrei o sonho em que o homem nasceu, já velho e nu, de membro teso, com o cordão umbilical a dar duas voltas ao pescoço. A mãe tinha-o parido, nas areias quentes do Sahara, onde uma grande flor amarela parecida com um girassol a rir, abria ao seu lado, ao mesmo tempo em que ele, aos setenta anos, se levantava a dançar como a Tina Turner no Proud Mary, para ir lavar a louça que deixou na banca.

Porra! tenho que mudar a música do telemóvel.

última carta de um refugiado

última carta de um refugiado

“podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer de frio e não de terror
podemos morrer a tiritar e a tossir, podemos morrer de febre numa liteira, saco cama ou na madeira, mas não de ódio ou cegueira

podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer hoje abraçados ao frio da noite, ou ao gelo da neve, olhando as estrelas do norte, mas já não ao som das balas ou dos tanques

podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer hoje e esquecer que aquilo que nos varreu até aqui foi a guerra
podemos morrer hoje nos trilhos das montanhas, a andar ou a chorar, a ouvir o gemido de velhos, homens, mulheres e crianças, mas não do ódio do meu irmão

podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer hoje, mas a olhar o mar e o amor, e se isso me fizer esquecer a luta e o sangue, então que morra hoje a fugir para encontrar um pedacinho seguro, a nadar, a andar, a correr ou a morrer

podemos morrer hoje, mas não de bombas, e este último esforço de vida vai para ti, porque se te encontrar, mesmo num lugar pequenino dentro do coração, não morrerei hoje, em vão

poderemos morrer hoje, mas não de bombas”

mesmo

“Adoro a palavra “mesmo”. É definitiva, não deixa lugar a retaliações ou dúvidas e, sempre cheia de incertezas, a vida é isso mesmo: uma variável instável: amo-a. Mesmo. A palavra “mesmo” deixa, por isso mesmo, alguns factos definidos e claros e, tal como o nome de Deus, não se pode usar em vão.
— A humanidade não é grande coisa: mesmo.
É só olhar à nossa volta e procurar as poucas coisas que fazemos para transformar tal afirmação numa mentira.”

Cristina Brandão Lavender

sentido da vida

“O sentido da vida está na morte, porque viver bem é não morrer em vida também.”

 

O sentido da vida está em nunca perder de vista a morte, porque viver bem é não morrer em vida também.

Cristina Brandão Lavender

a queda

“Cortaram-nos nos salários, nas reformas, nas comparticipações dos medicamentos, nos apoios à saúde, nos médicos e nos enfermeiros, caem professores, caem pais e caem escolas com os alunos, caem trabalhadores, caem as carreiras e as ligações dos transportes, caem jornais, caem jornalistas, cai o subsídio de apoio à deficiência, à velhice e à subsistência, caem bancos, mas não cai a minha revolta, não cai a minha vontade de lutar e de os mandar todos a um lugar que não seja em Portugal porque assim acaba o ano e perdoem-me os que esperavam que me encolhesse, que escolhesse melhor as palavras, mas alturas há em que o melhor mesmo é gritar e dizer sem enganos, nem engasgos e em bom português: estamos TODOS FARTOS DESTA MERDA.”

Cristina Brandão Lavender

portal aberto

de portal aberto para Ti
entra, Natal,
não peças licença
que o espaço do nosso peito
é como o ventre de Tua Mãe
e num longo abraço
nele
nos aninhamos também

nem gente, nem pessoa

e ele dizia: “mãe, uma pessoa vira gente quando deixa de ver o sol no sol, e a lua na lua. Em vez disso deixa de ver para começar a sentir, e a sonhar, e a alma abre-se, e o sorriso alarga-se e os pés voam, tocando apenas ao de leve no caminho. E é assim que gente se torna pessoa porque ao sentir melhor, também chora. Antes disso nem era bicho, nem era pedra, nem era mar, porque todos três vivem dentro, bem dentro, de gente que sente. Antes disso era apenas um morto que se julgava vivo e que nem terra, nem céu o conheciam.”

e porque dizes tu que isso acontecia?

“porque nem seu nome ele sabia”

Cristina Brandão Lavender

Oecussi – 500 anos

Oecussi – 500 anos

Oecusse_cities_rivers

É uma alegria imensa poder estar em solo Timorense e participar numa data tão importante da história deste povo irmão. Os 500 anos da chegada dos Portugueses ao porto de  Lifau, em Oecusse, constituem um marco incrível e, pisar esta terra que há muitos anos começámos a amar, aquando se comemora tão importante data, é, em boa verdade, um privilégio. Não o esquecerei nunca, assim como não esquecemos quando, incansavelmente, contra tudo e contra todos, se contava ao mundo as injustiças e o sofrimento deste povo, e se defendia o direito da luta da Resistência pela sua autodeterminação. Mandar emails num ambiente DOS e participar em CHATS com pessoas de todo o mundo, passando, diariamente, a mensagem sobre o que se passava em Timor foi algo de que me orgulho de ter participado, conjuntamente com um grupo liderado por João Correia de Freitas da Universidade Nova de Lisboa. Foi trabalho de formiguinhas muito necessário, às vezes inglório, mas do qual nunca desistimos. Recordo as notícias contraditórias sobre a prisão de Xanana Gusmão e da morte de muitos dos seus guerrilheiros. A maioria das pessoas dos países com quem comunicávamos não sabia sequer da existência do povo, desconhecia totalmente a sua situação geográfica, assim como as condições em que vivia. Mandávamos coordenadas, ganhávamos aliados em muitos países, e usávamos nomes de cidades e países vizinhos, como referência, para que a mensagem fosse passando. Sabemos que foram muitos anos de sofrimento que culminaram com aquele dia fatídico “do rezar em coro, em Português, no cemitério de Santa Cruz, unindo um Povo, ao som das balas impiedosas”. Outros acontecimentos nos emudeceram, como uma reportagem filmada à noite, de um povo amordaçado em debandada, pela calada da noite, em segredo, montanha acima, onde nem às crianças era permitido chorar. São imagens de dois povos que sofreram juntos, estão vívidas na memória colectiva, e também elas fazem de nós irmãos.

Cristina Brandão Lavender

ataque e verdades

“Há momentos na vida em que o ataque, apenas no contexto ideológico e verbal, não só é necessário como se faz inevitável. É que há determinadas verdades que se não forem ditas fazem de nós cúmplices das mentiras que apregoam.”

Cristina Brandão Lavender

árvore é vida

“Quem corta uma árvore faz morrer um pouco de si próprio, porque ela carrega os passos de todos os que por ali passaram.”

Cristina Brandão Lavender

verdade

“Há momentos na vida em que o ataque, apenas no contexto ideológico e verbal, não só é necessário como se faz inevitável. É que há determinadas verdades que se não forem ditas faz de nós cúmplices das mentiras que apregoam.”

ainda Paris

“Depois de ler os inúmeros testemunhos das pessoas que, na primeira pessoa, viveram os atentados terroristas, mais me convenço de que, no fim, vence sempre o amor. É o amor de quem se sacrifica para salvar a mulher, o amigo, a desconhecida, o desconhecido, a força com que se segura uma mão, um olhar, um afago, o lutar pela vida, o contar com os outros e para os outros. Quase tudo o resto, à volta destes, fica vazio de sentido, perde-se nessa luta pela vida. E a solidariedade que se gerou é só bela. Muito bela. Todos os outros discursos perdem significado, perdem-se pela falta de mensagem e quem grita é o silêncio mais o amor que paira no ar.”

 

Cristina Brandão Lavender

sonhar, sempre

O Anjo da Guarda diz que se lhe escapam completamente, tanto as lides económico-financeiras, como a gestão dos fenómenos naturais e que se encanta com este metafórico título. Disse também que tenho a tarefa de espalhar  que quem diz o contrário, só nos está a confundir. E pronto, está dado o recado do Anjo Bom porque, se os ventos de Novembro antecipam o calor do Natal, poderia concluir que este sonho foi uma premonição que incendeia verdades e alerta para o que se quer da vida.

Sonhar, sempre.

E os políticos, neste calor de Novembro, têm pulgas na cadeira ao ver um poder que se esvai e o país, que está na banca rota há muito tempo, espera ansioso pelo que se vai passar, em directo, colado à cadeira do sofá, ou deitado, com uma mantinha aos pés, para o caso de ficar, de repente, mais frio.

Sonhar, sempre.

São os sonhos que alimentam a razão e nos descansam de uma realidade que, por vezes, demasiadas vezes, nos magoa e nos incendeia as opiniões.

Sonhar, sempre.

E os ventos de Novembro, com tanta palha seca a servir de rastilho, vão tornar o calor que se adivinha para o Natal, num inferno moral, porque não falta por aí palha seca a incendiar a comodidade e o medo que se instalou. Estou a vómitos com tantas mentiras, estou a vómitos com tanta generosidade encapotada, estou a vómitos com tantas lágrimas, à fina força escondidas. Estou a vómitos deles e do seu mote: deus, pátria e família, um Deus que renegam, uma Pátria que vendem e uma Família que desconhecem. Estou a vómitos deles, e não estou grávida.

Sonhar, sempre.

E, só numa coisa, o descanso: a escrita. Alma inquieta e saltitante, que difícil és de contentar, para onde vais?

Para o sonho, mergulhar na música serena, com a viola, vestida de t-shirt de puro algodão, bem velhinha, encostada à pele, a ver uma televisão, sem som, a vomitar as maldades de uma humanidade que não acredito perdida, a bebericar uma chávena de chocolates quente, a adocicar a alma. Explicar o inexplicável ou só dizer que enquanto uns odeiam os outros amam?

Sonhar, sempre.

O ser humano, quando se une, consegue uma força indestrutível que constrói pontes inabaláveis. Chama-se amor a essa corrente que está no espírito, e é bom que chegue, por quanto as mentes que estão cheias de matéria, não deixam espaço para a razão, e o vazio de razão provoca desumanidade.

Soprem de mansinho, ventos de Novembro, e cubram-nos do calor do Natal porque o ontem é um ponto final parágrafo, o texto continua e, nas palavras que se seguem, lavem-me a alma.

Cristina Brandão Lavender, A Velha-Escrita de Novembro de 2015

vazio

“quando as mentes estão cheias de matéria, não há espaço para a razão, e o vazio desta provoca a desumanidade, e este é o nosso maior mal.”

Cristina Brandão Lavender

ponto final

“o ontem é um ponto final parágrafo. o texto continua e, nas palavras que se seguem, leva-me a alma.”

Cristina Brandão Lavender

corrente

O ser humano quando se une consegue uma força indestrutível que constrói pontes inabaláveis. Chama-se amor, a essa corrente, e nela temos elos de abraços, elos de ternura, elos de toque de pele, de testamentos de humanidade, de comunhão de carácter, e quando são falsos, simplesmente se quebram.

 

fios de luz

“O mundo é fruto de gestos de amor.”

Cristina Brandão Lavender

o amor não se diz

“uma mulher que ama tem o coração forrado a palavras que não consegue dizer”
Cristina Brandão Lavender

t-shirt

t-shirt

viola ICP

Foto de Isabel Costa Pinto

“a música serena-me, entretanto a viola é uma t-shirt muito velhinha de puro algoão que se confunde com a minha pele.”

Cristina Brandão Lavender

arrependimentos

“arrependimentos são portas fechadas à vida”

Cristina Brandão Lavender

a vida dá

“A vida só te pode dar o que estás disposto a receber.”

 

Cristina Brandão Lavender

amigo

“amigo é aquele que ao entrar nas nossas vidas nos faz melhores do que éramos antes da sua chegada e quando parte ficou connosco.

Cristina Brandão Lavender

sou lua

sou lua

lua ana barros

Foto de Ana Barros

 

 

 

 

 

 

sou lua
adormeço nesse amado ventre
com o tule do teu olhar
envolta por fios de seda
aí sou segura, dos segredos dos homens
pois lua

és mulher, tu como eu

a pirâmide

“não digo nada, porque se não disser nada pode ser que ainda me calhe um pedacinho e já dizia o ditado: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão; institucionalizados e legalizados os roubos ninguém sai penalizado. E viva a guerra mundial do roubo”

Cristina Brandão Lavender

para o bolso

“para o bolso de poucos, a desgraça de muitos.” Cristina Brandão Lavender

humanidade invertida

“Sabem por que dói tanto na alma? É a completa inversão do princípio “humanidade”. A pirâmide inverteu-se e não sei como se segura de pé.”

Cristina Brandão Lavender

direito 1305 do leitor

“o direito de achar absolutamente antinatural o considerar o livro como um filho” CBL

olhos da lua

“vejo com os olhos da lua que o sol se vai e os homens não se importam.”
 
Cristina Brandão Lavender
quem é morto sem o estar

quem é morto sem o estar

Rolas ICP

Foto de Isabel Costa Pinto

(recontei hoje o episódio que ontem saiu ao correr das teclas, porque os detalhes nasceram ao recuar até esse dia) Pois é, lembrei-me de vos contar uma história. Diz o povo que se foste dado como morto e não é verdade, vê nisso sinal de longevidade (não sei se é com estas palavras, pois inventei agora esta forma de o dizer. Mataram-me uma vez e até rezaram, em meu nome, uma missa. Disseram-me que na aldeia não faltou quem chorasse e que foi muito difícil para os alunos (esses cá estão para o recordar) e, enquanto uns deram asas às minhas qualidades (quem morre é sempre santo), outros deliciaram-se com os meus defeitos, (tenho plena certeza disso).

Quando cheguei, depois das férias, directamente para a sala de aula, foi a minha vez de apanhar um susto com o quadro a que assisti. Caras de pânico, outras apenas de surpresa, outras de incredulidade total, tudo bocas em forma de 0, nas caritas das crianças à minha frente. Parecia estar perante assombração e não saía nada de jeito das suas bocas: “ga gu da ba bu en”. Contaram à sua maneira o ocorrido, embrulhando-se em pormenores e detalhes. Um sorriso sombrio e um arrepio de frio alojou-se-me na espinha. Ao longo do dia, conversas e sorrisos rasgados dos adultos, misturavam-se com “Graças a Deus que está tudo bem” ou “não passou de um grande susto”, mas ninguém soube responder ou explicar como tão sinistro boato havia começado. Este favor Divino, fui agradecendo à medida que se desfilava o alívio da grande maioria dos que genuinamente se afligiram, mas a mim o alívio tardou e muito. Tal experiência foi bem difícil e, durante algum tempo, meti nas minhas orações uma nova frase, não se fosse dar o caso daquela situação ser um aviso ou premonição”Obrigada Pai de Amor e Bondade por ainda aqui estar e por tudo não ter passado de um terrível engano. Permite que aqui fique por muito mais tempo, mas acima de tudo que saiba dar-lhe uso, com amor e sabedoria.”

Abraço e uma vida longa, Lima Duarte

lados e lados

“Todas as histórias têm dois lados, mas por vias das dúvidas fico sempre do lado em que há mais sofrimento. Se sofrem mais é porque não temos feito o suficiente. E não contem comigo para mentiras e truques de prestidigitação para as ocultar.”

Cristina Brandão Lavender