cegueira-fe-em-jesus

O medo é-me. Sei que lhe tenho, a alma. Pelo medo sobrevivo e por ele me morro. Verdade que morreria não fora ele; verdade que morro tão plena dele. Essa realidade vai acontecendo como certa e condicionando aquilo a que chamo: “vida”. Fazes-me algumas vezes tremer de frio, sentindo o físico, como um bloco gélido, dividido em muitas secções que abanam descompassadamente, e noutras pesado, arrastar-se aprumado, no meio de gentes, pela casa e pelas ruas. Sei dever ao medo esse instinto de sobreviver. Devo-te, também, a dor de muito sentir. Quer esteja este corpo sentado, imóvel, bamboleando a perna, quer quando em pé em desatino: respiro-te e movo-me em ti. Perdida de ti, fica a vida. Por isso, medo, por ti, me perdi, quando me deitei no tédio, quando conversei com o pensamento e quase o destruí nesse raciocínio, por não entender a razão desse inimigo, quando quase me perdi de ti, vida este ser descontente que é a “alma”, quebra-se. Perdi-me de ti, alma, e perdi-me no tempo: a chorar-te. Descobri, em dor, essa infinita distância entre ti, a felicidade, e qualquer outra verdade. Perdi-me contigo ao não sentir alívio por te enfrentar e te dizer estas coisas, pelo esforço imenso de que, parida a dor humana, esta seja trabalhada para se suportar. Será neste sentir que está a cura do sofrer? Esse medo, de tanto te pertencer, vida, faz-te gritar por um ser-me. É que tudo o que vive muda e, se esta alma é ligada ao medo pelo pensamento, mude o pensamento e mude a alma. Mude-se então com a minha vontade, mude-se com a minha coragem de enfrentar o medo da morte, neste peito onde bate este pulsar de vida. Neste tempo que se arrasta contigo, este momento vazio de ódio e de maldade, há um suspiro de alívio. Espero que seja esse o início da coragem que se vence por dentro e de dentro para fora. Se for peço uma alma que sossegue, que abrace o que amo, mas que viva na dignidade de uma humanidade que ainda sinto plena de crueldade e sem juízo. Há dias em que o que o mais quero é uma alma nova.

Cristina Brandão Lavender

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