Pestanejei repetidamente, deixando muito menos do que cinco segundos entre cada uma das vezes em que os cerrava. Naquele dia iria atingir mais do que a média estimada para cada ser humano: 11520 vezes/dia. Embaraço naquele abraçamento todo. Aquele ritual conduzido por desconhecidos. Incomodava-me. Há alturas em que o contacto físico me desagrada, enfada, irrita. Esquivo-me dele. Noutras, essa propinquidade, esse estado pele-pele, alimenta-me. Sem ele fico subnutrida – tal criança da guerra do Biafra no final da década de sessenta. Nunca mais as esqueço, barrigas enormes, prenhes de privação. Umbigo espetado para fora. Boca pintalgada de farinha que bebiam gota-a-gota por esquecerem por que a haveriam de abrir. Se não fora cuidadosa morrer-me-iam nos braços, mas por comerem.
Sou subnutrida de tacto. Minha mãe não me sentia a trama da pele. Não me cheirava. Não me ouvia o coração. Só o fazia quando queria testar a febre. Mal me via cabisbaixo olhava-me como uma leoa que protege sua cria, ”tens olhos brilhantes, anda cá para ver essa febre”. Encostava-me os lábios na testa e voltava a fazê-lo de seguida, desta vez uma das mãos na minha, e outra na sua. De seguida, o contar das pulsações. Só assim havia toque, comunhão, relação maternal-filial. Isso fez-me gostar da relação febre-doença. Ganhava interesse redobrado. Se fragilizado havia mais mãe, mais um toque, mais cheiro, macieza.
Pestanejei, braços pendidos ao chão durante o abraço.
Tantos abraços lembraram quando vestia lã. Picava-me. Senti naqueles abraçamentos voltas e voltas enormes de cachecóis de pura lã. Quando via, falava ou sentia lã percebia que as ovelhas eram a minha desgraça e eu a delas. Impossível tê-la no corpo sem as imaginar desgraçadas, atadas, imobilizadas por homens sentados em cima das pernas, com uma tesoura enorme a rapar: carequinhas. Compreendia aquele ódio mútuo. Sabia daqueles cortes finos nas minhas orelhas “está quieto miúdo olha que assim ainda te magoo mais.”
É. Emaranhamentos têm que se lhes diga. Além do toque vem juntamente o cheiro que se entranha nas narinas da intenção. É sempre estranho se não estamos preparados. Denegamos. O pior abraço que tive foi na catequese, no colo do padre. Apertou-me demais e por demasiado tempo. Não gostei. Espetei-lhe uma cotovelada no externo, ao jeito do meu ossado cotovelo. Vi-o de joelhos e sem ar. Corri para casa. Fechei-me no quarto. Matei-o. Sou o diabo.
Cingindo-me. Incógnitos. Pele-na-pele. Noutra vida.


CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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