Olhas-me sem ver,
tocas-me sem sentir,
falas sem me ouvir,
gostas-me sem provar,
Espremes-me sem procurar,
Abafas-me sem tocar,
puxo mãos de ti: para te amar.
Pego no diagnóstico de cegueira,
seguro na cabeça os óculos escuros,
tacteio, braços em riste, um passinho de pé,
neste corpo, o hirto, sem prumo, em preia,
na procura de um rumo, bruma adentro,
mar à espera de maré, tal galé de encalho na areia.
Instalo um GPS, busco no mapa:
ponto de partida mais ponto de chegada;
encontro o vazio, sem eco, o nada e as coordenadas:
de um olhar que não está,
de um andar que é o peso sem voo,
de um espaço que não se preenche,
de uma existência que se desmente,
num relógio no pulso de um fantasma,
na espera que a ablepsia desvele o carma,
no caudal de leite desse homem
que não era, não é, nem será,
sem um eu, nem povo, nem gente:
apenas carne, e dente.
CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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