“Ah, se eu pudesse” não se coloca. Se eu posso, então eu quero. Não vou, não estou com ele. Pode dar-se o caso, e aconteceu muitas vezes, de me sair essa interjeição “Ah, se eu pudesse”, mas logo venho a mim e pergunto: que ou quem to impede?
É. Pertenço aos humanos mais difíceis de controlar. Pertenço aquela raça de pessoas que o controlo não existe no dicionário, não pisamos, nem passamos por cima de ninguém, mas pensamos, sonhamos e realizamos. Não nos dispomos ao “Ah, se eu pudesse”. Tudo o que achamos minimamente interessante, importante ou fundamental que se faça: faça-se. Mais. Não nos sai da cabeça enquanto não o fizermos. Fazemos logo daquilo o nosso cavalo de batalha. Não das batalhas a cavalo, de baioneta, ou atómicas. Podiam ser. Mas não são. São as bandeiras universais da vida. Não descansamos enquanto não formos arranjando soluções aqui e ali mesmo para as mais difíceis. São batalhas em forma de palavras, no papel, nas redes sociais, nas salas de espectáculo, nas escolas, por trás de uma imagem, numa avenida, num aeroporto, em qualquer lugar. Chamo-lhe as minhas batalhas de comunicação acção. São as procuras, as pesquisas, as experiências. Quando vejo, vivo ou sinto que algo me debulha as tripas, numa tentativa real de fritura dos neurónios, ou que apenas me impele a toda a força para uma questão de fazer, acontece que ouço uma voz forte, grave e muito serena dentro de mim: podes e deves. Sim, porque só se diz “Ah, se eu pudesse” quando se tornaria marcante que acontecesse. Então quando se coloca a questão o Ah, se eu pudesse é já uma falsa questão. Caso não se possa, não existe. Por que dizer o “Ah, se eu pudesse”? Que te impede? Quem te impede? Se estás errado já não podes. Se não existe já não podes. Não estás errado, existe: podes. Então?
O gato mia. Mia muito. Mia muito mesmo. Eu quero ir calá-lo. Mas não posso. Por agora.

                                                                                              CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
em, a Velha-Escrita, 6 de Novembro de 2013

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