é inverno mesmo, caramba.

A lareira foi acesa, o borralho crepita e ponho os olhos nele, adoro senti-lo bem quente na cara, aceito o seu convite, descaradamente, não ponho a grelha de protecção, nem preservo o chão que é de tijoleira, assim sabe-me a um aconchego mais natural, mais real, mais puro. No sofá ponho uma manta bem quentinha nas pernas, e delicio-me a mirá-lo, para ali ir buscar o que o mundo dá de nada: amparo, ideia, intuito.

“é mesmo inverno, caramba”

Depois que acordei, tomo o pequeno almoço. Café, sumo de laranja e torradas. Ligo a televisão e ouço notícias, exactamente ao mesmo tempo que passo os olhos pelo jornal. Atraso ao máximo o sacrífico, embora saiba o quanto é inútil. Quando já não dá mais, saio rapidamente. “Vamos a despachar isto”

O bafo quente eleva-se, muito húmido, a competir com o nevoeiro que se abate, em mais uma fria manhã, sobre a cidade de Braga. Com passo rápido atravesso a avenida central, hoje ainda mais cinzenta do que o costume, ao som dos “quarenta minutos de música seguida com a Rita Rogeroni da rádio comercial”. O exercício físico, mais uma obrigação do que um prazer, leva-me também a vontade de o adiar o mais possível, aquilo que é uma imolação que se impõe. Pernada cadenciada, rápida, quer faça chuva, ou faça sol, de inverno ou de verão, gira que gira a rotina do faz-te bem, é para o que está, para o que serve .

Tenho que acabar com esta merda. “Para os braços da minha mãe”, canta-me o Pedro Abrunhosa, a transpiração condensa-se dentro do impermeável e as mãos frias suam também. Já toda transpirada, repito

“já tenho idade de acabar com esta merda”

Na cabeça, as páginas do jornal transformam-se em desenhos recortados, articulados por attaches, com pessoas em atividades bem mais divertidas, todas elas a empurrarem-me para o duche a fim de retomar, rapidamente, o que seria, se tudo estivesse bem, mais um dia normal.

Mas não é. Hoje, mais do que nunca, não é. A mãe matou as filhas num ato de amor, o pai costumava bater-lhe, num acto de amor, a vida esqueceu-se dela, num acto de amor, e todos os actos de amor são tão frios como esta manhã que é de inverno, e que, caramba!, por hoje não consegue mesmo fazer sentido. O tempo arrasta-se, o espaço comprime-se e prolonga-se, e as linhas do movimento são, por demais, certinhas, a contrastar com a revolta que se instala no espírito

Depois de um bom duche, seguro um copo de vinho maduro tinto, um cigarro doce apagado, na boca, o último álbum do António Zambujo a tocar e, mesmo que apenas por uns minutos do dia, vai seguir-se uma noite deste inverno que, quase a acabar no calendário, só agora começou, com a alma a desenhar-se em tons de lareira a arder.

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