Habituado desde pequenino a ouvir contar histórias antes do adormecer, certo foi que um dia João se deixou levar num pensamento novo, o de idealizar um novo mundo. Como seria o tempo e o espaço às costas da terra? Se a cegueira em que vivia incomodava, com a falta de lucidez associada, se a ablepsia humana se afundava nos meandros enredados da ilusão, se teimava a obstinação e o fanatismo ideológico que nos fazem persistir no erro de despersonalizar, de desumanizar, de perder a lembrança do trato de uns e outros, ao serviço da crueldade e da ferocidade que nos conduz a um espaço e a um tempo em estado de ausência de luz, só nos resta mesmo um mergulho nas raízes da terra, a abertura de uma fissura para a viagem do lá, para lá das costas do planeta terra, onde o tempo e o espaço são tão diferentes que permitem que seja o pensamento, a razão e a lucidez a fazer-nos saltar para a realidade que nos atrai, pela vontade e pelo desejo, e nos faz percorrer mundos paralelos assim como ir emendando os erros que na aprendizagem se forem cometendo. Não vejo nada aqui. Não vejo. Não vejo nada no céu, na lua. Nada. Resta então a fuga desta cegueira cromática, desta cegueira moral e da agnosia humana. Resta persistir, lutar e achar contigo o que faz sentido. Vem. Traz a esse mundo o contraste das cores e as diferenças com que pinto, na tela, o quadro de uma cidade justa, e onde, se não souber o que dizer ou fazer, possamos encontrar a solução em tua companhia, com empatia, resiliência, acolhimento, para defender as características de qualquer ser que respira. João ousou pintar uma nova tela, um novo livro, um novo mural, colocou-se em pé, firme, sereno, quase a sorrir, enfrentou. no meio da estrada, a polícia de intervenção, bem armados e super protegidos, eles, tranquilo e à civil, ele. Nas costas da Terra tudo é possível. Juntos. Só se estivermos juntos.

A Velha Escrita, 16 de Julho de 2016

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