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“Despir-me e despedir-me.” Sim, é uma sessão de striptease, esta que faço sempre que preciso dela. É excitante. Dá-me um prazer do caraças; acalma-me a inquietude da alma; umas vezes dói imenso, noutras faz-me rir ou sorrir de prazer, e, noutras ainda, chorar de dor aguda. Não as dispenso. São a minha humanidade. São as roupas da minha nudez.
Tomei essa decisão sem me aperceber que andei toda a vida a vestir a minha inquietude, mas em sentido contrário. Ao tentar despir-me ia pondo cada vez mais peças de roupa em cima de mim, numas camadas atrás das outras. Foram tantas as modas que vesti, ao longo da vida, que comecei a ter dificuldade de andar, esquecia-me de respirar e mesmo de comer. Como precisava de viver – não tenho qualquer resquício de personalidade suicida – dei ouvidos ao instinto de sobrevivência que fez por mim aquilo que deveria ter feito há muito tempo: dar de bandeja ao meu espírito perturbado, inquieto e excitado que sofre de SPA, (Síndrome de Pensamento Acelerado), a concentração e o juízo para distinguir o que é mesmo essencial.
Uma decisão para toda a vida, para o que resta dela: “despir-me e despedir-me.”
Despir todos os falsos eus que construí involuntariamente, que já não interessam, mas que me serviram, que me atraíram magneticamente numa busca estúpida de aceitação e aplausos pela sociedade e que faziam duma estúpida da merda, um ser que se perdia em buscas constantes, até compreender por que assim agia. Sabemos bem como sufoca e como é difícil e as opiniões são como as cerejas: toda a gente tem mais do que uma, mesmo que uma já fosse demais.
“Despir-me e despedir-me.”
Qualquer que fosse o sítio onde estivesse, dei os passos errados e certos naquilo que me deu um intenso prazer: estar com pessoas e gostar delas, pensar, usar e abusar da linguagem dos seres vivos: o amorês. Tudo o que vivemos é amor. O ódio não é mais do que um grande buraco no amor. Amo-te, Homem. É essa a decisão mais importante da vida.
“Despir-me e despedir-me.”
Não perco os amigos, eles perdem-me a mim; não ofendo ninguém e se se ofendem é porque provavelmente tenho razão, mas que não me interessa tê-la – preferia perdê-la; tudo que se quer nesta vida dá um trabalho do caneco e ninguém que ande com as minhas sandálias irá dizer que a vida é fácil: “amo-te, Homem.”; que isso é muito difícil porque só de pensar que tu me podes perder, me deixa sem ar, sem mar e sem sol; que espumo como um cão raivoso quando falho, mas que aprendo sempre com isso; que faço mais do que posso, e que amanhã acharei que fiz muito pouco ou quase nada; que tudo é relativo e provavelmente: certo, dependendo do lado em que se está; que quem tudo quer tudo perde e quem nada quer também, mas que quero sempre tudo: e muito”; que a insatisfação me fez ser muitas coisas porque o tempo sempre foi para se ocupar com muita transpiração; que fiz coisas loucas e outras completamente banais e não me arrependo de nenhuma: que te Amo, Homem; que fui empregada de uma sapataria, que treinei uma equipa de futebol; que fui campeã de natação na modalidade de bruços dos dez aos doze anos; que fui nadadora salvadora de uma piscina, no verão; que levei uma peça minha à cena, gostaram e hoje acho que não prestou para nada; que fiz teatro amador e que faço teatro profissional desde que nasci porque é isso a vida; que vendi seguros de responsabilidade familiar nas férias quando ainda não tinha responsabilidade nenhuma; que fugi de casa na adolescência e vivi numa comuna no Porto durante uma semana; que vendi o gira discos e o secador de cabelo, para ir de e voltar para casa, que paguei a quem me acolheu e não me abusou; que fui suspensa de um colégio por deitar tinta-da-china nanquim vermelha na água benta – efeitos especiais de um milagre divino; que fui suspensa do liceu por me recusar a usar a bata e faltar para jogar bilhar; que bebi aguardente, em jejum, para combater o frio do inverno e das pessoas, quando vim da pérola do atlântico, sem saber que fazia mal; que dei toda a minha alma aos alunos da minha vida, mas deles recebi imensas almas e imensas vidas; que já vomitei com o cheiro nauseabundo de casas de famílias que viviam na miséria; e que nunca acabaria esta lista porque a minha vida é cheia de nadas e de coisa nenhuma, mas que não a troco por nada deste mundo a não ser por:
Amo-te, Homem.

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