pauta de musica ICP

Foto de Isabel Costa Pinto

Ana ou Maria tanto se lhe faz. Ela foi colocada, desde que nasceu, no coração da tempestade. Tudo lhe foi difícil e intrincado, fazendo dela uma rebelde, uma lutadora de causas consideradas justas, independente das preferências individuais de sicrano ou beltrano. E que útil é ser uma alma assim. Sempre atenta ao que se passa para logo analisar as ficções que vêm de permeio, em discursos e contextos impregnados de metáforas. Para Ana ou Maria – tradicionalmente nomes portugueses, sós ou acompanhados – já chega destes recursos expressivos, assim como basta de ficção científica. Nos tempos que correm interessa-lhe como pôr o pão na mesa, resolver operações de somar e subtrair e não se deixar cair na esparrela do isto é o que eu digo para tu entenderes aquilo e, outra coisa muito diferente, é o que eu diria se não me importasse pelo que tu irias perceber. Tudo o resto é paisagem de um quadro que tem mão hábil de mestre pintor e olho artístico de visitante de galeria que o quer mesmo é facturar. Psicologia positiva seja lá isto o que for, o lado bom das coisas, o sofrer com um sorriso nos lábios, depois da tempestade vem a bonança, somos aquilo que comemos, só com suor e lágrimas se consegue… são máscaras e desculpas para que o sacrifício de muitos seja o prato cheio de alguns. Isto a uma escala maior tem sido a condução da política europeia e Ana ou Maria receia que esteja prestes a fazer estourar uma guerra no seu seio, com a Rússia de Putin e outros estados mais ou menos tradicionais como espectadores, a esfregar as mãos de contentes e a afiar o dente ao osso cheio de carne que lhes vai cair na sopa. Ana ou Maria espera estar redondamente enganada quanto a isto de guerras reais e não deixa que a sua vontade se destrua por qualquer cenário de guerras ideológicas. Vai pensando e agitando ideias na sua cabecinha, diz o que tem a dizer e vira tudo do avesso para limpar bem a mente que é o mesmo que dizer pôr o preto no branco já que só assim se consegue ter a casa arrumada e o cérebro a funcionar. “Não se forra um banco com um lenço branco senão se quer ter uma conversa demorada. Das que são precisas para adiar a morte”(1) e Ana ou Maria está e estará sempre na disposição de chamar os bois pelos nomes custe isso a quem custar. Ana ou Maria tanto se lhe faz.

 

Cristina Brandão Lavender

 

(1) in “Livro sem ninguém” de Pedro Guilherme-Moreira

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