página em branco

Esta página abriu-se, alva, fria, insensível, mas nunca ameaçadora, estava pronta para começar a preenchê-la de caracteres minúsculos, negros, perfilados militarmente, sem que fossem dadas tréguas ao teclado, ele, também, aprumado, à espera que os dedos vorazes o tocassem. As palavras, essas que refere, nascem primeiro no coração e ali ficam a aquecer-se em ternura ou revolta, em desespero ou alegria, em confiança ou suspeição, filosófica ou intuitivamente. Quando chegam à cabeça são já imagens que rolam como diapositivos à frente dos olhos, da esquerda para a direita, sem parar, a maior parte das vezes como chicotadas estridentes em costas de escravos que anseiam pelo terminar do castigo, sem gritar, impondo o seu orgulho e valentia ao senhor, déspota e cruel, enquanto o escravo, sim, não tem outra palavra melhor que lhe chamar, teima em não se dobrar perante o assalto à sua dignidade, num silêncio altivo, para desespero do tirano, ao não lhe permitir possuir a sua alma que a ninguém pertence, nem mesmo à morte, propriedade apenas dele e, neste momento, também desta página em branco. Lembra o tempo em que as palavras eram silenciadas, proferidas livres apenas entre quatro paredes, mas se estas também têm ouvidos, mais valia que fossem do agrado daqueles que impunham um pensamento único de sujeição e concordância, deixando a propaganda lavar as mentes com explicações morais, humanistas, civilizacionais, e que tudo se desenrolasse sem ondas, a preceito da regra imposta, dando o poder a uns, à custa do sofrimento de muitos. Lembra as palavras gritadas quando Zola fora apanhado a dormir debaixo de um cacaueiro, castigo marcado para o meio-dia, no...

Nunca te vi, sempre te amei

Ontem saíram assim as palavras, na tertúlia de Janeiro da Velha Escrita, sobre o tema “Nunca te vi, sempre te amei”   Ah! se não fossem as palavras que ditam a sorte de um tema e que escorregam, se escrevinham, lentamente ou decididas, pelo vidro do telemóvel, caprichosas, mas dominadas, que saem pela vontade de te dizer que, na realidade, nunca antes te vira, mas que sempre te amara. Ah! se não fossem as palavras como te diria que, ao entrares naquela sala, me deixaste com os olhos preenchidos de uma noite calma, tal negritude azul escura, o tom a combinar com o vestido que trazias, a favorecer a pele branca, a realçar as formas em que tão bem se assentava. Ah! se não fossem as palavras como poderia explicar que nunca te vira, mas que sempre te amara, e que não são os acasos que te trazem ao balcão deste bar, te levam a escolher o assento de couro velho de castanho desgastado por centenas de encontros e desencontros deste mesmo lugar, mesmo aqui ao lado do meu? Ah! se não fossem as palavras que rompem silêncios que nos embaraçam, não teria a certeza das quais escolheria, enquanto dançam em remoinhos e bailados dentro do peito e do cérebro, ao som do Opus n. 49 de Chopin. Ah! Se não fossem as palavras e a força de que se vestem, nunca teria a coragem de te olhar fixamente e sussurrar: “Nunca te vi, sempre te...

recados de um astro

Este sol que vos sorri, hoje, não vos devia encantar, esconde mágoas, esconde uma luz de lágrimas que não consegue brotar, um calor febril que, em desespero, beija os filhos nas fontes secas, uma maleita que o homem ciência quer tratar, enquanto o vil, o egoísta, o ávido de poder abandona a uma morte lenta que vos irá esmagar. É o sol que vos sorri em lágrimas de luz que não vos pode...
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