Escreve com uma de ponta e mola, sim?

Quando se trata de escrevinhar ou rabiscar umas linhas não há nada melhor do que um lápis 2 HB, sendo o H a primeira letra da palavra Hard, dureza, e B a de Black, preto ou negro, em Português. Já o 2 identifica o nível de dureza que a grafite possui, sendo este “dois” indicativo de pouco duro, perfeito para uma escrita manuscrita legível e cuidada. Em cima destes argumentos pesa o de que o lápis sempre nos deixa a opção de apagar sem rasurar, deixando a folha mais limpa para as ideias que queremos expor e para a boa apresentação do resultado. Mas isto de escrever tem pouco a ver com o material que usamos para o fazer, mas tudo com o conteúdo que queremos lá deixar. Com este tema e com a falta de inspiração com que me encontro só me resta uma opção: Escreve com uma de ponta e mola, sim? Sessão da Velha-Escrita, 6 de Fevereiro de 2019, na Junta de Freguesia de S....
branco

branco

Escrever sobre a expressão “em branco” foi o que ditou o rectângulo que trouxe este tema “branco”, alternando, ou como nome masculino que refere a cor semelhante à do leite, da cal, da neve, do pedacinho de papel “em branco” sorteado no saco preto da sessão da Velha Escrita, ou como adjectivo nas ideias que expomos. Quase que me deu uma branca no que respeita ao que poderia escrever até que me lembrei, entretanto, que nestas últimas manhãs frias, em que o sol não aqueceu, foi de um branco maravilhoso que se vestiu Mirandela atingida pelo sincelo, pedaços de gelo suspensos das árvores e dos beirais das casas, fenómeno meteorológico esse que não é neve, mas sim gelo, resultante do nevoeiro e das temperaturas negativas. De facto, de manhã, olhei directamente para o sol persistente, (teimoso é o homem que teima em negar as alterações climáticas) que há várias semanas nos visita devido ao anticiclone que se fixou, preguiçoso, sobre a Península Ibérica. Branca, cega de alvura por estrelas cintilantes, ficou a visão humana atingida pela luz solar, embora saibamos que não é branca de todo, já que, sendo ela decomposta, tem o espectro das sete cores que vemos no arco-íris. Essa cegueira durou apenas uns momentos em oposição ao que acontece quando ficamos cegos de raiva, sentimento esse que provoca muito mais estragos no nosso íntimo sobressaltado, com o assolo, repentino e ascendente, do alvoroço em tons do vermelho sangue ou de preto morte que nos percorre a pele arrepiada, num frio pela espinha acima, até à cabeça. Urge então controlar o sobressalto, atingir a paz suficiente, voltar...

página em branco

Esta página abriu-se, alva, fria, insensível, mas nunca ameaçadora, estava pronta para começar a preenchê-la de caracteres minúsculos, negros, perfilados militarmente, sem que fossem dadas tréguas ao teclado, ele, também, aprumado, à espera que os dedos vorazes o tocassem. As palavras, essas que refere, nascem primeiro no coração e ali ficam a aquecer-se em ternura ou revolta, em desespero ou alegria, em confiança ou suspeição, filosófica ou intuitivamente. Quando chegam à cabeça são já imagens que rolam como diapositivos à frente dos olhos, da esquerda para a direita, sem parar, a maior parte das vezes como chicotadas estridentes em costas de escravos que anseiam pelo terminar do castigo, sem gritar, impondo o seu orgulho e valentia ao senhor, déspota e cruel, enquanto o escravo, sim, não tem outra palavra melhor que lhe chamar, teima em não se dobrar perante o assalto à sua dignidade, num silêncio altivo, para desespero do tirano, ao não lhe permitir possuir a sua alma que a ninguém pertence, nem mesmo à morte, propriedade apenas dele e, neste momento, também desta página em branco. Lembra o tempo em que as palavras eram silenciadas, proferidas livres apenas entre quatro paredes, mas se estas também têm ouvidos, mais valia que fossem do agrado daqueles que impunham um pensamento único de sujeição e concordância, deixando a propaganda lavar as mentes com explicações morais, humanistas, civilizacionais, e que tudo se desenrolasse sem ondas, a preceito da regra imposta, dando o poder a uns, à custa do sofrimento de muitos. Lembra as palavras gritadas quando Zola fora apanhado a dormir debaixo de um cacaueiro, castigo marcado para o meio-dia, no...

Nunca te vi, sempre te amei

Ontem saíram assim as palavras, na tertúlia de Janeiro da Velha Escrita, sobre o tema “Nunca te vi, sempre te amei”   Ah! se não fossem as palavras que ditam a sorte de um tema e que escorregam, se escrevinham, lentamente ou decididas, pelo vidro do telemóvel, caprichosas, mas dominadas, que saem pela vontade de te dizer que, na realidade, nunca antes te vira, mas que sempre te amara. Ah! se não fossem as palavras como te diria que, ao entrares naquela sala, me deixaste com os olhos preenchidos de uma noite calma, tal negritude azul escura, o tom a combinar com o vestido que trazias, a favorecer a pele branca, a realçar as formas em que tão bem se assentava. Ah! se não fossem as palavras como poderia explicar que nunca te vira, mas que sempre te amara, e que não são os acasos que te trazem ao balcão deste bar, te levam a escolher o assento de couro velho de castanho desgastado por centenas de encontros e desencontros deste mesmo lugar, mesmo aqui ao lado do meu? Ah! se não fossem as palavras que rompem silêncios que nos embaraçam, não teria a certeza das quais escolheria, enquanto dançam em remoinhos e bailados dentro do peito e do cérebro, ao som do Opus n. 49 de Chopin. Ah! Se não fossem as palavras e a força de que se vestem, nunca teria a coragem de te olhar fixamente e sussurrar: “Nunca te vi, sempre te...
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