gente e pessoa

Uma pessoa deixa de ser gente quando deixa de ver o sol no sol, a lua na lua. Em vez disso depois de ver passa a sentir, depois a sonhar, e a alma abre-se, e o sorriso alarga-se e os pés voam, tocando apenas ao de leve no caminho. E é assim que gente se torna mais pessoa porque ao sentir melhor, também...

Parabolé

Será que é no dia em que nascemos que a poesia nasce, ou será que ela já vivia muito antes dentro de nós. Será que ao soltar-se a língua do peito se largam as palavras da alma. Será? Se for verdade que é no dia em que se nasce que  se desenrola o livro das “parabolé”,  é também com ele que se define e fortifica o carácter. Todos os que nascem abraçam um fado, nunca leve, e cada um ou o vende ou o...

Também tu

Também tu Também tu me esperavas nos bancos da avenida. Lá, onde se vêem linhas de almas sentadas, ripas de madeira de tinta vermelha estalada, ao sol e à chuva, acumulando sorrisos, lágrimas ou simplesmente a pendurar memórias no tempo, as partilhas de conversas, carícias e pensamentos, olhares vagos, nos devaneios, nos que desafiam os destinos, nos que param, nos que se sentam, nos que se perdem e nos que se encontram, como tu, sentados à espera, de cigarro preso nos dedos amarelados pela nicotina, à espera, tu, à espera de mim. Observei-te de longe, da porta dos Congregados e, nesse dia não fui. Deixei-te naquela ânsia e não fui, arrepiei caminho e voltei para casa. No dia seguinte, à mesma hora, lá estavas, beijei-te na face e num sussurro comuniquei o que não querias ouvir. Vou-me embora de Braga, amanhã. Ainda vi lágrimas nos teus olhos. Nunca sentira o banco tão frio e sei que a ausência nos gelou. Hoje já não estás connosco e os bancos da avenida têm todos o teu nome. São bancos, são linhas de almas, na avenida Central, em...

Ah, se eu pudesse

“Ah! se eu pudesse” não se coloca. Se posso, então quero, se quero, então posso. Se não vou, não estou, não sou. Pode dar-se o caso, e aconteceu muitas vezes, de me sair essa interjeição “Ah, se eu pudesse”, mas logo que venho a mim pergunto: o quê ou quem to impede? É. Pertenço aos humanos mais difíceis de controlar. Pertenço aquela raça de pessoas para quem a palavra “controlo” não existe no dicionário, não pisamos, não passamos por cima de ninguém, mas pensamos, sonhamos e realizamos. Não nos dispomos ao “Ah, se eu pudesse”. Tudo o que achamos minimamente interessante, importante ou fundamental que se faça: faça-se. Mais. Não nos sai da cabeça enquanto não o fizermos. Passa logo a ser o nosso cavalo de batalha. Não das batalhas a cavalo, de baioneta, ou atómicas. Podiam ser, mas não são porque não usamos a força que aniquila os seres. Essa é a bandeira universal da vida. Não descansamos enquanto não formos arranjando soluções aqui e ali mesmo que difíceis. São batalhas em forma de palavras, no papel, nas redes sociais, nas salas de espectáculo, nas escolas, por trás de uma imagem, numa avenida, num aeroporto, em qualquer lugar, pelo exemplo. Chamo-lhe batalhas de comunicação-acção. São as procuras, as pesquisas, as experiências. Quando as vejo, vivo ou sinto, algo me debulha e embrulha as tripas numa real fritura dos neurónios que impele, a toda a força, para a questão de agir. Acontece que ouço uma voz forte, grave e muito serena dentro de mim: podes e deves. Sim, porque só se diz “Ah, se eu pudesse” quando esta antecede...
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