Escrever sobre a expressão “em branco” foi o que ditou o rectângulo que trouxe este tema “branco”, alternando, ou como nome masculino que refere a cor semelhante à do leite, da cal, da neve, do pedacinho de papel “em branco” sorteado no saco preto da sessão da Velha Escrita, ou como adjectivo nas ideias que expomos.

Quase que me deu uma branca no que respeita ao que poderia escrever até que me lembrei, entretanto, que nestas últimas manhãs frias, em que o sol não aqueceu, foi de um branco maravilhoso que se vestiu Mirandela atingida pelo sincelo, pedaços de gelo suspensos das árvores e dos beirais das casas, fenómeno meteorológico esse que não é neve, mas sim gelo, resultante do nevoeiro e das temperaturas negativas. De facto, de manhã, olhei directamente para o sol persistente, (teimoso é o homem que teima em negar as alterações climáticas) que há várias semanas nos visita devido ao anticiclone que se fixou, preguiçoso, sobre a Península Ibérica. Branca, cega de alvura por estrelas cintilantes, ficou a visão humana atingida pela luz solar, embora saibamos que não é branca de todo, já que, sendo ela decomposta, tem o espectro das sete cores que vemos no arco-íris. Essa cegueira durou apenas uns momentos em oposição ao que acontece quando ficamos cegos de raiva, sentimento esse que provoca muito mais estragos no nosso íntimo sobressaltado, com o assolo, repentino e ascendente, do alvoroço em tons do vermelho sangue ou de preto morte que nos percorre a pele arrepiada, num frio pela espinha acima, até à cabeça. Urge então controlar o sobressalto, atingir a paz suficiente, voltar ao estado racional necessário para agir, sem perder o rumo e a sanidade mental que a serenidade do espírito necessita, para não estarmos sempre no fio da navalha, que no sentido literal é uma arma branca mortal e assassina que teima em não deixar as páginas do jornal.

Diz o povo que “branco é, galinha o põe” quando é algo fácil de adivinhar mas, nesta vida, pouco é o que parece ser, pelo que, melhor mais cedo do que tarde, urge aprender a ler nas entrelinhas e compreender as verdadeiras intenções do que, em branco, ficou por escrever ou dizer. Impõe-se pôr tudo preto no branco, o que não é mais do que fazer nascer a luz da razão através de uma saudável troca de ideias, debatendo os assuntos que nos dizem respeito. É o que procuro, na medida do que é possível, nem sempre consigo, confesso, porque não ficar em branco, não conhecer o assunto, não entender nada, é muito difícil. Excepto quando lemos algumas explicações que vêm a público, elas com a intenção à nascença de dizer rigorosamente nada, o que ainda, confesso também, me deixa lívida de raiva e de susto. Mas os cabelos encanecidos chegaram com a idade e, com eles, alguma da calma que nunca pensei alcançar, dando aos dias uma maior serenidade que posso rever nos versos brancos e nos textos que escrevo desde o tempo em que recordo ter um lápis na mão de pele branca, embora branca não seja, apenas com reduzida pigmentação que lhe possa dar alguma cor.

Lembrei ainda a propósito os produtos brancos, aqueles sem marca específica, os que mais entram no nosso lar empenhado “no poupar é que está o ganho”, mas tal não se aplica ao vinho, pois preferimos um bom maduro tinto de uma boa marca, embora, a acompanhar o peixinho, seja o vinho verde branco fresquinho aquele que se impõe, que não é branco, mas sim produzido com uvas verdes claras, ou por aquelas a quem se retira a casca escura antes da fermentação.

Já todos perdemos noites em branco, à cabeceira dos nossos queridos, velando atentos e preocupados, na doença, ou atingidos por fantasmas insistentes, sempre à espreita, em que situações de pobreza ou de injustiça social nos incomodam e chocam. O branco e o preto, numa antítese retórica, continuam símbolos de pureza e trevas e, para além das emoções, retratam-se nas vestes, um pouco por todas as culturas, em casamentos, baptizados e funerais.

Em branco, não ficou esta folha de papel e, mais uma vez, na Velha Escrita, se levantaram as palavras que teimam em desenhar-se, num alegre convívio, à volta de uma mesa, na Junta de Freguesia de São Victor.

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