(…) Esta é a minha opinião, não precisa de ser dito, está aqui e é o que será. Camões, não sou alma gentil que partiu, fui, sim, ao mundo, desde que a mãe me pariu, mas alma de gentilezas não sou, e pronto, ponto final. Ao mundo me obrigaram a ir, ao mundo me obrigaram a estar, ao mundo me obrigaram a (des)sentir, e ao mundo me obrigaram a ficar, este mundo que tem agruras em multidões, vasta semeadura de podridões, há milénios de gerações, que se escravizam a uns senhores. Pergunto ao génio preso na ânfora, o que é que afinal ainda nos resta, mas ele não diz o que ao mundo espera, nem ao sítio aonde ele chega, mas segreda que a alma aonde vai, o mais certo é que cai, quando subjuga uma por outra. E, Camões, assim declaro que não poderei cantar os feitos deste mundo, dos desfeitos serei pois um, e então que me fique aqui na rede, rodeada de árvores e pardais, e fique neste silêncio escondida, porque o mundo se sorriu, queria chorar e se chorar, um esboço de sorriso pariu, o da troça e da ironia, o da sobranceria e desamor. (…)

All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove