resolvi não calar mais o peso da irritação que tenho suportado
os sintomas do mal-estar completamente instalado
a ausência de sentimento, ânsia e emoção no que faço e desfaço
nesta escola sem cultura, nesta cultura sem ensino,
nesta ausência de olhar o outro sem pensar na sua condição, raça, cor, ou religião,
no duvidar constantemente da sua humanidade,

de início e até ao fim, eles são aquilo que eu escolhi como arte da educação
e a falsa sinceridade que assenta na falácia de não saber se é ou não a sinceridade que fala, o egoísmo que reina e a vergonha que ganha
ou se sou eu a causa de tanto dano, ou quem sou eu nos muitos eus que amanho
não desisto, e ninguém levo ao engano por só ter de acreditar que me levanto,

tomo o pequeno-almoço e logo vou em grande alvoroço, que por espanto é no carro, onde passo o muito do tempo e do espaço, com a qualidade de pai e de mãe
um de manhã e outro ao finalizar do dia, com a rádio por companhia, sem nenhum já ter cabeça, fingimento ou alegria, paciência, também de interesse para ouvir sem distração, saudade e coração que só mãe e pai sabem ter

quando a condição humana daqueles por quem me responsabilizo, se transforma até ao limite em cifras de percentagem, metas, produtos, força bruta, gráficos de sucesso, de insucesso, no saber o que percebem,
uma abordagem mais em quantidade do que qualidade, numa acostagem em tropel, falso, no papel, sem tempo para pensar o ser e o existir dos filhos deste país;

na confusão da competência e da competição,
na rivalidade e luta constantes de ser o primeiro, em vez de primeiro ser
nada tem a ver comigo esta desordem
é com mágoa, mas desprezo que me vou embora, porque agitadores de sentimentos e de ideias não são bem vindos ao sistema que se rege pelo lema do segredo, acréscimo ao boato para assim dividir, enganar e depois reinar.

portanto, sem o mínimo de apreço me despeço, por já nada daí querer esperar.

Cristina Brandão Lavender
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