Há condições de mulher que são muito desconfortáveis. Não que prefiras sentir-te como um homem. Não. Acentas num eixo de verticalidade essa tua feminilidade física e psicológica. Sentes-te, nalguns casos, e após tantos anos, como uma “mulher menos mulher”. Aquela tipologia que vinha nos manuais de zoologia dos teus antepassados e que ainda passou para ti na corrente genética e educacional, criou em ti incompatibilidades profundas. Mulher de joelhos, a rezar pelo lar nas igrejas desertas, às primeiras horas da manhã; ainda de joelhos a esfregar o chão da casa com cera, mesmo quando vestida de longas carpetes; mulher a surrá-las com toda a força, num tanque de água gelada ou simplesmente a aspirá-las são um quadro traumatizante a que fugiste logo pudeste.
És mulher que, como fada do lar, participa em lutas acérrimas. Com os bicos do fogão, se não acendem; com os cantos aguçados dos móveis onde se acumula o pó ou a gordura sebosa, onde o horrível pano já não escorrega; ou aquele fundinho de pó que se acumula atrás e não poderia lá estar se queres ser aprovada no papel de honorável dona de casa. Estas e outras tarefas que têm que ser executadas a mal ou a bem, principalmente a mal, porque o lixo difícil é quase como limpar a placenta da alma depois de perdido o filho antes de ter nascido. E a máscara cai num chorrilho irritado para quem ouve, mas também para quem diz:
“Limpaste os pés? Tirem o raio dos sapatos à entrada porque não é a vocês que custa a limpar.”
Ai aquela série “casei com uma feiticeira”.
Muitas mulheres são como tu. A raiva vai acumulando e estoura, e extravasa, e vingas-te. E cortas as batatas. E cortas os dedos porque não estás concentrada – não é aquilo que queres fazer e muito menos com um super-perigoso objecto nas mãos. E juras que as batatas nunca mais acabam e o pior é ter que fingir que até gostas muito de fazer aquilo. E vêm os bifes que te dão vómitos quando os sentes nas tuas mãos. Começas a fazer contas de quantos precisas de pôr na mesa “já estão dois, mas faltam mais quatro”. E queres cantar, mas não sai, nem a música nem a letra. Quando finalmente decides que nunca mais vais fazer isso, quando decides que não podes fazer durante mais tempo a coisa que mais detestas na vida, começas a sentir-te culpada e os que vivem contigo ajudam à missa “que lindo exemplo estás a dar à tuas filhas.” E o pensamento dispara: “deus vai castigar-te, vais sofrer e esse sofrimento vai parecer-te mínimo.” E começas a ter medo de receber notícias más; que alguém que tu amas possa morrer já porque ontem já era tarde; e até sonhas com o caixão e as pessoas todas a chorarem à sua volta, mais os olhares acusatórios a porem-se em cima de ti como se fosses tu que o tivesses morto. E convences-te que sim. Depois de já teres os seis bifes prontos vais usar a panela de pressão, para ser mais rápido, porque as pessoas já estão a chegar para o almoço, e procuras o apito que é minúsculo, que não está em nenhuma gaveta onde deveria estar, e está, mas tu não o vês. E pões ao lume. E quando reviras as gavetas pela vigésima vez sossegas um pouco “e que vou fazer agora”. Começas a preparar a salada e queres desinfectá-la ou desinfectar-te a ti por estares metida num lodaçal imundo que é essa tua vida. Já nem consegues respirar. Se te desses conta nem respiravas. Só o fazes quando já nem ar tens. Entretanto vais à despensa, passas pela panela de pressão e ela começa a cuspir líquido para cima de ti, e a assobiar, e a estrebuchar-se toda como se fosse explodir. Temes o pior e começas a agir, ou a reagir perante o perigo. E é tua a culpa da possível explosão da panela. E lutas com ela como se estivesses a esgrimir de espada em riste, um pedaço de pano e um garfo, para tentar libertar a pressão. Cospe mais. A tua estratégia não resulta. Decides desligar o fogão e chamas-te “estúpida” porque não pensaste nisso mais cedo. Quando tudo se resolve o alívio é superior à desonra. Agora só pode ser puré de batata bem esparregado, tal e qual como o teu dia. Choras de raiva, de frustração, de vergonha, de desilusão, depois desistes e ficas mais séria. A revolta regressa e aumenta. Falta o almoço todo. Concentras-te e acabas. As pessoas que amas, nem sempre acreditas nisso, chegam para almoçar sem mais inquietações do que as que tinham anteriormente. Ficam logo abespinhadas por te verem assim. O teu sangue, que já não pode subir muito mais, reage mal à falta de conforto. Pedes ajuda, mas a tua voz já está tão cortante como a faca que tens na mão. Está tudo pronto. É só por a mesa, mas até isso querem que faças; e que sorrias; e que tenhas calma; e “sim, querida”; “claro, querida”.
Afinal é essa a tua responsabilidade. Agora que decidiste passar a vida a escrever, tens que te render e de ficar a programar lides domésticas. Queres estar sozinha, mas sozinha não queres estar.
E o silêncio instala-se na família. E é horrivelmente ensurdecedor. Não se riem. Não jogam. Não brincam. A casa está limpa, a cheirar a sabão líquido e o teu casamento por um fio. A filha ignora-te, mas de vez em quando lembra-se que existes e dá uma ajudinha. Cansa-se tão depressa como tu.
Se tu pudesses ver o que vejo neste prolongamento do meu corpo, em que muitas vidas se projectaram em muitos outros corpos, verias que numa casa em que não existe movimento e partilha existe um pântano de lodo viscoso, que te engole o abraço, o sorriso, o canto e a viola. Engole tudo o que gostas. O que não é engolido é levado na enxurrada de ti, montanha abaixo, expulsa por um vulcão que és tu. Pela tua boca, pelos teus olhos e ouvidos e, em esguicho por eles, derrama-se no teu corpo e derrete-se. Quando solidifica ficas com um segundo esqueleto moldado a ti e toda a tua carapaça carcomida desaparece. Porque tu só existes onde há amor. Queres amar, mas não aprendeste ainda.

Definitivamente deverias ter casado com uma feiticeira porque não és uma fada do lar.

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