porque sou pessoa #1
in “cinco gravatas”

“Aprumou-se no traje que considerou mais adequado para a noite. Tinha dois fatos para dias mais formais. Um era preto e outro beije muito claro. Optou pelo simples. O simples era sempre bom. Sempre que não sabia o que vestir e era obrigada a sair de casa abria a porta do guarda-vestidos e, da direita para a esquerda, lia. Resolvia o assunto com uma camisa e uma gravata. Procurou-as. Tinha cinco. Há quarenta anos que tinha cinco gravatas. Todas eram bonitas. Duas eram lisas, duas de lã, duas de seda. A preta era preta e nada mais. Para funerais. Para o sufoco que sentia. Para os extremos. Tinha-os. Para quando precisasse de fazer oposição, afrontar, desafiar, pôr-se um de lado e desmascarar o outro: lutar ou perder-se.
Contou cinco, mas podia ser só uma, para parecer aquilo que não somos. Para esconder o que não queremos que vejam. Placebo de problemas: sabes tu que não resulta.
Colocou o colete por cima da camisa que ia por fora das calças de ganga. Estava formal e causal. Ficou feliz. Precisava de ir e mostrar que estava bem. Não interessava se não sabia o que fazer com a vida, se queria estar ali para logo a seguir não querer estar, se não sabia para onde se virar, se o seu casamento estava de frio a gelado, se os filhos não se sentiam bem e não se realizavam, se podiam muito bem desaparecer a qualquer momento com ou sem ela, se queria deixar-se de pantufas por casa.
São cinco, as gravatas.
Aprender a fazer o nó foi algo a que se obrigou. Quando começou a trabalhar nunca diria que não conseguia, que não sabia coisa alguma. Treinou que se fartou e não deu o tempo por mal empregue. Sabia ainda que a estética dos nós também variam e especializou-se em três deles – o largo, o apertado, o descaído.
“Gravata, hein?”
“É. Apeteceu-me. Sempre usei gravatas: tenho cinco.”
Para ela era mais uma coisa que dizia sem saber o porquê e dizê-lo era o mesmo que dizer que tinha fome de vida, que não sabia para onde ir a não ser para a sua vidinha de merda, que precisava de ir comprar pão, ou simplesmente que tinha de acordar e de se levantar, que o ódio pela balança era já visceral pois teria de aceitar a gordura que agora se acumulava, a ver televisão, em papos, por todo o lado em direcção ao chão, na cara, na barriga, no rabo, nos braços, nos joelhos, no coração e que aquelas gravatas, de certo, sufocavam.
Cinco as gravatas que são. Atou-as umas às outras e pensou que dariam um excelente nó para se enforcar. O nó em que se especializara soltou-se logo que as estirou, três vezes, com demasiada força, .
Sorriu. Continuariam a ser cinco gravatas mais ela, ali por casa.”

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