Preparavam-se com a ajuda de todos. Montaram o circo, no circo da vida. Como na vida penteavam-se, alinhavam-se e, aos berros para se fazerem ouvir, chamavam. “Ó Joeeeeel, tens uma p’ra mim e uma p’ra Sónia.”
Cada um açambarcou o mais que pode porque a vida é parca no distribuir por estas bandas. Nas caras de uns lia-se o que pensavam: “Mas que estou aqui a fazer? Evito passar por este espaço todo o ano.”
“Estou aqui, quero ouvir e ver a magia.”
Das bolas aos fios, às cordas, e aos nós cegos que a vida também lhes dá, certamente as fitas “sou, sou eu, eu, eu”, “dá-me, dá-me, dá-me”, com as palmas soarem fortemente, com o ruído necessário à ocasião, umas mais com as duas mãos, outras com mão a bater na perna do filho ao colo como se sempre o tivessem segurado nessa posição. O circo ia ocupando o seu espaço à volta da assistência. No entanto, as verdades chovem por todos os lados. “SÓ SE LEMBRAM DOS CIGANOS QUANDO HÁ VOTOS. “
Bola, corda, tesoura, água, girafa, rebuçados, cores, notas (que o bom cigano vê melhor a contra luz não se vá dar o caso de a mesma ser falsa). É mesmo mentira. O mágico esqueceu-se que as mentiras têm perna curta e que aqueles que estão a ver o espectáculo de lado só querem descobrir a farsa – não de frente como é suposto – de lado apanham muito mais do que a verdade encoberta de magia, como na falsa magia feita à vida.
Todos se apressam a chegar mais perto do mágico. É ele que agora lhes conduz a vida e todos querem, ao menos por uma vez, entrar em cena.
“Dá um beijinho no avô” pedia um ancião que raramente vê os netos a não ser que a cidadania vá ao bairro.
E há o milagre da reprodução dos rebuçados. “Isto já foi treinado. Que pensam? ” continuava a rapariga que estava decidida a não se deixar enganar.
“Ó mãe anda cá. Quem subiu a corda ao poder do ilusionista?”
E furou. Saiu-lhe furado o programa. A assistência, como na vida real, comeu gato por lebre.
“Nunca percebi como estes gajos fazem isto? Sou sempre enganado.”
“É a função deles. Enganarem-nos.” – respondia o outro, do lado. E todos querem, outra vez, fazer-se ver bem no centro da acção, das atenções. Participar. Ser gente no palco do mágico, cheio de magia da vida. E da vida – dessa – foi entregue a cada um, um pedacinho dela. Um nico do que lhes pertence por direito. Amarfanharam o pedaço de papel. Bem amarfanhadinho o colocaram num saco e, mais uma vez, só por magia do momento, apareceram em seu lugar os rebuçados. Da mesma forma como os nossos políticos transformam votos em favores, cogumelos e coelhos a saltarem a rodos das cartolas, chapéus Phadora de elegância máxima, aparente. Muito aparente.
E só os bem comportados é que têm direito.
“Olhe que não.”
CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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