Cromo nº1

Sr. João era homem de poucas falas, atento, tristonho, mas prestável. A última pista para encontrar um resquício, uma faúlha incendiária, agulha em palheiro, um pedaço de presença. Novas de um filho que não lhe saía da cabeça e de quem nada ouvia há dezassete anos.
– O desamor deixou-te prenha de uma não-vida. A tua barriga ainda é maior do que quando estavas de esperanças. Sozinha, andas a farejar uma louca e interminável linha de caminho-de-ferro. És só ar. Um balão de ar seco.
– A palavra de um homem é a palavra de um homem. Vale tudo. Vale a vida se for preciso, João.
– Vale o que vale, Andreia, mediante o que as circunstâncias impuserem.
– E a promessa também.
– Que raio de colecção para colocar no mercado: “As notícias mais tristes do mundo.”
Continuou. Traz impresso em cada cromo, no verso da gravura, um testemunho real explicando o como das cinco fases da dor por que passamos: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.
Andreia sofria de claustrofobia só comparável à dos mineiros soterrados por derrocada, com gentes de estetoscópio gigante, sondando o útero da terra grávido por homens desesperados de uma vida. Luz de espírito: precisa-se.
– Vês aqui o rectângulo 666 vazio? Colecção inigualável. Viciante. Total dependência. Sei o segredo. Toda a humanidade está enfeitiçada por ela. Um único motivo. Medo. Saber e estar preparados para quando qualquer das tristezas lhes bater à porta. Sede de adrenalina. Falta de serotonina.
– Sr. João, uma carteirinha com caderneta, por favor.
– Esgotado, D. Andreia. Só por encomenda. Quantas?
– Uma, homem. Acha que quero coleccionar uma coisa sem experimentar primeiro como é. Tem ao menos a caderneta?
– Tenho. A caderneta vem com o cromo número um grátis.
– E quando?
– Daqui a seis meses estarão cá.
– Daqui a seis meses? Você está louco. Quando a receber já não quero saber de coisas tristes. Sou tristeza que chegue. Olhou bem para mim?
– A Senhora é que sabe. São seis meses de espera. Estão quatro edições vendidas à cabeça. Na América já vão na quadragésima e só saiu há seis meses. É a colecção mais procurada do mundo. Pessoas chegam a vender casas para comprarem os cromos e acabá-la. Sabe qual o último cromo? A maior única alegria de todas. Vencer o medo.

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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