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Foto de Isabel Costa Pinto

Tinha a certeza que Deus a ouvira.
Enquanto fazia a sua caminhada matinal sentiu uma energia redobrada. Veio dos pés e subiu até à cabeça, irradiando, num formigueiro electrizante. Começou a ver tudo diferente. Aquele tudo tinha lá estado antes só que agora era um tudo novo. Um novo velho. Cores vivas se eram vivas. Cores suaves se eram suaves. Nada se esborratava. Detalhes mais acentuados. Formas contidas com mais beleza. Os cinzentos das nuvens tinham volume e luz. Os pássaros da buganvília cantavam mais alto ou segredavam canções de embalar aos que adormeciam. O corre-corre frenético da cidade conseguia humanar-se e conter uma expressão diferente: menos cosmopolita. As rugas sulcadas dos velhos sentados nos bancos da avenida transpiravam humanidade. Os mais carrancudos faziam-na sorrir. E o tempo? Ai o tempo parava e corria. Parava se te esperava e corria quando te tocava por meio dos teus olhos.
Não havia dúvidas. Tudo porque te vira. As dores deixaram de ser doridas. Existias. O tempo deixou de se arrastar. Vivias. A espera valeu o momento certo. Existias. Finalmente tu eras. E sentias.
Tinha a certeza que Deus a ouvira.

 
CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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