mae-solteira

Sonhava com uma boneca. Uma boneca igual àquela com que adormecia todos os dias. O pensamento projectava-se pelo cabelo todo emaranhado e impossível de pentear. Desgrenhado. Eriçado. O cabelo da boneca era o labirinto e as imagens com que adormecia a percorrê-lo comiam-na viva. Perdia-se no labirinto com que sonhava.
– Mãe por que te pareces tanto comigo? És como a irmã que nunca tive mas não és como a desejo nos meus sonhos. O pai é como um irmão. Porque somos todos da mesma idade?
– Porque tu nasceste. Eu tinha treze e o pai quinze.
– Mas eu queria uma mãe e um pai como os outros. Vocês não sabem o que eu preciso. O mundo é-vos absolutamente desconhecido. Agimos todos de forma parecida.
– Perdi-me no tempo. Perdi o rio das oportunidades. Perdi as ocasiões da vida. Podia ter abortado e ter-te perdido. Mas não quis. Não suportaria a perda. Sinto que te ganhei. Ganhámos-te. Agora és tudo em nós. Sei que por ficarmos privados de tantos momentos da existência ficámos coxos. Mas conseguimos ultrapassar algumas lacunas, esses vazios, esses desertos. A vida nunca mais foi a mesma. Como não a vivemos também não sabemos ensinar-te a história. És como um carro com peças feitas de pedaços de outros carros. Fomos rolando juntos. Precisamos de substituir mais vezes as peças. Andamos mais devagar, mas penso que conseguimos ir. Mais longe. Vais. Mais devagar. Aos poucos. Vais ver que vamos. Todos. Houve perdas. Mas não houve “a perda”. A perda de ti nunca a poderia suportar. Por isso és. Por isso somos. Por tentativa erro fomos continuando. Aqui estamos. Chegámos. A perda: é ganho.
– E a boneca, com o corpo cheio de riscos de marcadores de todas as cores feito pela mão da criança que eu era quando nasceste, é o mapa da minha existência. As manchas, as nódoas que ela encardia na pele, eram os caminhos cartografados pela mão de uma criança.
Uma criança mãe. Sem perda.

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