bebe olhos ICP

Foto de Isabel Costa Pinto

A cabeça ia pousada no ombro da mãe. Amparada no pescoço, por uma mão trémula que distribuía o amor no contacto corpo a corpo – mãe e filho – centímetro a centímetro, ajudada por uma outra mão ao fundo das costas, a prolongar o momento. Caminhava lentamente, o corredor era longo, branco, despido. Saboreava aquele colo ao décimo de segundo, embalando-o. Beijava-lhe os cabelos enquanto lhe murmurava palavras cúmplices de que o seu amor era maior do que o dos que príncipes e princesas salvos por uma fada madrinha a lançar estrelinhas e pós mágicos de perlimpimpim.

“Não te deixo, não te largo, ninguém te leva de mim.”

Ajeitou-lhe o corpo, elevando o braço ao fundo das costas. A cabeça bamboleava, mas a mão carinhosa na nuca estava lá a amparar-lhe o deslize. O xaile cobria-lhe o corpo que ia descaindo ao mesmo tempo que o silêncio ameaçava continuar sem tempo, sem tréguas, sem fim.

“Dormes ainda, meu amor? Diz-me se esse sonho é apenas sono, se ao acordar te vais lançar ao pescoço com os beijos de sempre. É que eu: não te deixo ir.”

Duas enfermeiras caminhavam na sua direcção, conversando. Em sentido contrário, às avessas de si, dois homens. Luísa reconheceu-as da pediatria e olhos que se cruzam dizem tudo quando tudo há a esconder e nada mais se quer saber. Virou-se repentinamente para mudar de direcção, mas deu de caras com os dois enfermeiros que a abraçaram.

“Deixe-nos levar a menina. Ela precisa de ser aprontada. Terá que ir connosco.

“Ninguém te leva meu amor. Vais comigo. Dorme sossegada que eu tiro-te o frio.”

Mas o gelo ficou ali. Lembra-se que o peito sangrou, que se mirrou, encarquilhou e nesse desespero adormeceu, hipnotizada por um sono que não era dela, por uma calma que não era dela, por um mundo que a queria receber, mas de braços vazios.

Cristina Brandão Lavender

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