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Abriu a janela e sorriu. Sentia-se particularmente feliz desde que descobriu que não precisava de se esforçar sempre para agradar aos outros, passou a ter mais cuidado consigo, a dar tempo aos silêncios, a respeitar o espaço, a encontrar o seu e, ainda mais importante, a não controlar tudo e todos.

Abriu a janela e sorriu para deixar que a vida se espreguiçasse de prazer. Reconstruir o futuro deixou de ser essencial, viver no passado uma autentica perda de tempo, mas respeitá-lo era essencial para a compreensão do futuro. Viver no presente seria a sua prioridade, afinal olhar mais é ver melhor e, qualquer acontecimento, por maior significado que arrastasse, era o que tinha de ser, nem mais nem menos. Senti-lo era isso mesmo, um presente ofertado para agarrar com força e determinação e assim lhe conseguir dar algum propósito.

Naquela manhã abriu a janela e sorriu, conseguiu diminuir a velocidade com que vivia e com isso encurtou também o grau de ansiedade patente nos seus dias, um dos factores que fez com que se sentisse leve, menos tensa, mais solta, apesar da selva de blocos de cimento que ameaçavam dar outros montes aos montes, na sua cidade. Saiu de casa em direcção ao rio e, lá no alto, de costas no monte que ainda não tinha ardido, deitada na relva sempre húmida, de braços abertos, com o olhar no céu, pensou

pela primeira vez estou feliz com as minhas limitações, idiossincrasias e imperfeições. Aceito-as. Aceito-me. Não sei se é por aí que o gato vai às filhoses, mas é muito bom estar apaixonado pelas pessoas certas

Abriu a janela e sorriu. Para o dia ser ainda mais perfeito, o famigerado S. Geraldo, onde se tinha sentado para ver muitos filmes na adolescência, alguns deles sem ter a idade que o regime impunha, de saltos altos emprestados, e com um baton nos lábios que não sabia aplicar, iria ser definitivamente inaugurado no dia em que fizesse cem anos, porque afinal os habitantes da cidade de Braga passaram a poder decidir sobre aquilo que é de todos, pondo os interesses culturais acima dos interesses comerciais e imobiliários.

Abriu a janela e sorriu. Afinal perfeito perfeito seria poder voltar a ver uma estreia, naquela sala de espectáculos.

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