De quando em vez

Há mais de três meses que não chovia. O calor tórrido entorpecia os movimentos que, durante o dia, se reduziam ao mínimo, com temperaturas acima dos quarenta graus a crestar o monte de Maria Mendes e a quinta da Ervamoira. Que Deus os livrasse de um incêndio por aqueles dias, iria tudo a eito tal a sequidão que assolava o país. No chão, as gretas desenhavam mapas de viagens que nunca fizera e, à sombra das árvores da praceta da aldeia, os cães estendiam-se dormentes, indolentes, apáticos, mesmo indiferentes às moscas que lhes atazanavam o descanso e a froixeza que os tomara.

Bibas, como lhe chamavam em Costôias, era conhecida na terra, não só pela simpatia e pelo sorriso fácil e prazenteiro que dirigia aos habitantes, mas também por ser uma mulher alta e bonita com quem era muito agradável conversar. Naquele dia, com um livro de poesia de Fernando Pessoa debaixo do braço, entrou no café quase deserto, sentou-se mesmo por baixo da ventoinha e pediu ao Zé da Taberna, um chá de menta gelado, Seu Zé, que as pataniscas de bacalhau fizeram-me cá uma sede! Ponha-lhe duas ou três pedrinhas de gelo, por favor, que este azul-turquesa com que o céu se pintou nos deixa saudades imensas do cinzento das nuvens carregadinhas de água. Lembra-se da Avó Quinas? Em alturas como esta dizia sempre, se a água te faltar, falta-te também o juízo, minha filha, que não há vinho que a substitua. Um fio de melancolia apareceu-lhe no rosto ao lembrar-se da avó, a pessoa que seria, para todo o sempre, uma referência e uma reverência na sua vida. A falta que lhe fazia, sim, ficam as memórias que essas ninguém as apaga, as suas gargalhadas, os momentos partilhados, o exemplo que deixou, as rugas a mapear uma idade que não se conta, mas aquilo a que me agarro, avó, para que não partas nunca, é que imagino que me afagas os cabelos quando adormecida e que não te esquecerá nunca o meu nome, Fabíola, avó, sempre a tua Fabíola.

Então não lembro, menina Bibas, então não lembro. Uma santa, a sua avó Quina, uma santa mulher que Deus a tenha. Ela é que nos podia ajudar e mandar uma chuvada daquelas boas para nos volver um pouco da nossa paz. Nem durmo, menina, não preguei olho a noite toda, com medo de que o fogo nos coma a todos. Ainda estava a acabar a última frase e um estrondo abalou toda a aldeia. Logo de seguida, grossas pingas de chuva começaram a cair, enquanto Bibas e o Seu Zé, abrindo as ripas de plástico coloridas penduradas na porta, viam a chuva a cair copiosamente.

Que cheirinho a terra molhada.

Acho que a sua Avó Quina nos ouviu. Acredita em Milagres, menina Bibas?

De quando em vez, seu Zé, de quando em vez.

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