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Ouvi um clique no semáforo vermelho. Ainda me fiz ao verde, acelerando, mas o pé ficou preso e não obedeceu – digo-vos eu. Fiquei encadeada por uma luz forte, branca – aqueceu. Parei a tempo. Ia ser um longo vermelho – aconteceu. O carro de trás apitou como se aqueles segundos fossem o mundo todo: dele. Mandei-o passar por cima. Que ganhasse umas asinhas e que me ultrapassasse pelo ar. Tinha acabado de ter uma visão, uma percepção divinatória, uma clarividência. Mas conto-te. Não gosto quando estou zangada com a vida. Fico espinhosa. Pico tudo e todos à minha volta. Quem merece e quem não merece: também. Nem lembra ao diabo, pagam inocentes e, culpados: não os há. Mas isso, só o descobri depois. Foi com um clique no semáforo vermelho, ao final do dia, quando percebi só havia um responsável: eu.
O meu abespinhamento havia atingido o zênite no dia anterior. Entrei assim em dois mil e catorze e o ano já vai quase a meio. Venha cá o diabo e escolha, mas bem lá no alto da minha irritação, com todos os pêlos do corpo bem eriçados, acabei por me picar, e inevitavelmente, a mim própria magoar. Foi a justiça do Senhor a rir-se lá do alto a mandar tudo de volta para casa. Quando o ruído da minha cabeça já era ensurdecedor; quando fechada no meu quarto chorava baba e ranho pelas injustiças da vida e do mundo; quando a cegueira instalada me deixou ainda mais cega; quando pensava que tinha motivos para isso e para muito mais; quando tudo começou a correr ainda pior, percebi que tinha entregue a alma ao diabo, que aquela razão contra o mundo O estava a tornar ainda pior. Levantei-me, peguei no carro e despachei-me fora de casa.
– Amor, tens noção de que as verdades que nos gritam nas televisões e nos jornais sufocam? Naquele semáforo vermelho, o tempo parou, sabes? Estava escrito nele que chegava de inacção, de melancolia e de irritação. Isso não era coisa minha. Por que me esqueci de ti, da vida, do jardim?, de falar com as plantas?, de lhes retirar os pedaços mortos?, – ai como são bafejadas pela sorte – corta-se-lhes pontas secas e revivem, assim sem mais nem menos. Mas nós, nós quando morremos, morremos inteiros, na escuridão, no gelo do subsolo para os bichinhos comerem com sofreguidão. E eu morri e tu esqueceste-me, enquanto o diabo esfrega o olho, tudo por causa deste sofrimento irritante, desta pressa de viver depressa, sempre perseguida por esta crise que protege quem não precisa, que põe mais crianças, violentadas, sodomizadas, surdas e mudas ao amor, num sistema da segurança social que as despacha para lares de freiras e padres onde as obrigam a fingir que são queridas. Sei-te cansado. Não querias mostrar enfado deste meu abespinhamento e começaste a evitar-me. E foi a vez da vida se vingar. Como posso despedir-me dela numa só página? Como aceitar que anjos, fadas e espíritos bons não me querem ajudar a mudar este mundo que me consome que está entregue ao diabo? Mas o clique do sinal vermelho mandou-me parar e uma mensagem clara foi-me enviada. Mas esta utopia de que me alimento não quero perdê-la – sou eu. Levanto-me deste sofá, junto-te a mim e vamos. Há mesmo muito que fazer. Arranquei quando o sinal vermelho passou para verde. A decisão estava tomada. Pegaria a vida pelos cornos mas sem eriçamento, abespinhamento ou inflamação. E o Diabo? Entrego-o a Deus.

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