“Demito-me.”
“Fico. Não aceito a demissão irrevogável …Não abandono o meu país.”
Mãe, que vai acontecer agora ao governo? 
(eu continuo a lavar a louça, trombuda, temendo maior investida de perguntas)
Pai que vai acontecer agora? 

Pode haver um governo presidencial!

Mesmo … eleições … credível … respeito …. consiga ganhar eleições…
… eleições quem garante que o PS ganha? E se ganhar quem garante que o … quer uma coligação com o …? Pode preferir uma coligação de esquerda PS+BE+PCP+CDU+…
“Vou arranjar as unhas. Mãos e pés.”
Nunca arranjas as unhas. Agora…
“Agora arraaannnjo. 
Posso? Ou só o governo é que pode ter atitudes fúteis, irresponsáveis e sem pés nem cabeça?”
Poça. Nunca mais falo em política…
“Boa. Iiiiisso meeeesmo.”

Saí de casa. Mesquinha, irresponsável, perturbada. Telefonei. Caty, preciso de gelinho prás mãos e pés… Tenho a certeza. OK. Sim, vou a pé. Estou aí antes do fecho.

De manhã espicacei Leonor. Rápido. O pequeno-almoço está na mesa. Despacha-te. Tenho que te levar à escola. Com Carlos, o silêncio do costume. Nem um vocábulo. Um morto vivo para mim. Saí do quarto. Espreitei à porta.
Estás acordado? Não adormeças.
Há muito não durmo. Há muito não vivo. Pensei nele. De olhos escondidos à espera que saísse do quarto para não me mirar. Para onde foste Carlos agora que preciso de ti?

Apressei passo. Começou o aperto na garganta, o coração descompassado, o estômago a doer, a sensação de não respirar. Adivinhava o que se iria seguir. Primeiro o tremer de frio, os dentes a baterem, castanholas, os vómitos, a diarreia. O braço esquerdo paralisará. A perna e a boca ficarão ao lado. Cairei sem sentidos. Com sorte uma ambulância; acordar no hospital. Medo. Terror a perseguir-me. Com o filho nos braços como só uma mãe sabe pegar, embalar, amar. Ele ardia. Sussurrava. Mamã mamã. Mamã mamã. Cada vez mais baixo. Cada vez mas baixo. Pus o ouvido coladinho aos seus lábios para o poder ouvir. Aqueles sussurros eram lembrança única: Mamã mamã. Não queria deixar de as ouvir. A maior parte do dia. Toda a noite. Dei-lhe ainda banho em água tépida. Tremera. De frio. De febre. De convulsões. Cheguei ao hospital a ouvi-lo dentro da minha cabeça. Mamã, mamã. O hospital de Tondela já não funcionava. O filho da puta do governo mata-me o filho e eu vou fazer as unhas das mãos e dos pés.
Mamã. Mamã.
Olhei para trás.
Ali. De pé. Braços estendidos para mim. Cabelo ondulado. Rindo.
Mamã. Mamã.
Corri para ele. Abracei-o com toda a força. Já não estava quente, nem doente, nem sem força.

Cristina Brandão Lavender
All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove