praia do cristo rei

Praia do Cristo Rei

O pequeno-almoço é tomado entre goles de café, fatias de pão torrado com manteiga e geleia de laranja, sumo e salada de fruta, mais as frases ansiosas trocadas pelo deslizar do dedo indicador num pedaço de vidro, elos com o outro lado do mundo, usando o “Messenger”. Não sou a única. Um olhar à volta da sala mostra que nem sequer há excepções para confirmar a regra, tirando, claro, aqueles que cuidam de nós para que tudo corra bem, nessa fase do dia. Sinto-me indolente e sem vontade de sair à rua. Tinha pensado na praia, mas estou sem forças para enfrentar o calor que faz lá fora. Sei que me faria bem sentir o mar, lavar a alma mais ferida, procurar conchas e pedrinhas bonitas, ouvir o riso e as brincadeiras simples das crianças e adolescentes que, aqui e ali, giram à volta dos “malais”, que não são muitos, a maior parte das vezes sou a única. Algumas crianças mais novinhas costumam tocar-me a pele como se esperassem que o toque fosse diferente só porque a cor também o é. Fazem-no bem devagarinho e com muito cuidado, como se tivessem medo que se partisse ou se desfizesse. Costumo sorrir-lhes, sei que o sorriso quando sincero é bonito, e acabamos todos a sorrir juntos. Aponto pr’o meu peito e digo: cristina e tu – aponto para cada uma delas. Vem uma rodada de nomes com o máximo de duas silabas para cada um. Repito devagar, apontando uma a uma, na esperança que um aceno da cabeça o confirme. Acabo sempre por não acertar em todos, elas sorriem com a baralhação, mas fico triste por já não absorver tanta informação de uma só vez. Para que a comunicação e o momento não terminem assim, encho uma mão cheia de água salgada, atiro ao ar e digo “MAR”. Ponho naquele gesto toda a esperança de prolongar a mensagem. Repetem-me felizes, com a mesma entoação e quase com a mesma pronúncia, e mergulhamos juntos. Não troco aquela porção de tempo por nada, porque ali, naquele espaço e naquele tempo, deixam-me entrar num mundo que sente de maneira diferente e permitem-me arranjar forças para continuar o que preciso de fazer.
Levanto-me da mesa decidida. Momentos destes não se perdem, e nem sequer são pequenos: são o preparo de etapas maiores. Por aqui é assim o caminho que me serve cada dia.

Cristina Brandão Lavender, para a Velha-Escrita, em Dili, 10 de Outubro de 2015

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