À Minha alma Africana,

Estas letras desenham-se e para ti as escrevo, S. Tomé e Príncipe, não só ao povo num todo, mas principalmente às memórias que partilhamos.

Tu, terra desta alma Africana, ali levantada bem no meio do Atlântico, és aquela que me arranca sorrisos e lágrimas das entranhas, dum lugar que não sei ao certo donde vêm, talvez de um núcleo celular, talvez escorram por uma veia que se liga ao coração, talvez se propaguem por um centro nervoso do cérebro que é responsável pelo pensamento e pela linguagem, talvez se aloje nos dedos que pintam uma tela gigante onde desenho o dia a dia de homens e mulheres, talvez se condensem nas páginas onde escrevo histórias que herdámos dos nossos antepassados, talvez pelo combate que travo para que não reste nenhum vestígio que marque que a cor da pele interessa, que esta é apenas mais uma cor que respira, que se exprime numa língua que todos falamos, para que nos compreendamos, para que possamos trocar ideias, sentir e traçar os caminhos numa acção individual e colectiva, com um passado estampado no ADN, com as revoltas e as culpas do passado a fazerem o nosso presente.

Somos (plural) povo de África, o “eles” são um “nós”, “um nós humano” que está ainda à espera de um pedido de perdão, público, geral e individual, dirigido a cada um dos países, por parte das nações esclavagistas e dirigido aos povos explorados, pelas sevícias por eles infligidas, pelas grilhetas colocadas, pelas humilhações físicas, psicológicas e culturais impostas, torturas sofridas ao longo de gerações e gerações, pelo assassínio de milhões de irmãos africanos, por um completo desrespeito individual e colectivo ao longo de séculos e de que ainda podemos ver resquícios no tempo presente.

Este ser no feminino, dividido por dois continentes, transforma-se quando te toca, ilha verde, quando te respira, quando te dá e te pede uma carícia, quando te implora ajuda para isto poder compreender.

Pertenço-te, Ilha Africana, aqui e em toda a parte, porque nasço de ti.

“já amei um só país

agora sou cidadã do mundo.

já senti a dor de perder uma terra,

mas ganhei a alegria de ser do universo

e quando não vou a África, a África vem até mim.”

Se a minha pele em tua pele se deita, mesmo se minha pele em tua pele respira, a tua, escura, da cor do café e do chocolate, a minha branca, europeia, mais para o leite e açúcar, lá no norte, e do frio, não me entorpece nem enreda estes sentidos, nem me rouba da memória esta terra Africana. Sou ela por ser dela, não a nego, não a dou, só a empresto. Nasci em latitude 0o. Ali, minha mãe me pariu e, se dali parti, ali terei que chegar. Um círculo mais-que-perfeito se desenha, do zero se sai e ao zero se chega. Ande por onde ande, chegue aonde chegue, desde que estique o elástico deste raio de circunferência, nunca me perderei de ti, S.Tomé e Príncipe.

Pertenço-te ilha verde, aqui e em toda a parte, e, porque nasci de ti, levo-te por onde passe,  sou do universo, sou de onde estou e de onde sou precisa.

Sempre tua

eu

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER

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