Deus deixou-me uma carta

Cara Amiga,

Escolhi-te por sorteio, então não te envaideças, serás, por isso, porta-voz desta mensagem aos humanos.

Para boa compreensão de todos, os caracteres desta mensagem podem ser lidos em qualquer idioma do planeta. Transformar-se-ão, aos vossos olhos, de acordo com a linguagem que dominarem. Para cegos transfigurar-se-á automaticamente em mensagem de voz, ou em braille; os que ainda não consigam ler verão numa banda desenhada com som; e ainda em imagens 3D para os surdos ou para quem a preferir. Qualquer pessoa que espie a vida de outro ficará imediatamente incapaz de tornar a entrar hostilmente no campo alheio. Caso o faça, será privado da parte fisiológica usada naquela intrusão. Só a recuperará quando estiver livre de tal intenção.

Novidades? Não as há. Isto constitui uma péssima notícia e explica a urgência no envio desta carta. O ontem da humanização, como o hoje, medido em milénios, séculos, meses, dias ou horas, continua num estádio atrasado, muitos graus abaixo de zero na escala “amor”.

Tráfico de humanos e animais, escravização e influência danosa, hoje mais rapidamente com uso da tecnologia binária, clandestinamente ou às claras, umas vezes com uso da informação com fundamento de verdade, a maioria das vezes falsa, continua. Outrora como hoje é fechado um círculo vicioso, completa-se o desprezo pelo estatuto humano e destrói-se o planeta que vos acolhe nas entranhas. Não sois lá grande coisa, portanto, e, onde impera o caos, é fechado um tempo que pode escancarar portas a novos prepotentes. Alerto para o perigoso aparecimento de novo chefe visionário todo-supremo, sob a influência e fluência de uma oratória fácil e enganosa. Ele quererá confiscar o que de mais valoroso possuís, a capacidade de pensar e questionar. Tudo isto em nome do povo, da pátria e das bandeiras, usurpando-vos a capacidade de ser, pensar e agir à vida. O lema da democracia “liberdade, igualdade e fraternidade” ficará, mais uma vez, afogado na ganância desmesurada de uma sociedade de swaps, cartões de crédito, empresas nacionais ou multinacionais sob regimes políticos de A a Z, onde a tecnologia binária os propaga e empanturra, ajudados por satélites em órbita do planeta, de olhos atentos, penetrando cirurgicamente em cada bite da vossa acção, em clara invasão do direito à privacidade.

Porque a história se perpetua em estórias repetitivas de extermínio de populações inteiras, deixo-te a capacidade de escolher e de sentir que ainda te amo, qualquer que seja a tua raça, religião, ideologia, condição ou sexo.

Sê totalmente feliz e age, porque nunca farei por ti aquilo que, apenas a ti, é pedido, e de ti é esperado.

Deus

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