DIZEM QUE SOU TRISTE
(verso de Henrique Levy, Noivos do Mar, Editora Labirinto)

dizem que sou triste
dizem

fechem os olhos
fechem-nos, por favor
agora
imaginem a dor
sintam esse calor, húmido, escuro
brota de um buraco no interior da terra
vejam nele o início de tudo
o suporte
o esteio
o alicerce
o ponto de origem
o primitivo
é nele que colocam a semente
e só depois
bem mais tarde
a seu tempo
do lado de fora
uma flor exuberante

dizem que sou triste
dizem

a tristeza
coluna vertebral humana
estado inicial para qualquer lucidez
é ela
que nos tira desta pequenez
mesmo sem nunca a podermos vencer
guia dos passos para Ítaca
apuro dos ouvidos aos sussurros dos deuses
respostas escondidas a orações perdidas
procuras essas que te empurram
em marchas de inquietude

de seguida
vibras
projetas
encontras
finalmente
ou não
uma alegria

dizem que sou triste

dizem

sempre
um poço, por baixo
o céu, por cima
a terra aqui, origem da vida
o mar além, alimento a ela
do útero ao berço
e deste ao túmulo
sai uma lágrima
entra um sorriso
para uma nova lágrima brotar

dizem que sou triste
dizem

e quem procura
sempre encontra
e quem encontra
sorri
porque há um poço, por baixo
o céu, em cima
a cura, aí
solução da loucura

dizem que sou triste
dizem

nessa marcha para Ítaca de onde partiste
terás as ossadas sepultadas
encontras o Hades
completas o teu ciclo
da tristeza à alegria
do ventre ao mundo
da vida à morte
sentido encontrado
ou talvez não

dizem que sou triste
dizem

abram os olhos
abram, por favor

boa noite

Cristina Brandão Lavender, no SETRA, 30 de Junho de 2017

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