E agora?

Aqui moram fantasmas

 A cena começa com um vídeo projectado no fundo do palco, com uma paisagem dos Alpes, nevoeiro, a formar-se.

Todo o espectáculo tem 4 vozes off.

Narrador, Ana, Pai, Criado preto.

 Voz off – Ana continua descontinuada, descompensada, desordenada, deitada em cima da cama ainda por fazer, com um livro na mão.

Umas vezes com lápis. Agora num papel branco de um livro branco que sempre a acompanha na mesinha de cabeceira aponta o sonho que acabou de ter.

Ana – Não adormeci e aquele pesadelo voltou. Volta, vezes sem conta. Pensei que estava livre dele quando, sozinha e com dez quilos às costas, nos Pirenéus Franceses, ia a caminho de Roncesvalles, a primeira e difícil etapa dos quase oitocentos quilómetros do caminho francês de santiago.

Voz off – Sozinha, entre as brumas matinais dos pirinéus, a chorar, escolheu um dos pedregulhos na berma do carreiro, pegou nele e atirou-o pela encosta abaixo, com todo o impulso, como se o peso e a força com que o arremessou fossem suficientes para carregarem e levarem o desespero e a angústia que carregava. Tinha-lhe perdoado. Perdoado, mas não esquecido.

Ana – Fecho os olhos. Preciso de dormir.

A cena passa-se agora na enorme sala de jantar, uma grande mesa de castanho, maciça, rodeada de doze cadeiras com o grande balcão de apoio às refeições, uma cristaleira e um escaparate de pratas a dar-lhe um ar mais solene e imponente. Os castiçais, outrora acesos pelos serviçais negros, imprimem uma atmosfera lúgubre. Ele um homem corpulento, sempre vestido a rigor, com ar austero, olhos castanhos-escuros fundos que disfarçavam a insegurança e a infelicidade em que vivia.

Ana dialoga com o Pai que já morreu há quinze anos de ataque cardíaco. Ana tinha então vinte e oito. Uma rapariga bonita. Ele aparece-lhe vestido exactamente da mesma maneira como estava no dia em que fora obrigada a despedir-se dele, no caixão. O pai dirige-se a ela como fazia quando era vivo. Ela tenta afastar-se do local apressadamente, assim que o vê.

Pai – Anda cá, Ana. JÁ. Sou o teu pai. Deves-me obediência. Que foste tu fazer? Tens bem consciência do que fizeste?

Ana – Sempre a controlar, heim? Sem me explicares o que querias e por que razão o querias.

Querias e pronto. Ponto. Querias tudo. Tudo à tua medida. Os trabalhos de casa já feitos e certos. As minhas escolhas eram as tuas escolhas. Não havia lugar para a imperfeição. Não havia lugar para o erro.

Pai – Tens obrigações para com a vida. Para com o futuro. Para comigo e para com a so-ci-e-da-de. Pensas que é só fazer os que te dá na real gana?

Ana – Porra, pai. O erro é lindo. Só agora descobri que o erro é uma obra de arte. Declaro solenemente que o erro é essencial à vida. O teu problema é esse. Foi esse. Nunca fizeste nada do que realmente te apetece, também tu fizeste o que queriam de ti. És escravo da vida. Não erras. Olha que Deus castiga. Olha, Deus castiga. O trovão é Deus zangado contigo que te portaste mal. Caíste? Bem feito. Foi castigo. Não mintas. Vai à porta. Diz ao estupor do Sr. João que não estou em casa. Que passe mais tarde. Agora não me apetece atendê-lo.

Todos os dias tinha que te apresentar os deveres da escola. Sem erros. Sim. Sem erros. Eu que nunca percebi nada de matemática.

Pai – Sim. Errei e estou agora aqui. Parece que a pagar por isso.

Ana – Sabias que pedia sempre ao criado que os fizesse? Ele desenhava os números, bem desenhados, porque eu não conseguia perceber quando ele os fazia à pressa. Copiava tudo para o caderno. Nem assim te contentavas. Quem te ajudou, perguntavas incrédulo. Depois, a medo, fazia sempre uma conta errada, para que não desconfiasses. Compreendes agora?

Pai – Por quê? Porque não os fazias sozinha? Porque não me pedias ajuda?

Ana – Não gostavas. Nem dos deveres, nem de mim. Mas o empregado desejou-me. Ao fim de algum tempo exigiu que lhe pagasse.

Ana encaminha-se para o quarto do pai. O criado entra no quarto e dirige-se a Ana. O pai não o consegue ver. Ana é agora uma criança em idade escolar.

 

Criado – Chegou a hora, Ninha. Qual a paga por todas as vezes em que te ajudei?

Ana – Acedi. Pensei que lhe bastaria um gelado ou outra guloseima qualquer. Ia a sair para ir buscar um chupa-chupa, mas não deixou. Com o caderno numa mão prendeu-me com o outro braço, o ombro, com firmeza, cravando os dedos fortes a toda a volta do pulso. Empurrou-me com força para cima da cama. Ali mesmo me penetrou. Na tua cama. Depois de ter arrumado o teu quarto desfez a cama com brutalidade. Eu puxada para trás, deitada na berma e ele, em pé. Tanto gritei que, por fim, a cozinheira veio lá dos fundos, e o correu à paulada. Tarde demais. Encheu-o de nomes. Que o matarias se o visses. Ele, porém, matar-nos-ia se falasse.

Ana dirige-se para a sala novamente, enquanto diz:

Ana – Ninguém mais soube. Até a comichão com que fiquei na vulva ficou, em silêncio. Não passou. Nem com muita água e sabão. A mãe deu-me um creme que a aliviou, mas não aliviou a culpa. O nojo do corpo. O asco do mundo por aquilo em que me tornei sem ninguém o saber. Sozinha com a náusea nas entranhas. Só eu e a culpa deixada. Algo que tudo corrói, semeando desconforto, lentamente, como um corpo em decomposição.

Era apenas uma criança, Pai.

E agora?

Sabes que roía a unhas dos pés? Contorcia-me toda nessa aventura de roer as unhas dos pés. Tal como a culpa, fizemos uma digestão incompleta que não chegou a defecar. Apodreceu no interior. Afastou a concepção do real. Agora sei que esta culpazinha é invenção de alguém. Tua e de todos como tu. Desejo de domínio.

 Pai– Só te fiz o que os meus pais me fizeram. Os filhos não vêm com livro de instruções.

Ana – Sabes Pai, eu não quero pensar. Não paro de o fazer. Não durmo. Penso. Não tenho descanso. Penso. Entendes? O processo da culpa nasce tão fundo, das normas e conflitos não resolvidos. É mais um chorrilho de acusações a juntar a quem se sente culpado. De quem está mesmo perdido de si. Compreendes? No início, a culpa foi inimiga da criatividade, da expressão e da ligação com o mundo. Depois foi a minha melhor amiga. Não me matou. Enlouqueceu-me. Sou mais uma tarada neste mundo de pseudo-artistas. Percebes? E agora?

Pai – Olha o teu futuro. Tens que preparar o teu futuro. E agora? Conta-me coisas novas. Sim, diz lá como foi ontem?

Ana – Foi uma merda. O que faço, para ti, é sempre uma merda, portanto, o que fiz ontem, foi mais uma grande merda. Nunca houve respeito entre nós. Houve medo. Não tive a liberdade de ser eu. Tive que ser TU. Sempre. Não consigo respirar. E tu? Estás morto. Desaparece. Todos dizem que te matei de desgosto. Desaparece. Ouviste?

Pai – Ana, vem cá imediatamente.

Ana – E o agora? O que é o agora? Não há amanhã sem um agora. Não te contentas. Eu não quero as mesmas coisas que tu queres. Eu não sou aquela que tu querias que fosse. Eu sou com certeza o melhor que soube fazer. Mas mesmo assim não te serve. Nunca te serviu.

 O filho entra a correr e abraça a mãe.

Ana – Sabias que tens um neto negro?

É lindo este teu neto preto. É a minha a vida este teu neto.

Pai – Não é meu neto. Não o aceito.

Ana – Ai é teu neto, é. representa tudo aquilo de que gosto. Sim. Agora falo só do que compreendo. Compreendes?

Pai – Porquê, Ana. Porquê?

Ana – Queres uma justificação. Sempre um pedido de explicação.

Amo o meu filho. Amo-o por tudo. Por ser meu filho. Por não ser como tu. É tudo o que desprezaste. Filho duma raça que desdenhaste, anulaste e escravizaste. Filho de uma violação cometida pelo ódio. Vingança contra vós. Fui a mão da vingança desse povo que exploraste. Entendes?

Pai – Sou o teu pai. Perdoa-me. Vives ainda em mim, nos dias, nas rotinas. Estás lá tu, com estas correntes. Elos bem fundidos que atam e matam a alma, num grito empurraram tudo para baixo, onde não há sol, lugar lamacento, sem pingo de resistência que poderia adocicar um sorriso. Desprezo-me.

Achas que sabia o que te fazia?

Pois não. Mas hoje quero ter a certeza que não fui eu que te matei. Fiquei também com a culpa de morreres mesmo em frente a mim. Fulminante. A culpa do teu coração ter parado à minha frente, também mata. Morreste ali. Ficou mais silêncio. Sem os teus gritos. Sem a colisão das nossas palavras. Sem a agressão física com que me presenteavas. Morreste? Pois gritasses menos comigo. Tivesses menos raiva de mim. De ti. Essa cólera que te fazia inchar as veias do pescoço. Nunca to disse, mas pareciam cobras gordas a subir em direcção às orelhas.

Pai – Cala-te. Não sabes o que dizes. Tu estás louca.

Ana – Puta que pariu a culpa. Deixaste-ma, em testamento, essa puta. Estrume das entranhas do mundo. Lava incandescente, borbulhando até explodir. Apenas morreste.

Ana dá gargalhadas, muito alto a provar a sua loucura e responde ao mesmo tempo que gargalha.

E tu? Estás morto, merda para ti, e já to disse. A culpa afaga enquanto afoga o ser. Andei anos e anos a viver sem saber viver. A amar sem saber amar. A passar o tempo, sem o ver passar. A olhar, sem saber ver. Um vegetal. A tua filha é uma couve lombarda. Que tal? Gostas de couve lombarda?

Pai – Caaala-te. Couve lombarda. A minha filha? Uma couve lombarda?

Ana – Pronto, Pronto. Sou então uma beringela. Sempre é um nome mais bonito. Mais sonante. Mais brasonado. Está bem assim? Agora podem cortar-me às fatias finas e grelhar-me.

Ana já não se sentia obrigada a chorar junto ao caixão. As lágrimas secaram-se-lhe no coração. Não mais lágrimas de raiva, lágrimas do desespero, filhas da culpa. Seria livre.

 Pegou na mão do filho que entra na sala e sai. Pela primeira vez sentia o mundo. Vivia. Iria aprender a fazer o que ainda não sabia. Sentam-se os dois na beira do palco, virados para o público, Ana com o tablet na mão. O filho deitado no seu colo a ler um livro

Ana – Foi um acordar de boca seca, abri o ficheiro na memória virtual a que acedo em qualquer lugar no planeta e deixei as palavras soltarem-se mais livres do que nunca.

E agora sei que afinal te amava, Pai. Amo-te. Amar-te-ei sempre. Perdoo-te porque aprendemos. Aprendemos apenas se e quando nos dispomos a fazê-lo. Sempre.

A net está lenta. Não gosto deste tablet. Não acompanha a velocidade da minha ânsia. Atrasa-me irritantemente o digitar. As letras, não as sinto. Demoro a ver as palavras que quero. Devora-me, na espera lenta, esta procura.

Peguei no lápis e no caderno branco e escrevi tudo isto até à dor da mão. Logo passo para o computador, mas primeiro gravo. Ditado, sem reconhecer a voz, para ser mais fácil. E vou passando, teclando e corrigindo.

Vou dar ao Lucas para ler. Amo-o.

E agora?

Agora, estou de bem com o momento. Tudo passa mesmo, mas não permitirei que aconteça a mais ninguém.

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