rosa preto e branco isabel da costa pinto

Foto de Isabel Costa Pinto

Sentou-se no lajedo de granito milenar, meia hora antes da abertura dos bancos. O centro da cidade de Braga estava ainda deserto. Podíamo-nos cruzar com os primeiros trabalhadores citadinos, motoristas, cobradores, padeiros e taxistas. Alguns clientes costumeiros adentravam, no café “A Brasileira”, para o café da manhã.

Manel da Bica ajeitou a trouxa para todo o dia, encostou-se à parede e colocou-se a jeito. O coto da perna perdida na guerra do ultramar, bem à vista. Aquilo que mais queria esquecer, bem exposto à caridade alheia, num velho cobertor, tal bilhete de identidade esfraldado à compaixão. O casaco e as calças ficavam-lhe grandes e, de tão coçados, rematavam bem o trabalho de mostrar a dor e o mal a estranhos – um quadro perfeito para causar comiseração, dó, pesar, piedade. Não precisava de fingir tristeza. Os seus olhos encaravam cada um dos transeuntes mareados de angústia. Nada era fingido. A miséria esparralhada na rua do Souto, na cidade natal dos pais. A face era um todo sulcado de veios fundos, rugas de dor e de tempo, a par de uma barba já branca, tão desgrenhada como o cabelo. Há mais de quarenta anos que naquele pedaço de granito, bem no coração da cidade, tirava o sustento de que precisava. Pagara o curso da filha mais nova, assim como o passaporte dos seus dois únicos filhos para o estrangeiro, em fuga ao desemprego deste país. Nada, nem ninguém, lhe traria a vida de volta. Ficara velho mais cedo, doente mais cedo, morto bem cedo, mas, ao acabar daquele dia tão cinzento como o que vestia, algo de diferente aconteceu. Uma menina passou e insistiu em colocar-lhe uma flor vermelha, na mão. Ainda antes de a pousar no meio da boina, já com algumas moedas, Manel da Bica sorriu-lhe e segurando a flor entre as mãos como em prece de agradecimento disse-lhe baixinho, para que não lhe percebesse a voz embargada:

“Aqui, nas minhas mãos, sentado, a ser menos do que a pedra humilhada e calada, fica esta pincelada de cor vermelha.”

Levou a flor até ao nariz e rematou: “foste pintada para isto.”

 

texto escrito no encontro do grupo “A Velha Escrita”

Cristina Brandão Lavender, no Café “A Brasileira”, 2 de Julho de 2014

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