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“Sou contra tudo o que atente contra a dignidade humana. Pensei que poderia viver sem correr riscos, mas estava enganada. A humilhação a que o ser humano é submetido, neste país, faz com que as praxes académicas sejam consideradas brincadeiras de miúdos a beber sumo de laranja, numa tarde de verão.

Senão vejamos. Vivo em Braga, cidade que amo e considero como minha segunda terra natal. No entanto, viver em Portugal, é correr riscos elevadíssimos. Por isso todos os dias digo à minha filha:

– amo-te muito. Tem cuidado que anda por aí gentinha de muito má qualidade.

Ligo a TV sem saber qual o canal em que vai estar e vejo um senhor que foi já primeiro-ministro de Portugal, fugiu para Paris, mas entretanto a poeira assentou, o povo pelos vistos perdoou e a justiça limpou. Consta que tirou o curso ao fim de semana, mentiu e ensacou dinheiro que era do povo, ganha agora mais uns milhares numa estação paga por nós, a dar opiniões sobre o estado do país. Eu não corro riscos: viva a corrupção!

– filha, muda de canal, isto não é programa para crianças.

Ao mudar fico mais descansada. É o Presidente da República que fala, por isso não podia estar em melhor companhia.

Enquanto ouvia tudo, a boca não se fechou. Tenho que deixar que me praxem forte e feio, continuar a apoiar a corrupção, ficar bem calada, para bem da nação.

– filha desliga a televisão, se te sentires humilhada podes sempre dizer que não.

Eu não corro riscos por isso fico contente quando ligo para outro canal e ouço dizer que a economia está a recuperar e os mercados a subir. Mas logo a seguir provam-me o contrário: vão continuar os cortes “provisório-definitivos” das pensões, àqueles que tinham contractos com o estado que, por sua vez, já gastou todo o dinheiro deles sem dizer nem onde, nem o como, nem o porquê. Mas tudo se descobre e o dinheiro dos seus descontos foi afinal para o bolso e/ou obras multimilionárias privadas que nem lembrariam ao diabo.

– filha, a vida é difícil, não vamos desanimar que isto vai mudar.

Mais um canal escolhido. Eis que entra todo ufano alguém que havia desaparecido. No meio de flashs ao importante cidadão sai um pontapé ao fotógrafo do jornal, desferido por um desesperado a quem a situação deste país também deixou irritado.

– aqui para nós filha, eu até corria o risco e afirmava: aquele pontapé não era para seguir naquela direcção.

Não deixes que te humilhem ou atentem contra a dignidade. Podes sempre dizer: NÃO.

Por favor, muda já de canal.

Percebi que viver aqui é um risco sublimado por isso, minha filha, não correr riscos, não é opção aqui para Portugal.”

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