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Pés cansados repousaram na areia, virados para norte, seguindo a espuma do mar que lhe beijava as feridas pútridas dos ferimentos das balas que ainda se recusavam a cicatrizar. Aconchegada ao colo, embrulhada em roupas sujas, a criança ainda não parara de chorar desde que a retirara dos escombros por debaixo do corpo da mãe. Esta morrera no bombardeamento mas, num último gesto de amor, colocara-se por cima do corpo do bebé, salvando-lhe a vida. Mihaiki estava preocupada com a menina. Teria de encontrar, urgentemente, algo para lhe dar de beber e comer e sair dali para as cavernas, nas montanhas. Sentada, deixou os olhos caírem nas estrias desenhadas na areia da praia cuja água corria em direção ao mar, enterrando-lhe os tornozelos, fundindo-se com as lágrimas que lhe escorriam pela cara. Lembrou-se que fora no mar que se dera o princípio da vida e, por ironia, fora ali também o fim de tantas outras que amava. Com uma mão em concha deitou água salgada para limpar a ferida que estava pior. Repetiu o gesto várias vezes, naquela que já nem doía, e, a seguir, em todas as outras. Mihaiki sabia que aquele seria o único desinfetante a que teria acesso. Ainda não conseguira chegar a nenhuma da cavernas para onde o pai lhe dissera que fugisse, antes do último ataque aéreo. Kazuo iria passar ali para a levar, dali a meia hora. Naquele dia quente de Agosto, o céu plúmbeo e o vento forte adivinhavam a mágoa incrustada nas carnes roubadas por uma guerra que trouxera à Ilha de Okinawa o desespero e a desolação, rostos de morte em tantos inocentes. Não podia fica ficar ali muito mais tempo.

Caminhar na mesma areia de há setenta anos mostrou a Anna Mihaiki que os homens estendem, aos seus pés, um destino cruel sempre que se esquecem que a morte deve dormir serena num leito de amor.

Cristina Brandão Lavender, 6 de Agosto de 2015, a Velha-Escrita em Okinawa.

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