Foto de Isabel Costa Pinto Mundo imundo

Foto de Isabel Costa Pinto

Em directo ou em diferido, pelas redes sociais ou pela televisão, pudemos assistir, quantas vezes quiséssemos, à morte fria, nua e crua de um homem, por outro. De arma de guerra em riste, volta novamente, correndo, pois a pressa de viver lhe corre com a morte nas veias, vestida de ódio a rigor. Cada passada expira as lavagens a um cérebro vazio de amor, na procura de se encontrar, de se identificar, mimetizar, com religiões, filosofias, opiniões, varrendo convulsões, nas areias do deserto da sua existência. Estes humanos, montados no sopro da brisa do encanto de cantigas de embalar o terror, falharam o olhar sadio de uma criança, vieram ao mundo-mundo, ao mundo iluminado pelas gentes que circulam na origem do ser feliz para torná-lo, por sua crença, num mundo-assim-imundo. Cada passada decidida troava bem forte e trazia, com o trepasse de mais algumas balas no corpo, a garantia que, por ele condenado, não sobreviveria ali, naquele momento, nesta vida, neste mundo. Neste homem caído vimos doze vidas ceifadas e, na mais bela das respostas, centenas de milhões de vontades saíram à rua de um mundo em que ainda acreditamos com luz, de vontade em punho, a gritar no silêncio da noite: “Eu sou Charlie”.

Eu sou tu e este outro mundo que não se submete e em que não deixaremos entrar o: sem amor.

Cristina Brandão Lavender

All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove