MALA DE VIAGEM

Peguei na mala de viagem e fiz-me à vida. Embarquei rio e mar afora sem pressas. Sem impaciências por saber não chegar a lado nenhum, apenas porque tinha de ir de um lugar para outro, mais ou menos distante, nesta jornada. Demorei-me no olhar e o teu fugiu-me. Tornei a insistir: fugiste-me de novo. Câmaras fotográficas apontadas às faces interrogadas indagavam sentimentos, expressões e segredos. Sem pejo nem pudor o comandante berrou.
Quando os prédios são feitos aos quatro ventos, à pressa, quem os fez não se lembrou que eles não ficam sempre em pé. Nem o mágico com a sua varinha de condão lhes valerá em caso de tremor de terra moderado assolando origens, destinos, cansaços.
Tudo se ouve, mesmo o zumbido das moscas, numa atenção presa a ferros, ancorada às estórias da mala em viagem, em busca de um poiso para a felicidade do existir.
O barco continua sem rumo levado pelas velas brancas de uma inocência roubada por casas sem o poder moral de fazer, possuir ou exigir alguma coisa, viajantes sem direito a existência. Uma mala de viagem, em viagem, que leva uma casa que é tudo; uma casa que é feita de sonhos em meus olhos, com persianas de pálpebras que protegem um olhar entristecido, uma casa sem direitos de ninho, de gentes.
E carregando malas como a minha, na viagem com amores e amantes, idealizo como construir os alicerces da minha existência.

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER

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