flor ICP

Foto de Isabel da Costa Pinto

Peguei na mala de viagem e fiz-me à vida. Embarquei rio e depois mar afora, sem pressas. Sem impaciências por saber que não chegar a lado nenhum era a minha sina, e porque tinha de ir de um lugar para outro, mais ou menos distante. Demorei-me no olhar e o teu fugiu-me. Tornei a insistir: fugiste-me de novo. Câmaras fotográficas apontadas às faces interrogadas indagavam sentimentos, expressões e segredos. Sem pejo nem pudor o comandante berrou:
“Quando os prédios são feitos aos quatro ventos, à pressa, quem os fez não se lembrou que eles não ficam sempre em pé. Nem o mágico com a sua varinha de condão lhes valerá em caso de tremor de terra moderado, ou outras terríveis origens, destinos, desatinos ou cansaços.”
Tudo se ouve mesmo o zumbido das moscas, numa atenção presa a ferros, ancorada às estórias da mala em viagem, em busca de um poiso para a felicidade do existir.
“O barco continua sem rumo levado pelas velas brancas de uma inocência roubada, por casas sem o poder moral de fazer, possuir ou exigir coisa alguma, viajantes sem direito à existência, com uma mala de viagem a desfazer-se pelo caminho. Mala que leva dentro uma casa que é tudo, uma casa que é feita de sonhos nos olhos, com persianas de pálpebras que protegem um olhar entristecido, uma casa sem direitos de ninho, de gentes, de lugares com lume no centro da vida.”
E, carregando malas como a minha e como a tua, na qual não podemos prescindir de amores e de amantes, fantasio como construir os alicerces da nossa existência.

Cristina Brandão Lavdender

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