Lisboa, 2 de Abril de 2017

Quantos de nós não abririam os espantos a jorros e não soltariam um sonoro “UAUUUU” ao ver este enorme monstro, ontem, atracado no porto da capital Lisboeta, que navega nos oceanos que todos conhecemos e que, por princípio de justiça, nos deveriam pertencer por direito natural. Pois é verdade, andamos nós e os deuses sempre tão distraídos, até o Deus único, a quem tudo seria possível, e que ordenou a construção de uma nau gigante para salvar a sua criação, agora se compraz por nos ver egoístas e desprovidos de iniciativas solidárias, já que o mundo é grande demais para ser enfrentado por uma alma só. Dizia então que a admiração teve tanto de grande como de genuína, como grande e perfeito é o dito cujo que fotografei, de carro e em rodagem. Mas todos sabemos como a língua humana é sempre afiada pelo que bradei sem reserva, e esta barcaça gigante, que por ironia penso ter vindo lá dos lados das ilhas Gregas até Lisboa, não poderia ter servido ao trabalho humanitário e salvar milhares e milhares de refugiados que atravessaram o mediterrâneo em condições sub-humanas, numa tentativa desesperada de escapar da morte, da destruição e da guerra, para encontrar outras espécies de morte, a do encontro titânico com outras espécies pseudo-humanistas que os tratam pior do que ao cão, ao gato e ao periquito. A avaliar pelas horríveis cenas que não nos saem da cabeça, não foram ouvidas as preces que proferi a Neptuno para que poupasse crianças, velhos, mulheres e homens que, em autênticas cascas de noz carregadas de formigas, atravessaram o Mediterrâneo, para chegar aqui a bela Europa. No entanto, o cruzeiro ai está, e vai continuar a fazer as delícias a quem quer, e a quem pode.

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