11803_342485832540328_202386842_n

photography by 
http://www.facebook.com/julioaires.skizo

“Agora tenho que sonhar em ti. Um olho fechado, outro olho aberto, e miro, pelo círculo do vidro, este teu céu. Fujo da cidade, das janelas de onde não estás, porque sei que estás ali. No foco. No centro do mundo. Por ali. Um já ali tão longe. É por ali que te encontro. Não é sonhar contigo, é mesmo sonhar e assinar em ti todo o meu corpo. Uma assinatura que só tu conheces e reconheces. Sabes? tal como os pescadores da minha terra conhecem o mar e o cheiro dos vendavais que pressentem ao minuto, Sabes? como uma mãe pressente o acordar do seu nascituro antes dele acontecer, Sabes? como reconhecia tão subitamente como abruptamente que ia haver um grande terramoto em qualquer parte do planeta, e to dizia. sabes? Pois é. É assim que te tenho, que te quero e te vou impedir de partir.

Acordo-me enroscada nas tuas pernas, de mão à tua, às vezes colada às tuas costas, outras encorpada no teu peito, a maioria das vezes suada, molhada de tanto te apertar. Acordo e lembro-me da verdade. Aquela que tantas vezes me recusara a aceitar que poderia acontecer. E evito usar a palavra. Quantas foram as vezes em que a afastei do pensamento, a cortei com rapidez para não a chamar, para não a atrair. Acreditava que só o facto de pensar nela a pudesse fazer acontecer, a pudesse atrair. E agora foste. Mudaram-te para outro espaço e continuo a não perceber como tenho de tratar por tu – essa tua morte, amor.  E quem me vê continua a pensar ver uma pessoa que não sente, que é forte e aceita tudo, até a dor suprema de ti, deste não-tu. Dizem-nos que Deus nos dá o peso da dor que aguentamos. Mas não acredito. A dor de uma perda como a nossa não tem embalagem em que a meta.

Agora tenho que sonhar em ti. Com um olho fechado, outro olho aberto assisto, pelo círculo do vidro, este teu céu.

Acontecer a tua morte, amor, não é um facto. Não é. Nunca será. É antes ficção científica a acontecer dentro de nós. Serei, como nos livros de Júlio Verne, obrigada a seguir o line-up dos outros. Nada posso fazer para o alterar.  Só tentar esquecer aquele dia em que acordei e o dia ficou tão gelado como tu. E que a dor foi tão fundo que pensei que a escuridão do buraco não terminava mais. E que só abanava a cabeça da direita para a esquerda num gritar agudo primeiro, histérico e contínuo, depois. E não sabia como a dor dos outros seria, se tão forte se tão intensa, se tão negra. E não queria dizer-lhes porque isso era confessar a verdade da perda, atestar a tua ida sem mim, sem nós. Há factos insignificantes que nunca esquecemos. E não foste buscar o meu café que me subia a tensão para poder sair da cama; nem tratar dos cães e dos gatos enquanto eu lia as notícias no tablet, enquanto sorria com as piadas ou me zangava com as injustiças da política corrupta do meu país – logo a seguir escrevia um texto cortante, sem dó nem piedade; quando me levavas dinheiro porque eu nunca andava com trocos e era afinal também uma forma de te ter uns minutos mais para mim. E como achava que não me entendias. Achava que nem tu, principalmente tu, não sabias como eu sofria. Mas era essa tua inabilidade para lidar com o sofrimento – a tua maneira de me fortalecer – que não entendia. E o ciúme que eu tinha de quem te amava, de quem gostava de ti, de quem te roubava a momentos nossos. Era uma má maneira de te pedir que fosses só meu. E cedia ao meu egoísmo. E compreendia que te poderia sufocar. E dizia-te: compreendo, mas não aceito. E tu ficavas a olhar para mim com um olhar de quem queria dizer muito, mas de quem sabia que não valia a pena. E com esse olhar me ensinaste tanto. Trazia nele um código tipo Morse, longo longo longo, curto curto curto, mas feito de silêncios, de olhos e pestanejares. Mas os meus silêncios eram gritos para te dizer que estava ali – em desespero – de ser invisível. Agora não mais posso gritar contigo. Posso, mas soa a doideira, sabe a doideira, é doideira – só eu sei que não é. É que esse sítio para onde foste, onde estou a sonhar em ti, com um olho fechado, outro olho aberto, a olhar pelo círculo do vidro esse teu céu para onde te roubaram, deve ser mesmo muito longe. É que as tuas gargalhadas não chegam aqui ou quando chegam são surdas e ocultas. Se bem que na outra noite em que eu sonhava em ti, era tudo tão real que eu tive a certeza que te senti e te ouvi. Entraste pelo círculo do vidro, perfeitamente desenhado, preparado, projectado para te receber e vieste para este alado, mais uma vez.

E agora quem vai entender os meus extremos? O meu sentir tudo – tudo, muito. E agarro-me neste sonhar em ti, salto para o lado de lá deste círculo desenhado para nós que dura enquanto mergulho num túnel, primeiro muito escuro, depois, com a tua luz a entrar neste círculo que começa a aparecer e a brilhar. E eu corro para ele, para me lançar nos teus braços, outra vez, nem que seja uma última vez porque a dor de uma perda como a nossa não tem mesmo uma embalagem em que se meta.”

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER

All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove