isabel da costa pinto sol

foto: Isabel da Costa Pinto

Já há milho no campo?
Estamos em fevereiro, acho que ainda não há milho no campo. Oh Eduarda, e para os teus lados?
Na longa Avenida Central desenhavam-se, ao longe, as cruzes das torres das muitas igrejas que arranham os céus de Braga. Por ela, caminhavam os estudantes que saíram das aulas da Carlos Amarante; alguns homens, em grupo, por ventura reformados, vinham ocupar os bancos para conversarem de política, futebol ou mulheres, nunca perdendo a oportunidade de ir despindo com os olhos as moçoilas que passavam de calções e saias curtas; mulheres, aos pares ou em pequenos grupos, faziam o mesmo, ainda que os assuntos pudessem ser outros, quer no conteúdo, quer na forma. Diferentes mesmo seriam os pares de namorados a ocuparem um banco inteiro, beijando-se como se não houvesse amanhã, estando ali apenas enquanto não houvesse um lugar mais sossegado, para se amarem. Havia, como sempre, um grande movimento de pessoas que saíam ou entravam nos autocarros, a apressarem-se para os empregos. Contava eu tudo isto porque me assaltou uma ideia que se tornou, rapidamente, num facto. Todos, neste início de tarde, tinham em comum o ir alteando as falas, alternando com gargalhadas, insistindo em revelar uma boa disposição contagiante, que eu não via há muito tempo, por certo por estar um dia quente de sol, ser lua cheia e andarem as hormonas aos pulos.
Tenho a certeza de que o primeiro-ministro ficou bem feliz com esta mudança meteorológica. Pensa ele que os humores vão mudar e o povo, as suas dívidas, esquecer. Já há milho no campo. Pardais a procriar. Mas nós? Quem dera que me visse “grega” a fazer este texto.

A Velha-Escrita, no Café “A Brasileira”, 4 de Março de 2015
Cristina Brandão Lavender

All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove