musica

O mundo está cheio de palavras que não foram ditas. Desfiam diante dos olhos, mas nunca sem antes tocarem o coração. Há o amor que não pode ser dito, mas sim: mostrado. E, como no testamento do Mestre, encontro-o a pairar, em silêncios, até que alguém o consiga ler, nesses mesmos olhos ávidos.
O mundo está cheio de palavras que não foram ditas.
Olho-as no ecrã deste tablet, linhas de traço descontínuo, tal fio de linho no tear da velha ama, em gestos ritmados, a balancear os braços, tocando com o pente na madeira. Nas suas costas sabia que ela ia combinando melodicamente os sons que lembram os batuques, ao fim da jorna dos negros dos campos de café.

O mundo está cheio de palavras que não foram ditas.
“Ai avô fizeste-me entender que a música é um estado de espírito. Quanta raiva, quanta dor, quanta vida saía dos sons cantados, no terreiro da roça, à volta de uma fogueira, enquanto tu ouvias as quatro estações de Vivaldi, na grafonola? Onde se gravaram as melodias da colonização? Onde se enterraram as muitas palavras que nunca foram ditas? Sonhei que talvez se escondessem na lua cheia, tais humores estrondosos.”

Nas palavras que aqui saltam – paro indecisa e o cursor treme impaciente – fica sempre a dúvida se me tocam ou se te enchem. E o mundo está cheio de palavras que não foram ditas como música, num estado de espírito.

Cristina Brandão Lavender

A Velha Escrita, 11 de Fevereiro de 2015

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