25 de Abril

foto de José Delgado

Há 40 anos acordei e fui muito mais feliz para o Liceu. Não aceitei ficar em casa até ver “como iam as coisas”. Para mim “ as coisas” iam bem. As músicas que ouvia na rádio assim mo diziam porque assim o cantavam. Muitas coisas iriam mudar: as reuniões secretas; a distribuição de propaganda nas fábricas, escrevendo que uma liberdade poderia existir e que só sabíamos como ela era pela calada; as famílias dos operários e camponeses a viverem com o pão que o diabo amassou podiam estar bem melhor; a guerra assassina em África contra povos escravizados que nem “gente” era sequer e que não tinham direito à sua terra, mas que seria possível gritar: “ser livre”. Nesse dia e nos seguintes conseguimos enfim falar sobre o que queríamos por direito. Ainda me custa a acreditar que andei por cima de árvores para fugir a agressões de estudantes que não queriam abrir mão de um regime autoritário, castrador e opressor. Fiquei rouca de tanto gritar de contente.
Hoje estou aqui. Nunca fui à PIDE porque o meu pai foi por mim. Hoje tenho a certeza que valeu a pena; hoje estamos quase lá outra vez, mas que não acredito que deixemos isso acontecer; hoje quero dizer que chega, mesmo, de sombras desse passado. Hoje ainda podemos dizer: Viva a revolução do 25 de Abril que é um exemplo para o mundo. Uma revolução com flores por causa de uma senhora que não queria armas e de um soldado que a colocou no cano da sua espingarda. Uma revolução sem sangue derramado porque era de paz, honesto e de boa gente quem a fazia.

Ponham-se finos, espertos e ladinos, com cuidado com as sombras, porque quando o sol vai deixando de brilhar, o que fica é um pedaço sombrio de país com as desigualdades e pronunciarem-se, com um sistema de saúde para quem tem dinheiro, com as leis a não se aplicarem, com um ensino de faz de conta, onde não se pense, e muito menos se critique porque esses, os que o fazem são uns chatos que não deixam o país avançar. E há quem nisso acredite, ou quem tenha de acreditar vá-se lá saber quem e porquê. À vista de tão pouca decência, honestidade e justiça só peço que vejamos esses pedaços de sombra, sombrios – tudo menos refrescantes – como um alerta que há muito vem alastrando. CBL

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