eu não quero um sonho, quero verdade
exercer o poder de querer, tanto por eles como pelos outros que os vão eleger
quero poder confiar em homens que me vejam em total humanidade
que usem o olhar do ser, o olhar do viver, o olhar do estar e do pertencer

eu não quero um sonho, quero realidade
quero que calcem sandálias, as minhas, cambadas pelo uso do que a vida me pode oferecer
sorrir da alegria de merecer
não pelo que vou ter, comprar ou vender
com meus filhos paridos, num acto de pura bondade e prazer
a rever-se na realidade do sonho que cada um deles quer ter
divorciados, em pleno, do amor louco ao poder

eu não quero um sonho, quero ser
sem ser adereço
deixar a minha pele respirar livremente
sem o pavor de calcular o montante que mereço
porque sou livre de alma e pensamento
me entrego com força ao labor do que faço

eu não quero um sonho, quero um pedaço
não quero depender de grupos de favores
dos sobrinhos dos tios de um conhecido imponente
na empresa de um bem colocado, a quem sorrir desalmado
por vantagem, na voragem, sem lutar por ideias
a vender-me o sorriso aberto
hipotecando a vida por completo

eu não quero um sonho, quero verdade.

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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