cristina+brandao+lavender+2014

Manuela sai do vestiário, bata ainda por apertar, e já se avia com uma fila de cinco pessoas para marcarem ou fazerem exames. Sorrira mal chegara ao guichet, juntara um bom dia, para logo de seguida atender o telefone (mais um utente a marcar) nenhum dia ou hora lhe era a jeito. Os olhos inchados denunciavam muito e o sorriso logo pela manhã uma verdade ainda maior: valentia. Mais um enxerto de pancada, desta vez porque o bife estava frio. Apenas isso: frio. Fechou os olhos e olhou a fila. Um desespero estalou-lhe o humor e foi na caneta que ficou a raiva. Entrou na rotina. (sorriso mais nome, morada, telefone, assine aqui e sim, sorriso: pode esperar que o vão chamar de seguida. sorriso mais nome, morada, telefone, assine aqui e sim, sorriso: pode esperar que o vão chamar de seguida). Manhã passada; bata despida; saiu.
Pegou no menu, o mesmo das quartas-feiras, arroz de tomate e sardinha frita.
– Até que enfim, João. Almoças? Prometeste-me. Tenho tantas saudades tuas.
Esticaram as mãos. Por baixo da mesa, Manuela, sem sapato, deslizava o pé pelas pernas até ao sexo, ondulando os dedos, acariciava-o. João abriu-lhe os olhos.
– Para. Que te deu? E ontem? Que foi aquilo, ontem? Desligaste. Deixaste-me preocupado.
– João, despedi-me. Depois de tantos anos de passos errados acertei naquilo que tenho que fazer: estar e gostar com quem quero estar; pensar, usar e abusar da linguagem dos seres vivos: o amorês. Despi-me e despedi-me. Tudo o que vivemos, João: é amor. O ódio não é mais do que um grande buraco no amor. Escolhi: amo-te, homem. Despedi-me e despi-me. Sim, é uma sessão de striptease, esta que faço perante ti. Acalma-me a alma; sei que umas vezes dói, outras nos faz rir e, outras ainda, chorar. Não dispenso o amor. Faz a minha humanidade. Pertence às roupas da minha nudez. Tomei esta decisão por me aperceber que andei toda a vida a vestir a minha inquietude, mas ao contrário. Ao tentar despir-me ia pondo cada vez mais peças de roupa em cima de mim, camadas atrás de camadas. Foram tantas as modas de que me mascarei que comecei a ter dificuldade em andar. Como preciso de viver (não tenho qualquer resquício de personalidade suicida) ouvi o instinto de sobrevivência a fazer por mim o que eu deveria ter feito há muito tempo: amar. Não se acredita no amor, João: ama-se.

All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove