Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDER

– Nãaaaaao. Isto não vai acabar assim.
E agarrava-se desesperadamente ao penhasco, lutando pela vida. Tentando desesperadamente um lugar para os pés. Rápido tacteva todos os milímetros de reentrância no penhasco. Combatia. As pedras desprendiam-se das rochas e ela, porque ainda tinha forças, esburacava com a biqueira as reentrâncias para se apoiar melhor. Com todas as suas forças puxou o corpo para cima. Mais um milímetro. Mais um segundo. As mãos estranhamente robustas. Não doíam. Aquela rocha a que se segurava tinha o tamanho e a forma da concha da mão. Conseguia prender-se. Não podia suar.
– Meu anjo da guarda! Tu, dentro de mim, ampara-me. Transporta-me ao azul dos justos. Leva-me no arco-íris. Envolve-me no cone de luz que te rodeia. Na queda, abraça-me.
As mãos mais frias e dormentes. Toda a força dividida por elas e pelas ponteiras das botas. Em suspenso – no topo do mundo.
 -Não olho. Mais um pouco. Mais uma partícula de tempo. Que seja. Consigo. Consigo. Não vou acabar aqui. Neste momento, se não aguentar, vou-me. Amo-vos. Amo-vos tanto. Estou a ver que sorriem. Sim. Em câmara lenta estou a ver-vos. Agora aqui parto em vós. Este é o filme da minha vida. Um laço nesta existência. Silêncio gigante. Vácuo de paz. Este sentir tão calmo, sem prazo, sem espaço. Não quero olhar esta parede escarpada para sempre. Se as forças faltarem entro no agora. Estou dentro de uma gigante bola de sabão. Mais um pouco. Ainda consigo. Só eu, este penhasco e o mundo. Sem dores. Compreendo. O horizonte deste lugar onde estou. Estas são as últimas palavras que vos digo: “amo-vos tanto.” Vou virar-me rapidamente. Atar-me em vossos braços.  E voar. Livre.
Fui. De olhos abertos. Vi tudo. Luz.
Fui.

All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove