As personagens saem da imaginação exaltada, para o texto, numa forja que se quer bem definida, que se molda por arrasto, no memorando do telemóvel, onde esses outros nunca estão, ao primeiro toque, completamente revestidos na sua psique. Regista que uma delas se parece demasiadamente consigo e, segue com outras, desenhando-as à medida dos meandros difíceis do intrincado ser humano. Não quer perder um minuto sequer na vida, e vai saboreando o pequeno-almoço, lentamente, já que vozes da cabeça se misturam com todas as que ouve, mais as da TV, sem que isso se revele como um impedimento para se concentrar. No dia em que renasci, assim se chamam as linhas traçadas com o intuito de satisfazer quem gosta de dar rótulos ao sentido que a vida tem, já que o título mais certo seria que o primeiro dia de uma morte certa começa a partir do dia em que nascemos. No entanto, se por um lado isso é exacto, é também inquestionável que o sentido que damos à existência, muito para além do comer, procriar e dormir, está no que a tornará suportável, algo que irá ser o verdadeiro conteúdo e significado que lhe queremos dar, e descobrir isso é, em si, um verdadeiro renascer.

É nas manhãs, dizem os que acreditam em que tudo existe para ser muito certinho, tal e qual como está escrito em linhas consideradas inquestionáveis, que encontramos um ponto de partida, um “preparar-go-e dispara” por essa vida fora. Nem com todos, porém, isso acontece e para esses outros, para aqueles que gostam de questionar, que não se conseguem ver em tarefas repetitivas, que inventam e reinventam cada minuto do seu tempo como se disso dependesse a sua existência, para esses, a vida acontece, sim, ao acordar, seja a que horas for, enquanto que, para outros ainda, esse despertar esteja condenado ao nunca, quando o dia em que se nasce não acontece sequer até ao dia em que se morre, tirando a oportunidade de renascer a quem nunca primeiro nasceu.

Será que é no dia em que nascemos que a poesia nasce, ou será que ela já vivia dentro de nós. Será que ao soltar-se a língua do peito se largam as palavras da alma. Será? Se é verdade que no dia em que nasceu se abrira nela o livro das palavras, uma colecção da grega “parabolé” onde escondera a força e o rumo do ser, é também verdade que acredita que logo ao nascer se define o querer. Todos os que nascem abraçam o fado, nunca leve, e cada um ou o vende ou o segue. E é aí que se esconde a diferença. É muito difícil definir melhor esse conceito. Quem carrega, dentro de si, essa janela, aberta ao mundo, carrega talvez uma ode, uma alegoria do espírito sobre a matéria, uma frenética vontade de viver a humanidade, elegê-la por princípio, de princípio e até ao fim, até ao último suspiro, num elogio permanente ao belo e à loucura, a par e passo com a ética e a estética. E viver assim é perseguir uma consciência individual e social para a pôr sempre acima daquilo que move e remove outras montanhas, a do capital, a do dinheiro.

No dia em que nasci abriu-se uma janela na alma e nunca mais a fechei. No dia em que nasci, renasci todos os dias para nunca mais morrer.

All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove