Foto de José Delgado

Foto de José Delgado

O centro da praceta tornara-se o meu mundo. Sentira-me uno com ela, concentrando-me de dentro para fora, transmitindo um olhar orgulhoso, ora bem fundo em mim, ora em volta, olhos nos olhos, um a um, percorrendo o público que se ia aglomerando, em círculo, inspirando-me. Outras vezes a necessidade de sorver algo mais forte, olho ao alto, onde bebo o poder, o fazer, da razão do estar ali e do ser assim. O meu almoço equilibrava-se no pau retorcido e côncavo que segurava, com firmeza, a dois terços do seu comprimento, palma para cima, músculos bem torneados, equilibrando, num lado, a cesta de vime vazia (imaterialidade da vida que abraçava) e no outro uma bola branca (materialização de um mundo que queria diferente). Bem ao limite, cabia-me evitar que se despenhasse, em cacos, por cima do espelho da estupidez, mesquinhez, avidez, de quem dele se aproveita.

O público já era muito, o poder da bola branca aumentava, o poder pelo equilíbrio do mundo mais a adrenalina do momento estava ao rubro. Tinha nas mãos a magia do cajado de madeira, poder de há milénios desde que se abriu, em dois, o mar para a fuga de um povo. Evitar a queda do planeta de cada um de nós: conseguido.

O centro da praceta tornava-se o meu mundo.

 

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