nunca
nunca digas nunca.
aceitas o tempo cruel deitado nas rugas a marcarem o teu corpo. nunca?
o efeito da gravidade planetária a levar em direcção ao chão todas as carnes do teu feminino, numa viagem ao mundo afamado como torto. nunca?
mais tudo o que te impinge o espelho, como fora do lugar, na crueldade da idade que avança num duplo queixo e joelho, tão inevitável como a morte a chegar, sem dizer nada também. nunca?
e persegues o taxado como belo nos ecrãs da televisão, nas revistas do prelo, nas passadeiras, na convenção de roupas e tamanhos de ninguém. nunca?
e vais no vício da intervenção cirúrgica, no retalho da carne por um sábio da estética, na fixação simétrica das partes do teu eu, depois de riscadas, desenhadas na pele a rigor, com lápis de cor, textura especial por um doutor da beleza fatal.  nunca?
reduzes a fracções o físico, onde velhas peças fora do lugar se transformam em repartes cozidas, repuxadas, alisadas, com competência arquitecta. nunca?
esqueces o que vivia dentro de ti, qual a idade que terias, a sabedoria que viria, o que é do tempo, da tua felicidade, de te teres, de te seres e de te tornares o que é verdade. nunca?
desejas o medo de estar na cama a dormir, de acordares com uma das peças fora do lugar, a apalpar os pedaços retalhados com medo de te desunir. nunca?
queres subir as escadas com as articulações a doer, a ranger e a arfar, numa cara sem idade, numa alma insatisfeita que não é tua, nem por dentro nem por fora e mui longe de ser perfeita. nunca?
queres sentir-te como nada, sem visão do todo a que pertence a tua face usada, reduzida ao olhar da graça dos outros e da tua última desgraça, da falsidade de uma glória que felizmente sempre passa. nunca?
e foges do momento de virar um pouco hábil porque isso vem com o tempo de tudo o que viveste, na sabedoria do que fizeste ou não deixaste de fazer e que só tu é que sentes. nunca?
não sei se te diga: “nunca digas nunca” porque isso seria o perder a oportunidade de só tu te poderes dizer: nunca.


CRISTINA BRANDÃO LAVENDER 
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