“Na arca de cânfora está todo o legado. Com um rosto.”
De camisa de noite até aos pés, branca, entrava confusa, a correr, de quarto em quarto. Percorria a casa toda. Com um grito. Vários gritos aterrorizados. “A minha filha? Minha filha. Minha filha.” – buscava estarrecida.
 “Estou aqui, mãe. Estou aqui. Mãaee, aqui.” – gritava-lhe para evitar que acordasse toda a gente. Difícil despertá-la. Olhos de pânico. Atónitos. Desiludidos. Por vezes sorria levemente. “Desculpa. Era um pesadelo.” – Sempre aquele pretexto. Voltava para a cama. E mais nada. Desgostosa. Sempre.
O pai levantara-se algumas vezes de início durante este sonambulismo. “Maria anda prá cama. Maria, acoooorda. Já passou. Anda prá cama.” Ao fim de algum tempo desistiu e soltava apenas um rumorejo para logo se virar para o outro lado. “Outra vez. Outra vez. Cada vez mais louca. Sempre esta merda. Nunca mais há sossego.”
Assim viveu no tempo, abraçada com a morte de uma outra filha, sem rosto escondida numa arca de cânfora. Sem querer, mas sem poder escolher. Habituou-se com essa convivência. Aquela procura contínua da mãe pela filha já morta, aquele clamar por ela, cheirar as suas últimas roupas até às entranhas se desfazerem de podres, fizeram com que tratasse a morte por tu. Tomamos o hábito de tudo, até ao que não devemos. E o tudo fica agarrado à pele como o surro nas paredes da banheira. E sabia que nascera daí a dificuldade em se sentir completamente livre. Com o tempo sentiu alguma autonomia e conforto com os pensamentos a formarem círculos redondos, tão perfeitos, que pareciam ter sido desenhos de Deus. Ali. Sempre olhando o mar. O oceano que via desde que nascera e que tudo lhe contara.
“Na arca de cânfora está todo o legado. Com um rosto.”
Quando metidos até ao pescoço na morte o pensamento deixa de funcionar em curvas. Começa a produzir linhas direitas longas e curtas. O pensamento torna-se um orgânico diferente. Umas vezes flui com a pureza que vem nele, bailando. Outras vezes corta, afiado. A relação do pensamento com a liberdade vê-se por essas linhas. Crescemos com elas a infiltrarem-se pelos poros mais à vista na pele. Faces. Braços. Mãos. O resto do corpo que se cobre, vestido, está a salvo. Mas ao físico e à frente dos nossos olhos, por entre as frinchas das tábuas que teimaste em espiar, prometeste uma vida em muitos outros corpos, uma eternidade para perpetuar a continuidade que tanto desejas.

“Na arca de cânfora está todo o legado. Com um rosto.”

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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