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Era ela e ele. Eram dois naquela sala, naquele espaço quase vazio, com um sofá e uma mesa pé-de-galo a servir um chá que ainda fumegava. Ela lia o “Abraço” de José Luís Peixoto e ele, da poltrona em frente, olhava-a fixamente, de perna alçada, braços pendentes ao lado do corpo, mãos pousadas no veludo.

Não se interessou de imediato. Mas, de tanto a perscrutar, a trespassar, de tanto a sondar com o pensamento de olhar mudo a gritar palavras de silêncio, vacilou.

Era ela e ele, o “Abraço”, o sofá, a mesa pé-de-galo, a poltrona e o candelabro com pendentes a reluzir e a tremer tal a intensidade que vinha no olhar daquele homem. As gentes na rua, o rio poluído na periferia da cidade, os dois santuários mirando do alto para o vale, a velha Sé, mãe das igrejas que nasciam por todos os lados, os passos das pessoas que buliam do centro da cidade até às aldeias. Que tenta dizer-lhe? que não a conheces; que não sabes como acorda de manhã, como olha os espelhos, quando ainda em estado letárgico; como vê os olhos dele, os primeiros quer ver; que não sabes o que ela diz a quem muito quer, a quem respeita e a quem lhe é indiferente; que não sabes o nome do amor que lhe cabe no peito, nem sabes quem abraça com as palavras que semeia. Olha-la, continuas a gritar-lhe palavras de silêncio e, desesperado: nada sabes.

Acordou. Parou, teve um pestanejar nervoso, e olhou-o fixamente. O candelabro continuava no mesmo sítio e ele: sumiu.

A Velha-Escrita, 10 de Setembro de 2014

Cristina Brandão Lavender

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