O CÃO QUE TOMA PROZAC
para contradizer a expressão “que vida de cão!

LEP é um cão muito jovem, muito pequeno no seu tamanho, muito especial e com muitíssima sorte. Por muitas razões, como a maioria dos cães, a sua melhor qualidade é ser tão fiel à minha pessoa, em particular, como aos outros seres humanos em geral. Essa é a fidelidade que os animais ditos “irracionais” têm para com os humanos, na maioria das vezes sem motivos para tal ditos – racionais. Quanto aos humanos estão a perder a razão  entre si, em geral, e com os animais ditos irracionais, em particular.
Continuando. LEP que quer dizer “Limpar Em Portugal”, homenageia o projecto que culminou no dia 20 de Março do ano passado, e é o terceiro cão abandonado que vive na nossa grande e numerosa família de humanos mais os seis “irracionais”, três deles são gatos o que, como devem calcular, não facilita nada, mas prova que é possível, com educação e tempo, eliminar instintos.
É necessário dizer que o LEP tem raça indefinida ou seja não faz jus aos seus ancestrais, assim como é indefinida, inqualificável e inaceitável a razão pela qual um ser humano é capaz de atar um cão a uma árvore, abandonando-o sem comida e sem água, portanto sem a mínima hipótese sequer de procurar sobrevivência. Felizmente foi encontrado por uma equipa do projecto Limpar Portugal e eu adoptei-o. Ainda não é ponto final porque a história só vai a meio.
Pois é. LEP tem a particularidade de tomar Prozac em suspensão, até eu descobrir que é a mesma coisa que fluoxetina medicamento genérico, associado também a um calmante SERENUM para o ajudar a ultrapassar o trauma de que sofre em virtude de ter crises de ansiedade que o levam a morder-se a si próprio e a rodopiar em torno de si mesmo cada vez que se lembra por tudo o que passou até ao dia 20 de Março. LEP é um daqueles cães que me levam a afirmar que fala porque se expressa com clareza absoluta sobre tudo o que quer, tudo o que o rodeia em geral e sobre mim em particular. Ontem fui literalmente salva por ele e mais dois dos meus amigos caninos.
Não é a primeira vez nem será com certeza a última que dou, com alguma tristeza, razão a Blaise Pascal, séc. XVII, quando ele afirmou: “Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cão.”
Veja-se a lealdade daquele cão que morreu mantendo-se ao lado da mumificada senhora idosa, completamente abandonada por uma sociedade que vive ensimesmada e com medo de se dar aos outros, ajudando-os, dando-lhes carinho e uma vida digna. Aquela senhora terminou os seus dias na companhia de quem mais gostava e a quem se dedicava – entrevista que ouvi de um dos seus vizinhos. Ainda mais impressionada fiquei porque só uma vez ouvi o nome da senhora e em seis artigos que li, na pesquisa que fiz, e aparecia o termo “idosa” acompanhado de nomes e mais nomes de vizinhos, primos, guardas, procuradores etc.
Quase desesperei para conseguir saber o seu nome e coloca-la na minha lista de heroínas.
Pensei e quase gritei: Caramba a senhora tem que ter um nome assim como tinha um cão e alguns pássaros que lhe faziam companhia. Descobri e escrevi no meu caderno de apontamentos: “Augusta Martinho a senhora que não morreu sozinha pois tinha um cão e uns pássaros para lhe matar a solidão porque a sociedade tem medo da morte e vira-lhe as costas.”
O meu Pai dizia muitas vezes “quem não gosta de bichos, também não gosta de gente” e eu acrescento “quem não gosta de bichos, não gosta de gente e precisa de ajuda porque não gosta de si mesmo”. A nossa sociedade, composta por gente e bichos, precisa então, URGENTEMENTE, de Ajuda.
Estava eu a contar-vos que fui salva pelos meus cães, ontem de manhã.
Sou uma caminheira mais ou menos experiente. Caminho com velocidade, segurança e treino diariamente, há muitos anos, com vários objectivos e um deles é fazer o Caminho Francês de Santiago. Ainda não descobri por que razão, mas dei comigo a voar literalmente bem alto. Tinha o corpo, as pernas e as mãos elevadas a fazer um V tão perfeito, capaz de fazer inveja a qualquer ginasta profissional Chinesa. O problema foi redescobrir a lei da gravidade acabando por aterrar em cima de um círculo de madeira, cheio de lodo viscoso, escorregadio e com mais ou menos meio metro de diâmetro, que outrora pertencera a uma árvore frondosa e com certeza centenária. Não foi surpresa. Já estava ali no passeio. Várias vezes fazia aquele percurso. Alguém invisível passou-me uma boa rasteira para eu saber que o osso mais resistente do meu corpo é o coxis sendo ele também o mais doloroso, neste momento. Não me podia mexer com dores e não conseguia levantar-me. Gritei por ajuda, mas ninguém se aproximava. Engano meu. O LEP lambeu-me a cara e as lágrimas que caíam sem eu poder travá-las; A Tita pôs-se atrás de mim para eu me encostar e a gigante Nikita – espancada diariamente até aos dois anos – idade que tinha quando chegou a nossa casa, idade determinada por aproximação pela observação da dentição – aproximou-se de mim, alonguei o braço agarrei-me à sua coleira, ela puxou-me e com a sua força, levantou-me e conduziu-me até casa.
Quando o meu marido preocupado me perguntou se não era melhor ir para o hospital disse-lhe: Nem penses. Prefiro esperar seis horas aqui na minha caminha para ver se tenho ou não algo partido do que ir para a urgência com uma pulseira de cor, reduzida a um número de utente e a um número de horas aproximado de espera.
A boa notícia é que o LEP está muito melhor e a desmamar lentamente a sua medicação. 
A NIKITA só me come as persianas quando há foguetes ou trovoadas que vêm sem nós contarmos e a TITA trata de todos nós com os seus olhos cor de mel e afirma: “Tive sorte. Encontraram-me bebé, ninguém me fez mal e não tomo Prozac.”

Este é um bom título para o outro livro que estou a escrever e que vou. muito provavelmente meter, como muitos outros, na gaveta. Há livros a mais no mercado. A crise está aí. Não me preocupa se serão best-sellers, por isso é lá que estão, pelo menos: por agora.


CRISTINA BRANDÃO LAVENDER


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